Draco Malfoy estava quase que completamente submerso na banheira do seu banheiro privativo na Mansão Malfoy; somente o nariz e os olhos permaneciam fora da água, permitindo que o sonserino respirasse e encarasse o teto. Ele tinha chegado do julgamento e a primeira coisa que fizera foi mandar que um dos elfos domésticos lhe preparasse um banho, ele estava totalmente imundo dos meses em Azkaban.
Já limpo, em sua banheira, a mente de Draco viajava pelos acontecimentos daquela tarde. Draco nunca imaginara que seria completamente perdoado, embora tivesse acreditado que com o uso do Veritaserum, sua pena em Azkaban seria drasticamente reduzida. Mas havia uma voz em sua cabeça que insistia: foi mesmo por isso que você exigiu o uso de soro da verdade, enfrentando seu pai e aceitando se expor frente a dezenas de bruxos?
Ele se lembrou do dia mais cedo, quando aguardava com sua família em uma pequena sala no Ministério da Magia. O chefe dos Aurores, Kingsley Shacklebolt, tinha comentado com o auror recruta (que assumira a missão de vigiar os prisioneiros) que Harry Potter estava presente em todos os julgamentos criminais de Comensais da Morte. Foi poderosa a raiva que o inundou naquele momento, o Santo Potter agora era de fato herói e se sua postura de salvador do mundo já era incrivelmente irritante antes, ainda mais agora que ele derrotara Voldemort.
Bury all your secrets in my skin
Come away with innocence,
And leave me with my sins
The air around me still feels like a cage
And love is just a camouflage
for what resembles rage again...
E então, naquele momento na sala de espera do Ministério, ele lembrou de Potter salvando-o do fogo na sala precisa. Ele já aceitara que ia morrer quando viu Harry voar em sua direção. Primeiro ficou assustadoramente surpreso, depois, sua mente ficou inundada da imutável verdade: aquele era Potter, e Potter nunca deixaria alguém morrer se pudesse evitar. Então, concluiu que ele, Draco Malfoy, também queria impedir qualquer morte ou sofrimento.
Todas as vezes que vira alguém ser morto ou torturado, muitas vezes por seu próprio pai, um sentimento horrível tomava conta de si e ele tinha certeza: desejava ardentemente ter evitado aquilo. Draco Malfoy sabia da horrível verdade, ele tinha exigido Veritaserum para provar a Potter quem ele realmente era. Mostrar que os horrores da guerra tinham transformado aquela criança mimada e egocêntrica, e que ele não tinha o mal e a crueldade dentro de si, por mais que ele próprio tivesse tentado desesperadamente encontrar esse mal há algum tempo atrás.
Na banheira, Draco se lembrou dos olhos intensamente verdes de Harry Potter cravados nele durante todo o julgamento. Provavelmente, vários outros bruxos o encaravam, mas para ele parecia não haver ninguém além de Potter no salão do julgamento. Ele sentia o Eleito o julgando, medindo o valor das suas palavras irreparavelmente verdadeiras. Por que ele era o único que importava?
My heart is just too dark to care.
I can't destroy what isn't there.
Deliver me into my fate
If I'm alone I cannot hate
I don't deserve to have you...
My smile was taken long ago
If I can change I hope I never know
Já há muito tempo Draco tinha compreendido que Harry Potter era uma presença marcante em sua trajetória pessoal. Desde o primeiro ano, quando ele rejeitou sua amizade. Depois a cada vez que se esbarraram em Hogwarts e um impulso incontrolável impelia Draco a provocar aquele garoto de alguma forma. O Santo Potter. Um heroizinho irritante. Por que ele importava tanto?
E o pior, pensou Draco, erguendo-se da água morna da banheira. Saíra daquele julgamento devendo ainda mais do que já devia a Harry Potter. Se antes carregava nas costas o peso de ter a vida salva pelo Eleito, agora devia a ele também sua liberdade. Sem dúvida, fora Potter quem virara todos os presentes ao seu favor. Ele havia testemunhado e votado pelo perdão de Draco, e ninguém queria ficar contra o Homem-Que-Derrotou-Voldemort.
So save your breath, I will not hear.
I think I made it very clear.
You couldn't hate enough to love.
Is that supposed to be enough?
I only wish you weren't my friend.
Then I could hurt you in the end.
I never claimed to be a saint...
My own was banished long ago
It took the death of hope to let you go
Draco enxugou-se com uma toalha macia enquanto encarava a si próprio no espelho. Despois de um banho, ele ainda tinha a beleza própria de um Malfoy. É verdade, porém, que as olheiras tomavam seu rosto e seu corpo estava mais magro do que jamais tinha sido. Ele lembrou da sua mãe, que a essa altura já deveria estar sendo enviada de volta a Azkaban. Sua mãe o amava, apesar de todos os crimes que ela cometera. Um amor profundo e incondicional. E ele a amava também, sentia muito por vê-la sofrer em Azkaban.
Seu pai, ao contrário, ele sentia que merecia. Tudo o que vira seu pai fazer, sem qualquer remorso, era horrível demais para ser perdoado, até pelo próprio filho. Ele tinha uma prazer sádico na dor dos outros que assustava o sonserino. Além disso, Draco sabia que o que seu pai sentia por ele não era amor. Quando era mais novo, acreditava que seu pai o amava, no entanto, posteriormente, ficou claro que seu pai o via como uma maneira de perpetuar o bom nome da família Malfoy. Era isso que Draco era para Lúcio, um herdeiro, não um filho.
Depois de vestido, ele se encaminhou para a sala de jantar, onde os Elfos Domésticos já haviam preparado a refeição. Ele sentou-se sozinho, sentindo-se engolido por aquela Mansão. Amanhã mesmo, ele decidiu, iria procurar outro lugar pra morar. Jamais conseguiria permanecer naquele local que fora palco de tanto sofrimento, dele e de tantos outros: trouxas, bruxos, elfos. Dos porões, ele ouvia ainda o eco dos gritos de dor das pessoas sendo torturadas. Nos corredores, ele via ainda o vislumbre de Voldemort caminhando, com seu rosto ofídico.
Ele comeu rapidamente, pois logo após a primeira garfada percebeu o quanto estava faminto. No entanto, quando pousou o garfo na mesa, viu Narcisa Malfoy adentrar o cômodo.
- Mãe. – ele exclamou.
- Draco. – Narcisa sorria com amor para seu filho, correndo em sua direção para abraça-lo.
Os dois ficaram alguns segundos abraçados e Draco buscava absorver o que tinha acontecido.
- Ele perdoou você? – o garoto estava incrédulo.
Narcisa sabia a quem o filho se referia.
- Nem Potter poderia fazer isso, filho. Eu não podia me dar ao luxo de me submeter ao soro da verdade. – a mãe disse, pesarosa. – Eu tenho muitas mortes nas costas, Draco.
- Então, o que está fazendo aqui?
- O garoto propôs um regime domiciliar pra mim. Eu estou presa, mas não em Azkaban e sim aqui, na Mansão. – a mãe explicou. – eu não posso usar magia, não tenho mais varinha. E agora tenho um rastreador.
- Como o dos bruxos menores de idade? – questionou Draco.
- Não. – ela contou. – O meu está ligado diretamente a minha magia. Outras pessoas podem lançar feitiços aqui em casa e o Ministério saberá que foi outro bruxo que não eu.
Draco estava completamente confuso e surpreso. Por que Harry iria virar um tribunal a favor de sua mãe? Entendia que tivesse feito isso por ele, quando o ouviu dizer o quanto se arrependia de seus atos e o quanto não queria ser um comensal da morte, tudo isso sob o efeito de Veritaserum. Mas certamente isso não se aplicava a sua mãe.
- Eu não entendo. Ouvi dizer que ele não estava se manifestando a favor de nenhum comensal... – o garoto verbalizou suas dúvidas.
A mãe sentou-se à mesa, junto do garoto e pediu que um Elfo lhe servisse um prato.
- Tem uma coisa que você não sabe, Draco. – Narcisa começou a contar. – Na última batalha, quando Lorde das Trevas lançou o Avada Kedavra no garoto Potter, ele me mandou verificar se ele tinha de fato morrido. Quando me aproximei, percebi que ele estava vivo, mas já não estava mais me importando qual seria o desfecho daquela guerra. Eu perguntei a ele se você estava vivo, ele sinalizou que sim, e então eu menti para o Lorde das Trevas. Disse que Potter estava morto.
Draco não estava exatamente surpreso com a atitude da mãe. Sabia que ela o amava mais do que qualquer outra coisa. Sabia também que a fidelidade dela ao Lorde das Trevas não era real, ela era totalmente fiel apenas a ideologia que ele defendia. Sua mãe acreditava de corpo e alma na superioridade dos bruxos, na pureza do sangue, e na liberdade de uso das artes das trevas. Porém, no momento no qual Voldemort reduziu sua família a nada, a orgulhosa Narcisa Malfoy já estava ao lado do Lorde das Trevas apenas por medo.
- Foi por isso que Potter testemunhou ao meu favor e pediu por um regime mais brando. – a mãe contou. – Seu pai foi enviado para Azkaban, prisão perpétua. Nunca mais vou vê-lo.
Draco sabia que a mãe não se importava realmente com Lúcio, ele certamente queria mais é que o pai pagasse por seus crimes em Azkaban. Agora Narcisa não era mais uma mulher livre. Mas ainda poderia viver com conforto e ter ao seu lado o filho. O sentimento de gratidão à Potter amargou sua garganta novamente. O sonserino não queria lhe dever tanto.
- Eu estou muito bem filho. – a mãe o tranquilizou, imaginando talvez que o desassossego em seu rosto tivesse sido por Narcisa ter dito que nunca mais veria o marido. – Isso é melhor do que qualquer coisa que eu poderia esperar. Aliás, Potter me deu o melhor presente que poderia ter dado, a sua liberdade. Você não tem mais qualquer dívida com a justiça, pode construir um futuro.
Graçar a Potter, Draco pensou, contrariado.
- O que foi, Draco? – Narcisa questionou. – Por que não está feliz?
- Eu estou. – ele mentiu, depois deixou a verdade escapar, antes que pudesse pensar no que dizia. – Eu só não queria dever nada a ele.
- Draco, deixe esse orgulho de lado. – Narcisa aconselhou.
Draco ergueu as sobrancelhas de surpresa, nunca imaginou ouvir sua mãe dizer pra ele deixar o orgulho de lado. Narcisa era conhecida por ser uma mulher bastante orgulhosa. A mãe riu com a surpresa do filho.
- Eu sei que é estranho me ouvir dizer isso, filho! – Narcisa falou. – Se tem uma coisa que essa guerra me ensinou foi que felicidade não tem nada a ver com o bom nome da família Malfoy. Eu quero que você seja feliz, Draco. Você, meu filho. Não o meu herdeiro.
- Quem é você e o que fez com a minha mãe? – Draco brincou.
- Estou falando sério, Draco. – a mãe lhe sorriu. – A guerra acabou, a comunidade bruxa está se reconstruindo. Seja parte desse novo mundo. Recomece. Você ainda é muito jovem meu filho, deixe tudo isso para trás. Pode ser tarde demais pra mim, mas não é pra você.
Mais tarde, deitado em seu quarto, antes de dormir, Draco pensou no conselho da mãe. O garoto realmente queria recomeçar, estudar, conquistar um lugar no mundo. O seu orgulho, no entanto, ele não conseguia deixar de lado. Ele lembrou-se novamente da maneira como Potter o encarava em seu julgamento. Era pena o que ele tinha visto, tão nitidamente naqueles olhos verdes?
Ele não queria a pena de Potter. Draco sentia que quanto mais ele devia ao Menino-Que-Sobreviveu, mas distante estava dele. Como se mergulhasse cada vez mais em um abismo, encarando o outro em seu pedestal. Até o dia em que Potter nem mesmo se lembrasse de olhar pra baixo. Uma vozinha o incomodou em sua mente: "Por que você se importa tanto, Draco Malfoy".
So break yourself against my stones
And spit your pity in my soul
My love was punished long ago
If you still care, don't ever let me know.
