Notas: O título, segundo meu dicionário prático português-japonês da Michaelis (culpem ele), quer dizer 'babá'. Embora 'onna' seja 'mulher' e o google translate traduza 'komori' como 'sentar'. Digamos que babá em japonês quer dizer literalmente 'mulher que senta'=P

Capitulo I – Komori Onna

Aoi acordou no dia seguinte com dores nos braços, uma forte luz sobre os olhos e um irritante barulho de palmas. Piscando muito, desvencilhou-se dos braços da criança que dormia ao seu lado no saco de dormir de casal, e se levantou aos tropeços. Desejou ter trazido as cortinas na mala, o sol daquele lugar era um inferno!

Esfregando os olhos, arrastou os passos até a porta da frente. Sentia a madeira sobre seus pés descalços, estranha ao toque, ainda. Demorou um pouco a se localizar. Quando finalmente abriu a porta, achou que, quem quer que fosse, devia estar morrendo para o chamar com tanto vigor. Mas ninguém estava morrendo.

- Bom dia! Sou Sato-san, sua nova vizinha! Você veio de Nagoya não é? Com seu filho, segundo a senhora Okabe. A senhora Okabe é mulher do motorista de táxi. Porém ela não sabia seu nome. Desculpe, eu o acordei? Ainda está de pijamas. Eu trouxe isso para você. [1]

Uma mulherzinha magérrima, com pouco menos de um metro e meio, abaixara o corpo numa reverencia enquanto estendia uma cesta de boas vindas para ele, antes que Aoi tivesse sequer tempo para processar seu nome. Completamente abobalhado, o moreno segurou a cesta e fez uma breve reverencia.

- Ahn...Aoi desu...

- Muito prazer! Aoi? Que nome diferente! Não é nome de garota? Oh desculpe, eu não quis ofender, apenas achei que...

- Tudo bem. – Aoi fechou a porta de casa, olhando para dentro para ver se a falação da mulher não havia acordado Tobikuma. – Meu nome verdadeiro é Yuu, que também é nome de garota de qualquer modo. – disse sorrindo despreocupadamente. Olhou dentro da cesta e agradeceu a hospitalidade interiorana pelo café da manhã completo. Odiava cozinhar.

A garota avermelhou-se toda e sorriu sem graça. O moreno pode então reparar melhor nela. Tinha cabelos muito pretos e compridos e maçãs do rosto saltadas. Usava um vestido simples de estampas pequenas e claras, sandálias baixas e um lenço antiquado na cabeça. E uma aliança. Parecia muito jovem para ser casada.

- Bem, Aoi-san, é um prazer tê-lo conosco aqui em Tsushima. Há algo que eu possa fazer por você? Eu e meu marido moramos naquela casa ali, duas ruas abaixo. Se precisar de ajuda em qualquer coisa, estaremos à disposição. Ele trabalha todo o dia, tem um pequeno restaurante de Tofu, mas eu estou sempre em casa. Naquela casa ao lado mora a família Suzuki, eles são bastante simpáticos e tem dois filhos. Okabe-san disse que o seu tem seis anos certo? Os do Suzuki são apenas dois e três anos mais velhos. E naquela outra casa ali mora o senhor Morita. Ele já é idoso, mas é muito agradável. Trabalha fazendo lanternas[2], faz tudo manualmente. E naquela outra ali... Bem, logo você conhecerá todos, imagino. Naquela casa ali...

- Que horas são? – perguntou Aoi, sorridente, apenas para fazer a mulher se calar. Ela falava bastante e gesticulava ainda mais. Era confuso.

- Já são oito e meia da manhã, é bem tarde, eu talvez deva voltar.

"Oito e meia da madrugada?!" pensou Aoi, bastante indignado, embora seu sorriso continuasse o mesmo. Saudades de Nagoya... e seu maravilhoso costume de acordar tão tarde quanto possível.

- Ah, obrigado... acho que não sei seu primeiro nome[3]

- Ume. Sato Ume.

- Obrigado pela cesta, Sato-san. Eu retribuirei a visita assim que for possível.

Ume fez outra reverencia, tão comprida que seu lenço quase caiu dos cabelos, e virou-se para descer o caminho íngreme que chamara de rua, quando Aoi se lembrou de perguntar outra coisa.

- Ah sim, você sabe se há alguma agencia de babás na cidade?

A garota se virou, e então deixou escapar uma risadinha, cobrindo a boca com a mão.

- Não temos disso por aqui. Mas eu direi que você está procurando uma babá. Tenho certeza que aparecerão algumas candidatas.

Aoi agradeceu com um gesto, mas já pensava em colocar um anuncio no jornal, quando fosse possível. Duvidava muito que a propaganda boca-a-boca resolvesse muito seu problema. Logo começaria a trabalhar em sua nova empresa e Tobikuma precisava de cuidados. Foi com esse tipo de pensamento que ele voltou para a casa e acordou a criança com o cheiro do café da manhã. Por enquanto, precisava apenas esperar o caminhão de mudança e colocar a casa em ordem.

Dois dias mais tarde, Aoi pensou que fora uma benção não ter colocado aquele anuncio no jornal. Candidata atrás de candidata aparecia em sua nova casa para entrevistas de emprego, davam palpite na arrumação dos móveis e mostravam o quanto as mulheres de uma cidade pequena podiam ser estranhas quando queriam. As entrevistas mais pareciam um desfile de um show de horrores para Aoi, que apenas sentava-se com uma mão cobrindo metade do rosto enquanto ouvia falatórios dos mais variados.

- Eu não lavo nem passo roupa. Eu não cozinho. Também não leio histórias ou canto. Eu não limpo sua casa. Eu não...

- Trabalhei por vinte e cinco anos na casa do Lord inglês Cheshire de York. Disciplina é fundamental. Chegarei aqui as sete e vinte e cinco e acordarei o pequeno Shiroyama as sete e trinta. As oito em ponto servirei o café. As oito e quatorze ele deverá estar pronto para a escola As...

- Oh eu me sinto tããããão honrada! Me sinto como num filme americano. Your child is my child, sabe o que quero dizer?!

- Eu e Mister Muppy adoraríamos cuidar do Tobikuma-chan, não é Mister Muppy?! Não é meu gatinho lindinho, cute cute da mamãe, nho nho nho, mas que gato fofo você é, que...

- Sei que ainda está em duvida sobre isso, senhor Shiroyama, mas eu também posso cantar... Bright light city gonna set my soul! Gonna set my soul on fire! Got a whole lot of money that's ready to burn [4]...crianças adoram isso!

- Eu tenho experiências com crianças. Tive seis filhos de meus três falecidos maridos, que Deus os tenha. Do primeiro marido tive apenas um, uma garota, sabe como é..ele era meio...fraco, por assim dizer. Já o segundo...ah, o segundo...

- Obrigado! Obrigado por vir, Akabe-san, foi realmente... esclarecedor.

Aoi sorriu, batendo as mãos nos joelhos e levantando-se. A gorda e avermelhada senhora sorriu pequeno e levantou-se também, agarrada a sua pequena bolsa de mão. O moreno fez questão de abrir a porta para ela e observa-la indo, apenas para ter certeza que não voltaria. Malucas... todas aquelas mulheres eram completamente malucas! E com a mania de chegar absurdamente cedo.

- Olá, Aoi-san. – Ume, que estava subindo a rua com uma sacola pesada, acenou a mão livre para ele, sorrindo. – Ainda procurando, hum?

- ...ainda não achei a pessoa certa para cuidar do garoto. – respondeu, reticente, sorrindo sem mostrar os dentes. Desceu as escadas e se ofereceu para ajudar a garota com a sacola, mas ela recusou veementemente.

- Não, imagine Aoi-san, não está pesada! – disse, embora estivesse ofegante. – Gostaria de entrar e tomar um chá?

Ela já o empurrava pelas costas para dentro de sua casa e Aoi não teve como recusar. Murmurou algo sobre Tobikuma dormindo sozinho na casa, mas isto não pareceu chegar aos ouvidos dela. Sem escolha, Aoi retirou os sapatos e entrou na casa da moça, seguindo-a até a cozinha, aproveitando para dar uma olhada. Era a primeira vez que entrava ali. A casa em si era menor que a dele, quase todas as casas do bairro eram, mas extremamente mais bem cuidada. Os tatames que cobriam o chão quase chegavam a brilhar e as partes de madeira estavam asseadas o suficiente para que o moreno conseguisse ver seu reflexo nelas. Cada mínimo enfeite, mobília ou arranjo estava cuidadosamente arrumado de modo harmonioso e tradicional.

Viu quando Ume-san colocou a sacola sobre a mesa e começou a retirar de dentro dela bandejinhas com files de peixe e outros potes contendo os mais variados ingredientes culinários. E sempre falando.

- Acho que não está com sorte, Aoi-san. Nossa cidade tem excelentes mulheres que podem tomar conta do garotinho sem problema algum, mas parece que só as mais estranhas se candidataram. Será que é coisa do destino? Mamãe diria que é, mas ela sempre dizia isso. De qualquer forma, tenho uma parenta que mora em uma vilazinha perto daqui, uma senhora já, tenho certeza que ela pode tomar conta do Tobikuma-kun muito bem. Vou pedir que ela venha ver o senhor assim que possível. Sabe como é, ela já não é muito nova, está com alguns problemas de saúde. Coisa de vovós. Mas que grosseria a minha, eu deveria estar preparando seu chá! Só me dê um minuto Aoi-san...

- Imooto-chan[5]? Trouxe as coisas que eu ped... ah, olá.

Aoi ergueu os olhos para o recém chegado. Vinha de alguma parte interna da casa e claramente não esperava ver alguém além de Ume, pois vestia um pijama de flanela azul decorado com desenhos do Doraemon[6]. Tinha cabelos e olhos escuros como Ume, e as mesmas maçãs do rosto salientes. Talvez fosse um pouco mais velho que ela, mas certamente não muito. Sorriu sem graça ao se deparar com Aoi, e isto revelou um par de covinhas em seu rosto.

- Você ainda está de pijama?! Sim, eu trouxe, espero que tenha me lembrado de tudo... Você usa coisas de mais pra fazer um simples jantar! Ah sim, desculpe né! Este é nosso visinho, Aoi-san. Aoi-san, este é meu irmão Kai.

Aoi sorriu.

[1] Imagine isso dito num japonês rápido e atropelado... tipo o Uruha bêbado discutindo com o Aoi ou algo assim.

[2] Lanternas japonesas, aquelas de papel decorado com estrutura de madeira e uma luz dentro, não lanternas elétricas.

[3] Eu sei que no Japão o nome próprio vem por ultimo, apenas estou abrasileirando algumas partes pra não perder o sentido das frases.

[4] Viva Las Vegas by Elvis Presley, se alguém deseja saber.

[5] "Irmã mais nova", mas só é usado para pessoas da própria família. Estou tentando escrever essa fic com o máximo de exatidão da cultura japonesa, mas também com o mínimo de palavras japonesas possíveis. Caso alguém queira que alguma dessas coisas mude, só avisar.

[6]Eu sei que isso é quase impossível, mas pra quem não sabe o que raios é Doraemon, é um manga/anime infantil muito velho e muito popular, onde o próprio Doraemon vem a ser um bicho gordo azul claro com olhos e boca enormes e um guizo pendurado no pescoço. É uma coisa bem de criança (e consequentemente assustadora) mesmo.