Setembro de 2012
Dois anos após o corpo de House ser dado como desaparecido, o departamento de Diagnósticos fora fechado pela incapacidade do Foreman em dirigi-lo com sucesso. Treze foi forçada a afastar-se da área médica devido aos avanços da sua doença, e Taub passou a chefiar a equipe de Cirurgias Plásticas do PPTH – cercado pelas suas duas paixões: mulheres e dinheiro.
Wilson estava cada vez mais distante. Doía-lhe ver uma Lisa Cuddy sem espírito vagar pelos corredores do hospital. Passar os dias entre prostitutas e monsters trucks foi à forma que o oncologista encontrou de permanecer ligado ao seu melhor amigo.
Lisa Cuddy... Bem, Lisa Cuddy permanecia onde o tempo parecia não passar. Transformara-se em um ser a mendigar migalhas de afeto daqueles raros amigos que ainda lhe restavam. Rachel já era uma mocinha de 5 anos, e a ela Cuddy dedicava o seu tempo livre.
Decidida a não mais sofrer, naquela noite de outono Lisa Cuddy chorou tudo o que não se permitira chorar nos últimos anos, pois sabia que na manhã seguinte ela seguiria em frente, apesar de carregar consigo o luto pelo seu amor, Gregory House.
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Fazia pouco mais de um mês que Lisa Cuddy permitiu-se renascer para a vida, e naquela segunda-feira, tudo o que ela mais desejava era a chegada do final de semana. Ela não via a hora de mais uma semana chegar ao fim.
Perdida em seus devaneios, Lisa mal notara que Anne Sulivan, ex-namorada do Wilson, e a única amiga que lhe restara, batia a porta do seu escritório.
- Lizzie?
- Oh, Annie. Mil perdões, não te vi chegar.
- Muito trabalho, gata?
- Iniciei a semana com o pé direito. Fechei um contrato milionário para o hospital
-Êtcha! Sacode a poeira e prepara o cartão de crédito. Temos que comemorar, bonitãn.
- Anne, hoje é segunda feira e eu tenho uma filha em casa me esperando.
- Stop now, my friend! Nada de desculpas falhas, dona Lisa. Vem...vamos tomar um drink.
- Okay, Lady. Aonde iremos?
- Vem comigo, no caminho eu te explico.
Assim seguiram ao Lounge Blues, um pequeno e aconchegante bar que ficava nas imediações do PPTH.
Após algumas Marguerita's, muitos risos e alguns momentos em silêncio curtindo o embalo sutil da Bessie Smith, um belo homem aproximou-se das duas amigas pedindo permissão para pagar-lhes uma bebida.
Como de costume, Lisa Cuddy estava em silêncio. Enquanto Anne conversava amistosamente com o até então desconhecido, Cuddy o analisava. Algo naquele homem a intrigava... Poderia ser o sorriso fácil, os traços finos do seu rosto, a pele negra e os músculos bem definidos, ou apenas o cachemire de muito bom gosto que ele levava. Não importa, algo a havia atraído.
- Desculpe-me, mas este seu sotaque...Você não é Americano, é? – finalmente Cuddy pronunciou-se.
- Não, eu sou africano. Venho da Tanzânia, apesar de toda minha família ser de Uganda.
- E o que te trouxe a solos americanos?
- Estudos. Sou médico no Princeton General, formado em Hawards.
Anne notando a pequena, porém crescente interação entre ambos, resolveu intervir.
- Sério? A Lizzie é Dean of medicine do PPTH.
- E endocrinologista. Ela sempre lembra a parte administrativa, mas se esquece da médica.
- Normal. Bem, eu sou Psiquiatra, e, por favor, nada de piadas a respeito. – Disse sorrindo.
- Okay, sem piadas. - dirigindo sua atenção para Anne, Cuddy disse - Anne, já está ficando tarde e a babá da Rachel precisa partir.Levantando-se, o até então desconhecido se ofereceu para acompanhá-las até o carro.
- Muito obrigada pela gentileza, mas... Qual o seu nome? Não me recordo de tê-lo escutado.
- Saeed a seu dispor, Lisa. Olha, fica com o meu cartão, para não se esquecer.
- Ih rapaz, na hora em que este cartão entrar na bolsa da Lisa, estará perdido para sempre. - disse Anne, tentando aliviar a situação.
- Perdoe-a, Saeed. A Anne geralmente não sabe o que diz.
- Sei sim. Vamos, pega um cartão de visita do PPTH e o entregue, Lizzie. Você sabe que é impossível encontrar algo nesta sua bolsa, ainda mais um cartão.Relutante, Lisa Cuddy entregou-o um cartão de visita do PPTH contendo o número do seu escritório mais o endereço de e-mail comercial.
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A semana de Lisa Cuddy passou sem demais surpresas. Almoços com Wilson, contratos fechados com sucesso, reuniões inacabáveis, jantar com Rachel e conversas na madrugada com Anne e Saeed. Sim, em menos de uma semana a conexão entre ambos estava muito forte. De certo. seriam bons amigos.
Finalmente chegara a Sexta-feira, e numa das conversas da madrugada, Lisa havia marcado um jantar com Saeed – em um restaurante grego do subúrbio.
Lisa fora pontual, e estava vestida deslumbrantemente, como a tempos não ousara se vestir. Saeed sobressaltou-se ao vê-la entrar pela porta como quem carrega uma grande dor, mas ainda assim, se mantêm extremamente elegante.
Entre conversas amenas e pequenos sorrisos de confidencialidade, Saeed tocou-lhe as mãos olhando-a fixamente.
- O quÊ? - perguntou Lisa Cuddy já desconfortável.
- Seus olhos...Mesmo tristes carregam uma doçura extremamente sexy. Desculpe se estou sendo constrangedor, Lisa Eu apenas gostaria de poder ser aquele capaz de te fazer mais feliz.
- Você é muito gentil, Saeed, mas infelizmente não sou boa companhia, no momento.
- Shh. Só te conheço a uma semana, mas sei que você é incrível. Por favor, me deixe descobrir como uma mulher tão formidável pode não ser boa companhia.
Lisa limitou-se a sorrir. Desde que House partira, ela escutara muitos galanteios, porém nenhum havia soado tão sincero quanto e desnudo de pudores quanto este.
Notando o clima tenso que havia se estalado no ar, Saeed decidiu que aquela era a deixa para romper o desconforto.
- Então Lisa, quantos anos tem a Rachel?
- 5 anos. Fará 6 próximo ao Natal.
- Que fantástico, praticamente a mesma idade da minha garotinha. Tenho uma filha de 6 anos, ela se chama Dalecarllia.
- Uh, meio exótico.
- Sim, a mãe dela era Antropóloga e tinha verdadeira paixão pelo incomum.
- ''Era''?
- Sim, ''era''. A Latifah, mãe da Dale, faleceu em um acidente aéreo, em Machu Picchu.
- Sinto muito pela sua perda.
- Tudo bem, infelizmente acontece com muitos. Mas e o pai da Rachel, é ele o motivo destes olhos tristes?
- Sim... Quero dizer, não. A Rachel é adotiva, somos apenas nós duas.
- E quanto ao final de semana, Lisa... Tens algo em mente?
- Ah sim, prometi a Rachel que irei levá-la ao zoológico amanhã. Ela quer muito conhecer o bebê Panda que foi transferido esta semana. Acredita que ela pôs na cabeça que será treinadora de pandas lutadores de Kong-Fu?!
- Estas crianças de hoje em dia são impossíveis. A Dale também ama animais.
- Bem, se você permitir, posso levar a Dale comigo e com a Rachel.
- Se quiser levar o pai da Dale também, sinta-se a vontade.
Lisa limitou-se a compartilhar um sorriso cúmplice, enquanto o jantar transcorria sem mais novidades. Tempos depois, ambos seguiram para suas respectivas casas. De certo o Final de semana seria animado.
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Pontualmente, ás 09h da manhã de Sábado, Saeed bateu a porta da casa de Lisa Cuddy acompanhado por Dale, sua filha.
Seguiram os 4 no carro de Saeed em direção ao Zoológico, fazendo apenas uma pausa para o café da manhã no Subway.
Surpreendentemente as meninas estavam se dando muito bem, apesar da relutância de Rachel em dividir a atenção da sua mãe com dois desconhecidos.
Como todos os passeios prazerosos, este também chegou ao fim. Regado a muitos refrigerantes, brincadeiras ao redor do carrinho de cachorro-quente, réplicas de pelúcia compradas pelo 'tio' Saeed e pipoca dada aos macacos, era de se esperar que tanto Rachel quanto Dale dormissem no banco traseiro durante o percurso para casa.
Ao chegarem, para não acordar Rachel, Saeed a levou nos braços para o quarto, retornando logo em seguida para a sala, despedindo-se de Lisa Cuddy.
- Então... Você tem uma bela casa, Lisa.
- Imagina, obrigada.
- Lisa?
- Pois sim?
- Tivemos um dia encantador. Obrigada por me deixar entrar em sua vida.
- Não agradeça. Faz tempo que não tenho uma tarde tão agradável.
Aproximando-se, Saeed pôs as mãos em tordo da cintura de Cuddy, trazendo-a para si e colando os seus lábios.
Pega de surpresa, Lisa Cuddy cedeu àquela sensação há tanto tempo perdida.
Droga, o último homem que a havia beijado fora House, e de alguma forma, ela sentia que o estava traindo.
O beijo não era apaixonado, e sim suave, gentil, carregado de ternura e significado. Suas línguas travavam uma sutil batalha não pela dominância, mas sim pelo toque. Eles queriam sentir a maciez e doçura dos lábios que beijavam.
Quando o ar fez-se necessário, Saeed se afastou a encarando. Depositando um casto beijo na bochecha de Lisa Cuddy, ele partiu, sem que uma única palavra fosse proferida.
Lisa viu a porta da frente bater e foi impossível não se lembrar de tudo o que viveu nestes últimos anos.
O início do seu relacionamento com House, a partida seguida pelo desaparecimento, todo o seu sofrimento pela perda do único homem que verdadeiramente amou, e agora este beijo.
Seria Saeed a sua chance de ter um novo recomeço?
Sacudindo a cabeça como quem limpa a mente dos pensamento, Cuddy pegou a sua bolsa do sofá e seguiu em direção ao quarto, a fim de mais uma noite solitária.
Conferindo o celular, Cuddy sorriu ao ver um novo SMS surgir na tela.
'Espero que esse seja apenas o começo. XoXo, Saeed
O NOSSO começo.'
Sim, se este não era o recomeço, de fato era uma nova chance de ser feliz.
