Quando abri os olhos, olhei tudo com confusão, o lugar era terrivelmente familiar, não estava na loja de Madame Malkin? O que eu fazia ali em vez de Azkaban?
Comecei a olhar ao redor e encontrei um espelho, o meu queixo caiu e vi a mim mesmo pasmo... mas, com só onze ou doze anos... parecia um anjinho, com esses cabelos loiros, essa pele suave e aveludada, sem todas as rugas que tinha visto só alguns momentos antes no espelho daquele quarto em Azkaban.
Levantei a mão e acariciei meu rosto, tentando me assegurar que tudo não era produto da minha imaginação ou se não estava sonhando na minha cela, como tantas outras vezes.
Tive que me beliscar forte, e deixei sair um gemido de dor, olhei meu braço e quando afastei a manga rapidamente, estava vermelho pelo beliscão e certamente teria um hematoma feio, mas não tinha rastros da marca negra.
Nesse mesmo momento, escutei a voz de Madame Malkin.
- Hogwarts, querido? Tenho muitos por aqui... de fato, outro jovenzinho está tirando as medidas agora.
Draco viu aquele menininho mal vestido, mas com os olhos mais lindos que já tinha visto em sua vida, inconscientemente levou sua mão aos lábios se lembrando do suave toque dos lábios de Harry, piscando nervoso.
- Olá, você também vai pra Hogwarts?
- Sim. - A cálida, mas ainda infantil, voz do futuro Gryffindor fez com que seu corpo tremesse, não sentia desejo físico, e se obrigou a lembrar que não podia sentir porque nesse momento só tinha onze anos.
- Meu pai está na loja ao lado e minha mãe foi ver varinhas. - Disse, sem me dar conta. - Logo vou levá-los pra ver vassouras de corrido. Não seu porque os alunos do primeiro ano não podem ter uma própria... - Me detive por um momento, isso estava errado, estava soando tão pedante e convencido como eu me lembrava. - Mas, deve ter uma razão, certo?
Vi como o menino na minha frente relaxava o cenho que tinha começado a franzir e me sorria timidamente.
- Bem, creio que esperarei até que esteja no segundo ano, como todos os outros. - Acrescentei. - Você tem vassoura própria? - Sabia que não, porque Harry tinha vivido entre os trouxas, mas não sabia como seguir a conversa.
- Não. - Me respondeu o menino, apagando o sorriso.
- Você não joga quadribol, então.
- Não. - Me respondeu novamente, e vi a confusão em sua cara, certamente nem sabia do que eu falava naquele momento.
- Eu sim. - Disse, nervosamente. - Meu pai diz que seria um crime se não me escolhessem para jogar pela minha casa... - Droga, já estava fazendo de novo. - Mas, deve ter outros tão bons quanto eu, e... já sabe em que casa vai estar?
- Não.
- Bom, ninguém sabe realmente até que chegar lá, mas eu vou ser de Slytherin. - Minha voz soou entristecida e Potter me olhou confuso. - Toda a minha família foi para lá... ainda que Hufflepuff, o que acha de Hufflepuff?
- Mmm... - Ele respondeu e entendi que não sabia, de novo, do que eu falava.
- Meu pai diz que Hufflepuff é a pior... mas já não sei... Nossa, olha aquele homem! - Droga, ter onze anos de novo me fez ver Hagrid com medo, e sem querer apontei para ele como tinha feito muitos anos atrás. Segurava dois sorvetes e sorria para Potter com alegria.
- Esse é Hagrid. - Disse, com voz alegre, certamente porque finalmente sabia uma coisa que eu não, bem, pelo menos naquele tempo. - Trabalha em Hogwarts.
- Oh, ouvi falar dele. É uma espécie de zelador, não? - Tarde demais me lembrei que isso ia chatear Potter, e que me olharia com nojo.
- É o Guarda-Bosque. - Me respondeu secamente, falei rápido para emendar o deslize:
- Sério? Isso é genial.
- É, não é?
- Sim, deve conhecer um monte de criaturas interessantes. - Menti, tentando não me lembrar dos Scregutos de rabo explosivo ou do Hipogrifo idiota.
- Ele é brilhante.
- Claro que sim. - Disse, tentando não rir. - Por que está aqui com você? Onde estão seus pais? - Sabia que o entristeceria, mas se não perguntasse seria suspeito.
- Estão mortos.
- Oh, sinto muito. - Disse, e me dei conta que nessa ocasião, sim sentia muito, porque sabia a falta que tinham feito para Potter. Esperei que ele dissesse alguma coisa.
- Você gosta dos trouxas?
- Não. - Respondi, sinceramente, e ele sorriu um pouco.
- Meu pai era um mago e minha mãe uma bruxa. - Disse, me olhando fixamente.
- Meu pai diz que, realmente não deveriam deixar de entrar os outros, o que você acha? Ele diz que não são como nós, que não os educaram com os nossos costumes. Alguns nunca tinham ouvido falar de Hogwarts até que receberam a carta, imagine só. - De novo, me detive, inseguro, o olhei e vi seu rosto sério. Mas, pode ser que o meu pai esteja errado. O que você acha?
Mas antes que Potter pudesse me responder, Madame Malkin disse:
- O seu já está pronto, querido.
Vi Harry descer do pedestal.
- Bem, te verei em Hogwarts, eu suponho. - Disse, para saber se pelo menos me diria seu nome, mas ele só agitou a mão e deixou escapar um leve sorriso, e saiu da loja.
O vi pegar o sorvete das mãos do semi-gigante e se afastar com ele com uma expressão séria.
Diabos, parecia que tinha onze anos de novo, mas me lembrava de tudo que tinha acontecido antes e isso era desconcertante, e ainda que ver o Gryffindor dessa vez fez com que meu coração batera apressado, naquele momento estava feliz, Harry Potter tinha sorrido para mim.
Desci da plataforma quando Madame Malkin tirou minha túnica.
- Algo mais, querido?
- Não, isso é o suficiente. - Disse, baixinho, sem conseguir tirar os olhos da janela, mesmo que não pudesse ver o Gryffindor.
- Mas sua mãe disse que... - Ela começou, e me lembrei que além das túnicas da escola, tinha comprado um monte de coisas daquela vez, coloquei a mão no bolso e achei um monte de galeões nela, tinha pelo menos uma hora antes que meus pais voltassem por mim.
- Não, só isso, volto para pegar logo. - Disse e saí correndo apressadamente da loja. Olhei para os dois lados da rua, não me lembrava exatamente onde tinha visto, mas certamente tinha que estar ali.
Me dirigi a um par de garotos que pareciam mais velhos que eu, e andavam com a mãe e vestiam roupa muggle.
- Com licença. - Disse, me colocando diante da mulher.
- Que menino mais lindo! - Ela exclamou, e evitei rodar os olhos quando muitos dos que passavam viraram para vê-lo.
- Obrigado. - Murmurei, e senti que corava até as orelhas. - Queria saber, como posso mudar meus galeões por dinheiro muggle?
Ela pareceu surpresa.
- Mas você não pode ir ao mundo muggle sozinho, é muito novinho. - Amaldiçoei em silêncio, me lembrando rapidamente que só tinha onze anos.
- Ah! - Disse como se fosse uma criança, e me dei conta que tinha feito um tremendo beicinho.
- O que quer comprar?
- Quero um desses. - Disse, apontando para o jeans que um dos meninos usava.
- Então para isso não precisa sair do Beco Diagonal. - A senhora disse, amavelmente, me tomou pelos ombros e me guiou. - No final da rua, quase ao lado do Olivaras tem uma lojinha pequena, eles vendem.
- Obrigada. - Disse, com meu melhor sorriso.
- Tenha cuidado, certo? - Ela me disse, séria.
- Vou ter. - Assegurei, me lembrando de cada minuto que só tinha onze anos, e que como tinha aprendido com Potter, conseguiria mais coisas com um sorriso do que com o gesto austero que meu pai tinha me ensinado.
A mulher me devolveu o sorriso, e comecei a correr, vi pelas janelas um pouco sujas, que Harry estava no Olivaras, mas não parei, encontrei a lojinha, onde tinha uma garota jovem atendendo, e acho que me reconheceu.
- O que faz um Malfoy na minha loja? - Perguntou, com o cenho franzido. E sim, tinha me reconhecido.
Esbocei meu melhor sorriso.
- Quero dois desses. - Disse, apontando para os jeans dobrados na vitrine. - E duas dessas. - Exclamei, feliz, ao ver as camisetas que o gryffindor usava, mas mais bonitas.
A garota me olhava confusa, mas como nunca deixei de sorrir, por fim ela também o fez, e fez um gesto para que a seguisse. Ao final, terminei comprando muitas coisas, mas quando ela me entregou os pacotes vi um problema, e meu sorriso se apagou da minha cara, ela me olhou confusa.
- O que foi?
- Meu pai vai me matar. - Disse, com horror.
- Ah! - Ela meditou por alguns minutos. - Os encolheremos, ok? Suponho que quer as roupas para Hogwarts, não é? - Assenti. - Então, quando chegar lá, é só pedir para um dos professores que as retorne para o tamanho normal.
- Obrigado. - Disse, e claro, não ia precisar de um professor, era um feitiço simples que dominava perfeitamente. Ela os encolheu e eu os envolvi num lenço e os coloquei no bolso da túnica. - Você foi muito amável, senhorita, voltarei quando possa. - Disse, sem deixar de sorrir.
Depois de poucos passos fora da loja, vi meus pais, parecia que me procuravam e minha garganta se apertou, senti um nó quando tentei engolir saliva. Estavam iguais a quando os recordava em Azkaban, tão jovens e cheios de vida. Meu pai ainda tinha esse olhar carinhoso, que foi se apagando com os anos, enquanto sentia como esse monstro retornava, e que desapareceu quando o Lorde me levou para sua cama.
Muitas vezes me perguntei se o olhar de ódio que meu pai tinha nos últimos anos em que estivemos juntos era porque eu não tinha cumprido suas expectativas ou porque o Lorde tinha me transformado em seu amante e ele não pôde me proteger, muitas vezes quis saber a resposta nas longas noites em Azkaban.
Muitas vezes chorei, me agarrando a ideia que era a última opção, que meu pai me amava tanto quanto eu sempre o amei.
- Dragão! - A voz sempre doce da minha mãe para mim, fez com que me lançasse em seus braços, soluçando, escondi minha cabeça em seu peito, tinha sentido muita falta dos seus carinhos nesses cinco anos.
- Você se perdeu, Draco? - A voz do meu pau soava doce, carinhosa, enquanto acariciava meu cabelo. - Já não precisa, chorar, mas da próxima vez, não se mova do lugar onde te deixarmos, certo?
Meu pai tinha se ajoelhado, e me virado de frente para ele, limpando com seus polegares as lágrimas que escorriam pelas minhas bochechas.
- Está tudo bem, Dragão, eu nunca deixaria que alguma coisa ruim acontecesse com você. - Meu pai disse, sorrindo.
O abracei pelo pescoço.
- Me prometa.
- Eu prometo, pequeno. - Meu pai sorriu.
- Me desculpe, pai. - Pedi com veemência e ele me olhou com surpresa.
- Não tem que se desculpar, meu Dragão.
Mas, eu sabia que tinha muito o que perdoar no futuro, que causaria mais desgostos que nunca antes na vida. E sem querer, esse dia soube a resposta que pedi durante cinco anos na minha cela, chorando naqueles trapos sujos.
Meu pai me amava... só esperava que seguisse amando depois do que eu ia fazer.
- O que meu pequeno quer fazer agora? - Perguntou minha mãe, com doçura.
- Vassouras não. - Meu pai me advertiu. - Te comprarei uma no próximo verão, certo? Uma de último modelo. - Terminou, sussurrando para que a minha mãe não nos escutasse.
- Certo. - Meu pai me olhou surpreso, certamente porque a birra que esperava nunca chegou. - Podemos comprar minha varinha, então? E depois tomar sorvetes na Florish e Botts? Por favor?
Tanto meu pai quanto a minha mãe me olharam com surpresa, e vi o gesto que minha mãe fez, como se quisesse colocar a mão na minha testa.
- Perfeito, compraremos sua varinha, e logo vamos tomar sorvetes. - Meu pai disse, estendendo a mão com receio, mas eu a agarrei e apertei com força. Como em um sonho, me lembrei que na primeira vez, não tinha segurado a mão de nenhum deles, e os tinha advertido irritado, antes de sair da mansão que já não era uma criança. Mas, de verdade, a única coisa que desejava no mundo nesse momento era me agarrar a eles e não soltar nunca mais.
Agarrei a mão de mamãe e os puxei até a loja de Olivaras para comprar minha varinha, tinha sentido muita saudade dela durante cinco longos anos, sempre me perguntando se Potter a teria guardado.
E esse foi o primeiro capítulo! Espero que estejam gostando da fic da Bella como eu.
Nos lemos logo, beijos!
