Numb

Depois daquela noite fria, nada mais fora o mesmo. As duas primeiras semanas foram inteiramente pontuadas por uma espera cada vez mais desesperada. O cheiro de café, ainda impregnado no chão de madeira dentro do quarto, escapava por baixo da porta trancada e me assolava todas as vezes que eu tentava sair para o corredor, relembrando sua partida abrupta.

Estávamos no ápice do inverno e os dias, sempre frios e escuros naquela época do ano, pareciam ainda mais negros e sem vida, como se uma noite eterna e sombria tivesse se abatido sobre aquela casa e sobre minha vida. Não que antes da partida de Sirius, o número 12 de Grimmauld Place tivesse algum tipo de "luz e calor", nem perto disso. Mas, até então, tudo o que eu precisava para manter a minha sanidade mental era a simples presença dele ali, em especial a noites insones que passávamos juntos, rodeados pelo sabor e pelo aroma do nosso café.

Bastava a certeza de que só precisava dar alguns passos para fora de meu quarto e entrar no dele para eu me sentir iluminado e aquecido pela luz e o calor dele. Sem ele lá, eu, que sempre fora – na medida do possível para um membro da Família Black – um garoto até mesmo alegre e vivo, tornei-me rapidamente amargurado e depressivo. Fiquei trancado no meu quarto, esperando. Apenas esperando. Sem deixar morrer dentro de mim a esperança de que, logo, eu veria meu irmão de novo. De que, logo, ele perceberia a loucura que havia cometido e que voltaria para casa...

Nessa espera inútil e despropositada, o primeiro mês se passou, mas a minha esperança de que ele poderia simplesmente aparecer à porta de meu quarto avisando que estava de volta não esmoreceu. Ele tinha que voltar. Nem uma mísera molécula de mim aceitava a, cada vez mais óbvia, possibilidade de que ele não voltaria. Minha mente tentava me enganar, argumentando que Sirius sempre fora um rebelde, que sempre gostara de desafiar regras e valores, mas nunca fizera nada realmente definitivo...

Mas, ainda que não aceitasse, no fundo, eu sabia que sair de casa era provavelmente um dos sonhos mais antigos de meu irmão. Nossa família sempre representou ao máximo tudo que ele odiava e combatia, e ele próprio nunca foi o exemplo de filho perfeito para os padrões da família Black. Este fardo, na verdade, era meu. Mas eu sempre me confortei com a idéia de que ambos estávamos satisfeitos assim, ele brigando e se revoltando contra tudo e contra todos, enquanto eu seguia, sempre mantendo as aparências.

Até então, parecia que ele conseguia conciliar sua rebeldia idealizada com a permanência naquela casa, e eu me permitia o luxo de acreditar que muito disso era por minha causa. Ainda que ele afirmasse, sempre transbordando de sarcasmo e ironia, que era por causa do carinho materno, do ótimo atendimento dos serviçais e do enorme estoque de café que tínhamos na despensa. Em ocasiões como estas, eu apenas ria, sabendo que ele só dizia isto para deixar claro que era a minha pessoa que o prendia ali, sem necessariamente confessar tal pensamento. E, até então, isto parecia bastar.

No segundo mês, ainda confinado em meu quarto, meu coração falhava uma batida cada vez que alguém batia a minha porta. A esperança dentro de mim voltava a transbordar, acreditando que ele finalmente havia voltado, para logo em seguida murchar impiedosamente quando via que era outra pessoa qualquer que não meu irmão. Eu sabia que ele havia partido, mas meu cérebro – ou talvez fosse meu coração – recusava-se a acreditar nisso.

E eu segui sofrendo dessa forma pelos meses seguintes. Assim como o cheiro do café derramado naquela noite dissolvia-se por trás da porta fechada, assim também a esperança foi sendo corroída, pouco a pouco, durante o decorrer dos dias. O frio, que ele e eu tanto apreciávamos – principalmente quando podíamos desfrutar dele juntos –, logo foi substituído pelo cheiro do pólen e flores por todos os lados. Mas, naquele ano, aquele cheiro característico, que era, até então, meu segundo aroma favorito, não me pareceu ter nada de diferente.

O aumento da temperatura também não surtiu efeito em mim, pois o frio que sentia vinha de dentro. A luz intensa do verão não foi suficiente para me aquecer e iluminar. Para mim, o inverno permanecia, pois sem meu sol particular nada mais poderia ser "claro" ou "quente". Tudo seria sempre negro e frio, como aquela noite em que ele partira.

Quando os primeiros meses estavam perto de se tornarem um ano e o frio e a escuridão que eu sentia por dentro começaram a se refletir também fora de mim devido à volta do inverno, eu comecei a me questionar se talvez eu não estivesse enganando todo aquele tempo, afinal. Depois de um ano, todo o calor e o sabor pareciam perdidos, desaparecendo juntamente com o aroma que eu tanto gostava.

A certeza de que ele não voltaria finalmente me assolou quando passei por sua antiga porta no dia exato em que ele havia partido. Um ano havia se passado e nem uma única notícia, um único aviso ou mensagem. Toda a minha família acostumara-se a agir como se nada tivesse acontecido, como se meu irmão nunca tivesse existido e que sua imagem – agora queimada – na árvore genealógica fosse apenas um defeito na tapeçaria.

Mas, para mim, aquele um ano marcou o fim das minhas esperanças. Cansado de tudo aquilo e desiludido, entrei em seu antigo quarto, exatamente igual, exceto pela camada de poeira que se acumulara no período. Decidido a não mais sofrer por alguém que claramente não ligava a mínima para mim, resolvi que aquela seria a última vez que permitiria me sentir daquela maneira por ele. Passei a noite toda ali, em seu quarto, em meio às coisas que, assim como eu, ele julgara insignificantes demais para levar consigo.

Uma vez dentro do quarto, percebi que o cheiro ainda estava lá. Fraco, diluído, mas ainda presente. O piso de madeira estava manchado no local em que o café fora derramado. Recolhi algumas peças de roupas jogadas pelo chão – especialmente aquelas que estavam mais próximas da mancha de café –, e aspirei, saudoso, o aroma tão característico que emanavam, justificando a tolice daquele ato por ser a última vez que me permitiria lembrar daquele cheiro. Do cheiro dele.

Achei, entre outras coisas, a minha camisa favorita. Ou melhor, a camisa dele que era a minha favorita. Instantaneamente, a imagem de meu irmão usando aquela camisa me veio à mente, e "perfeita" não era uma palavra boa o bastante para descrever a visão com a qual meu cérebro me torturava. O tecido negro e suave modelava seu tronco definido, contrastando com sua pele clara.

A gola em V deixava o pescoço alvo à mostra e insinuava uma visão de seu peito largo. O caimento era tão perfeito que eu fingia reclamar quando ele a vestia, alegando que deveria ser proibido alguém ser tão tentadoramente maravilhoso. As mangas, arregaçadas como se fossem 3/4, exibiam os antebraços fortes e os tendões salientes que eu tanto venerava...

Caminhei trôpego, entorpecido pela força da lembrança, até o móvel que um dia fora sua cama. Que, muitas vezes, tínhamos chamado de nossa cama. Sem importar-me com a bagunça, deitei-me nela, ainda agarrado firmemente à camisa e inalando, desesperadamente, o cheiro de café impregnado nela. Querendo acreditar que de fato seria a última vez, permiti que a minha memória voasse solta por todos os momentos especiais que aquele cheiro evocava.

Com a cabeça apoiada no travesseiro, rendi-me à dolorosa certeza de que aquela imagem nunca mais seria real. Ainda que a camisa existisse, ela não vestiria mais aquele corpo; ainda que o corpo permanecesse belo – onde quer que estivesse –, não teria mais a camisa. Aquele conjunto que sempre representou para mim a mais completa forma de perfeição estava perdido, seria sempre uma lembrança. Uma memória que eu só tinha aquele último momento para apreciar. E tinha que ser a última vez. Ou eu não seria capaz de seguir vivendo daquele jeito...

Repleto dessa esmagadora resignação, permiti, finalmente, que a tristeza e o desespero presos em meu peito fossem liberados. Lágrimas amargas rolaram descontroladas por meu rosto e soluços de desamparo escaparam de meus lábios. Aquele cheiro, que sempre me confortava e acalmava, dessa vez apenas contribuiu para aumentar minha dor e desespero, ao me fazer lembrar constantemente tudo o que eu havia perdido.

Em minha mente, repetiam-se as palavras que ele dizia sempre que meus olhos marejavam: "Os Black não choraram!" Com dor se transformando em raiva, rangi meus dentes e convenci-me de que, se Sirius não estava mais lá, eu não devia mais me preocupar com o que ele diria se me visse chorando. Principalmente porque ele era o motivo das minhas lágrimas. Aquela seria a última vez que choraria ao me lembrar dele. Ou melhor, seria a última que me lembraria dele, de seu cheiro, de seu jeito e tudo mais que me fizesse sentir dor e desespero novamente.

Continuei ali, deixando as lágrimas rolarem, mas contendo os soluços que pudessem denunciar minha fraqueza para o resto da família. Aos poucos, todos os sentimentos foram se diluindo e o sono tomou conta de mim. Antes que a inconsciência me dominasse definitivamente, aspirei pela última vez o cheiro de cafépreso na camisa, na tentativa de preservar, no meu subconsciente, aquilo que, ao acordar, tornar-se-ia para mim o mais proibido dos pensamentos. Permiti-me o luxo de adormecer ali, em sua cama, cercado por suas roupas e objetos pessoais, respirando seu cheiro tão perfeito...

Foi nesta noite que os sonhos começaram.

Apenas seu rosto foi tudo o que eu tive tempo de ver. Mas aquele primeiro sonho foi, durante muito tempo, o mais vívido que tive com meu irmão. Sirius sempre fora tudo para mim: meu irmão, meu herói, meu amigo, meu amor... Sonhar com ele, de diversas maneiras e sentidos, sempre fora algo até bem normal. Quando ele se foi, os sonhos continuaram, às vezes trazendo de volta recordações, outras inventando um reencontro que nunca acontecia. Mas nenhum desses sonhos, quer fossem os antigos, quer os mais atuais, tinham sido tão intenso como aquele.

E nem tão assustadoramente belo. Não havia como não ser, era Sirius, mas ele estava mudado. Seu rosto, que sempre fora lindo, com certeza agora representava a mais perfeita mistura entre as definições de anjo e demônio. A beleza de seus traços era digna do mais magnífico anjo das pinturas renascentistas, mas o brilho de seus olhos e o seu sorriso torto conferiram um tom tentadoramente demoníaco àquele conjunto excepcional.

As linhas de seu rosto pareciam ter sido redefinidas, eliminando todas as imperfeições que eu nem sabia que existiam. Sua pele, antes alva e quase livre de marcas de qualquer gênero, a não ser por uma pequena e fina cicatriz no maxilar, agora beirava a translucidez e não podia ser descrita como nada menos que perfeita. As mudanças eram sutis, mas o resultado foi arrebatador, elevando sua beleza a um patamar que expoentes matemáticos não me pareciam ser capazes de quantificar.

Era a visão privilegiada da face de anjo pela qual eu certamente teria me apaixonado. Novamente, se já não o tivesse feito tanto tempo antes. Mas um pavor gelado percorreu meu corpo quando focalizei, por uma breve fração de segundo, seus olhos. Eles estavam ainda mais diferentes que sua pele ou seus traços. E essa mudança, que poderia ter sido sutil, em comparação com as outras, foi a mais marcante.

Nós sempre fôramos parecidos em muitos aspectos: os mesmo cabelos negros, a mesma pela alva, até nossos olhos possuíam o mesmo tom de cinza. Apesar das semelhanças, obviamente, como em tudo mais, os olhos dele eram mais bonitos que os meus. Embora tivessem a mesma cor prateada, o brilho maroto que os dele possuíam era capaz de hipnotizar qualquer um, e eu estava entre as vítimas mais freqüentes.

Mas, no meu sonho, não era só o brilho que diferenciava seus olhos dos meus. Agora, a cor também era diferente: o brilhante cinza-prateado das íris fora substituído por um intenso cinza-chumbo, quase tão escuro que parecia negro. E haviam pequenas veias vermelhas dilatadas pela parte branca dos olhos, dando-lhes um aspecto perigoso.

Mas não foram só os olhos que mudaram drasticamente: o sorriso também não era mais o mesmo. Antes, seus lábios se curvavam graciosamente, mostrando a linearidade de seus dentes apenas levemente amarelados pelos excessos com café, cigarro e álcool. Agora, os lábios – também redesenhados de maneira assombrosamente perfeita – deixavam a mostra dentes branquíssimos. E o jeito como ele sorria, um sorriso torto e malicioso como eu nunca tinha visto, era, de alguma maneira que eu ainda não era capaz de compreender, extremamente perigoso.

A mudança era, sem dúvida, perigosa, de muitas maneiras. Para mim, especialmente, porque me fazia sentir desesperado para tocá-lo, para beijá-lo novamente e certificar-me de que o novo grau de perfeição não havia prejudicado seu beijo delicioso. Talvez - e eu queria muito que sim -, até tivesse melhorado! Mas também era perigoso para qualquer um que o olhasse, porque exprimia com toda a clareza um aviso mudo que, assim como o brilho dos olhos injetados, era ameaçador.

E, por isso, o impacto dessa visão como um todo, que deve ter durado menos que 5 segundos inteiros, me fez acordar, assustado e fascinado ao mesmo tempo. A umidade das lágrimas ainda marcava meu rosto e minha garganta estava seca por causa dos soluços contidos a força. Meu coração palpitava acelerado e descompassado em resposta àquele sonho estranhamente vívido e assustador. E maravilhoso, é claro.

Passei a mão pela testa, eliminando umas gotas de suor que, apesar da noite fria, ali se encontravam. Ainda abismado, conformei-me com a justificativa de que toda a imaginação que eu nunca demonstrara tinha sido guardada para ser utilizada naquele momento. Sabendo que eu havia resolutamente decidido que aquela seria a última vez que me permitiria pensar nele, meu subconsciente presenteou-me com aquela imagem divina e infernal.

Desculpei-me antecipadamente, alegando que, ainda que seguisse piamente esta resolução, não seria capaz de controlar meus sonhos. Algo dentro de mim, uma voz baixa e atrevida, sussurrou que, mesmo que eu pudesse, provavelmente não o faria, de tão covarde e dependente que era. Resolvi ignorar a tal voz idiota, tentando, tolamente, fortalecer minha convicção de que, quando o dia raiasse, tudo seria diferente.

Assegurando-me disso, ainda que muito parcamente, voltei a dormir, aspirando mais uma vez o cheiro da camisa que ainda tinha na outra mão. Sabia que, agora que desfrutara conscientemente da beleza do sonho, não voltaria a vê-lo... O que eu ainda não sabia era que aquele seria apenas oprimeiro sonho. De muitos.

Não me lembro se sonhei outra vez naquela noite. Tornei a acordar quando a claridade do dia penetrou pela janela fechada apenas pelo vidro. Resmunguei irritado. Detestava ser acordado por aquela claridade matinal idiota, principalmente sendo ainda tão. Mas sabia que o sono estava perdido, e sentia-me verdadeiramente cansado de dormir, algo que há muito tempo não acontecia.

Proibi-me veementemente de pensar no motivo das minhas noites mal dormidas. Junto com a noite que ficou para trás quando os raios do sol surgiram, aquela parte de meu passado também ficaria. Ou, seria melhor dizer, aquela parte ide mim/i. Mas estava decidido e não voltaria atrás, não pensaria mais em meu irmão e nem mais o esperaria. Privar-me-ia do sabor do café, para não precisar sentir aquele cheiro novamente.

Estava acabado. Pelo menos, era isso que eu me forçava a pensar, ainda que dolorosamente, nos primeiros minutos de minha vida sem Siri... Não! Não diria seu nome! Sem ele! Eu sabia exatamente a infantilidade daqueles pensamentos. Não pensar ou pronunciar seu nome em nada impedia que a imagem mental correspondente surgisse, vívida e saudosa, em meus pensamentos. Mas certamente me ajudava a pensar que, ao menos, eu estava tentando. Se ele seguira em frente, eu também iria.

Resolvi, para o bem de minha mais nova perspectiva de vida, sair daquele quarto. Fugir daquelas quatro paredes, impregnadas de lembranças e exalando o cheiro que eu atribuía a nossos momentos. Paredes que haviam presenciado o auge de minha felicidade e realização, e o declínio máximo de minha dor e desespero. Driblei minhas próprias regras, ao lançar o olhar em volta e tocar mais uma vez a camisa ainda jogada em cima da cama.

Resisti, orgulhoso de minha recém descoberta força de vontade, a cheirá-la mais uma vez. A parte mais racional e crítica de minha mente permitiu que eu me iludisse assim, já que, na verdade, o cheiro da camisa ainda estava impregnado em minhas narinas, e assim permaneceria por muito tempo.

Dei as costas a tudo aquilo e pulei a mancha de café no piso sem nem olhá-la. Saí do quarto com passos firmes e fechei a porta resolutamente, num ato apoteoticamente simbólico. Senti uma pressão incômoda na boca do estômago quando soltei a maçaneta, meu corpo reagindo involuntariamente às atitudes drásticas de minha mente. A quem eu queria enganar, perguntou-me aquela voz ácida e irônica. Eu não queria lembrar porque sofria com isso. Mas, internamente, sabia que não seria capaz de esquecer, mesmo se quisesse.

Seria loucura e idiotice demais ignorar as melhores lembranças de toda a minha vida, mas era doloroso e angustiante demais saber que elas não passavam disso, apenas memórias. Por senso de preservação, eu ideveria/i esquecer e seguir em frente, parar de sofrer diariamente com a sua falta e com a consciência de que fora equiparado a um simples objeto qualquer, deixado inutilmente para trás por não caber na mala.

Mas negá-lo era negar a mim mesmo. Se eu bloqueasse ou excluísse todas as lembranças que tinha dele, com certeza não sobrariam memórias minhas para lembrar. Sendo meu irmão mais velho, ele estivera presente em cada mínima ocasião e acontecimento de minha vida. Até mesmo em momentos que eu não era capaz de me lembrar conscientemente como os primeiros passos ou as primeiras palavras.

No restante, ele sempre estava lá, salvando nossos absurdos banquetes de Natal da família Black com seus comentários engraçados, dando sentido aos meus aniversários vazios ao me dar os presentes que nem todo o dinheiro poderia pagar. Elogiando-me quando eu fazia algo que provavelmente desagradaria nossos pais, reprovando minhas atitudes quando eu tentava conciliar os dogmas familiares com minha fraca personalidade em formação.

A conclusão acertou-me com um soco no peito. Se eu apagasse todas essas lembranças, perder-me-ia completamente dentro do nada que sobraria. Terminantemente proibido de lembrar, mas totalmente aterrorizado com idéia de esquecer1. Suspirei. Seria difícil continuar com isso. Decidi me preocupar depois, por hora bastava que eu saísse do quarto, atravessasse o corredor e entrasse em meu próprio quarto, em meu próprio mundo. Um passo de cada vez.

Talvez, se eu tivesse uma vida normal como um ser humano comum faz, sem ser mental e fisicamente dependente de outra pessoa, quem sabe em alguns anos eu pudesse ser capaz de ignorar tais memórias, preenchendo os espaços vazios com lembranças próprias. Não seria o mesmo, é claro, mas poderia dar certo. Minha nova perspectiva poderia até não ser feliz, mas seria ao menos suportável. E, por hora, isso bastava.

Meu dia estendeu-se tediosamente e o fato de estarmos nas férias de inverno não ajudou em nada. Decidi reler algum livro antigo e dirigi-me à biblioteca. Entrei conscientemente de costas para a tapeçaria da família, evitando olhar para o ponto chamuscado onde antes houvera a fotografia de Sirius - uma das mais lindas, na verdade... Um baixo palavrão escapou de meus lábios. Obviamente seria mais difícil do que eu pensava: tanto cuidado para evitar pensar nele parecia ter o efeito exatamente contrário. E as chances dessa situação esdrúxula me levar à loucura pareciam grandes.

Corri até a estante, pegando dois ou três livros e saindo o mais rápido possível. Passei pela cozinha só para pedir a Kreacher para levar meu café-da-manhã no quarto. Mas sem café! Eu passaria tomar suco todas as manhãs, por mais que detestasse só para não sentir aquele cheiro, só para não ver aquelas espirais... Voltei ao meu andar, novamente sentindo a estranha e ambígua sensação de evitar pensar e, exatamente por isso, pensar ao passar por sua porta fechada. E isso era verdadeiramente estressante!

Entrei rapidamente em meu quarto, fechando a minha porta com rispidez, tentando – infantilmente – deixar meus problemas do lado de fora do corredor. Joguei-me na cama, irritado. Por que é que não podia ser fácil? Tinha sido fácil o bastante para ele, então por que eu deveria ter todo esse trabalho? Sufoquei um grito furioso, enfiando a cara no travesseiro, ignorando o real motivo por detrás daquele ato.

Os meses de espera apática tinham dado lugar a uma enxurrada desenfreada de sentimentos contraditórios e enlouquecedores. Levantei a cabeça do travesseiro, respirando ofegante para recuperar o ar em falta. Achei que teria sorte se não enlouquecesse antes do final do dia. Olhei no relógio de cabeceira e suspirei, cansado. Seria um longo dia...

Quando finalmente já era tarde o suficiente para ser aceitável ir dormir sem ferir as regras de etiquetas impostas pela família, segui para o meu quarto. Uma parte de mim temia que o recente fluxo de emoções me impedisse de mergulhar na inconsciência pela qual eu tanto ansiara o dia todo. A luta de "pensar para não lembrar" mostrara-se realmente exaustiva, mas eu não poderia deixar que os outros vissem como eu me sentia.

Assim como eu fizera anteriormente com o desespero e a esperança, eu esconderia debaixo da máscara do tédio o ódio e a desilusão. Deitei na cama, dando-me o trabalho apenas de tirar os sapatos. Adormeci antes que pudesse me preocupar se o sono viria ou não. Veio. Confuso e fragmentado, meu sonho começou como uma continuação de meu dia tedioso, a única diferença era a perspectiva caracteristicamente onírica pela qual eu acompanhava seu desenrolar, ora como observador, ora como personagem.

Enquanto personagem, tinha a nítida sensação de estar atrasado para algo. Andei pelos corredores de Grimmauld Place – que no sonho pareciam infinitamente mais longos –, estranhando a falta dos quadros de família e das cabeças de elfos domésticos empalhados segundo a tradição de tia tais "adereços", as paredes pareciam ainda mais frias e cruas.

Continuei caminhando até que, como é comum em sonhos, a perspectiva se inverteu: agora eu era apenas um observador. Vislumbrei, ao final do longo corredor, uma nesga de luz que parecia ser a saída que eu procurava e continuei seguindo em direção a ela. Andei mais um pouco, a sensação de atraso aumentando dentro de mim. Quanto antes chegasse até lá, melhor.

Finalmente abandonei os corredores, que naquela parte do sonho mais pareciam pertencer a masmorras ou calabouços antigos do que à minha casa. Vi a mim mesmo, meu eu-personagem, de costas para mim, sentado a uma mesa posicionada no meio do novo cenário: uma sala que eu totalmente desconhecia.

Pela visão de trás, percebi que meus cabelos estavam um pouco mais compridos, cobrindo a nuca, mas sem chegar aos ombros. Se minha mãe os visse, com certeza gritaria que precisavam de um belo corte tradicional, mas gostei de seu aspecto levemente informal. Estranhei a minha postura tensa, talvez a razão fosse meu suposto atraso.

Uma de minhas mãos estava caída ao lado do corpo, batucando impaciente na lateral de ferro trabalhado da cadeira. Minha pele era muito mais branca do que jamais fora, mas isso, por algum motivo, não me pareceu estranho. A luz proveniente sabe-se-lá-de-onde parecia refletir levemente naquele pequeno pedaço de pele, de acordo com os movimentos de minha mão, curiosamente lançando reflexos nas paredes inexistentes da tal sala.

Curioso, aproximei-me mais alguns passos, até que a perspectiva inverteu-se novamente. Agora eu era o personagem sentado à mesa. Senti um frio inexplicável. E um aroma conhecido invadiu minhas narinas. À minha frente, uma xícara de café posta sobre a mesa lançava no ar fumegantes espirais de fumaça cheirosa. A mudança brusca me deixou levemente confuso, mas, nos sonhos, essas sensações nunca duram tempo o suficiente para nos darmos conta delas.

Olhei por algum tempo as espirais subindo, hipnotizado pelo movimento sublime e pelo cheiro maravilhoso que exalavam. Senti uma nostalgia invadir-me e, para ignorá-la, preferi dar atenção a outras coisas, desviando a atenção da xícara, de seu conteúdo e tudo mais que aquele cheiro evocava. Reparei que a mesa tinha um belo tampo de vidro opaco. Nunca fora vaidoso, mas naquele momento fitei, absorto, minha imagem refletida ali, concentrando-me em cada parte separadamente.

Assim como a pele de minha mão, meu rosto tinha o tom mais pálido de branco que eu já vira, e também o mais bonito. Minhas maçãs do rosto estavam mais altas e eu certamente parecia mais velho. Meu queixo estava levemente mais delineado, com traços mais quadrados do que o meu rosto ligeiramente andrógino costumava ter...

As mudanças deixaram-me um pouco impaciente. Algo estava errado naquele quadro. O frio se acentuara, mas não havia nenhuma janela aberta. O cheiro, apesar de familiar, parecia emanar de mim mesmo e não da xícara. Havia uma sensação de perda estranha, como se algo muito óbvio me estivesse escapando. O reflexo de um sorriso que eu não sorri chamou minha atenção de volta à imagem no vidro, e continuei a minha análise pessoal. Meus lábios estavam perfeitos demais para ser verdade e eu teria vontade de beijá-los se não soubesse que eram os meus próprios...

E não eram! Eu reconheceria aqueles lábios onde quer que fossem, sonhando ou acordado! Ainda sob a perspectiva do personagem, gravei meus dedos nas bordas da mesa, surpreso. Deixei de observar detalhadamente as partes do rosto e fitei a face como um todo. A imagem mais perfeita de Sirius sorriu para mim por um breve segundo, de um jeito diferente de todos os outros sorrisos que eu já tinha visto. Depois sumiu, deixando o vidro inteiramente fosco. Foi quando eu acordei, ofegando.

Nota:

1 Forbidden to remember, terrified to forget; it was a hard line to walk. ("New Moon", chapter 4- Waking Up)