Parte 1

O redemoinho era diferente, seu vento não cortava. Enquanto caia pelo vórtice mágico, Bolivar assistia objetos voando e pessoas de diferentes idades, gêneros e etnias em sofrimento. Assim que sua queda cessou, Bolivar se viu amarrado a uma cama pelos pulsos e pelos calcanhares. Seu olhar era restringido pela posição da cama, mas ele percebia que seu temor havia se concretizado. O garoto de oito anos havia caído na Terra dos Meninos Levados. O pano lhe doía a mão, mas era frouxo, depois de muito esforço ele conseguiu soltar um braço e os outros membros em seguida. - Como vou sair daqui? - Se perguntava, em seu intimo ele temia que não houvesse saída para aquele lugar. As paredes da instituição psiquiátrica eram encardidas e as lâmpadas de teto proporcionavam uma estranha iluminação avermelhada. Ao sondar um pouco o ambiente, Bolivar notara o som de passos arrastados. Uma parte corajosa dele queria ir lá conferir, mas a covarde e sensata venceu e ele correu na direção oposta.

Não importava para onde fugisse, o mau invariavelmente iria alcançá-lo naquele ambiente. Se não na forma de uma enfermeira sem face, na forma de um monstro formado pela união de duas partes de baixo de manequins. Bolivar precisava de uma arma, escolheu a que estava ao seu alcance, um cano de ferro enferrujado. O monstro quadrúpede atacava com as pernas dianteiras, apesar de ser de plástico os seus golpes doíam e um filete de sangue não tardou a brotar da testa do nosso pequeno herói. Mas eis que tomado pela fúria (ou seria loucura?) Bolivar se atirou no seu adversário e o golpeou até destroçá-lo. O pequeno garoto que queria ser respeitável se descobriu um guerreiro forte.

- Parabéns, tive medo de que você morresse!

- Você me disse que me levaria ao Clube dos Homens Respeitáveis, coelho mentiroso!

- Eu não menti, só omiti o teste necessário para se entrar no clube. Não podemos acolher qualquer um, você sabe. Somos da elite.

- O que eu tenho que fazer?

- Encontrar a Rainha Vermelha, a regente desse país.

- E como faço isso?

O coelho não respondeu, ao invés disso abriu um dos seus buracos na realidade com o seu relógio e foi embora, mas não sem antes avisar ao competidor. - Seu tio também quer ser respeitável. Se ele achar a rainha primeiro você perde e ficará preso aqui para toda a eternidade.

Em outro lugar daquele plano de existência, Gilbert enforcava um coelho mutante gigante com as próprias mãos. - Nem o Inferno é páreo para esse casca grossa!

Parte 2

Bolivar, instruído pelos romances de detetive que lia escondido do pai, sabia que precisaria de pistas para sair daquela enrascada. A primeira coisa que fez foi vasculhar em todas as gavetas por qualquer coisa, textos com informações relevantes, chaves... Até mesmo no verso de porta-retratos ele procurou e foi aí que ele encontrou um tesouro. Um mapa com uma informação. Mas a notícia não era totalmente reconfortante. - A Rainha Vermelha está sob a vigilância do Jaguadarte, uma fera que só é amansada por... - O restante da informação era ilegível.

No outro lado da disputa, Gilbert se deparou com uma caixinha de música. Mesmo sem acreditar que ela fosse relevante para a sua missão, ele achou o objeto curioso. Ele deu corda na caixa fazendo com que ela abrisse e revelasse dois bailarinos a dançar uma bela melodia. - Babaquice. - Disse Gilbert ao jogar a caixa de música no chão com tanta brutalidade que quebrou o mecanismo de roda dentada.

Bolivar se perguntava se um garoto de oito anos com um cano de ferro era suficiente para matar a fera. Ele duvidava, mas decidira que iria tentar mesmo assim. A porta onde o monstro esperava foi aberta e o menino entrou, segurando sua arma como um samurai que segura uma Katana. A fera rosnou e só não arrancou a cabeça de Bolivar com seus dentes porque estava encoleirado. Havia uma porta suntuosa atrás do Jaguadarti que Bolivar apostava ser a morada da Rainha Vermelha.

O Jaguadarti tinha o pelo cinza manchado de preto, parecia uma mistura de cachorro com gato, mas era muito maior do que os dois animais juntos. Seu tamanho equivalia ao de um urso. Bolivar encostou suas costas na parede e esperou por um momento de deslize do animal para que ele pudesse entrar correndo, momento este que não veio. Não a princípio. Quando Gilbert apareceu com seu modo bronco, o monstro conseguiu devorá-lo. Já acostumado com sangue, Bolivar não se chocou com o espetáculo, ao invés disso aproveitou que a fera estava distraída se deliciando com seu tio para cumprir sua missão.

Parte 3

No cômodo só havia um trono e sentado nele a moça mais bela que Bolivar já havia posto os olhos. A Rainha vermelha era loura com os olhos azul piscina e não aparentava ter mais do que vinte anos, apesar de ser bem mais velha do que isso. Seu longo vestido era vermelho da mesma tonalidade da cor do sangue dos seus pais, isso deixou o menino fascinado. - Quem é você, nobre guerreiro?

- B-B-Bolivar Wilson, minha senhora. - Disse o rapaz abaixando a cabeça, estando ciente de que estava diante de uma realeza.

- Muito bem, B-B-Bolivar. Você quer ser um homem respeitável, não é mesmo? Vejo isso escondido nos recantos de sua mente.

- Sim, senhora. - Continuou Bolivar em posição submissa.

- Pois bem, você será. Coelho! - O coelho apareceu em um dos seus portais mágicos e Bolivar não conseguiu deixar de sentir raiva daquele animal que indiretamente quase provocou sua morte. - Leve o menino para o País das Maravilhas.

Bolivar respirou aliviado, algo que não passou despercebido pela rainha. - Não se engane, jovem. Apesar do nome, aquele país tem tantos perigos quanto o meu.