No dia seguinte, Bilbo e as moças estavam de pé e prontas quando foram levados aos aposentos de Lady Dís para o desjejum. Na mente de Verbena, parecia ser uma situação feminina: a irmã do rei provavelmente era uma matrona cujos modos delicados decididamente iriam desaprovar a atitude despreocupada de Bena e encantar-se com o senso de propriedade e etiqueta de Lobélia.

Ela ficou surpresa quando eles entraram num quarto aconchegante, aos gritos de "Bilbo!" e "Mestre Boggins!", e dois jovens anões quase sufocaram seu tio em abraços apertados.

— Estamos tão felizes por vê-lo!

— Você não mudou nada! Hobbits não envelhecem como humanos? Você deveria parecer um velho decrépito!

Bilbo respondeu, sorrindo:

— Eu também estou muito feliz em vê-los, rapazes. Agora comportem-se pois vou apresentá-los à minha linda sobrinha Lobélia, a prometida de Thorin, e também à mocinha que é meu orgulho e alegria, Verbena. Meninas, estes são os príncipes de Erebor: Fíli, o príncipe herdeiro, e seu irmão Kíli.

— A seu serviço! — Ambos se curvaram longamente, e as moças fizeram mesuras.

Fíli, o alourado, com tranças nos longos bigodes, disse:

— E deixe-nos mostrar o rochedo que mantém a família Durin unida: nossa mãe, Dís.

Lady Dís era uma mulher muito bonita cuja idade era difícil de adivinhar. Ela tinha olhos azuis penetrantes, cabelos muito pretos e roupas simples, mas elegantes. As duas hobbits fizeram uma mesura, e Bilbo se curvou.

— Então este é o famoso Mestre Baggins, de quem meus filhos e meu irmão vivem falando — ela disse, de maneira amistosa. — Bem-vindo a Erebor.

— Bilbo Baggins, a seu serviço, milady. Essas são minhas primas Lobélia e Verbena.

A senhora olhou as moças com um sorriso e comentou:

— Elas são tão adoráveis. Meu irmão tem sorte de se casar com tanta formosura.

Verbena olhou para Lobélia, cujas faces rosadas estavam carmim, e concordou com a senhora: sua prima era mesmo adorável e linda. Com um cabelo louro opaco e olhos castanhos, Verbena era de uma beleza comum. Nenhum rei jamais olharia para ela.

Eles se sentaram, Bilbo entre Lobélia e Verbena, que ficou ao lado do príncipe Kíli. Seu irmão Fíli ficou ao lado da mãe. A dama disse:

— Peço desculpas pela ausência de meu irmão. Ele precisou se ocupar de negócios de estado antes do amanhecer.

Bilbo assegurou:

— Entendo bem. Ele já exerce a função há quase 20 anos. E esse lugar está incrível!

Kíli lembrou:

— Na última vez que viu Erebor, ainda sofríamos a destruição de Smaug.

— E fui a Valle também — completou Bilbo. — Toda a região parece prosperar.

Fíli concordou:

— Muita coisa mudou desde que voltou ao Shire, Mestre Baggins.

— E só para melhor, meu querido rapaz — disse Bilbo. — Estou tão feliz de estar aqui novamente.

Lady Dís virou-se para Lobélia:

— E você, minha querida, o que achou de Erebor?

— Muito bonito, madame. Mas eu adoraria conhecer mais.

A dama assegurou:

— Ficarei encantada em levá-la a uma visita por Erebor, uma reunião de senhoras incluindo uma ida ao mercado, é claro.

Bena logo ficou animada em ver o que a montanha tinha a oferecer, e Lobélia respondeu polidamente:

— Muito gentil de sua parte, milady.

— Oh, é o mínimo que posso fazer, considerando que era meu irmão quem deveria lhe mostrar a montanha, o grande trapalhão.

Kíli indagou à mãe — e Bena podia jurar que nunca vira olhinhos mais convincentes:

— Podemos ir também, Mãe?

— É claro, querido — respondeu ela, em tons adocicados. — Quer dizer, claro, desde que Dwalin libere vocês dois dos treinos de combate.

Bena arregalou os olhos.

— Vocês têm que praticar combate? Mas titio disse que vocês lutaram contra três trolls da montanha!...

— Um bom guerreiro sempre se mantém em forma, Srta. Baggins — disse Fíli, o louro. — Mesmo guerreiros experientes, como meu tio.

Lobélia parecia impressionada:

— O rei também treina combate?

Lady Dís confirmou:

— Meu irmão e eu praticamos todos os dias antes do desjejum. Serão bem-vindos para se juntar a nós, mesmo que apenas para observar.

Bilbo respondeu:

— Posso dar uma passada, obrigado. Vocês dois também vão treinar?

Dís riu baixinho:

—Eses dois? Para praticar cedo assim, seria preciso uma emergência e tanto.

O comentário fez os dois jovens anões ficarem vermelhos. Bena suprimiu um risinho antes de indagar:

— Faz parte de sua cultura? Combate? Ou isso é uma exigência porque são da realeza?

Lady Dís encarou Verbena com um interesse renovado, e respondeu:

— Tem uma boa percepção. Na verdade, você está correta nas duas questões. É parte de nossa cultura, e como realeza, devemos honrar as tradições anãs. Como chegou a essa conclusão?

Bena enrubesceu e respondeu:

— Eu observei tantas pessoas de seu povo portando armas, e fiquei imaginando o motivo, já que vocês não poderiam esperar ser atacados dentro de sua própria montanha.

Dís ergueu uma sobrancelha e observou:

— Muito esperta, mocinha. Faz justiça à reputação de seu tio.

Bena ficou toda orgulhosa por ter sido considerada digna do tio.

Após a refeição, Lady Dís e as moças foram aos mercados de Erebor, famosos por suas belezas e riquezas. Como os príncipes estavam no treino, Verbena não tinha muito com quem conversar, pois roupas e badulaques não eram de seu interesse. Contudo, ela estava ansiosa por conhecer tudo da montanha. Assim, quando a oportunidade se fez, ela e o tio Bilbo escaparam da visita direto para a biblioteca do reino.

Lá eles encontraram Ori, o escriba, que também havia sido da companhia, e era velho amigo de Bilbo. Bena ouviu enquanto seu tio e o doce anão trocaram recordações de sua jornada cheia de aventuras. Após algum tempo, Bena estava entretida com um livro e pediu desculpas para lê-lo em outro lugar.

Bena tinha toda intenção de voltar a seus aposentos, mas seus olhos capturaram uma porta aberta e luz saía dela. Era luz natural, a primeira luz verdadeira que ela via dentro da montanha. A porta tinha um aviso numa língua que Bena não conhecia. Assim, ela entrou porta adentro, encontrando escadas que subiam. Ela as seguiu, sempre se guiando pela luz.

Um longo lance de escadas depois e ela se viu nas muralhas de Erebor, encarando todo o vale do topo de uma das reentrâncias da montanha. Por um momento, Bena deixou-se tomar pela brisa gelada e a magnífica vista da cidade de Valle e do Rio Corrente.

Era uma paisagem muito bonita, e perigosa, pois que Bena estava a apenas um passo de uma queda de centenas de metros de altura. Ela até se esqueceu do livro que carregava, em transe com o cenário magnífico, completo com o sol pálido de inverno. Ela estava tão absorta na beleza a seus pés que não ouviu a aproximação do anão. Quando a sua voz profunda soou, Bena quase teve um ataque.

— Quem é você? — disse ele. — O que faz aqui?

Ela se virou para olhar um anão alto, e muito impressionante, vestido em trajes oficiais, e tremendo, ela respondeu, curvando-se:

— Sinto muito, Mestre Anão. Meu nome é Bena, apelido de Verbena.

Ríspido, ele disse:

— Posso ver que é uma hobbit. É a prima do Mestre Baggins? A prometida do rei?

— Embora eu chame Bilbo de tio, sou de fato sua prima — disse ela. — Mas a prometida do rei é minha prima Lobélia. Eu não tenho chance contra ela.

Ele a encarou, cenho franzido, e quis saber:

— Por que não? Parece bonita, eu acho.

— Não sou muito de política e essas coisas. Além disso, Lobélia é uma dama perfeita, com modos melhores que os meus, e ela está bem ansiosa para ser rainha, ao contrário de mim.

O anão armou um sorriso irônico:

— Eu poderia jurar que ser rainha é o sonho de qualquer mulher. Mesmo senhoritas da raça dos hobbits.

Bena deu de ombros, respondendo, sorrindo:

— Tio Bilbo sempre diz que eu não sou uma garota hobbit comum. E é preciso também considerar o rei.

— O que tem o rei? Vê algum defeito nele?

Bena ficou horrorizada de ter ofendido o rei do homem, mesmo sem intenção, e apressou-se em explicar:

— Oh, Por favor, Mestre Anão, eu não quis desrespeitar seu rei, de maneira nenhuma. Meu tio o admira muito, e tem muito orgulho em ser chamado de amigo por Sua Majestade. Apenas quis dizer que eu gostaria de levar os sentimentos do rei em consideração. Num casamento político, essas coisas jamais são consideradas. Meu tio diz que o rei já fez tanto por seu povo, e não é justo que ele se case por outra razão do que por amor.

O anão comentou, pesadamente:

— Bom, este é preço da coroa.

— E eu ainda digo que não é justo. Viu só? Eu nada sei sobre política. Sei que reis não são pessoas comuns, mas eles também devem ter direito a alguma felicidade, não acha? Além disso, o Rei Thorin é considerado um grande herói – fez tantos sacrifícios por seu povo. Acho que ele merece ser feliz.

O homem a encarou por alguns segundos, tantos que deixou Bena desconfortável. Ela estava a ponto de fazer um comentário quando ele observou rispidamente:

— Vejo que está com um livro, então deduzo que possa ler. Não viu o aviso?

— Não sei ler sua língua, senhor. Se eu entrei em algum lugar proibido, eu me desculpo e vou embora. Mas é uma pena, porque sentirei falta desta vista linda. O que está escrito no aviso?

— "Apenas pessoas autorizadas." Mas posso arranjar uma permissão para você, se quiser.

— Oh, por favor, eu não quero que fique encrencado com o rei.

Ele trocou toda sua rispidez por curiosidade e quis saber:

— Por que diz isso?

— Bem, já que está usando as cores do rei e uma armadura, deduzo que seja um dos guardas reais. E o rei pode ser bem temperamental, pelo que disse o Tio Bilbo. — Os olhos dela se arregalaram quando ela se deu conta do que disse. — Oh, por favor, não diga a meu tio que eu disse isso. Nem ao rei, por favor, senhor!

Pela primeira vez, o homem sorriu para ela, garantindo:

— Está bem. O rei não ouvirá uma palavra de mim.

— Obrigada. Então, como eu dizia, se o senhor fizer tal pedido a meu favor quando Sua Majestade estiver de mau humor, pode ficar encrencado e isso seria minha culpa! Eu não quero isso.

Mais uma vez, o anão a encarou de maneira deliberada, e Bena observou seus olhos azuis muito profundos. Embora o homem tivesse um nariz grande, não parecia com nenhum dos anões que ela conhecia até agora. Mas, aquilo só provava a Bena que havia diversidade em todas as raças.

— Eu não ficarei encrencado — garantiu ele. — Mas eu suspeito que você possa já estar em apuros, Srta. Bena. Pelo que sei, haverá um banquete com o rei esta noite. Seu tio não vai sentir sua falta?

— Ai minha Senhora Yavanna! — Ela arregalou os olhos e levou as mãos às faces. — Tem razão, Sr. Guarda: tio Bilbo ficará bravo se eu atrasá-los! É melhor eu ir! Adeus, Sr. Guarda, e obrigada! Espero vê-lo de novo quando eu conhecer o rei!

— Não! Espere!

Ele parecia querer falar mais alguma coisa, mas Verbena correu para fora da sacada, preocupada que seu tio ficasse nervoso com sua ausência. Levou algum tempo até ela se dar conta de três coisas: ela deixara o guarda falando sozinho, ela tinha sido grosseira em fazer isso, e ele tinha sido amável com ela, embora um pouco mal-humorado. "Faz sentindo: um guarda mal-humorado para um rei mal-humorado", pensou ela, com um sorriso.

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Como Bena temia, seu tio Bilbo estava muito nervoso.

— Onde é que você estava?!

Ela explicou:

— Só fui explorar a montanha, tio. Desculpe.

Lobélia indagou, furiosa:

— Você se esqueceu que fomos convidados a um banquete com o rei hoje à noite? Você perdeu os príncipes: eles se encontraram conosco depois!

— Não me esqueci, mas fiquei distraída. Conheci um dos guardas reais, um homem bem simpático — disse Bena. — Ele foi muito atencioso.

A prima queria saber:

— Ele falou alguma coisa sobre Sua Majestade? Oh, estou ansiosa para conhecer meu marido!

Tio Bilbo lembrou:

Futuro marido. E você ainda pode recusar a corte.

— Por que eu faria isso? Espero que seja uma corte curta, porque mal posso esperar para ser rainha!

— Para isso acontecer, primeiras impressões são importantes — insistiu Tio Bilbo. — Quero vocês duas impecáveis esta noite. Não podemos desapontar a família real ou o Rei Thorin.

Lobélia brincou:

— Se os anões lançarem uma moda de moças hobbits, depois que o rei deles se casar comigo, talvez possamos arranjar você com um dos príncipes, prima querida. Eles parecem bem apanhados… para anões, eu acho.

— E deixar Titio sozinho em Bag End? — Bena sorriu. — Eu não ia querer fazer isso.

Bilbo disse:

— Ora, não deixe seu velho tio ficar no caminho de sua felicidade, querida Bena. Só quero que seja feliz, seja com Fíli, Kíli ou qualquer rapaz, de Erebor ou do Shire.

— Mas eu estou feliz, tio — garantiu ela. — Essa viagem tem sido maravilhosa, e temos vivido tantas aventuras!

Lobélia arrematou:

— Bem, é melhor não termos aventuras demais antes que eu tenha uma chance de conhecer meu future marido. Agora se apresse, Verbena: não podemos dar má impressão à família real.

Não havia motivo de apreensão, garantiu Bilbo, enquanto acompanhava as duas moças quando Balin veio buscá-los. Bena estava em seu vestido verde, e ele combinava muito bem com seus olhos castanhos. Lobélia estava num deslumbrante vestido azul, nas cores da Linhagem de Durin. Balin elogiou as duas moças e as guiou ao salão de banquetes.

Um guarda abriu as portas, e o trio de hobbits entrou no salão, que estava rapidamente se enchendo de gente. Balin cochichou com o proclamador, que então gritou para todo o salão:

— O Honorável Bilbo Baggins do Shire, sua protegida Verbena, e a Lady Lobélia Sackville!

Houve um burburinho quando o salão inteiro se virou para vê-los, e Bena queria se esconder atrás de Bilbo. E então uma voz conhecida gritou:

— Mestre Boggins!

Bena viu seu tio sorrir com grande afeição quando dois jovens anões conhecidos, em ricos trajes, correram até eles.

— Oh, rapazes! — Bilbo saudou-os. — Então vocês terminaram se juntando à excursão com sua mãe?

— Sim — disse Fíli. — Mas sentimos sua falta, e a da Srta. Verbena.

— Só Bena, por favor — pediu a moça. — Sinto ter perdido o passeio, mas ouvi falar de uma biblioteca...

Kíli soltou uma risada:

— Oh, parece que sua sobrinha tem muito em comum com você, Bilbo.

O hobbit disse:

— Temo que minhas manias de solteirão tenham passado para Bena, Kíli.

A moça deu de ombros:

— Adoro ler. Não perderia a chance de ver aquela biblioteca impressionante.

— Oh Mahal — disse Fíli, sorrindo. — Aposto como Ori adorou você!

— Ele foi muito simpático e prestativo.

Kíli comentou:

— Mamãe e a Lady Lobélia fizeram uma aparição e tanto no Mercado.

Lobélia corou de maneira casta. Olhando para o lado, Fíli apontou:

— Oh, aí vêm Mamãe e meu tio.

O rei!

Lobélia ficou ainda mais corada de expectativa e o proclamador anunciou:

— A Princesa Dís e Thorin, filho de Thráin, filho de Thrór, Rei Sob a Montanha!

O salão inteiro se ajoelhou respeitosamente, à exceção dos príncipes. Kíli disse:

— Não precisa se ajoelhar, Mestre Baggins. Você é Khazâd-bahel.

Bena lembrou-se do que seu tio lhe dissera: Thorin lhe dera o título oficial de Maior Amigo de Todos os Anões. Aparentemente Bilbo se esquecera disso. Verbena manteve sua cabeça baixa e então ouviu uma voz profunda e conhecida saudando:

— Meu caro Bilbo...!

— Thorin, meu velho amigo!

Muitas coisas aconteceram ao mesmo tempo.

Erguendo a cabeça,Verbena viu seu tio abraçar um anão alto ao lado da Lady Dís. O referido anão usava uma coroa extravagante na cabeça, e então o anão coroado sorria para seu tio, mas Bena reconheceu o anão como o guarda que ela conhecera há poucas horas no parapeito da muralha. E foi aí que o coração de Bena parou e seu cérebro disparou.

O guarda não era um guarda.

O guarda era o rei.

Ninguém menos que o Rei Thorin em pessoa.

Bena pediu à Senhora Verde para abrir um buraco na montanha, um capaz de engoli-la, tamanha sua vergonha. Ela manteve a cabeça baixa, tentando esconder-se, quando a Lady Dís apresentou:

— Irmão, deixe-me apresentá-lo à graciosa Lady Lobélia e sua prima Verbena.

O rei tomou a mão de Lobélia e beijou-a, saudando com um sorriso:

— Minha senhora, bem-vinda a Erebor.

O coração de Bena acelerou perigosamente quando, ainda de cabeça baixa, ela ouviu:

— E aí está você, Srta. Verbena. Espero que não pense mal de mim, mas a senhorita saiu tão apressada que não pude esclarecer as coisas e me apresentar adequadamente.

Bilbo estava admirado:

— Vocês já se conhecem?

Bena estava vermelha feito um pimentão ao tentar explicar:

— Foi um engano...

O rei tentou suavizar a confusão:

— Parece que, de algum jeito, a Srta. Verbena encontrou minha sacada privada, e confundiu-me com um membro da guarda real.

Bena estava mortificada, ainda mais que o Rei Thorin parecia estar se divertindo imensamente com a situação. Ela tentou explicar:

— Eu não tive intenção de ofender Vossa Majestade...

A majestade em questão achava tudo muito engraçado, e respondeu:

— Isso ficou bem claro, menina, não se preocupe.

Algo na atitude dele fez o sangue de Bena ferver de raiva por ser alvo de uma piada. Asperamente, ela retorquiu, da maneira áspera que às vezes os Baggins costumavam ser:

— Nesse caso, talvez uma atitude mais nobre teria sido se Vossa Majestade tivesse esclarecido tudo logo no início.

Surpresa, Lady Dís voltou-se para Bena, que continuava vermelha, mas desta vez não só de vergonha, mas também de raiva. Foi quando o rei curvou a cabeça, buscando acalmar os ânimos:

— Paz, Srta. Verbena. Mantenho minha palavra. Tem minha permissão para frequentar a sacada sempre que quiser.

Ainda irritada, Bena fez uma mesura com sarcasmo:

— É muito generoso de sua parte, Majestade.

Houve sorrisos diplomáticos, e Bena se encolheu ao ver os olhos de Lobélia brilhando de fúria por seu futuro noivo ter conversado com ela antes do encontro com sua prometida. Bena sabia que haveria um diálogo tenso quando chegassem à privacidade de seus aposentos.

O grupo se deslocou para a mesa: o rei ficou entre Bilbo e Lobélia, Bena ao lado de Bilbo, Lady Dís ao lado de Lobélia e Fíli e Kíli do outro lado de Bena.

Durante todo o banquete, Bena evitou olhar para o rei, ainda envergonhada pelo Kíli como Fíli a distraíram, mas sua mente sempre voltava para aquele momento. Bena esperava não ter prejudicado a corte de Lobélia.

Como ela estava determinada a evitar o Rei Thorin, Bena jamais notou que cada vez que o rei se dirigia a Bilbo, seus olhos procuravam Bena. Então ele se virava para Lobélia, sorria e voltava a olhar para Bilbo, tentando atrair o olhar de Bena.

Quando o banquete foi encerrado e todos saíram, Bena sabia que teria que se explicar à prima. Ela esperou até que tivessem entrado nos seus aposentos para dizer:

— Lobélia... Desculpe.

A prima estava irritada, mas não agressiva quando ressaltou:

— Estou chateada que você o tenha encontrado primeiro, mas por que se desculpa? Não foi sua culpa.

— Eu sei, mas eu fui ríspida com ele antes do jantar — disse Bena nervosamente. — Ele pode ter se irritado.

Seu tio tentou acalmá-la:

— Thorin estava brincando. É bom saber que ele finalmente desenvolveu um senso de humor. E então, Lobélia, o que tem a dizer?

— Eu digo que Bena não tem culpa, tio — disse a outra moça. — Ela não tinha como saber que aquele homem era o rei.

— Não, eu quis dizer sobre Thorin. O que acha de cortejá-lo, agora que o conhece?

Ela deu de ombros, respondendo sem convicção:

— Ele é legal, acho.

— Legal? — Bena estava abismada. — Ele é muito mais, eu acho. Alegre-se, prima. Ele não é surdo, nem desdentado, nem anda de bengala. Não é verdade?

As duas moças trocaram risinhos e Bilbo as encarou, sem entender. — Do que vocês estão falando?

As duas caíram na gargalhada, lembrando-se das conversas anteriores sobre os temores de Lobélia de que Thorin fosse um anão velho e caquético. Quando elas disseram isso ao tio, Bilbo também gargalhou gostosamente.