7VERSE : REALIDADE 5
EPÍLOGO VIDA 5: SOBREVIVENDO AO INFERNO
PRÓLOGO 1
O INFERNO DE ADAM
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Adam caminhava e cada passo significava mais dor. Ele estava numa espécie de túnel apertado que parecia se fechar às suas costas forçando-o a seguir sempre em frente. A nunca parar sob pena de ser esmagado. Dilacerado. O ruído que escutava atrás de si era de pedra sendo moída por pedra. Se tivesse certeza que significaria alguns segundos de dor e, então, mais nada, já teria se entregado há muito tempo. Mas, estava no Inferno tempo suficiente para saber que seria uma dor inimaginável por um tempo inimaginável. Era isso que lhe dava forças para prosseguir.
As paredes e o chão eram irregulares, cheios de bordas cortantes. Era como andar sobre cacos de vidro. E havia mesmo grandes cacos de vidro ali, misturados à rocha, aos seixos, aos espinhos secos e a algo que parecia fragmentos de ossos humanos. Ele estava descalço. A cada passo, sentia sua pele sendo rasgada e sua carne sendo perfurada. Mas, precisava avançar. Precisava levantar o pé e senti-lo sendo novamente perfurado no passo seguinte. E não eram só seus pés. Para não cair, ele precisava do auxílio das mãos. Precisava sacrificá-las na tentativa inútil de proteger o corpo. Mas, a verdade é que elas não lhe davam a proteção desejada. As paredes eram muito irregulares, cheias de saliências. E cada saliências tinha suas próprias pontas e bordas. Os cortes se sucediam. Cortes que ele sabia, mesmo sem ver, que já cobriam o seu corpo inteiro. Adam estava reduzido a uma massa de carne ensanguentada em movimento.
Dor nova abafava a dor antiga. Ele continuava. Não tinha escolha.
Em algum momento, ele foi ao chão. E não teve tempo de pôr-se novamente de pé.
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A água estava tão gelada que era como se dez milhões de agulhas estivessem sendo espetadas ao mesmo tempo em seu corpo. Dor distribuída por cada centímetro quadrado de seu corpo. Fora as horríveis dores musculares para manter o rosto acima da superfície líquida. Adam estava exausto, mas, se parasse, afundaria e acabaria por engolir aquela água. Ele se afogaria, mas não morreria nem teria a benção da inconsciência. Somente traria dor também para o interior de seu corpo. Ter os pulmões invadidos por água gelada era perpetuar a sensação de buscar desesperadamente um ar que não existia. Ele sabia qual era a sensação. Por isso mesmo continuava. Não importava o quanto estivesse esgotado.
Mas, era uma batalha perdida. Mais uma. A câimbra travou seus músculos e ele submergiu engolindo água.
Mais cedo ou mais tarde, geralmente muito depois de ter perdido a esperança que o tormento tivesse fim, as correntes o arrastariam do fundo do lago e o largariam na margem, em meio a espasmos e convulsões. Ele se recuperaria com o tempo. Mas, o certo é que a provação seguinte chegaria antes que estivesse 100% recuperado.
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Ao seu redor a mais absoluta escuridão. Fala-se muito das chamas do Inferno, mas, até aquele momento, a escuridão era a regra. Adam queria apenas poder se encolher num canto e passar a eternidade escondido. Mas, não havia onde se esconder. Eles, seja o que fosse que 'eles' significasse, estavam por toda a parte. 'Eles' podiam vê-lo. Estavam brincando com ele. Queriam que sentisse medo. E estavam sendo bem sucedidos em seu propósito. Alguns eram grandes. Enormes. Ao esbarrarem nele, o derrubavam. Ele escutava a respiração quente e o hálito horrível muito de perto. Às vezes tinham cascos e o pisoteavam. Ou tinham chifres que usavam para perfurar ou lacerar sua pele. Às vezes, era lançado longe por uma cabeçada ou um coice. Muitas vezes, era arremessado com tanta força que sentia seus ossos sendo quebrados em muitos pedaços. Os ossos acabavam se realinhando e regenerando num processo relativamente rápido, mas muito doloroso. Ele precisava estar inteiro para ser novamente quebrado. A dor permanecia por muito tempo. Mesmo depois de o osso estar reconstituído.
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Havia outras criaturas no escuro. A maioria, pequenas como ratos. Algumas grandes como tigres. Algumas chegavam sem serem pressentidas. E arranhavam. E mordiam. Mordidas seguidas, profundas. Outras se faziam anunciar à distância. Davam uivos apavorantes. Uivos que se faziam ouvir cada vez mais próximos. Ele sabia ser inútil, mas o instinto era mais forte e ele sempre tentava fugir. A maldita esperança era persistente e o acompanhara até aquele lugar. Corria no escuro. Tropeçava no terreno irregular. Caia. Sangrava. Voltava a correr. Mas, era sempre alcançado. E era, então, retalhado por garras. Perfurado por bicos. Mordido por bocas de todos os tamanhos. Cortado por dentes de diferentes formatos. Mordidas que deveriam ser fatais, mas não eram. Por mais que arrancassem pedaços de sua carne, sempre havia mais carne para ser arrancada. Seu corpo se reconstituía para que a tortura não tivesse fim. Ele sabia que era assim e já nem se preocupava mais com isso. Até agora nenhuma fera tentara realmente devorá-lo. Estavam apenas brincando com ele.
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Já nem tentava mais afastar de seu corpo aqueles pequenos seres cheios de patas que subiam por suas pernas e disputavam espaço sobre seu corpo. Não havia espaço para todos, mas isso parecia não importar. Eram tantos que uns derrubavam os outros em sua escalada rumo ao seu rosto. Parecia que o único propósito que tinham era invadir todos os orifícios do seu corpo. Dificilmente alguém que o visse adivinharia sua verdadeira forma. Não ele estando tão completamente coberto por tantas criaturas. As criaturas tentavam abrir caminho até mesmo pelas órbitas de seus olhos. Sentia-os se debatendo no interior de seus ouvidos. O zumbido era enlouquecedor. Sentia-os entrando e preenchendo sua boca, garganta e estômago. Sentia-os comendo sua carne de dentro para fora, criando novas rotas de fuga. Eram de muitos tipos e formas. Era dor combinada com um incômodo inimaginável. Uma overdose de diferentes formas de sofrimento. Ele tentava ignorar o zumbido, as picadas, as ferroadas, as lancinantes dores internas. Em algum momento, aquilo acabaria. Como tudo o mais.
Alguém queria que ele experimentasse todos os tipos de tormentos imagináveis.
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Estava queimando. Seu corpo inesperadamente explodira em chamas. Sua pele escurecera, uma parte dele próprio se tornando fumaça e cinzas. A gordura sob a sua pele derretendo antes de se incendiar e realimentar a chama. Se estivesse vivo, em algum momento seu corpo entraria em colapso. Sua mente sobrecarregada entraria em curto e ele apagaria. Mas, ele NÃO ESTAVA vivo e simplesmente continuava queimando. A dor de ser queimado vivo continuava, crescia, tomava conta do universo. Ele caminhava, mesmo que isso não tivesse nenhum objetivo e não lhe trouxesse alívio. Ele era apenas uma tocha que caminhava.
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Muito tempo se passou até seus pensamentos voltarem a fazer algum sentido. Ele se tocou no escuro e seu corpo parecia estar íntegro novamente. Não sentia dor nem desconforto. Por um tempo ele permaneceu alerta, tentando adivinhar de onde viria o próximo golpe. Mas, não acontecia nada. No início, pareceu uma benção. Ele estava sozinho e isso era muito bom. Mas, o tempo passou e estar sozinho no escuro já parecia algo tão bom assim. Ele começou a sentir-se desesperadamente sozinho. O silêncio era absoluto. Ele tentou gritar, mas nenhum som foi gerado. Ele estava só. Sozinho com seus pensamentos, seus medos, sua fome e sua sede. A fome e a sede estiveram com ele desde que chegara, desde sempre, mas ele não tivera tempo de notá-las. A dor tomava à frente e logo se tornava a sua única realidade. Agora não sentia dor e sua realidade passara a ser aquela fome e sede insuportáveis.
Logo, a fome era tanta que ele passara a desejar que alguma daquelas pequenas criaturas que o mordiam nos pés aparecesse. Ou uma das que vinham do alto e pousavam em seus cabelos buscando furar seus olhos. Sentia-se capaz de agarrá-las e devorá-las. Seria capaz de devorar qualquer coisa que aparecesse na sua frente.
Em algum momento, ele caiu desacordado tendo o corpo esquálido devorado pela fome e pela sede.
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Para sua surpresa, ao abrir os olhos viu-se num campo florido, sob o calor suave do sol. Havia luz, cores e harmonia. Um odor suave de lavanda e uma brisa tão suave que era quase um carinho. Ele olhou para o próprio corpo e viu que não havia nele uma única marca, uma única cicatriz por menor que fosse. O pesadelo tinha acabado e ele estava livre. Estava fora do Inferno. Teria sido resgatado e levado para o Paraíso? Lágrimas de felicidade surgiram em seus olhos e ele deu boas vindas a elas. Deixou sua alma transbordar de uma felicidade que ele achava nunca ter sentido antes. Nem quando era uma criança e sua mãe Mary lhe entregava um pedaço de bolo e sorria para ele. Nem quando seu pai John colocou em seus braços o seu irmãozinho Sam, ainda com poucos dias de vida.
Então o azul do céu foi ganhando um tom cada vez mais avermelhado. Logo tinha adquirido um intenso tom sanguíneo. O sol parecia perder tamanho e sua luz enfraquecia até o dia se tornar-se novamente noite. Adam sentia um aperto no coração, adivinhando o que viria depois. Então, antes que o breu se restabelecesse por completo, ele escutou os risos. O Inferno inteiro estava rindo da sua ingenuidade. Ele se sentiu humilhado, como nunca antes na vida, por ter se mostrado tão vulnerável para seus inimigos. Os risos, inicialmente discretos, logo se tornaram uma cacofonia pavorosa onde o escárnio e o deboche eram quase palpáveis. Sentindo-se subitamente fraco, Adam cai de joelhos e mãos no chão. Não sabia há quantos anos estava no Inferno. Muitos. Décadas. Perdera a conta há muito muito tempo. Mas, só agora estava descobrindo que a morte da esperança era a pior forma de tortura.
Ele reconhece de imediato aquela voz poderosa e intimidante que ressoa em seguida. Uma voz que parecia ocupar todos os espaços e que, ao se anunciar, fez calar imediatamente os risos debochados dos demônios. Ele sabia que era mais uma maneira que encontraram para torturá-lo. Escutar a voz de Sam dirigida a ele tão cheia de ironia e desprezo.
– BEM VINDO AO INFERNO, ADAM. VOCÊ AINDA NEM COMEÇOU A DESCOBRIR O SIGNIFICADO DA PALAVRA DOR.
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NAQUELE EXATO MOMENTO, NO PLANO QUE AS PESSOAS INGENUAMENTE ACREDITAM SER O MUNDO REAL
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– Ficar sem comer não vai trazer seu irmão de volta, Sam.
– Ele está no Inferno por minha causa, Jasão. E tudo porque fez um maldito pacto para me trazer de volta. IDIOTA. O que fazia Adam acreditar que a minha vida vale mais que a dele? Porque eu tinha que ter um irmão tão idiota?
– Ele acreditou que ia conseguir reverter a situação, quebrar o pacto de alguma maneira. Achou que era o mais esperto.
– Eu vou trazer ele de volta.
– Depois, ELE é que é o idiota? O pior é saber que deve ter sido de MIM que vocês herdaram essas que são as duas características mais marcantes da personalidade de vocês dois. TEIMOSIA e BURRICE. Agora, se pretende mesmo insistir nisso, a primeira coisa a fazer é voltar a comer. Fraco e embriagado você não consegue nem mesmo atravessar a rua.
– Três dias. Faz apenas três dias que ele foi arrastado para o Inferno. Como você quer que eu me sinta?
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ESCLARECIMENTOS:
1. Jasão, agora humano, fora antes o ghoul que devorara e assumira a forma do menino Dean Milligan, filho único de um casal da cidade de La Grande, no Oregon, igualmente mortos por ghouls. Na forma de Dean Milligan, o ghoul foi possuído pela alma de Dean Winchester, trazido da realidade que conhecemos pelo Trickster. Ao final, o menino-ghoul possuído devorou o coração do príncipe tessálio Iάσων (Jasão), mantido vivo por 3.300 anos por um poderoso encantamento e ganhou sua aparência. Quando Dean Winchester deixou o corpo, Jasão manteve as memórias de Dean Winchester. Isso e muito mais na fanfiction SETE VIDAS-VIDA 5.
2. O Trickster revelou a Jasão que ele é um ancestral longínquo de Sam e Adam e o primeiro da linhagem que dará origem aos Winchester a apresentar as características que os tornam receptáculos para anjos.
12.10.2014
