Capítulo 2: Os Opostos Atraem-se
No dia seguinte, na aula de educação física, a professora Anabela, uma professora de vinte e poucos anos, decidiu que eles iriam jogar badminton e se iriam dividir em grupos de dois. Porém, foi ela a escolher os grupos e para irritação de Vanessa, o seu par era Pedro.
Os dois pegaram nas raquetes e no volante e afastaram-se para um canto desocupado do ginásio, enquanto as outras duplas faziam o mesmo.
"Tinha logo de ficar contigo." disse Vanessa, virando-se para encarar Pedro. "Que azar."
"Não sejas assim, que não vale a pena. Vê-se logo que estás apanhadinha pelo meu charme, só que não queres admitir." disse Pedro, sorrindo.
"Eu? Apanhadinha por ti? Deves estar maluco." disse Vanessa, ainda mais irritada. "Vamos mas é jogar e pouca conversa."
"Tu é que começaste a conversar, beleza." disse Pedro, mantendo o sorriso.
Do outro lado do ginásio, Sónia lançava um olhar irritado a Vanessa e Pedro.
"Porque é que ele está a meter conversa com aquela estúpida?" perguntou ela, zangada.
"Ei, ela não é estúpida. É minha amiga." disse Mariana, que era o par de Sónia. "Ela é muito boa pessoa."
"Pois e eu sou o Pai Natal. Se ela se está a aproximar dele é porque deve ser uma interesseira. Deve ter sabido que os pais do Pedro são muito ricos e agora quer conquistá-lo para ficar rica. Ah, mas não vai conseguir que eu não deixo!"
Mariana abanou a cabeça e deixou Sónia dizer tudo o que queria, até ficar satisfeita e finalmente começar a jogar. Laura estava a jogar com Bernardo, que não parecia nada atento e cambaleava.
"Bernardo, tu estás bem?" perguntou Laura, aproximando-se. "Sentes-te mal?"
"Não. Está tudo bem. Vamos continuar a jogar."
"Tu... tu estiveste a beber já de manhã?"
"E se tiver estado a beber? Não tens nada a ver com isso. Lá porque dormimos juntos uma vez, não quer dizer que te possas meter na minha vida. Agora vai mas é para o teu lugar para continuarmos a jogar." disse Bernardo.
Um pouco magoada, Laura voltou ao seu lugar. A aula passou depressa. Sónia e Mariana entenderam-se a jogar, enquanto Vanessa e Pedro faziam tudo mal e ralhavam um com o outro. Quando a aula terminou os rapazes foram para os seus balneários tomar banho e as raparigas para os balneários delas.
Vanessa foi das últimas a estar pronta. Só já restavam ela e Mariana no balneário. Sónia tinha pensado em discutir com Vanessa, mas achou melhor fazê-lo noutra altura, noutro lugar e foi-se embora.
"Eu tenho de ir à biblioteca requisitar um livro interessante que vi por lá." disse Mariana. "Vens?"
"Vai tu. Eu ainda tenho de arrumar o fato de treino na mochila e pentear-me como deve de ser. Eu depois vou lá ter."
"Está bem. Até já, Vanessa."
Mariana foi-se embora. Vanessa arrumou o fato de treino que tinha usado na aula e depois foi pentear-se. Por essa altura, Pedro entrou no balneário feminino e Vanessa assustou-se.
"Ei! Mas o que é isto? Não podes entrar aqui assim!" gritou ela, furiosa. "Isto é o balneário das raparigas."
"Eu sei. Mas esperei que fossem todas embora menos tu." disse ele. "Beleza, eu tenho de te dizer que nunca nenhuma rapariga me tinha tratado da maneira que tu fazes. Normalmente derretem-se aos meus pés."
"Pois, mas eu não sou nenhum gelado para me derreter."
Pedro aproximou-se e Vanessa não vacilou, encarando-o.
"Eu acho que sinto algo por ti. E tu também sentes algo por mim, apesar de o tentares esconder." disse Pedro.
"Eu não sinto..."
Vanessa não conseguiu dizer mais nada, pois Pedro avançou e beijou-a. Vanessa tentou esmurrá-lo, mas segundos depois estava a retribuir o beijo.
Enquanto isso, a auxiliar de educação Benardete foi ter com o professor Artur, que tinha ficado a arrumar uns papéis na sala de aula onde tinha dado a última aula.
"Com licença." disse Bernardete, entrando na sala. "Professor Artur, precisava de falar consigo."
"Ah, Bernardete, olá." disse o professor, sorrindo. "Então, posso ajudá-la em alguma coisa?"
"Na verdade, sim. Sabe, como estivemos a falar sobre a música no outro dia... sabe, eu gravei a música das Chouriças da Paixão numa cassete... e se não se importasse, gostava que ouvisse a cassete e me dissesse o que acha da música. Pode ser?"
"Claro que sim. Vai ser uma honra."
Bernardete entregou a cassete ao professor.
"Desculpe ser uma cassete, mas não sou muito boa a mexer em cds e coisas dessa."
"Não tem problema. Logo que chegue a casa, vou ouvir a cassete. Tenho a certeza que a música é muito boa."
De volta ao balneário feminino do colégio, Vanessa e Pedro quebraram o beijo.
"O que foi isto?" perguntou Vanessa, confusa e irritada ao mesmo tempo. "Como é que te atreves?"
"Desculpa? Tu beijaste-me de volta. Tu gostaste do beijo. Pára de ser casmurra e admite que sentes algo por mim. Olha que eu sou muito mulherengo e nunca senti isto por mais ninguém. Gosto de ti. Devíamos namorar."
"Huh? Mas tu estás louco? Então entras assim no balneário, beijas-me e agora falas em namoro?" perguntou Vanessa. "Não é assim que as coisas acontecem."
"Queres pensar, é isso?"
Vanessa hesitou, mas depois acenou afirmativamente. Dentro do seu peito havia sentimentos em conflito. Por um lado, sentia uma atracção por Pedro, por outro sentia-se irritada com a sua presença e a sua maneira de ser.
"Eu espero então." disse Pedro. "E quando tomares uma decisão, falas comigo."
"E a Sónia?"
"Eu não namoro com ela. Foi só uma curte e mais nada." disse Pedro. "Gosto é de ti. Pensa bem. Depois diz-me qualquer coisa."
Pedro abandonou o balneário, deixando Vanessa ainda mais confusa. Vanessa não disse quase nada durante o resto do tempo que passou no colégio e só desabafou com Mariana quando as duas saíram das aulas e foram até ao bar 48 horas.
"Ah, eu sabia." disse Mariana, sorrindo. "Eu sabia que ia acontecer algo entre vocês."
"Aconteceu, mas eu ainda estou confusa com tudo. Tenho de pensar bem no que quero para mim."
Quando Vanessa e Mariana saíram do bar 48 horas, Bernardo entrou, para mais uma tarde a beber. Vanessa e Mariana começaram a caminhar em direcção às suas casas, que ficavam perto uma da outra. A determinada altura, Mariana, que ia um pouco mais à frente de Vanessa, começou a atravessar uma passadeira.
Um camião surgiu a alta velocidade de uma esquina. Mariana viu-o aproximar-se, mas ficou paralisada. Vanessa agarrou-lhe no braço e conseguiu puxá-la para trás, enquanto o camião passava rasante pela passadeira, sem sequer parar. Logo de seguida, passaram duas motas a alta velocidade também e depois passou uma carroça puxada por um burro.
"Mariana, tu estás bem?" perguntou Vanessa preocupada.
"Eu... se não me tivesses puxado, o carro tinha-me batido. E vinha tão depressa... salvaste-me a vida. Podia ter morrido ou ter ficado muito magoada."
Com o choque e a emoção, Mariana começou a chorar e Vanessa abraçou-a.
"Calma. Agora está tudo bem. Esta gente é que não devia ter a carta. Elas sabem que não podem andar a esta velocidade no meio da cidade." disse Vanessa. "Vá Mariana, recompõe-te."
Mariana respirou fundo e parou de chorar.
"Como tu dizias no outro dia, isto fez o meu coração bater mais depressa e eu não gostei." disse Mariana.
Vanessa levou a amiga a casa e ainda falou com ela mais algum tempo, para a acalmar. Depois, foi para sua casa. Quando lá chegou, reparou que a sua mãe também tinha acabado de chegar.
"Então mãe, onde foste?" perguntou Vanessa.
Fernanda, a mãe da Vanessa, hesitou, mas decidiu contar a verdade à filha.
"O teu pai está em risco de perder o emprego e só o que ganho a fazer costura aqui não chega, por isso respondi a um anúncio de emprego que vi no jornal. Vim da entrevista agora."
"E como é que correu, mãe?"
"Não muito bem. Era para uma loja, mas acho que vão escolher alguma empregada mais nova. Eu só tenho trinta e nove anos e mesmo assim já me acham demasiado velha para certas coisas. Mas eu não vou desistir."
"Fazes bem, mãe. E pode ser que corra tudo bem com o pai e a fábrica não feche."
Pouco depois, o professor Artur chegou a sua casa. Foi logo pôr a cassete que Bernardete lhe tinha dado no leitor de cassetes. Começou a tocar a música Chouriças da Paixão.
"Ai eu já sei o que queres comer, já não resistes a tamanha tentação. Ai eu já sei o que queres comer, não resistas às chouriças da paixão."
O professor Artur foi abanando a cabeça, enquanto ouvia a música.
"Já me disseram que as chouriças fazem mal, mas isso são histórias de quem é parvalhão. Eu e tu gostamos das chouriças, são as nossas chouriças da paixão."
Em poucos segundos, o professor já estava todo animado com a música e já se punha a dançar.
"São lindas como morcelas, mas mais vermelhas. Todos gostam das chouriças da paixão, sejam novas ou velhas."
O professor Artur ouviu a música até ao fim e depois sentou-se, sorrindo.
"Esta música é uma maravilha. É muito animada e original. Ai, ai, a Bernardete é bonita, canta bem e ainda tem ideias óptimas para músicas." pensou o professor. "Tenho de a convencer a enviar a música a uma editora. Tenho a certeza que vão querer editar um cd com esta música."
No dia seguinte, Vanessa foi buscar Mariana a casa e as duas partiram para o colégio juntas. André só teria aulas mais tarde.
"Ainda bem que já estás mais calma." disse Vanessa.
"Estou. Mas sabes, fiquei a pensar na minha vida. Imagina que eu tinha morrido ontem? Não teria feito nada de especial e nunca teria namorado com ninguém." disse Mariana. "Pois agora renasceu uma nova Mariana!"
"Ena, estás muito entusiasmada. Agora é que estás mesmo determinada a encontrar o teu príncipe encantado."
"Sabes, estive a pensar e se calhar eu já conheço a pessoa certa para mim." disse Mariana. "Mas deixemos de falar de mim. E tu? Pensaste sobre o que o Pedro disse, de namorarem os dois?"
"Pensei, mas ainda não cheguei a nenhuma conclusão. Sabes, não me quero precipitar."
"Bem, eu também estive a pensar na tua situação. És minha amiga e eu preocupo-me contigo. Sabes, se calhar não é boa ideia tu e o Pedro ficarem juntos. Aliás, tentarem ficar juntos. Ele parece que se atira a todas e acho que era capaz de te fazer sofrer."
"Nisso tens razão, mas não sei... se calhar se não tentar, depois acabo por me arrepender." disse Vanessa, confusa. "Tenho de pensar mesmo bem."
Enquanto isso, no colégio, Sónia ia a entrar com Pedro à sua frente.
"Não me vires as costas, Pedro!" gritou Sónia, furiosa. "Eu bem vi como tu olhaste para aquela parva da Vanessa, ouviste? Eu não sou cega e não tolero isto!"
Pedro virou-se para encarar.
"Não tens de tolerar ou deixar de tolerar. Nós não somos namorados."
"Mas eu gosto de ti!" gritou Sónia. "E pensava que tu também gostavas de mim. Somos do mesmo meio e tudo."
"Mas não gosto, Sónia. E pára de andar atrás de mim, está bem? Eu faço o que quiser e não tens mesmo nada a ver com isso. E se eu quero alguma coisa com a Vanessa, o problema é meu."
Pedro afastou-se, enquanto Sónia cerrava os punhos, furiosa.
"Como é que ele se atreve?" pensou ela, com várias lágrimas a teimarem-lhe vir aos olhos. "Não tem o direito de me fazer isto! A culpa é toda da Vanessa. Ah, mas ela vai arrepender-se!"
As aulas do dia passaram rapidamente. Vanessa e Pedro trocaram algumas palavras, mas nada de definitivo. Sónia lançou-lhes olhares mortais, pensando já no que fazer para afastar Vanessa do seu caminho. Ao sair da última aula, Laura quis falar com Bernardo.
"Não achas que temos de falar?" perguntou ela. "Eu queria..."
"Querias o quê, miúda? Controlar-me? Não preciso de ninguém que me controle."
"Eu pensei que o que tinha acontecido entre nós tinha tido algum significado para ti. Pensei até que podíamos ser namorados, mas tu não facilitas as coisas!" exclamou Laura.
"Laura, se quiseres ter sexo comigo mais umas vezes, é só dizeres, mas nem sequer penses que eu vou querer namorar contigo." disse Bernardo, de forma fria.
"Achas que sou alguma prostituta? Seu estúpido!" gritou Laura, dando de seguida um estalo a Bernardo e afastando-se a correr.
"Ela é maluca." disse Bernardo, passando uma das mãos pela cara. "Bolas, isto doeu."
Laura foi até ao bar 48 horas e ao chegar lá, estava quase a chorar. Queria ter falado com Sónia, mas como tinha ficado a conversar com Bernardo, tinha-a acabado por perder de vista e Sónia tinha-se ido embora. Laura sentou-se numa das mesas e acabou por chorar mesmo. O dono do bar, Samuel, aproximou-se rapidamente.
"Tu estás bem? O que é que se passa?" perguntou ele, preocupado. "Posso ajudar-te nalguma coisa?"
"Não, obrigada. Não podes ajudar em nada." respondeu Laura, tentando secar as lágrimas. "Estou apenas muito triste..."
"Problemas de amor?" perguntou Samuel e Laura acenou afirmativamente. "Compreendo. Mas olha que nenhum rapaz merece que chores por ele. Se te está a fazer sofrer, esquece-o."
"Já pareces uma rapariga a falar." disse Laura e ela e Samuel riram um pouco. "Obrigada. Eu não vou chorar mais. O Bernardo não merece o meu amor."
"Exacto. Esquece esse rapaz. Há-de haver alguém que seja a pessoa certa para ti."
Laura acenou afirmativamente.
"Agora vou buscar-te um sumo, para relaxares, está bem? Fica por conta da casa."
Laura sorriu ao ver Samuel afastar-se.
"Vou esquecer aquele estúpido do Bernardo." pensou ela. "E... o Samuel é muito mais simpático, tem um bar, é responsável, carinhoso e só tem vinte e cinco anos. Ele é que pode ser o namorado perfeito para mim!"
O professor Artur encontrou a auxiliar de educação Bernardete a organizar uns livros de ponto e aproximou-se dela.
"Bernardete, eu ouvi a sua música." disse ele.
"E então? Estava muito má?"
"Não, claro que não. Estava óptima! Adorei. É uma música muito animada e tenho a certeza que será um sucesso. Tem de a enviar a uma editora." aconselhou o professor. "De certeza que vão querer fazer um cd com a música. E as outras músicas que escreveu também devem ser muito boas."
"Ah professor, o senhor é muito simpático, mas eu não posso enviar a música a uma editora... a música é apenas engraçada e para divertir. Não tem nenhum valor comercial." disse Bernardete.
"Disparate! Tenho a certeza que a editora ia adorar a música."
"Eu... não, eu não estou confiante nisso. É melhor eu esquecer essa ideia. Nunca serei uma cantora." disse Bernardete. "Mas obrigada por me apoiar na mesma. Agora, com licença, tenho de ir levar este livro de ponto à professora Anabela, que está na biblioteca. Com licença."
Bernardete afastou-se e Artur encolheu os ombros.
"Ela está a desperdiçar o seu talento para a música. Mas não a posso forçar a submeter a música à editora... espere lá! Eu tenho a cassete que ela me deu... e se ela não quer submeter a música por sua própria vontade, eu posso submetê-la. E eles vão ouvir a música e vão adorar. Depois contactam a Bernardete, ela grava um cd, fica super feliz e vai ficar-me sempre agradecida. E depois vamos casar e ter dois filhos..."
O professor Artur continuou a sonhar acordado, apesar de já ter tomado a decisão de ir submeter a música, mesmo sem a aprovação de Bernardete.
Mais tarde, na casa da família de Vanessa, o pai de Vanessa chegou a casa. A esposa, Fernanda, e os filhos estavam na sala.
"Querido, hoje demoraste-te mais." disse Fernanda, olhando para o marido. "Passa-se alguma coisa? Estás com uma cara estranha."
"Fomos todos despedidos da fábrica." anunciou ele. "Despedimento colectivo. Disseram que a fábrica foi à falência."
"Oh, querido..." disse Fernanda, preocupada.
"Mas eles são uns grandes mentirosos! Aqueles empresários todos engravatados estão a mentir-nos. Nós estávamos a ter bastantes encomendas, por isso a fábrica não podia ir assim à falência."
"Provavelmente a fábrica vai mudar-se para um país com mão-de-obra mais barata." disse Vanessa, abanando a cabeça.
"E agora? Como é que vai ser?" perguntou André, zangado. "Eu não quero sair do colégio e ir para uma escola pública! E a minha mesada e as saídas à noite com os amigos, a gastar o dinheiro dos pais? Não quero abdicar disso."
"Cala-te, André!" exclamou Vanessa, zangada. "Não é altura para tu seres egoísta."
"Querido, as coisas hão-de resolver-se." disse Fernanda, encarando o marido.
"Eu vim a casa comer qualquer coisa e buscar um cobertor. Vamos montar um acampamento à frente da fábrica, para impedir que tirem de lá as máquinas." disse Álvaro.
"Pai, mas está frio. E isso não vai ajudar nada." disse Vanessa.
"Ainda temos o ordenado deste mês para receber e as indemnizações também. Se as máquinas forem levadas, depois eles dizem que não têm dinheiro para pagar o que devem, mas por isso mesmo, nenhum dos trabalhadores vai deixar as máquinas saírem da fábrica."
Vanessa e Fernanda não conseguiram dissuadir Álvaro de ir para a frente da fábrica com os outros trabalhadores e minutos depois ele estava a sair de casa novamente. Enquanto isso, noutra ponta da cidade, Sónia estava no seu quarto, pensativa e a andar de um lado para o outro.
"Tenho de arranjar maneira da Vanessa e do Pedro se afastarem um do outro. Aquela cabra deve estar desejosa de namorar com o Pedro e dar o golpe do baú. Mas eu não vou deixar! Eu gosto mesmo dele e ele não me pode trocar assim sem mais nem menos."
Sónia deitou-se na sua cama e pensou durante vários minutos, até que teve uma ideia.
"Sim, é uma ideia. Pode bem ser que resulte. Só tenho de encontrar a pessoa certa para o meu plano."
No dia seguinte, Sónia foi cedo para o colégio. Ao chegar lá, viu Bernardo encostado ao portão, a fumar. Franziu o sobrolho.
"Aquele rapaz é mesmo estúpido. A estragar a saúde a fumar. Hum, mas até não é feio... se calhar ele pode servir para o meu plano. Acho que com algum dinheiro, ele faz o que eu quero." pensou ela.
Sónia aproximou-se de Bernardo, que expeliu uma baforada de fumo para cima da rapariga, deixando-a zangada. A Sónia apetecia-lhe insultar Bernardo logo de seguida, mas conteve-se.
"Ora bem, tu chamas-te Bernardo, não é?" perguntou ela. "És da minha turma."
"Sim, chamo-me Bernardo. E?"
"E eu queria falar contigo. Tenho uma proposta a fazer-te."
Sónia explicou a sua ideia e depois de falar em dinheiro, Bernardo não hesitou em aceitar.
"Vai ser um prazer participar nesse plano. Claro que será um prazer pelo dinheiro que vou receber." disse Bernardo, sorrindo. "Os meus pais são ricos e tudo, mas só me vão dar a mesada daqui a uns dias e já gastei o dinheiro todo que me deram até agora."
"Ainda bem que aceitas. Tem de correr tudo bem, ouviste?"
Alguns minutos depois, as aulas começaram. Só no final de todas as aulas é que o plano de Sónia iria começar. Quando a campainha tocou, anunciando a saída da última aula, Vanessa saiu acompanhada de Mariana e Pedro apressou-se logo a ficar ao lado delas.
"Querem ir tomar um café?" perguntou Pedro. "Eu pago."
"Eu e a Vanessa tínhamos combinado de irmos para minha casa ouvir música e estudar." respondeu Mariana.
"Estudar? As aulas ainda mal começaram. Se quiseres ir embora, eu percebo, Mariana. Mas a Vanessa vem comigo, não vens, Vanessa?"
"Eu... acho que não fazia mal irmos tomar um café." respondeu Vanessa. "Vens connosco, Mariana?"
Pedro parecia tentado a dizer a Mariana para se ir embora e não atrapalhar, mas Mariana acabou por acenar afirmativamente e os três foram até ao bar 48 horas. Sónia e Bernardo seguiram-nos de perto.
"Agora vai lá e faz o que tens a fazer." disse Sónia. "Não, espera aí. É melhor eu ir distrair o Pedro e enquanto eu o distraio, tu avanças."
"Mas a ideia não é ele ver o que se passa?" perguntou Bernardo, confuso.
"Sim, mas… ah, tu não percebes nada! Faz o que eu te disse que eu trato do resto."
Sónia avançou até à mesa onde Pedro, Mariana e Vanessa estavam sentados.
"Pedro, preciso de falar contigo. É importante." disse Sónia.
"Acho que não temos nada para falar." disse Pedro.
"Pedro, por favor, é mesmo importante. Não vai demorar muito."
Pedro hesitou, olhando para Vanessa de seguida, mas ela abanou a cabeça em assentimento e Pedro levantou-se. Sónia afastou-o um pouco da mesa. Bernardo avançou pelo bar e parou ao lado de Vanessa, no preciso momento em que Laura entrava também no bar.
"Vanessa, lindinha, cá estás tu à minha espera. Dá cá um beijo." disse Bernardo.
Logo de seguida, Bernardo beijou Vanessa, que se tentou afastar e não conseguiu. Mariana ficou paralisada, sem saber o que fazer. Laura abriu a boca de espanto.
"Afinal, o que é que queres?" perguntou Pedro a Sónia.
Pedro estava de costas para a mesa onde estivam Vanessa e Mariana e não vira ainda a cena que estava a acontecer.
"É que eu tenho de... ah, olha, mal viras as costas, a Vanessa já começa a beijar outro." disse Sónia, maliciosamente.
Pedro virou-se e viu Bernardo e Vanessa a beijarem-se. Furioso, avançou para eles, enquanto Sónia sorriu.
"Mas o que é isto?" perguntou Pedro, furioso.
Bernardo afastou-se, quebrando o beijo. Vanessa bem se tinha tentado afastar, mas Bernardo tinha-a prendido num beijo forçado.
"Então Pedro, o que é isto pergunto eu." disse Bernardo. "Já um rapaz não pode beijar a sua amada?"
"Amada?" perguntou Pedro, olhando para Vanessa. "Tu namoras com este gajo?"
"Não. Ele é que chegou aqui e me beijou." respondeu Vanessa. "Assim sem mais nem menos."
"Pois é. Eu sou testemunha." disse Mariana.
"Porque é que tu fizeste isso, Bernardo?" perguntou Pedro. "Chamas-te Bernardo, não é? Porque é que beijaste a Vanessa?"
"Porque me apeteceu." respondeu Bernardo.
"Hum... cá para mim, foi a Sónia que o mandou o Bernardo beijar a Vanessa para tu veres, Pedro." disse Mariana.
Pedro virou-se para Sónia, que se mantinha afastada. Segundo depois, Sónia estava sentada numa das cadeiras e estava a confessar tudo, pois Pedro tinha-a obrigado.
"Pronto, fui eu que arranjei este plano, para ver se tu pensavas que a Vanessa andava com outro ou era uma leviana e deixavas de estar interessado nela." admitiu Sónia. "Mas eu só fiz isto porque gosto de ti!"
"Ora, és uma maluca." disse Pedro. "Não quero nada contigo."
No meio da discussão, Bernardo aproveitou para se escapulir dali para fora e acabou por não receber pagamento nenhum. Pedro virou-se para Vanessa e pegou-lhe numa das mãos.
"Vanessa, vá lá, aceitas namorar comigo?"
E assim termina o segundo capítulo da história. Será que Vanessa vai aceitar o pedido de namoro? E Sónia, o que fará agora para conquistar o amado? Estas respostas estão no próximo capítulo. Até lá!
