Capitulo II

Tiago correu os olhos de uma irmã para a outra. No passado, as garotas Evans eram tão pare­cidas que os estranhos as confundiam. O tempo alterara esse fato. Petúnia adquirira um aspecto matronal. Seu rosto, antes bonito e risonho, apresentava agora uma expressão azeda, como se o mundo fosse um lugar que não lhe agradasse.

Quanto a Lílian, tornara-se ainda mais bonita. Tiago devia odiá-la por isso, mas, ao contrário, descobriu que odia­va era a si mesmo por ainda se sentir afetado pela beleza daquela mulher. Por que ela não se tornara feia e gorda naqueles sete anos? Ou ao menos por que não se casara e fora morar em outro lugar?

Olhando para o objeto de seus pensamentos, verificou que Lílian o encarava. Piscou então um olho maliciosa­mente para ela que, corando, mordeu o lábio inferior.

Pela expressão de pânico no olhar dela, Tiago sabia que estava rezando para que não tivesse percebido que Petúnia a tratara por Lílian Evans, e não pelo sobrenome de um possível marido. Isso significava que ela não se casara desde que ele partira de Landing. Devagar, seus olhos per­correram o corpo esbelto, mas de curvas voluptuosas, vol­tando depois a pousar no rostinho encantador. Com certeza não era a aparência que mantinha os homens desinteres­sados. Além disso, Tiago lembrava-se muito bem do gosto daquela boca carnuda e da sensualidade que ela não conseguira controlar. Fatores que não deviam ter contribuído para seu estado de celibato, também. Sete anos antes, Lílian não sabia o que se passava entre um homem e uma mulher, mas estivera ansiosa para experimentar o máximo que as convenções permitiam a um casal fora do matrimonio. E, como ele bem lembrava, mostrara-se disposta a ir até mais longe. O pensamento provocou uma onda de desejo em Tiago, fazendo-o praguejar mentalmente. Mas, então, qual a razão de estar ainda solteira?

A voz aguda de Petúnia veio arrancá-lo da divagação.

— Então, o senhor sabe quem sou? — ela perguntou pela segunda vez.

Tiago, porém, não tinha mais paciência para aquele tipo de jogo. Voltando para sua escrivaninha, endireitou a ca­deira e sentou-se, pondo-se a examinar alguns papéis.

— Lembro-me de tudo a seu respeito, Petúnia, inclusive aquela vez que você saiu correndo da igreja, tão aflita que não viu o esterco no caminho. Escorregou, caiu e seu vestido ficou imundo. Depois você ficou chorando porque ninguém queria sentar-se a seu lado, por causa do mau cheiro.

Petúnia ficou roxa. Pelo canto do olho, Tiago captou a expressão chocada de Lílian e suspirou, pensando se não teria sido por demais estúpido. Mas, afinal, que importância tinha isso? Petúnia era mais nova do que as outras crianças de quem fora colega na escola, mas a pouca idade não a impedira de juntar-se à turma que gostava de provocá-lo. Aos cinco anos, ela havia cantado o refrão com que o ator­mentavam: "Tiago é um bastardo!" Lílian, ao contrário, fora uma das poucas a nunca compactuara da brincadeira cruel, voltando as costas aos demais.

A caçoada tinha perdurado até Tiago ficar forte o bas­tante para surrar qualquer garoto idiota demais para não manter a boca fechada, e até tornar-se tão bonito que as garotas simplesmente se derretiam por ele. Mas nunca apa­gou da memória a triste lembrança.

Empertigando-se toda, Petúnia aproximou-se da escrivaninha. A raiva que sentia era quase palpável, mas não im­pressionou Tiago, que se manteve impassível. Lílian, po­rém, parecia abalada.

— Pois fique sabendo que meu marido é uma pessoa muito influente nesta cidade.

— Por que será que isso não me surpreende? — Tiago sorriu, expondo a charmosa covinha.

— Você não vai durar muito como xerife, Tiago Potter. Vou cuidar disso pessoalmente. — Ela apontou para a caixa sobre a mesa: — Não se preocupe em desencaixotar suas coisas. Vai estar de partida antes do pôr-do-sol. — Em se­guida, voltou-se para Lílian — Quanto a você, fico feliz por papai ter morrido e não estar aqui para vê-la cobrir a família de vergonha.

Com essas palavras, Petúnia girou nos calcanhares e re­tirou-se. Observando-lhe a partida, Tiago ficou pensando nas mudanças que tinham acontecido em Landing desde que ele se fora. Novas construções haviam surgido na rua principal. A maioria das pessoas que encontrara até então era estranha para ele. Mas algumas coisas havia contado como certas: encontrar problemas, e o velho Evans estar presente para infernizar-lhe a vida. Tinha passado muitos anos tentando odiar o homem, mas acabara descobrindo que isso era impossível. Afinal, era o pai de Lílian. E Tiago sabia que, no lugar do outro, tendo uma filha como Lílian, ele próprio não permitiria que alguém como o ra­paz que fora um dia se aproximasse dela.

— Sinto muito pelo seu pai — falou então. — Não sabia que tinha falecido.

Lílian ficou surpresa.

— Obrigada — respondeu. — Ele faleceu há cinco anos.

— Quem toma conta da loja, agora? O marido de Petúnia?

Dessa vez Lílian deu risada. O riso dela sempre fizera Tiago pensar em dias lindos de verão. Não sabia por que, mas naquele momento, veio à sua lembrança a imagem dos dois sentados na relva à margem do pequeno rio que corria a leste da cidade. De Lílian com os cabelos dourados soltos sobre os ombros, os olhos esverdeados olhando-o com ado­ração. Tiago afastou a recordação inoportuna. Não tinha tempo nem interesse para relembrar o passado, e se o fi­zesse, seria melhor recordar a última hora passada ao lado dela, antes de deixar a cidade. Aquilo seria o bastante para impedir qualquer homem de ficar alimentando sonhos.

— Petúnia casou-se com um pastor — estava explicando Lílian. — Um religioso, Walter Dusley. Acho que já estava por aqui antes de você partir. É mais ou menos da sua altura, mas gordo feito um leitão. — Ela deu uma risadinha. — Bem, acho que naquela época não devia ser tanto.

Tiago retribuiu o sorriso.

— Um ministro? Combina com ela. Estou surpreso por você também não ter se casado com um, Lílian Evans.

Um forte rubor assomou às faces aveludadas de Lílian, e ela engoliu em seco. Contra a vontade, o olhar de Tiago foi atraído para a boca sensual, cujo lábio inferior era bem mais cheio do que o superior. Lembrou-se de que costumava provocá-la, dizendo que isso lhe dava a aparência de estar sempre a fazer "beicinho", e das coisas deliciosas que aquele "beicinho" lhe dava vontade de fazer.

"Pare com isso!", censurou-se. Não podia ficar rebuscando o passado e encontrando boas lembranças. Tinha de agar­rar-se à raiva diante do que ela lhe fizera, pelo menos até acostumar-se à idéia de vê-la outra vez.

— Eu nunca falei que era casada — defendeu-se Lílian, nervosa. — Foi você quem presumiu isso.

— Então nenhum de nós dois se casou.

— O que não quer dizer que fiquei esperando por você — ela apressou-se a esclarecer, altiva.

Essas palavras provocaram uma nova descoberta. Mesmo depois de tantos anos, Lílian ainda tinha o poder de ma­goá-lo. Evidente que não o havia esquecido. Tinha deixado muito claro o que pensava de sua proposta de casamento, naquela última vez. A dolorosa lembrança fez com que ele apertasse os punhos com força. Respirando fundo, obrigou-se a relaxar. Algum dia, nada disso importaria mais.

— Nunca me passou pela cabeça que estivesse esperando por mim — falou, em tom agradável. — Até você mencionar o fato.

— Tiago. — Lílian sacudiu a cabeça. — Decididamente você não mudou nada.

— Oh, mas eu mudei sim, docinho. Sou um homem di­ferente. Muito mais perigoso.

— Talvez tenha razão. Em alguns aspectos parece o mes­mo, mas em outros está muito diferente. — Ela ficou a estudá-lo durante algum tempo, e Tiago apreciou a maneira como aquele olhar se demorou em seu rosto, focalizando-lhe a boca. Era quase como se ela o acariciasse. Então, de re­pente, ela ficou em pânico ao perceber que o estivera en­carando quase gulosamente. Desviou rápido o olhar, apenas para voltar, de novo atraída, a fitar o rosto dele.

— Em que mudei? — perguntou Tiago, adorando a per­turbação que provocava em Lílian. Ela podia não tê-lo esperado, mas não se tornara imune à atração que sempre existira entre ambos.

— Você costumava ser mais gentil.

Jogando a cabeça para trás, Tiago desatou a rir.

— Gentil? Eu nunca fui gentil.

— Comigo você era.

De repente o bom humor desapareceu...

— Isso a surpreende? Depois do que aconteceu entre nós?

— Você ainda está zangado comigo?

O que adiantaria negar?, ele pensou. Ambos sabiam que era verdade.

— Sim. Ainda estou zangado. Já se passaram sete anos, e sei que já deveria ter esquecido, mas não esqueci. Afinal, mesmo que nada mais houvesse, Lílian, supunha-se que ao menos você fosse minha amiga.

— Eu era. — Mas sua atitude na ocasião tinha desmentido essas palavras. Consciente disso, ela baixou os olhos para o colo, torcendo as mão nervosamente.

— Nesse caso, devia ter acreditado em mim.

— Eu não tinha certeza. Todos diziam que você era o culpado.

— Eu afirmei que não era.

Lílian ergueu o olhar para ele.

— Eu sei — falou baixinho. — Mais tarde, quando soube que você era inocente, quis lhe escrever para pedir descul­pas, mas não sabia onde você estava morando.

Levantando-se, Tiago foi para junto dela e, estendendo-lhe a mão, ajudou-a a levantar-se também. Lílian era alta, mas o topo da sua cabeça mal chegava ao queixo dele. Seu perfume de flores era embriagador. Com os ruivos ca­belos puxados para trás, nada havia para esconder a per­feição absoluta de suas feições, da pele acetinada, dos olhos levemente amendoados ou da boca carnuda... e tremula. Quan­tas noites ele permanecera acordado visualizando aquele rosto lindo, tentando esquecer... desesperado por lembrar?

Quantas vezes havia implorado a Deus para permitir-lhe ouvir as palavras que ela acabara de pronunciar? O reco­nhecimento de sua inocência!

— É tarde demais agora — falou. — Nada disso im­porta mais.

Lílian fechou os olhos um segundo, perturbada.

— Oh, Tiago, não pode ser! Como você disse, o que quer que tivesse acontecido, nós éramos amigos.

— Não somos mais. — Ele não podia perdoá-la nem con­fiar nela nunca mais. E sem confiança não existia amizade... ou amor. — Você não quer ser minha amiga, Lílian. Afi­nal, continuo o "bastardo da cidade".

— Perdoe-me por ter dito isso. Mas você me deixou apa­vorada naquele dia. Eu não sabia o que fazer.

— Podia ter se limitado a dizer que tinha mudado de idéia.

— Fiquei com medo de que me convencesse. — Ela mordeu o lábio inferior. — Você sempre teve esse poder sobre mim.

Teria ainda?, perguntou-se Tiago. Não. Não importava mais. Tinha regressado a Landing para ficar em paz consigo mesmo. Para provar a si mesmo e aos moradores que era muito mais do que um "desordeiro". Quando seu contrato de um ano terminasse, iria embora para sempre e procuraria um outro lugar para criar raízes. Até lá trataria de ficar o mais longe possível de Lílian Evans. Ela sempre fora sua maior fraqueza. E, ao que tudo estava indicando, isso não mudara.

— Vá para casa, Lílian — aconselhou. — Vá para sua vida respeitável. Não voltei para causar problemas para você.

— Mas já causou, e sabe disso. Achou que podia sim­plesmente voltar aqui e ser o xerife? Que as pessoas não iam lembrar?

— Ao contrário. Estou contando com que se lembrem de mim.

— Nesse caso, por que voltou? — ela perguntou, intrigada.

— Você não entenderia.

— Entenderia, sim. Por que não me explica? — Aproxi­mando-se, Lílian colocou uma das mãos enluvadas sobre o braço dele. Mesmo através do tecido o contato queimou a pele masculina. Afastando o braço com brusquidão, avan­çou para a escrivaninha, de onde pegou uma folha de papel.

— Aqui está tudo o que você precisa saber, srta. Evans — falou em tom ríspido, mostrando o papel. — O Conselho Municipal de Landing assinou esse contrato comigo. A não ser que eu cometa um crime, serei o xerife desta cidade durante um ano. Não preciso de sua amizade nem de qual­quer coisa que venha de você.

— Ótimo. — Pegando o manto que ficara sobre a cadeira, Lílian colocou-o sobre os ombros. Depois ergueu o queixo, altiva. — Guarde seus segredos e sua amizade. Vou dizer a todos da cidade que você voltou e que, se mudou, foi para pior.

— Por que não diz o resto também? — Tiago sabia que estava forçando a situação, mas desejava magoá-la do mesmo modo como fora magoado. — Por que não conta a todos o verdadeiro motivo de estar com tanto medo de mim?

Pegando a bolsa, Lílian respondeu, fingindo indiferença:

— Não sei do que está falando.

Começou a dirigir-se para a porta, mas ele foi mais rápido e impediu-a de sair.

— Estou falando sobre seu segredinho sujo. Ninguém jamais soube, não? Sobre nossos momentos de paixão à beira do rio?

— Pare! — Ela tentou abrir a maçaneta, mas esta resistiu a seus esforços desajeitados.

Tiago, por sua vez, apoiou-se na porta cruzando os braços.

— Conte a todos como você gostava dos meus beijos, Lílian. Como delirava de paixão quando eu acariciava seu corpo.

— Tiago, por favor... — Lágrimas brilhavam nos olhos verdes. Mas a prova visual de seu sofrimento não alterou a raiva de Tiago. Ao contrário, fez com que ele desejasse feri-la ainda mais.

— Eu era bom o bastante para trocar carícias proibidas, mas não para ser convidado à sua casa.

— Você não entende. Nunca me entendeu. Há coisas em minha vida que você ignora. Nunca pude lhe contar. Nem a pessoa alguma.

— Típico de sua parte, Lílian Evans. Sempre guar­dando seus segredinhos sujos. Acaso alguém ficou sabendo que prometeu casar-se comigo?

Ela sufocou um soluço.

— Deixe-me sair. — Desesperada, forçou a maçaneta. — Eu não queria que acontecesse assim. Sinto muito.

— Sente muito por ter concordado em casar comigo, ou por ter jogado a proposta de volta na minha cara? Sente por não ter podido casar-se com o "bastardo da cidade"?

Tiago afastou-se para o lado, permitindo que Lílian abrisse a porta. Ela o encarou pela última vez e seus olhos estavam cheios de lágrimas e de dor. De repente, a raiva de Tiago desapareceu, substituída por uma certa vergonha de si mesmo.

— Sinto muito por você ter voltado para cá — murmurou Lílian, saindo para a calçada. — Era o que queria ouvir, não era? Queria que eu sofresse, não queria? Pois fique sabendo que conseguiu. — Com isso, Lílian bateu a porta atrás de si.

Tiago pensou em segui-la, mas depois desistiu. Era tarde demais. Num rompante, deu um soco na parede de madeira. A dor aguda não foi suficiente para aplacá-lo. Lílian tinha razão. Ele não era mais uma pessoa gentil. "Com todos os diabos, não fui nada gentil com ela", pensou.

— Volte para Landing e faça as pazes com o passado — ele resmungou consigo mesmo. — Tiago Potter, você co­meçou muito mal!

Precisava pedir desculpas a Lílian. O que quer que tivesse acontecido entre ambos sete anos antes, nada tinha a ver com o fato de que agora era o xerife, e ela uma das cidadãs de Landing. Não tinha o direito de tratá-la com tanta grosseria. Williams ficaria desapontado com ele.

Claro que era culpa de Williams o seu retorno a Landing.

— Velho intrometido — murmurou com afeição.

Seu grande amigo e anterior chefe, Williams, tinha ela­borado a idéia de que Tiago precisava fazer as pazes com o passado. Fora ele quem vira o anúncio solicitando inte­ressados para o cargo de xerife em Landing. E não sossegara até convencer Tiago a inscrever-se.

Percorrendo com o olhar seu pequeno escritório, Tiago pensava que talvez tivesse cometido um erro. Devia ter pro­curado outro emprego. De preferência no Oeste, ou no Texas. Mas não. Como um idiota, tinha que voltar para Landing e provar que todos haviam estado enganados a seu respeito. Uma grande idéia, com apenas um ponto fraco.

E se eles não tivessem se enganado? Talvez não passasse mesmo de um desordeiro...

Tiago pegou o contrato e olhou-o fixamente. Tinha um ano inteiro para descobrir a verdade.

Uma hora depois, Tiago agarrou o casaco e o chapéu que estavam pendurados num gancho na parede e saiu. De repente, a delegacia lhe parecia abafada demais.

A tarde começava a cair. Uma brisa gelada inflou as abas abertas do casaco de Tiago, fazendo-o estremecer. Ain­da poderiam ocorrer algumas nevascas naquele início de primavera, mas o céu claro e sem nuvens afastava essa possibilidade.

Ao passar em frente à cocheira, ele parou e ficou olhando para o prédio. Alguém lhe contara que pegara fogo três anos antes, queimando por completo. A nova construção era maior. Tinha trabalhado lá desde os treze anos até partir de Landing, com vinte e um. Seu trabalho anterior como auxiliar de xerife o agradara e estava certo de que ia gostar de suas funções atuais como xerife. Mas sentia falta de cuidar de cavalos. Talvez quando terminasse o contrato e partisse de Landing pudesse encontrar um pedaço de terra em algum lugar e iniciar uma criação de cavalos de raça.

Dando de ombros, retomou a caminhada. Planos para o futuro, por enquanto, eram perda de tempo.

Em seguida à cocheira vinha um pequeno prédio de tijolinhos. O térreo era ocupado pelo consultório do único mé­dico da cidade, e o andar superior pelo advogado. Enquanto Tiago passava, a porta da frente se abriu e uma mulher de certa idade apareceu, carregando uma grande cesta de vime. Seus sapatos enlameados escorregaram no degrau de pedra, e ela, com um grito, lutou para recuperar o equilíbrio.

Correndo escada acima, Tiago agarrou a cesta com uma das mãos, enquanto amparava a mulher com a outra. Se­gurou-a pelo braço até ela voltar a equilibrar-se sobre os próprios pés.

— Obrigada, senhor. Quase rolei escada abaixo. Na minha idade, isso seria o bastante para me levar à presença do Criador. — Endireitando-se, ela o encarou, os olhos azuis focalizando o rosto másculo à sua frente. — Ora, ora. Se não é Tiago Potter!

Fitando-a também, Tiago reconheceu a viúva Dobson e gemeu em silêncio. De todas as pessoas daquela cidade... Dominando-se, forçou um sorriso.

— Boa tarde, senhora. Se já está firme de novo, seria melhor eu...

— Fique parado aí e me deixe dar uma boa olhada em você. — O tom não admitia discussão. — Ouvi dizer que estava de volta, mas não acreditei.

A sra. Dobson nunca tivera papas na língua, e pelo jeito isso não mudara. Entretanto, fora a única pessoa daquela cidade que se preocupara com a mãe dele, quando esta ficara doente. Tinha levado remédios e tigelas de sopa ao quarto pequeno e escuro em que eles viviam e ficara ao lado da mãe de Tiago até ela morrer. Por mais que preferisse entregar-lhe a cesta e seguir seu caminho, Tiago sabia que não podia fazer isso. A viúva nunca quisera ouvir uma palavra de agra­decimento, nem aceitara o dinheiro que Tiago quisera lhe pagar. Ouvir agora seus comentários áridos era um pagamento insignificante por tamanha dívida de gratidão.

A aparência dela era exatamente como se lembrava. Pe­quena e rechonchuda, com um colo generoso, e vestida de preto da cabeça aos pés. Ele não se recordava de tê-la visto tão apegada ao marido, em vida, como parecia apegar-se à sua memória, depois de morto.

— Sou o novo xerife, senhora — ele explicou. — Por um ano.

— Ouvi dizer. — Ela o olhou com interesse. — Vamos, tire esse chapéu e deixe-me ver seu rosto.

Com um suspiro abafado, Tiago obedeceu.

— As mulheres sempre disseram que você era bonito como o demônio. E vejo que ficou ainda mais atraente. Pelo que me recordo, você estava sempre metido em alguma con­fusão, quisesse ou não. Os problemas pareciam persegui-lo.

— Não voltei para criar problemas, senhora, e sim para manter a lei e a ordem.

— Espero que esteja certo. — Ela deu uma risadinha. — As más línguas estão ocupadas nesta cidade, desde que você voltou. Foi um choque. Agora, trate de me ajudar a descer estas escadas. — As palavras foram suavizadas com um sorriso.

No passado, Tiago Potter havia considerado a mulher como uma das guardiãs da moral e da decência da cidade, sempre prontos a julgar e condenar. Mas depois dos cuidados que ela ministrara à sua mãe agonizante, percebera que as palavras ríspidas ocultavam um coração repleto de ternura.

Estendendo a mão, ajudou-a a descer os degraus, até vê-la a salvo na calçada.

— Há pessoas aqui que não ficarão satisfeitas em vê-lo de volta — a sra. Dobson falou.

— Eu já imaginava. Pretendo fazer com que passem para o meu lado, com o tempo.

— Foi por isso que voltou?

Tiago já não queria satisfazer-lhe a curiosidade. Esten­dendo-lhe a cesta, recomendou:

— Preste atenção no caminho, senhora. Não quero que tropece. Posso não estar por perto da próxima, vez.

Quando ela pegou a cesta, o conteúdo se mexeu de re­pente. Um ruído fraco saiu dê dentro.

— Quietinhos, queridos — disse a viúva. — Logo esta­remos em casa. — Ela olhou para Tiago, que parecia in­trigado. — São filhotes de gato. O dr. Ramsey me deu. Disse que a mãe é uma excelente caçadora de ratos. ,

Afastando o pano xadrez que cobria a cesta, expôs três gatinhos enovelados bem junto uns dos outros. Dois eram malhados de preto e branco e o terceiro cinzento, com enor­mes olhos verdes.

— Eu só queria os dois malhados, mas o dr. Ramsey enfiou o outro na cesta. É fêmea. — A sra. Dobson acariciou os animaizinhos. — Não parece ser grande coisa. É muito pequena. Mas o doutor disse que se eu não a levasse, iria afogá-la. — Ela tornou a cobrir a cesta. — Sabe, nunca tive gatos. Meu cachorro dava conta dos ratos, mas morreu no último inverno. A cerca lá de casa está arrebentada em alguns trechos e, sendo assim, seria problemático ter outro cão. Por isso pensei em gatos.

De repente a viúva se deu conta do tempo que passara conversando.

— Céus, tenho de ir para casa. Além do mais, não fica bem eu ser vista na companhia de um rapaz tão lindo e com metade da minha idade. O que as pessoas vão dizer? — Com um sorriso, começou a andar. — Obrigada pela ajuda.

— Não tem de que. — Tiago observou-a afastar-se. A cesta balançava-se loucamente, como se os filhotes tivessem resolvido começar a brincar. Eram engraçadinhos. Princi­palmente a gatinha cinza.

A idéia assomou-lhe à mente quando já ia se pôr a andar. Era uma tolice, pensou. Ou não?

— Sra. Dobson—chamou, apressando o passo para alcançá-la. A mulher parou e voltou-se para ele.

— Se não quer a gatinha, posso ficar com ela?

A viúva não ficaria mais chocada se ele lhe tivesse pedido um beijo.

— Para que quer a gatinha? Não vão deixar que fique com ela no hotel.

Tiago não se preocupou em perguntar como ela sabia onde ele estava morando. A sra. Dobson sempre tivera meios de saber tudo sobre todos. O único segredo que não fora capaz de descobrir fora o relacionamento entre ele e Lílian. Ninguém ficara sabendo que a pedira em casamento e que ela aceitara. Assim como ninguém sabia o que Lílian lhe dissera naquele dia, quando lhe pedira que partisse da cidade com ele.

Desgostoso com as recordações, Tiago tratou de afastá-las.

— Não é para mim. É um presente para uma pessoa. — explicou.

— Ah... Alguma namorada que deixou no lugar de onde veio?

— Não deixei namorada alguma. Nem sequer sou casado, sra. Dobson, se é o que quer saber.

A viúva nem mesmo fez o favor de corar. Tirando a co­berta, pegou a gatinha cinzenta.

— Aqui está. Deve estar faminta.

Agradecendo, Tiago tocou a aba do chapéu em saudação e apressou-se a seguir em direção à Evans General Store.

A gatinha aninhou-se em seu peito, trêmula de frio. O vento soprava com força, e a temperatura caíra vários graus. Abrindo o casaco, ele colocou a terna criaturinha num bolso interno. Convencido de que ela estava confortável, fechou com cuidado as abas do casaco de forma a impedir a pas­sagem do frio, mas não de impedi-la de respirar.

Preocupado com sua carga, só percebeu que havia chegado à loja quando já ia passando por ela. As grandes janelas brilhavam de tão limpas. Cortinas de renda podiam ser vistas através do vidro da porta e entre o vidro e a renda um cartaz dizendo: "Fechado".

Tiago praguejou baixinho. Tinha esquecido que o comér­cio de Landing mantinha os horários de fechamento do in­verno até terminar o degelo do inverno. Tempestades de neve podiam desabar sem aviso, prendendo as pessoas numa armadilha durante toda a noite. Dessa forma as lojas fe­chavam cedo para permitir que todos chegassem nas casas à luz do dia. Não devia ter se demorado a conversar com a sra. Dobson. Ou melhor, não devia ter ofendido Lílian. Assim não precisaria perder tempo desculpando-se.

Estava a ponto de voltar para o escritório, quando ouviu uma porta sendo fechada. Olhando pela passagem lateral do edifício, viu Lílian afastando-se em passos rápidos pe­los fundos. Estava a caminho de casa.

Sem hesitar, Tiago apressou-se a segui-la. Se a irmã estava casada e o pai havia falecido, Lílian devia morar sozinha na casa da família, nos limites da cidade. Com o vestido comprido e os sapatos delicados que usava, com cer­teza permaneceria na estrada comunal, usada pelos mora­dores. Se ele se apressasse, podia cortar caminho pelo bos­que situado atrás da cocheira e chegar à casa dela primeiro.

Segurando as abas do casaco de modo a firmar a gatinha, pôs-se a correr pela trilha.

Ao desembocar do outro lado avistou a casa dos Evans. Localizada no topo de uma pequena elevação, era constituída por três andares e tinha uma aparência de graça e nobreza. Carvalhos a ladeavam, ultrapassando a altura do telhado pontiagudo. O sol poente refletia-se nas vidraças. Uma es­paçosa varanda a circundava, e Tiago pôde ver que as ca­deiras e mesas de junco haviam sido cobertas de lado, como proteção contra o mau tempo.

Ele foi se aproximando, lutando contra as recordações. Quantas vezes, no passado, havia permanecido à beira do bosque, olhando para aquela casa? Sempre desejando que Lílian saísse e viesse ao encontro dele? Muitas vezes, durante o dia, ela o fizera. E uma noite tinha se esgueirado pela porta dos fundos e fora encontrá-lo junto ao riacho. Tinham conversado e rido até quase o nascer do sol. Até mandá-la de volta para casa, com receio de cometer uma loucura. Ele a desejava com tanta intensidade que chegava a doer. Mas, mesmo sendo muito jovem, sabia que Lílian Evans não era o tipo de garota de quem um homem podia se aproveitar. Era um tipo com quem um homem se casava. E, assim, ele a pedira em casamento.

A conhecida dor que lhe confrangeu o peito obrigou-o a afastar as lembranças. Não queria recordar o passado. Que­ria apenas pedir desculpas pela rudeza com que a tratara e depois seguir seu caminho.

Subindo os degraus da varanda, sentou-se num deles para esperá-la. Lílian chegaria a qualquer momento. O cami­nho que ela tomara era mais demorado, mas apenas cerca de cinco minutos. Verificou a gatinha e encontrou-a entregue ao sono, dentro do bolso. Com delicadeza, acariciou-lhe a cabecinha peluda e macia.

O som de passos no cascalho do caminho levou-o a erguer o olhar. Lílian vinha se aproximando. Assim que o avistou, porém, interrompeu a caminhada bruscamente.

— O que está fazendo aqui? — perguntou, seca. .

— Vim pedir desculpas.

— Por que será que não acredito?

— Não sei. Mas é verdade.

Ela recomeçou a andar rapidamente.

— Sabe o tipo de comentários que vão circular por aí se alguém o avistar? — Subindo depressa os degraus, ela apres­sou-se a abrir a porta da frente. — Vamos. Entre logo, antes que alguém o veja. Você pode não se incomodar com o falatório, mas eu me incomodo.

Tiago levantou-se devagar e atravessou a varanda. Pela primeira vez na vida ia entrar naquela casa. Devia sentir-se feliz, mas não estava. Fora um idiota em voltar, a Landing. Nada havia mudado. Lílian Evans ainda se preocupava com sua preciosa reputação, mais do que tudo no mundo. Ele ainda era o "bastardo Tiago Potter".

N/A: Hello pessoas, ai, eu to adorando escrever essa ficc, quase tanto como anjo negro, talvez até tanto quanto. Como disse a minha amiga lilan ela da um quê de velho oeste, fico imaginando o Tiago de xerife, uma imagem tentadora sem duvidas!!!!!!!!desculpem se eu demorei mais é q com três fics...

As respostas das reviews estarão nos e-mails, menos os anônimos. Ok

Patty black Potter: obrigado por tudo o q disse e quanto ao fato de parar com as fics, é q eu acho q quando eu acabar com essas a minha vida vai ta muito corrido e ñ é bom começar algo se ñ sabe se vai terminar, mais q bom q vc gostou, continue lendo e comentando. bjs

Espero q vcs tenham gostado e q deixem muitos reviews

Mil beijos