A corrida para bem longe dela foi frustrada pelas freiras que cruzavam o corredor, muitos olhares desaprovadores. Minhas lágrimas trancadas por anos foram se libertando e logo atingi o pátio externo e a passagem secreta no muro para o mundo lá fora... E não doía tanto quando eu pulei o muro e escapei daquele lugar, nem doeu tanto quando eu peguei o resto de dinheiro de meu bolso e pedi a dose mais forte de bebida que existia no barzinho e nem doeu quando eu voltei tarde da noite para o mesmo muro, impossibilitada psicologicamente e fisicamente pela bebedeira de pular de volta... Eu não queria sentir tanto assim e encher a cara era o modo que eu escapava disso...

Fiquei ali no canto do muro, olhando para as estrelas brilhantes lá no céu. Não havia nada mais lindo do que essa pequena dádiva dos bêbados: o de perceber o quão o mundo é perfeito e que na verdade somos nós que estragamos tudo com palavras.

Minha cabeça encostou no muro liso, esperando o dia amanhecer e ter algo para falar ou sentir. Até naquele momento eu me sentia vazia e oca, sem muito que acrescentar ao resto do plano geral estabelecido por Deus quando me colocou nesse mundo e então questionar essa afirmação era trivial para alguém tão fora de sério quanto eu... Os pensamentos giraram em coisas desconexas até se fixarem na sensação macia de beijar a minha querida sacerdotisa... Eu nem poderia estar a chamando desse jeito... Isso era coisa de pagãos e hereges... E infelizmente eu era uma deles sem querer...

O blusão aplacou o frio da madrugada, o capuz disfarçou os olhos vermelhos e as olheiras. A palidez crescente. Eu estava morta por dentro e ninguém notava e poucos notariam. Amor era a morte para aqueles que não saberiam lidar com ele da forma certa e eu não estava em condições para discutir isso com a minha mente agora...

Um cochilo vigilante, acordando de tempos em tempos, certificando-se do horário no relógio da Igreja ali perto. 4h43... Estava quase chegando a hora de entrar... Tentei testar meus reflexos e meu corpo não obedeceu a mente já lúcida, já se sentindo culpada e perversa pelos atos do corpo. Eu estava perdida!

- Joanne, por favor... Levante-se com cuidado... - e isso me fez encostar debilmente no muro. Era a Irmã Lauren, uma simpática senhora que sempre me acolhia em meus momentos de tensão com colegas e professores, a única que entendia que a omissão dos pais, mais a omissão dos pecados traziam graves conseqüências para garotinhas de 16 anos.

- Tou indo direito, Irmã... - respondi secamente. Não queria que ela me visse daquele jeito.

- Me dê sua mão aqui, vamos? - ela apoiou metade do meu corpo no seu ombro e foi me carregando devagar até o pátio. - Consegue subir as escadas? - eu confirmei temerosa, eu sabia que subir as escadas era a minha sentença de uma detenção bem mais ameaçadora do que ficar de cara para a parede ou ir confessar meus pecados à múmia ambulante do Padre Nelson. Subimos devagar e ninguém nos viu e eu agradecia Deus por pelo menos isso não ser tão irônico e botar minha linda supervisora no caminho naquela madrugada. - Sente-se. - ordenou ela para mim no quarto de despensa do refeitório, obedeci sem titubear, o corpo estava mole e sentindo as primeiras dores da ressaca de muita tequila e o que mais meu dinheiro pudesse comprar naquela hora. Cada segundo passado dentro do bar era milimetricamente repassado em minha mente, nenhuma falha, nenhuma falta grave, nenhuma insinuação, apenas o ato de beber para esquecer que existia, esquecer que existia alguém que mal sabia que eu existia... - Tome um pouco. - ela me ofereceu água com açúcar e eu tomei sem piar. Irmã Lauren sempre foi paciente e amiga. Ela explodiria sim, mas não tanto quanto certa pessoa quando soubesse da notícia. - Agora me diga... - se sentando em uma cadeirinha e ajeitando seu corpinho miúdo e rechonchudo de quase 63 anos. - O que está havendo? - eu me recusei olhar para ela... A mulher havia praticamente me acolhido desde novinha, me criado, me ensinado tudo que uma criança deve saber para se virar sozinha e agora meus medos estavam travando qualquer tipo de resistência. - Joanne... O que está acontecendo com você, minha filha? Por que isso agora? - eu abanei a cabeça com impaciência e fui repreendida com um aperto em meu pulso fraco. Ela me olhava agora como uma avó severa após o neto ter quebrado o seu melhor vaso chinês. - Por que está se acabando nessa vida? Você é jovem e tem essa vida toda para ser feliz...

- Não sou feliz... Ninguém é... - eu suspirei hereticamente. - O grande segredo é esse... Ninguém é feliz aqui... Não quando se tem algo para esconder de todos, quando não se pode falar com ninguém além das paredes... Eu não sou feliz Irmã Lauren e duvido muito que eu vá conseguir isso aqui dentro... - ela me olhou penalizada e segurou minhas mãos.

- Quem disse isso pra você?

- Não preciso das pessoas me informem da minha própria desgraça, muito obrigada... - ela fez o sinal da cruz e beijou o seu crucifixo... Malditos crucifixos como se fossem os olhos da punição!

- Você... Joanne, olhe para mim... Querida... - eu a olhei e meus olhos me traíram! Caí no choro no mesmo momento. Tudo veio sem ordem de chegada. A falta que uma família fazia, a falta de amigos, de uma perspectiva de vida, depois a de uma aprovação real de um amor impossível e ultimamente daquela senhora tão gentil ali na minha frente que sofria de câncer. Igual minha mãe. - Calma, calma criança... Mas o que houve...? - ela acariciava minhas costas ofegantes e doloridas.

- Por que é tão cruel com a gente?

- De quem você fala?

- Dele, oras! De quem mais? - eu chorava sem pensar nas palavras. Ela deu tapinhas amigáveis e tirou meu capuz, meus cabelos estavam desgrenhados e cheios de nós. - Por que Ele tem que ser tão cruel assim coonosco? - ela sorriu tristemente.

- Ninguém saberia responder essa pergunta, Jojo... Deus trabalha de formas misteriosas na nossa vida e sem querer Ele deve estar atuando na sua agora mesmo...

- Oh sim...! Obrigada, meu Senhor... Está fazendo um ótimo trabalho...

- Não blasfeme o nome santo, menina...! - ela disse com um leve tom irônico, depois riu um pouco. - Olhe só para você... Está uma peça rara mesmo... Nem daquela vez que tentou pular o muro e quase quebrou o maxilar você estava um caco como está agora... - e me levantando devagar. - Vamos... Um bom banho, um copo de soro para o enjôo e uma cama quentinha... É tudo que você precisa agora...

Quem diria que o mundo fosse mudar em menos de 2 horas de sono e palavras amigas? Ao sair de meu quarto, a aula de História foi substituída por uma palestra maçante sobre os preceitos religiosos da Catequese, bem, nisso eu não queria participar. Para quê desperdiçar o meu tempo com palavras de meia-verdade e me agüentar para não rir daqueles que falavam?

Além de ser minha prisão, aquele lugar era uma ameaça à minha insanidade...

- Jojo, Irmã Lauren... - disse Irmã Alessa, ela estava tremendo e o terço em sua mão estava balançando de um jeito não muito usual. Algo havia acontecido.

A pressa do Hospital contaminou meus sentidos. Onde eu iria, para onde ir?

- Fica longe daí, menina! Tá atrapalhando! - gritou uma enfermeira ao me ver no corredor principal do pequeno Hospital no mesmo quarteirão do colégio.

- Onde ela está? Hey! - gritei sem ter resposta. Atrás de mim vinha mais gente e o pior... Gente como ele...

- Jojo, o que está fazendo aqui...? - perguntou meu pai boquiaberto.

- Para onde Irmã Lauren foi? - ele apontou para a placa ali em cima de mim. Estava escrita as letras vermelhas que sempre irão perturbar os meus sentidos: C.T.I.

- Joanne volte aqui! - gritou o padre Roberson, ele estava palestrando e eu praticamente pulei duas carteiras quando anunciaram que minha querida Irmã Lauren teve uma parada cardíaca minutos atrás. Nem vi por onde ia, meus pés escorregaram no mesmo corredor e trombei com Professora Mackensie.

- Hey, qual é a pressa?!

- Não tenho tempo! - disse sem me ater à aquele sentimento de vergonha por lembrar do beijo forçado naquele corredor. Atravessei o pátio e ganhei a ala dos dormitórios das freiras. Uma multidão já estava em prontidão ali, como se estivessem vendo um espetáculo, empurrei uns e outros e encontrei dois para-médicos forçando uma massagem cardíaca na freira idosa. Entrei no quarto sem cerimônia e os adverti. - Não façam com tanta força, podem quebrar uuma costela!!!

- E pensa que não sabemos??? - disse o enfermeiro com a testa suada. Irmã Lauren deu um suspiro e eles a removeram imediatamente dali, ajudei como pude, ajuntando suas roupas usuais, seus pertences e por um instante eu tive medo do rosário dela queimar meus dedos - como num medo infantil de que o divino fosse me castigar pelo meu ato pecador de antes - mas peguei tudo que podia e saí atrás da ambulância.

- Hey, hey! Você não pode ir! - ameaçou a Supervisora Mackensie. Eu entrei na ambulância com convicção.

- Liga pro meu pai e avisa a ele... - a porta se fechou e o arranque do carro me fez esbarrar em alguma coisa ali. Uma bolsa de soro... Olhei para o interior do veículo e fiquei a pensar como seria aquela vida... Que vida? A vida de uma das pessoas que eu mais confiava estava se esvaindo na minha frente...

- Jojo... - disse a senhora freira fraca de seu pesar. - Onde está Jojo? - o enfermeiro aplicou algo em suas veias como se ela fosse um bonequinho de plástico, outro já se preparava com outros instrumentos.

- Senhora, sabe dizer o seu nome?

- Quero ver a Jojo... - respondeu a minha amiga, o enfermeiro me deu espaço pra falar.

- Estou aqui, Lauren... Vai ficar tudo bem, eu sei disso... - ela deu um meio sorriso e acenou pra mim.

- Oh, minha filha, já está tudo bem... - rindo um pouco, o enfermeiro aplicou outra injeção e meu sangue fugiu de minhas faces. Como ele conseguia fazer isso sem demonstrar apego algum? Logo meus pulmões começaram a sentir o peso da realidade, eu estava numa ambulância... Logo minha pele se sentiu irritada e meu estômago tortuava um caminho incerto dentro de mim. Algo esquecido na infância me chamou atenção, aquela velha sensação de que nada está corretamente limpo, devidamente limpo e asseado.

Senti nojo de mim mesma.

- Jojo, vai pra casa, minha filha... - dizia a enfermeira chefe Anne, ela já me conhecia.

- Eu não quero... Quero vê-la antes de ir... Posso...? - o médico apareceu logo em seguida perguntando quem era acompanhante da Irmã Lauren, eu levantei, mas alguém se colocou antes de mim.

- Lindsay Mackensie, doutor... - apertando a mão dele e me olhando friamente. - Estou aqui representando o Colégio e daremos toda assistência possível para Irmã Lauren...

- Bem, Srta. Mackensie. O caso de Irmã Lauren já está sendo acompanhado há 2 anos e... bem... Eu não quero dar mais prognósticos sobre ela. - quando percebeu minha presença. Lindsay... O nome dela era Lindsay? Nossa, eu nunca havia ouvido esse nome sendo pronunciado perto de mim antes...

- Por favor, Joanne, vá lá fora comer alguma coisa...? - disse ela gentilmente, mas eu firmei o pé.

- Quanto tempo ela tem? Posso ir vê-la?

Eu não a vi. Não tive coragem, fiquei no saguão esperando notícias. Fui covarde, não quis ver ir...

- Moça, dá um espacinho aí? - perguntou um menininho com metade do braço enfaixada e ensangüentada.

- O que você arranjou aí hein? - perguntei cansada, mas interessada no que ele haveria de me dizer, talvez fosse um tombo de bicicleta, uma brincadeira de correr...

- Ah, nada não... Papai chegou bêbado de novo em casa... - eu simplesmente quase caí da cadeira, ele se aconchegou entre duas cadeiras na sala de espera.

- Onde está sua mãe?

- Mamãe está com papai lá dentro... Ele ficou mal sabe...

- Seu pai fez isso com você? - ele fez sim com a cabeça e depois fez uma careta.

- Mas não foi por querer... Ele não tava bem hoje...

- Mas sua mãe deveria dar queixa na polícia, não? - o menino de quase 10 anos deitou a cabeça e cuidou para que seu braço não encostasse no canto da cadeira.

- Ela ama muito papai... Por que faria isso?

Três horas e 14 minutos da manhã, nada ainda. Nenhuma notícia, nenhuma coragem de ir lá. Meu pai às vezes passava pelo corredor e dava uma palavra de conforto.

" - Ela vai ficar bem, Jojo, você vai ver..."

Mas ela não vai ficar, eu sei... O menino do braço quebrado? Bem, ficou feliz de ver a mãe saindo com o pai aos trancos. O cara era um homenzarrão de quase 2 metros, deveria ser bruto e cruel, o rosto pálido e cheio de traços rudes, já a mãe era frágil e comportada, aquelas mulheres que fazem de tudo para manter o casamento pelos filhos. Mas depois de dois segundos olhando aquela família, eu entendi o que une eles nessa tragédia... Amor. O menino abraçou o pai tão forte que mal percebeu seu machucado, o covarde bruto começou a chorar desenfreadamente e devolveu o carinho pro filho, balbuciando perdões por seu erro. A mãe estava segura de si, acompanhava os homens da família com os olhos.

Estranho... Patéticamente estranho...

- Jojo, você está me ouvindo? - dizia o Doutor para sua filha menor. Joanne balbuciava alguma coisa encolhida no canto do quarto, não falava coisa com coisa há dias e sequer conseguira sair sozinha do Hospital quando teve a notícia final. A freira Lauren estava morta, insuficiência cardíaca e renal. Os irmãos Jarod e Christopher é que a tiraram do Hospital.

- Papai, não gosto nada disso... Ela... A Jojo tá que nem no dia em que...

- Tá, tá, eu sei... Pensei que isso iria passar... Jojo! Preste atenção em mim! Hey! - o pai tentou chamar atenção dela de várias formas.

- Ela não vai... ela não vai... - repetia ela em um de seus murmúrios.

- Quem não vai, Joanne? - perguntou o outro irmão Christopher, ele era residente no Hospital em que o pai trabalhava de plantão, Jarod era legista do Departamento Policial da cidadezinha.

- Joanne, olha pra mim!!! - gritou o pai com raiva, ela teve uma reação fraca e suas pálpebras mexeram com lentidão.

- O que é...? - respondeu mecanicamente. Christopher tirou o pai do lugar e tomou as rédeas, sabia que a irmã tinha crises de TOC desde que a mãe morreu. Ele pegou o rosto de sua irmã e a encarou bem.

- Joanne... A mamãe já foi, você não precisa mais chorar, estamos aqui... Ela disse que nós cuidaríamos de você e é isso que estamos fazendo... Mas você precisa sair daí, certo? Ir comigo até a cozinha e comer alguma coisa, tomar um banho, tomar um ar, certo? - ela obedecia como uma criança inocente, e seguiu o irmão calmamente.

- Droga, eu tou atrasado! - disse o pai olhando pra relógio - Se alguma coisa acontecer...

- Eu sei, pai, a gente avisa... - disse Jarod com um sanduíche de frango na boca.

- A pia está suja... Suja... Deixa eu limpar... - disse Jojo debilmente estendendo sua mão até o sabão líquido de lavar pratos, Chris tomou o sabão da mão dela.

- Querida, vamos com calma tá? - levando ela de volta para a mesa da cozinha. -Termine seu lanche e depois vamos conversar um pouquinho... Jarod, você vai trabalhar hoje de noite? - o irmão mais velho olhou pra o calendário e calculou algo nos dedos.

- Não, hoje eu folgo... Fico com ela sim...

- Eu não quero ficar com ninguém, eu tenho que voltar a estudar...

- Não, não... Você vai ficar aqui com a gente... Vamos comer bastante e depois veremos quando você vai voltar pra aula...

- Mas eu...

- Jojo... - Jarod tinha um tom autoritário na voz... Ela estava limpando o prato com o guardanapo insistentemente. - Pare... com... isso...

- Isso o quê? - ela perguntou sem entender, depois os dois irmãos a fizeram olhar para o prato. Ela jogou o guardanapo no chão e saiu correndo chorando.

- Droga, Chris, vai lá atrás dela! Eu tento alcançá-la desse lado! - e saíram correndo um de cada lado.

Dentro de meu antigo quarto, eu só queria sentir o gostinho de ter um pouco daquilo pra mim, aquele sentimento que sempre me invadia quando me sentia sozinha demais, saudade. Isso destruía qualquer tipo de defesa que eu montava pra escapar daquele comportamento errôneo, eu poderia rezar o quanto quisesse, pedir aos santos que existissem, chorar e me punir pelos meus erros, mas a saudade iria continuar sempre...

A gente costuma perder coisinhas quando se é criança, um brinquedo ali, uma palavrinha de mau gosto, mas dessa vez, minha mãe era a peça chave de toda minha sanidade, eu a perdi e não conseguia mais me manter em pé... Acontece sim e há muitas pessoas que superam isso, mas quando se era a principal receptora de um amor tão visceral quanto ao de minha mãe, o mundo parecia injusto e amargo... E horrivelmente sujo...