Parte 1 - Como ficar com ódio de alguém em três dias
Dia 1 - Indo de mal a pior em três turnos
Turno 2 – Terrível
Três jovens corriam, em meio à aparente calma dos outros alunos em volta. Kagome, Thierry e Fábio tentavam atravessar com dificuldade a multidão de pessoas amontoadas na entrada da grande tenda.
– Tem certeza que a gente tá atrasado? – Kagome perguntou.
– Tenho. Dez minutos – Thierry disse, afoito. Fábio guardou seu desprezo à pontualidade excessiva dos outros para si.
Chegando à entrada, viram que o relógio na parede marcava exatamente uma hora e dez minutos, como o de Thierry. No entanto, a entrada ainda estava isolada com a fita de contenção – a mesma usada na cerimônia de abertura da feira.
Os três se olharam, indignados.
– Afe, eu deixei metade do prato – Fábio reclamou, mas não pela comida, e sim pelo desperdício dos 5 reais gastos.
Os três procuraram algum lugar para se sentar próximos à entrada, e esperar que a feira liberasse a passagem para os estudantes.
Encontraram uma vaga encostada na parede, e foram tomando cuidado para não pisarem nos outros estudantes que também estavam aguardando.
– Tanta coisa por nada. Eu até engasguei com o sal! – Thierry disse, com a cabeça encostada na parede.
Decorreram-se vários segundos de silêncio entre os três – o que não era muito normal. Lembrando-se de algo que queria perguntar, Fábio quebrou interrompeu o jejum de palavras:
– É só a gente ficar fora um tempo que os urubus caem matando, né, Ka?
Thierry tentou se manter sério, mas não resistiu à situação e riu. Levou, é claro, um safanão de Kagome na nuca.
– O Aian é só um amigo que eu conheci. – Kagome murmurou – e o trabalho dele é muito bom. Povo enjoado.
– Não faça amizade com o inimigo, Kagome. – Fábio brincou.
– Mas ele não concorre com a gente.
– Como não? O estande dele é ao lado do nosso.
Kagome, ainda sem dar muita atenção para o assunto, comentou:
– Ah, tão falando desse aí? Ele é só um carinha que tá dando em cima de mim.
Thierry olhou para Fábio.
– Vixe! Quer dizer que tem outro? – Os dois riram. Kagome, notando o mal-entendido, riu também, meio sem-jeito. Resolveu entrar na brincadeira, levando tudo na esportiva.
– É, tem sim.
Alguém desatou o fio, e todos – inclusive os três – dispararam para dentro do salão improvisado. Foram pelo corredor principal até achar a "esquina" que dava para o estande deles. Fábio andou enquanto dizia:
– Acho que preciso encontrar um banheiro urgentemente.
O choque dos três foi uniforme: ao fitarem o seu estande, não viram somente livros, pastas e um banner. À frente dele, uma mulher elegante trajava um tailleur e segurava uma pasta com a ficha. A tão temida ficha.
– Avaliadora – foi só o que Kagome conseguiu dizer.
Os três foram rapidamente até o estande, tomando seus lugares ao mesmo tempo em que davam um nervoso "boa tarde" para a mulher.
– Olá – ela respondeu, séria. – Meu nome é Janete – enquanto dizia, os garotos a cumprimentavam com o tal "sorriso ensaiado" – e eu serei uma das avaliadoras de vocês. Eu já li o projeto e achei muito interessante, mas algumas dúvidas ficaram na minha cabeça, sabe?
– Sem problemas. Estamos aqui para responder qualquer dúvida que a senhora tiver – Fábio assegurou.
A apresentação seguiu alternada entre perguntas e respostas, sem muitos prolongamentos. A avaliadora perguntava, mas se restringia a ouvir e acenar com a cabeça durante as explicações.
– Certo – a mulher anotou algumas observações na ficha, e saiu – Obrigada, boa sorte.
Os três ficaram fazendo cara de paisagem até que a mulher sumiu no meio da multidão. Kagome, sem alterar a expressão sorridente, sussurrou apressada:
– Odiou. Ela odiou nosso projeto.
– Como você sabe? – Thierry perguntou.
– Eu também pensei isso, Kagome – Fábio completou – ela não pareceu satisfeita com as respostas. E aquela cara de quem sente cheiro ruim mas não quer demonstrar?
– Ah, gente, sei lá. Acho que nós fomos bem.
– Mas – Kagome interrompeu, rapidamente – não deu tempo de nós mostrarmos o relatório, o caderno de campo... Nada!
– Ela disse que já tinha lido o projeto... Vai que ela...
Thierry parou de falar quando observou a reação das garotas no estande à frente deles: assustada, uma delas sussurrou e apontou para alguém que vinha pela rua dos projetos de Ciências Exatas. Fábio e Kagome acompanharam o olhar do ruivo e viram quem era.
Um homem alto e de expressão austera, trajando um terno preto impecável, vinha ao lado de alguém que Kagome já conhecia.
– Esse deve ser o tal amigo do Aian... – Kagome comentou para si mesma.
– Oi, Kagome – Aian parou na frente do estande. Kagome apresentou seus dois companheiros de projeto, e ele os cumprimentou rapidamente. – Trouxe o amigo que eu te falei. Pessoal, esse é o Sesshoumaru Taisho. Ele é, dentre outras coisas, responsável pela seleção de projetos para a ISF, a feira internacional na Tunísia.
Thierry estendeu a mão, que quase foi esmagada pela força natural do aperto do homem sisudo. Fábio foi a segunda vítima. Por incrível que possa parecer, Kagome não sentiu a mesma "força natural" de sua mão como a face contorcida dos amigos parecia denunciar.
– Eu mostrei o projeto a ele, e ele ficou super interessado na ideia. – Aian falou, em contradição à expressão de chateação do amigo.
Com as mãos juntas à frente do corpo, uma Kagome sorridente iniciou:
– Então, o senhor quer perguntar algo ou prefere uma explicação detalhada desde o início?
– Não, agora não posso. Tenho outros estandes para olhar – ele falou, sem nem olhar no rosto da garota. Que bom que não olhou, porque não gostaria nem um pouco da expressão de Kagome.
Aian também ficou envergonhado. Sesshoumaru começou a andar, e o amigo, sentindo-se obrigado a acompanhá-lo, pediu desculpas já de costas em um sussurro. Fábio e Thierry se reservaram a olhar o rosto vermelho de Kagome. A garota sabia controlar a raiva, mas não os sintomas que ela gerava em seu corpo: ela suava, seus olhos ficavam marejados e o rosto ruborizava. Os dois amigos sabiam que aquele era um momento muito complicado para a garota, e não se arriscariam a fazer piadinhas.
Kagome respirou fundo, e a expressão triste foi sumindo de seu rosto aos poucos. Por sorte – ou adaptação – ela não costumava guardar a raiva por muito tempo. Suspirou e disse, rindo:
– Cada uma, viu?
– Oi. Você 'tá bem? – O garoto do estande ao lado foi e perguntou.
– Não se preocupa, ela fica assim quando passa raiva... – Fábio falou, esquecendo-se momentaneamente do "pé atrás" que tinha com aquele cara. Ao ler o nome no crachá, completou – Izaque.
– Relaxa, você são só mais um grupo que ele aterroriza sem precisar dizer nada. Vocês têm é que se sentir honrados que ele falou alguma coisa.
– Você conhece ele? – Kagome e Thierry perguntaram ao mesmo tempo, mas não em uníssono. Thierry mais atrasado.
– Só de ouvir falar – o garoto respondeu, com ar sábio – O Sesshoumaru Taisho é uma lenda das feiras. Ele fez dois cursos superiores ao mesmo tempo, e já tem um bocado de especialização e tudo. E só tem vinte e dois anos. – ele mesmo balançava a cabeça afirmativamente. – As meninas chamam ele de Sex-shoumaru, e os meninos de Se-achou-maru. É uma onda.
– Ele é um tosco, isso sim – Thierry falou olhando para o lado. – boiola. Foi mal – retratou-se rapidamente.
– Não, por mim tudo bem – Izaque riu. Kagome virou os olhos.
– Isso é inveja. Ele pode ser boçal, mas tem gabarito – Kagome defendeu.
– Tá vendo? Nem mesmo as ofendidas se controlam.
Kagome arregalou os olhos...
– Eu não...
O rapaz foi se afastando com as mãos estendidas em sinal de rendição, e voltou para o seu estande. Thierry e Fábio riram um para o outro, mas pararam quando Kagome os olhou, furiosa.
Mais alguns estudantes pararam no estande de Kagome, e os três fizeram novos amigos à tarde: conheceram pessoas do interior do Rio de Janeiro, do Rio Grande do Sul, entre outros amigos de vários cantos do Brasil. Ela, para falar a verdade, ficou meio suspensa durante toda a tarde. Apresentava o trabalho, conversava, ria e comentava as apresentações com os amigos, quando o visitante saía. Mas foi tudo na base do "sistema automático" – certamente, ela não se lembraria de nenhum detalhe ocorrido naquela tarde. Não depois da saída brusca de Sesshoumaru.
De alguma forma, aquele homem a havia ferido. A raiva passara, mas o ódio não. O ódio, algo mais profundo e destilado que a pura fúria repentina que se conhece como "raiva".
– E aí? Vem com a gente? – Thierry perguntou a ela. Como se fosse arrebatada de seus pensamentos, surgiu à sua frente a imagem de uma turma de jovens. Ela nem lembrava se havia acontecido uma pausa para o lanche, denunciada pelos pacotes de bolinho e as caixinhas de suco jogadas por trás do balcão. Vários estudantes já haviam saído, e a feira ia se esvaziando aos poucos.
– Pode ser... Deixa eu só ligar pro meu pai pra combinar...
– Pra quê? Só estamos te chamando pra ir até a entrada da feira.
– Ah, é? – Ela falou, ainda sem entender. Fábio riu ao constatar a situação da amiga.
– Claro que não, a galera do Rio quer sair com a gente para algum lugar.
– A gente podia ir para o karaokê que tem no hotel deles! – Fábio propôs – A gente pode comer na lanchonete que tem lá dentro, mesmo. Pode ser?
– Legal, vocês podem vir no nosso ônibus! Daí vai todo mundo direto para o hotel – comentou uma das meninas.
– Boa ideia. Pra mim, está ótimo! – Kagome comentou, fingindo empolgação. Não iria perder a oportunidade de ocupar a cabeça com outras coisas que não fossem as palavras ríspidas do tal Taisho e sua expressão maligna de indiferença. Aquela indiferença doentia que a fazia tremer por dentro. – Vai ser uma noite legal.
"Eu espero".
X_X_X_X
Segundo capítulo postado! o/
E o Sesshoumaru apareceu! \o/
Ainda estou esperando reviews (U_U)/
Eu sei que só passou um minuto desde o post do primeiro capítulo ('-')/
Mas... \(T_T)/
Parei (¬¬)/
Mas postem! \(*¬*)/
