Seguiram pelas dunas a noite inteira, guiados por Loren, que observava as estrelas. Zaji nem se quer olhava para cima.

-Vamos apenas andar, devagar, e poupar a energia dos cavalos... -Explicava Zaji. -... Para quando precisarmos fugir. -Seu cavalo era arisco e dançava enquanto o moreno tentava controlá-lo. -Pelo menos esse daqui tá pronto para correr a qualquer hora...

-Sim. Eles são mais rápidos que nós, de qualquer modo. -Comentou o outro, cavalgando sem problemas. A égua era obediente e em pouco tempo, cavaleiro e criatura estavam conectados.

Loren ria ao ver Zaji lutar com o garanhão negro. Mas definitivamente, em breve, estariam conectados.

O de olhos amarelos liderou a viagem, tanto por saber se orientar pelas estrelas e marcos do horizonte quanto por ter mais controle do seu cavalo. Enquanto encarava as estrelas, concluiu em voz alta:

-Vai ser Lorena. Sim, a bonitinha aqui vai se chamar Lorena. -Disse, fazendo carinho no pescoço do animal. - E o seu Zaji? Vai chamar do quê? -Ele perguntou, sorrindo, diminuindo o passo para ficar lado-a-lado com o outro.

-Eu não vou dar nome. –Zaji respondeu, sério.

-Porque não? -Perguntou o Loren, num tom desapontado. -Vamos viajar bastante com eles, um nome ajuda a fazê-los obedecer! -Sugeriu.

O cavalo negro de Zaji, diante da égua, estufou a postura e começou a tentar impressionar a égua, que continuava trotando na mesma direção.

-Porque na direção que estamos indo, fica o mar. Não sei quanto a você, mas eu vou para Stariot. Para Pierrot. A cidade inteira é a minha casa. Não vou atravessar o mar com o cavalo. Vou vendê-lo no porto. Sem nome, sem apego.

O cavalo de Zaji andava altivo e rebelde, não facilitando em nada seu braço ferido.

-Hm, entendi. -Respondeu o outro, pensativo. -Faz sentido. Mas... eu prefiro aproveitar enquanto estivermos juntos, ao máximo que eu puder. -Explicou, inclinando o corpo para o cavalo do moreno.

Ele alcançou a cabeça do varão com os dedos e com alguns toques, foi acalmando o animal, fazendo com que entrasse no mesmo ritmo da própria égua.

-Melhor assim?

-Valeu. -Zaji tirou um cantil da bolsa, um que Loren não havia visto ainda, e deu um gole. -Perfeito. -Disse ele, secando a boca com o braço.

Guardou o cantil e ajeitou-se na sela, soltando as rédeas e deixando sua montaria seguir Loren. Pegou então a flauta.

-Você pode ir para Pierrot comigo. Só para conhecer. -Sugeriu.

Depois, começou a tocar.

-O que é isso? -Perguntou o garoto, estranhando o cantil extra do outro.

Ele se inclinou e meio sem jeito, engatou ambas as rédeas. O nó estava quase feito quando Zaji falou sobre a companhia de Loren e ele teve de refazer o nó.

-Eu... Eu adoraria. -Disse, colocando um sorriso contido na cara.

Dessa vez, Loren conhecia a música. E pretendia acompanhá-la com sua voz.

Zaji utilizou os intervalos entre as notas para escrever no ar, letra por letra: "V-I-N-H-O".

Então era isso que havia no cantil. Deu de ombros.

A música fluía pelas dunas, preenchendo de leve a noite escura.

Vinho! Loren se animou. Ainda cantando, pôs-se de pé no próprio cavalo com maestria, pulando levemente para o cavalo de Zaji. Sentou, procurou o cantil, pegou e levou-o consigo de volta para o próprio animal com a mesma leveza de sempre.

Deu alguns goles parcimoniosos, entre um intervalo e outro da canção. Sua voz era clara e límpida, formando uma bela harmonia com a flauta.

Zaji parou de tocar, nervoso:

-Ei! Isso era meu! -E em seguida, sorriu. -Mas você canta, né? Se fizéssemos isso em uma praça, ficaríamos ricos!

Levantou os braços, comemorando.

-Pierrot adora esse tipo de coisa! Arte de rua! -Depois ficou sério novamente. -O vinho era meu!

-Canto sim. Eu tive aulas quando menor. -Disse o garoto, enquanto trinava, fazendo a voz da mulher na música perfeitamente.

Mas, quanto à bebida...

-Ah, qual é! Divide um pouco, eu também quero! - Reclamou, ao mesmo tempo que ria.

-Peraí! Agora a pouco, você fez a voz da mulher! Da mulher! E perfeitamente! Loren, homens conseguem puxar para o agudo, mas não cantar desse jeito. Como fez isso?!

Zaji parecia realmente... Chocado. Encarava Loren sem se quer piscar, esquecendo sobre a bebida e sobre a flauta.

-Com a garganta, oras. –O moleque explicou, gargalhando depois como uma mulher. Mas, ao voltar a falar, já usava sua voz novamente. -Eu tinha aulas de canto. E digamos que eu demorei para virar homem. Minha voz não engrossou muito. Usando um trinado aqui e uma nota mais aguda ali... Voilà. Posso fazer ambas as vozes. Essa era uma das minhas habilidades especiais. -Explicou, bebendo mais um gole de vinho.

Brincou com o cantil entre as mãos, girando-o com os dedos.

-Isso é bom pra caralho! -Exclamou, com a voz de um homem adulto num bar.

-Cara, isso é MUITO estranho. -Zaji de grande ênfase ao seu espanto. -Mas, é, também é bem legal. Bom, que seja.

Voltou a tocar a flauta, uma música lenta, uma balada sem história.

-Útil na hora de despistar, se pensar bem. Foi isso que me salvou na minha antiga cidade. -Disse o Furacão, entre um gole e outro do vinho.

Loren continuou cantarolando ao som da música de Zaji, desta vez com a sua própria voz. Guardou o cantil de vinho em um dos sacos de sua sela e deitou-se no dorso da égua, começando a sentir calor.

Zaji emparelhou seu cavalo com Lorena e cutucou as costas do menino:

-Loren, você tá bem? Bebeu demais?

-Hmm? Não, estou bem. -Disse o garoto, se abanando com a camisa. -Mas tá meio quente. Deve ser a égua. -Pensou alto, e levou a mão às ataduras novas.

Porém, ao trazer os dedos de volta, percebeu que eles estavam manchados. De algo branco. Pus.

-Loren, essa porra infeccionou! Você deve estar com febre! -Zaji levou a mão a testa dele. -Você tá queimando!

Loren ainda olhava para sua mão manchada, pasmo.

-E agora? Não dá pra parar viagem. E não temos mantimentos. -Perguntou, ao virar para o outro. O mundo girou; só agora percebia o quão cansado e tonto estava.

-Calma. -Zaji segurou Loren, que quase caia do cavalo. -Qual é a distância até a próxima cidade?

-E-eu... Acho que algumas horas. Duas, talvez. Calculava chegar antes do amanhecer. -Respondeu o moleque, segurando-se na sela, o corpo mole.

Abriu os olhos amarelos e encarou as estrelas. Estavam no caminho certo, ainda... Mas ele não enxergava muitas mais delas.

-E-eu acho que vou tirar uma soneca. -Pensou alto novamente, esfregando os olhos com a mão limpa.

-Não durma! Droga... –Zaji parou seu cavalo e Lorena parou também. -Não se mexa, Loren.

Levantou o menino e colocou-o em seu cavalo. Depois passou a bolsa e as sacolas para a sela de Lorena. Desamarrou a corda que a prendia no macho e guardou em uma das bolsas.

-Como se eu pudesse! –O garoto de cabelo acobreado riu, meio tonto, mas obedeceu o outro. Sentiu braços erguerem-no do seu animal. -Ei, o seu braço tá machucado... Eu levanto sozinho... -Ele murmurou, o sono atrapalhando a fala.

-Você vai ter que me seguir, garota. –Zaji disse para a égua, mais uma vez ignorando protestos do moleque.

Subiu no cavalo, ajeitando Loren a sua frente.

Então simplesmente estalou as rédeas e partiu em um galope desesperado. As pálpebras de Loren caiam e voltavam, caiam e voltavam, enquanto o menino tentava manter-se acordado.

Zaji havia mantido um cantil consigo e no meio da corrida, forçava o amigo a dar alguns goles.

-Não durma! Não durma, Loren!

Correram. O cavalo negro suava e resfolegava devido ao esforço de carregar duas pessoas em meio a corrida.

Mas por fim, chegaram à cidade. Zaji desmontou correndo e tirou Loren de cima do cavalo, que assim que sentiu o peso sumir, deitou-se e dormiu, na porta da cidade.

O moreno mudou Loren para cima de Lorena, depois foi até o cavalo esgotado.

-Obrigado. E me desculpe!

Duas horas do mais pesado galope. Duas pessoas de carga. Não havia mesmo como ele aguentar. Mesmo que as duas horas houvessem sido reduzidas em uma.

Zaji pegou a corda e amarrou em Lorena, fazendo uma guia. Adentrou a cidade puxando a égua com o amigo em cima, procurando por um médico. Rápido.

Da viagem, Loren sentiu apenas sacolejos. E um barulho insistente de 'cloc, cloc, cloc', das patas do cavalo. Às vezes sentia água escorrer na sua boca e ele engolia, sedento. A voz de Zaji soava longe em seus ouvidos.

Uma hora, os sacolejos pararam. Braços ergueram-no de novo e ele voltou a sentir o corpo da égua com a cicatriz. Estava quente da corrida dela, logo, incômodo para dormir.

-Já estamos na cidade...? -Perguntou, a voz e o corpo moles.

-Estamos. -Zaji virou-se e sorriu. -Escolhemos ótimos cavalos! Aguenta aí, tá?

As informações das pessoas os guiaram até uma rua distante e bem larga. Uma casa térrea, cor de barro, chamava a atenção, posicionada no fim da rua. Para o alívio de Zaji trazia uma placa laranja, onde lia-se: "Boticário/Médico: Doutor Oscar"

-Loren, achamos!

-Claro que são bons cavalos, eu que escolhi os dois. -Disse o garoto, ainda deitado na própria égua. -Sabia desde o princípio que seriam bons e... -Continuou se gabando, para ficar acordado, enquanto Zaji puxava o cavalo e falava com as pessoas.

Ele começava a sentir frio e embora tentasse segurar, as vezes pulava no animal, tremendo. Até que o outro exclamou.

-Achamos o quê? Minha estátua dourada? -Perguntou o de olhos amarelos. Talvez a febre o tivesse deixado meio tonto também.

-Claro, sua estátua... -Zaji deu uma leve risada. -Aguenta aí, tá?

Bateu na porta. Quem atendeu foi um homem que deveria estar em seus cinquenta anos. Alto, esguio e de escassos cabelos brancos.

-Sou doutor Oscar, pois não? -Veio a pergunta, por baixo de um espesso bigode.

-Meu amigo está com febre! Uma ferida infeccionou muito! Faça algo! –Zaji explicou, finalmente deixando seu desespero transparecer.

-Calma, calma. Amarre sua égua bem ali, pegue seu amigo e entre.

Zaji amarrou Lorena e desceu Loren, segurando-o com cuidado. Entraram, seguindo Oscar, que logo apareceu com um homem que deveria ser seu filho, pois eram muito parecidos.

-Esse é meu filho, Micael. Ele irá levar seu amigo até a minha sala.

Micael sorriu para Zaji, gentil e estendeu os braços. Loren foi passado para o rapaz.

-Espere aqui. -Disse o doutor.

-Sim, minha estátua de ouro, três metros de altura... -O garoto parou de descrever ao ouvir um barulho oco. -... E uma porta?

Então, ouviu uma voz desconhecida. Estava com sono, logo, não prestou muita atenção. Sentiu braços erguerem-no e ele murmurou sobre a ferida de Zaji de novo.

De repente, entraram num lugar mais iluminado e ele foi para braços desconhecidos.

-Ei, eu não te conheço. Me bote no chão, eu posso andar. -Pediu o garoto ao filho do médico, incomodado com o estranho.

Levaram-no para uma sala separada por uma grossa porta de madeira. De lá, Zaji não poderia discernir o que estavam falando, embora pudesse saber quem estava falando.

No começo, o doutor falava alternadamente com Loren, entre silêncios. Vez ou outra Micael falava por cima do pai.

Um silêncio se passou, provavelmente com o doutor examinando a ferida e pegando remédios. Depois, ele fez uma constatação.

Loren ergueu a voz. O doutor insistiu e Loren falou alto de novo. Uma breve gritaria se deu, e até alguns barulhos de coisas caindo e quebrando no chão.

O doutor disse algo, prontamente atendido pelo filho. Em pouco tempo, os barulhos de objetos cessaram, e sobrou apenas Loren gritando.

Até outro silêncio acontecer.

O doutor saiu da sala por um momento, para encontrar Zaji. Tinha o jaleco amarrotado e molhado em uma das mangas, mas estava bem.

-Precisarei passar um certo tempo com seu amigo. Tudo bem?

Zaji levantou, exasperado.

-Tudo bem o caramba! Eu ouvi uma gritaria! O Loren não parou de gritar! Você não deve estar fazendo seu trabalho direito! O que ouve?!

-Não seja insolente, garoto. São quatro da manhã e ainda assim eu acordei para cuidar do seu amigo. -Ralhou o médico, nada contente com aquela acusação. -Ele não queria tirar as ataduras velhas, que inclusive foram as causadoras da infecção. Tivemos que segurá-lo para cortá-las, mas... -Ele ponderou um pouco nesse instante.

Tirou até o cachimbo do bolso, nervoso.

-As feridas por baixo estão complicadas também. Vai levar um tempo.

-Por que você vacilou na resposta?! O que ouve?! O que tem as feridas?!

Zaji estava tão nervoso que levou a mão ao punho do sabre, institivamente. Também esqueceu de pedir desculpas.

-Garoto, acalme-se! Não estamos num campo de batalha e eu estou tentando ajudar! -Berrou o médico, extremamente incomodado com Zaji. -Seu amigo tem feridas mais sérias do que imaginávamos.

-Resolva. Eu posso pagar. E... Desculpe-me.

Zaji bufou e sentou-se, contrariado.

-Sem problemas. Mas controle esse temperamento, rapaz. Não vai conseguir nada com isso. –Oscar disse. O médico deu uma tragada em seu cachimbo. -Não se preocupe com isso, dinheiro resolve-se depois. Mas eu recomendaria uma volta pela cidade. Meu filho pode te guiar, se quiser. Ele se acalmou agora. -Sugeriu o doutor, avaliando o mais jovem.

Zaji afundou na cadeira e bufou novamente.

-Daqui, eu não saio. Por favor, vá fazer os seu trabalho.

Oscar apenas assentiu, tragando novamente e voltou para sua sala.

O tempo passava devagar e o moreno dormiu esperando.

O trabalho dentro da sala foi longo, mas calmo. Poucos rumores eram ouvidos; na maioria das vezes, apenas o doutor falava, num tom de ordem ou de orientação, em outras, Loren comentava algo ou gemia, acompanhado de um barulho de vidros. Provavelmente, o boticário estava fazendo uso extensivo de suas poções e ervas na ferida de flecha.

A manhã chegou, passou, chegou o meio-dia e seu sol escaldante e ambos continuavam na sala, rumores contínuos aqui e ali.

Zaji acordou e nenhuma notícia. Para se distrair, saiu, deu comida para Lorena e bebeu água. Foi atrás de seu cavalo, encontrou-o dando voltas a esmo nos arredores da cidade e depois voltou para dentro, puxando o animal. Fez um caminho diferente, passando por uma feira de rua, onde comeu pão, queijo e damascos.

Logo, já estava novamente na sala de espera, nervoso, seu cavalo atrelado do lado de fora ao lado de Lorena.

Caiu no sono uma segunda vez.

O tratamento seguiu por mais algumas horas depois da saída da Serpente. Mas, por fim, acabou.

O médico abriu a porta com um terrível rangido, atrás dele o filho e atrás de todos, o paciente.

-Pronto, garoto. Terminamos. -Anunciou o médico. Por trás dele, Loren surgiu, cara saudável, limpo e bem mais disposto do que antes.

-Hey. Sinto avisar, mas não vai se ver livre de mim desta vez. -Brincou o moleque, sorrindo.

Zaji acordou com o rangido e deu um pulo, assustado, já levando a mão ao sabre. Mas então viu Loren surgir por trás de Micael.

-Não é como se eu quisesse me ver livre de você... Ainda. -Sorriu em resposta. -Virou-se então para o médico. -Quanto lhe devo?

-Ah! Não vai tirar minha vida de mim! - disse o outro, inconformado, fazendo uma cara de falso ofendido.

O médico deu umas tragadas, olhou para o tórax de Loren e voltou a encarar o guerreiro.

-Considere pago. -Ele disse, tragando o cachimbo. -Ele tinha moedas nos bolsos e já pagou.

-Esse moleque gosta de sair pagando tudo... -Reclamou Zaji. -Bom, obrigado. Loren, vamos.

Dizendo isso, saiu. Loren também agradeceu, muitas vezes e seguiu o amigo.

Do lado de fora, Zaji olhou fundo nos olhos de Loren, sério e segurou seus ombros para que não fugisse.

-Loren. O que há com essas ataduras? Não minta. Se você mentir, eu vou embora. Você as esconde. Doutor Oscar estava chocado e acha que me enganou. -Seu tom aumentou subitamente, ele estava bravo. -Que feridas são essas?!

Loren não esperava pela reação do moreno. Mas, bem, era óbvia, não? Depois de passarem tanto tempo juntos, que mesmo que houvessem sido poucos dias, foram dias inteiros e conturbados.

Os olhos amarelos do garoto ficaram inconstantes. Mirando uma pupila de cada vez, ele desejou, pela primeira vez, que tivesse os olhos transparentes para sua alma.

-É difícil falar. Eu quero, eu adoraria te contar, Zaji. -E nisso, o outro apoiou uma das mãos na do outro, acima do seu ombro. -Mas eu não consigo. Não ainda.

O garoto sugou o ar exageradamente, como se ele faltasse e continuou.

-M-mas... Acho que vê-las dirá o suficiente. Estou com ataduras novas, mas preciso trocá-las diariamente. Aí, eu te mostro. Serve? -Ele perguntou, os olhos amarelos endurecidos, como se fizessem o máximo para se manterem.

Zaji se afastou e deu uma longa piscada, respirando fundo.

-Certo. Em troca, eu te falo mais da minha vidinha chata. -Sorriu como sempre e foi até seu cavalo. -Vamos embora. Andei perguntando por aí e a próxima cidade já tem porto! Comprei comida também. Há algo que você queira fazer antes?

-Parece bom. -Disse o outro, sorrindo de modo comedido, aliviado.

Ver Zaji assim bravo o tinha deixado completamente apavorado.

-Hmm... Eu estou morrendo de fome, na verdade. Podemos comer doces? -Pediu, aproximando-se da égua. Abraçou-lhe o pescoço, fazendo carinho. -Também senti sua falta, Lorena! –Disse a ela e subiu.

Cavalgou até ficar ao lado do moreno.

-Obrigada. -Falou uma vez só, mas seus olhos mostravam que vinha do coração.

-Você acabou de agradecer igual a uma garota, Loren. -Zaji arqueou a sobrancelha, como se perguntasse: "Hein?".

-Não, eu agradeci normalmente. O problema é seu se você anda com gente mal-educada por aí. -Retrucou o outro, mostrando a língua, enquanto colocava o cavalo para ir na frente, numa pose ofendida.

-Deve ter sido impressão. Doces, certo? Só ir, eu te sigo. E, bom, não há de que. –Zaji disse, sorrindo.

-Siiim, muitos doces! -Disse o garoto, fazendo gestos grandiosos em relação a eles, como se pretendesse comprar uma montanha deles. -Em que direção eu devo encontrá-los? –Perguntou, olhando para trás com a cabeça.

-A feira e mais adiante. Segue, esquerda, duas direitas e segue. Algo assim. Aí você pode fuçar. –O moreno respondeu.

Depois de pensar por um momento, disse também:

-Não gosto de doces.

O garoto assentiu, mas quando ouviu a colocação do outro, quase estacou.

-Não? Como não?! Pelo menos de salgados você gosta? -Perguntou o de olhos amarelados, emparelhando com o amigo.

-Se eu não gostasse de salgados, o que eu comeria? –Zaji riu. -Não pare a Lorena no meio do caminho, ande.

-Ah, sei lá. Você tem cara de ser enjoado com comida. -Disse o Loren, rindo junto. -E, você a assustou com seu paladar adoçal. -Justificou, brincando também.

Estava curado, saudável e novamente animado. Graças à rapidez e eficiência de Zaji.

-Para com esse trocadilhos esdrúxulos!

Zaji ria, mais do que o normal. Era difícil acreditar que o menino na sua frente era o mesmo que parecia que estava prestes a morrer algumas horas atrás.

Seguiram as direções do moreno e chegaram à feira. Ele deixou que o amigo escolhesse os doces sem parcimônia. Afinal, se precisasse de dinheiro, poderia fazer acrobacias ali mesmo.

E eles ainda tinham bastante.

-Nãão, Chacapente~! -Brincou o outro, inventando um apelido mais esdrúxulo ainda para Zaji.

-Cha-chacapente?! Mas que merda! –O guerreiro protestou, exagerado.

Toda a avareza de Loren ia visivelmente para o buraco diante de doces. Ele comprou bolinhos, balas, confeitados, chocolates, frutas em calda, tudo que houvesse açúcar ou chocolate. É claro, pechinchou. Seu espírito negociador nunca se ausentava.

Zaji mal conseguia segurar o riso, depois de ouvir um apelido tão estúpido e ainda assistir Loren comprando doces como um maníaco.

Ambos sentaram-se em um banco de pedra mais afastado do centro da praça, ou cavalos ao lado, e o moleque começou a devorar seus doces.

-Ah, tem comida pra você também -Ele avisou, entre uma mordida e outra. -Pãezinhos morninhos. Neste saco -E apontou para um de papel pardo.

-Ah, valeu. Mas guarde para depois, eu comi enquanto esperava.

Zaji virou-se para outra sacola e tirou de lá seu conhecido cantil extra. Deu longos e exagerados goles, limpando a boca no braço.

-Ufa, eu precisava disso!

-Aliás, Chacapente não é merda nada! É a sua cara. - Retrucou Loren, mostrando a língua completamente embebida em chocolate. Doces.

E depois, encarou o cantil extra do moreno. O enfeitado. O com bebida doce.

-Também quero! -Pediu o garoto, estendendo a mão para o cantil, mas Zaji se esquivou. -Me dá! Me dá! -Ele pediu, falando rápido e ansioso.

-Você tem certeza que pode comer todo esse açúcar? -Zaji escorregou no banco, para longe. –Você tá meio agitado... Então, nem ferrando te dou do MEU vinho!

-Me dááá! Me dá o vinho, dá, dá, dá, dá! - pediu o Loren, abrindo e fechando as mãos em um piscar de olhos, enquanto falava mais rápido ainda. O açúcar o havia deixado agitado e pior ainda, mais rápido.

-Não!

Zaji prendeu o vinho em seu cinto e guardou os doces, rindo de Loren, que parecia um molequinho de oito anos. "Como um irmão inútil." Pensou. E riu mais uma vez.

-Pronto, eu guardei tudo. Agora monte em Lorena e vamos. Parece que o porto é a dois dias daqui.

-Não! Eu quero vinho! –O garoto disse e após um estalo, saiu tão rápido quanto falou, até a banca de bebidas.

Negociou uma bolsa pequena mais rápido ainda e depois partiu correndo, sem poder se conter, até Lorena. Montado nela, a energia era tanta que ele parecia trotar em cima dela.

-Vamos! Vamos! Lerdaji, vamos! -Disse, entre um gole e outro da bebida, que o fazia pular mais ainda.

Sem se exaltar, Zaji derrubou Loren da égua. O menino estava tão agitado que mal percebeu. O moreno segurou o menor antes que ele se machucasse, porém, confiscou o cantil.

-Se além de louco, você ficar bêbado, ninguém vai poder me guiar nesse deserto, seu bebezão. Agora vamos fazer as coisas direito, certo, Loren?

Seu tom era frio e sem expressão. Assustador.

-Eeesse é o problema dos doces. Eles deixam as pessoas más, muito más. -Reclamou o garoto, tentando soar ofendido, sem sucesso graças aos pulinhos que dava no lugar. -Eu posso fazer tudo ao mesmo tempo! Eu estou vendo todos os detalhes. -Disse, os olhos disparando pelos lados nas órbitas. -Meu vinho. Meeeu. Eu quero de volta. -Pediu, estendendo a palma da mão, que tremia.

-Loren, você tá legal? -Zaji apertava os olhos, encarando, intrigado.

-Eu tô ótimo! Doces gostosos! -Disse o moleque, sorrindo, pulando no lugar. -Mas eu quero meu vinho! Eu comprei! Com dinheiro. -Explicou, fazendo altos e baixos com a voz, como se fossem vários falando.

Tinha dezesseis anos, afinal. Dentro em breve, o açúcar se dissiparia e ele se sentiria exausto.

-Loren, para que lado é a próxima cidade?

Zaji estava bem calmo. Já tinha uma idéia do que fazer.

-Lado? Depende. A do porto? Oeste, exatamente oeste. -Respondeu Loren, de pronto, em segundos. Mas ficou temeroso. -Zaza, seus olhos parecem tramar planos. Meeeedo. –Disse, ainda pulando no lugar.

-Zaza?! Certo, você está mesmo louco. Vamos.

Com isso, Zaji apenas montou e foi cavalgando lentamente em direção aos portões e saiu da cidade. Sem muita escolha, Loren foi atrás, montando também, saltitando na sela.

Graças aos céus, trinta minutos depois o moleque havia dormido na sela, e agora roncava, enquanto Lorena era puxada por Zaji e seu cavalo.

E a noite caiu.

Loren despertou, esfregou os olhos e olhou em volta. Tudo estava escuro, pois haviam nuvens no céu. O moreno fazia uma fogueira.

-Bom dia, bebezão. Aliás, boa noite. Como você tá?

-Vaaaaamos! -Foi o que disse o outro, saltando em Lorena, cantarolando o caminho todo.

Até que o sono bateu, derrubando o garoto.

Em seguida, acordou no meio do deserto, encontrando Zaji trabalhando numa fogueira.

-Boa noite, Zaji. -Respondeu, após praguejar de dor de cabeça. -Vamos acampar por aqui hoje?

O garoto desceu de seu animal e após agradecer Lorena, pôs-se a montar uma forma com os objetos que seriam queimados.

-Zaji, dê um pouco de descanso para o seu braço. -Recomendou, sem parar de trabalhar. -Eu faço isso. Depois, trocamos curativos, sim?

-Ah sim, por favor. –O moreno concordou, sem nem pensar muito.

Enquanto Loren fazia o trabalho, ele aproveitou o tempo para tirar as ataduras velhas, limpar o machucado, passar o remédio e enrolar novamente. Como o tiro havia sido no antebraço, era fácil fazê-lo com a outra mão.

Quando terminou, o fogo ardia firme próximo a ele.

-Isso ficou bom. -Disse, para si mesmo e também se referindo à fogueira.

-Aaah, você trocou sozinho. - reclamou o moleque, sentado próximo à fogueira. Tinha montado o fogo de modo a durar o máximo possível e por algumas horas, eles deveriam se manter aquecidos. -Achei que eu ia fazer, mas beleza. Importa que esteja limpo. -Comentou, sentado com pernas de índio cutucando o fogo com um graveto.

-Eu conseguia fazer sozinho mesmo.

Um silêncio se seguiu, então Zaji inclinou-se para uma das sacolas e tirou de lá pão, queijo, água e algumas folhas.

-Veja, eu comprei hortelã. Podemos fazer chá. Comprei uma panelinha e um par de canecos também. Pegue aquelas pedras mais ali adiante, aquelas chatas, para esquentarmos o pão com queijo, sim?

-Pode deixar. -Disse o outro, se erguendo rapidamente, seguindo até as pedras.

Escolheu algumas compridas e chatas, o mais lisas possível, para usar de grelha. Voltou com três delas nas mãos.

-Posso fazer o chá? Sou bom em fazer fogo, mas não em cozinhar. -Explicou, depositando as pedras no chão.

-Não é como se fôssemos cozinhar, só vamos esquentar. Mas ok, fique a vontade.

Então, Zaji começou a cortar finas fatias do queijo, cobrindo o pão e depois apoiando o conjunto nas pedras.

-Como vai o chá? –O moreno perguntou.

Enquanto isso, Loren amassava e rasgava as folhas com os dedos, jogando tudo na água dentro da panelinha. Colocou-a em cima das pedras e a água começou a ferver.

-Numa boa. –O garoto, sem a energia do açúcar, agora se fazia monossilábico.

Quando tudo ficou pronto, comeram com gosto. Zaji também havia comprado frutas secas, tâmaras, passas e damascos. Pegou-os logo, antes que Loren optasse pelos doces.

Depois guardaram as coisas.

-Belo jantar! -Exclamou o guerreiro, feliz.

-Siiim! Ficar com a barriga cheia é bom demais! -Disse o outro, alegre, com uma energia renovada bem menos explosiva.

Outro silêncio se seguiu, desta vez, incômodo e pesado. Tinha chegado a hora, afinal.

-Me ajuda a trocar os curativos? -Perguntou o Loren, o maxilar travado e os músculos retesados.

-Escuta, se você quiser trocar sozinho, eu não ligo. Posso até ir para longe daqui. -Disse Zaji, percebendo o desconforto do amigo.

-Eu vou te mostrar minhas cicatrizes. Você precisa ficar perto pra isso. -Explicou o garoto, tirando a camisa e segurando-a contra o peito, os músculos mais retesados do que nunca. - Me ajude a cortá-las, sim? -Pediu, dando as costas para o moreno à meia-luz da fogueira.

Zaji deu de ombros, frio, e se aproximou de Loren. Contornou o menino, pegou uma de suas adagas em uma sacola em Lorena e voltou. Soltou as ataduras com cuidado, em um corte reto e preciso.

-Pronto. –Disse.

-Afaste. -Comandou o outro. Os músculos retesados formavam sombras profundas à luz da fogueira.

Zaji deu alguns passos para traz, uns seis.

-Pronto.

Depois percebeu que Loren ficava mais tenso a cada minuto.

-Fique calmo, Loren. Sou só eu aqui. -Para dar ênfase, acenou com a mão, como se desse oi, mesmo que o outro não pudesse ver o gesto. -Certo? Só eu, o Chacapente.

-Não, é pra você afastar as ataduras, idiota! -Disse Loren, rindo, ainda que pouco. Os músculos relaxaram um pouco, embora ainda estivessem contraídos. -Venha. -Pediu, virando para olhar o outro, ter certeza de que nada aconteceria.

-Ah, sim! Desculpe! -Zaji também riu um pouco.

Aproximou-se de Loren e afastou as ataduras o melhor que pôde, com as pontas dos dedos, a leveza de sempre.

-Tá bom assim? –Perguntou.

Loren não respondeu. Esperava que suas costas falassem por si.

Sem as ataduras, o garoto tinha o corpo esguio, magro. Linhas em curvas, bem delicadas. Mas as marcas sem fim em suas costas chamavam toda a atenção para si.

Um quadriculado de linhas diagonais, verticais e horizontais pintava suas costas das mais variadas cores de cicatrizes. Nos cruzamentos, as marcas de cicatrizes reabertas por golpes apresentavam cores avermelhadas, como se houvesse sangue preso desde então.

Nos pontos mais próximos à cintura, haviam mais variedades. Algumas de furos, ou de queimaduras. Diversas delas ainda não tinham se solidificado em pele, apenas. A sombra da noite apenas dava um tom sombrio aos ferimentos.

Por isso as costas dele eram tão sensíveis.

Zaji já havia visto muitas cicatrizes de batalha antes. Os guerreiros da arena tinham todos os tipos de marca, de todos os tipos de arma. Mas as costas de Loren... Aquilo era... Anormal. O moreno queria poder dizer algo, mas todas as palavras desapareceram. Era inumano. Quem faria algo assim? Não era um ferimento de batalha normal. Não era um acidente, uma queimadura. Era uma sucessão de marcas profundas e confusas. Uma série de acontecimentos ruins.

Por fim, desabotoou sua capa do pescoço e cobriu as costas do menor.

-Ande logo com isso. -Conseguiu dizer. -Está esfriando.

E realmente, o deserto a sua volta perdia rapidamente o calor acumulado durante o dia e um frio seco ocupava o ar.

Loren ficou parado, esperando pela reação do outro. Ou por suas perguntas. Mas ele simplesmente o cobriu, numa sensação extremamente reconfortante. Ele conseguiu relaxar mais.

-Pode deixar. -Disse e com seu bolo de ataduras, tirou as velhas e começou a recolocar as novas, de costas para Zaji, no escuro contra a fogueira.

Começou amarrando as fitas no peito com muita força, fato esse visível pelos movimentos do braço. Depois, começou a enrolar as fitas pelo torso, passando o rolo pelas costas várias vezes, acabando com pelo menos um quarto dele.

Terminou de se arrumar em instantes, acostumado como estava a se virar e logo se vestiu com sua camisa, devolvendo a capa de Zaji.

-Pronto. -Disse ele, jogando a roupa para o outro.

-Desculpe. -Disse Zaji, a voz baixa. -Por perguntar, sabe? Me desculpe.

O moreno mal olhava para o amigo e foi para perto da fogueira, para dormir.

-Hey. -O garoto se aproximou, colocando uma mão no ombro do outro. -Não tem problema. Você estava preocupado e, bem, uma hora eu acabaria mostrando.

O garoto sorriu, mas diante do olhar perdido do outro, acrescentou:

-Espero não ter te assustado.

-Não estou assustado. Só, como é a palavra? Amargurado. Deve ser essa. É só isso. Estava imaginando a sua vida, antes daqui.

Pensando que talvez tivesse falado demais, Zaji virou-se e disse, como que aborrecido.

-Me deixe dormir, ok? Faça isso você também.

-Dó? Não. - reclamou o outro, cruzando os braços, com uma cara emburrada de criança. -Não tenha dó de mim. Quer dizer, foi ruim sim, mas passou. Eu estou aqui, de pé. É o que me importa.

"E fugir daquele maldito", acrescentou em pensamentos. -Além disso, você não me contou da sua vida, lembra? -Ele disse, os olhos brilhantes de curiosidade.

-Eu nunca disse estava com dó. Eu não sinto do de ninguém. Nunca. Eu disse que estou triste. -Respondeu Zaji, agora realmente aborrecido.

-Sem tristeza também. -Disse o moleque, estendendo os dedos, puxando as bochechas de Zaji para cima. -Passado é passado e acabou. Hakuna Mattata~. -Disse, fazendo uma careta.

De alguma forma, mostrar suas feridas a alguém tinha tirado um grande peso das costas. Quase como aceitá-las, ao invés de eternamente escondê-las.

Loren parecia tão -estranhamente- feliz que Zaji decidiu engolir a sensação amarga que lhe subia a garganta. Sentou-se, armado de um sorriso não muito feliz e disse:

-Certo, minha vidinha. O que você quer saber?

-Depende. O que você tinha planejado contar? -Perguntou, sentando-se de frente para o amigo, as pernas cruzadas.

-Não sei. Já contei o que eu contaria de qualquer maneira. É só você perguntar, sabe, tirar as dúvidas, que eu respondo.

Zaji fazia seu melhor, o que não era pouco, para esconder que ainda estava abalado. A curiosidade de saber o passado do amigo, o que havia acontecido com ele, era tão grande quanto a vontade (recém-descoberta) de esquartejar o culpado.

-Ah é? Bem... Então... -O garoto pensou um pouco, levando os dedos até os lábios, tamborilando. - Já sei. Como sobreviveu seis anos na arena? Eu mal fiquei um mês e odiei aquele lugar.

-Bom...-Zaji se aproximou do fogo e afastou a capa dos ombros, revelando os braços. -Olhe bem.

No brilho alaranjado da fogueira, Loren reparou que os mais variados tipos de cicatrizes rasgavam a pele de Zaji aqui e ali. Haviam sido muito bem tratadas, por isso eram finas e brancas, quase invisíveis.

-No começo eu me machuquei um bocado. Mas você viu que sou ágil. Então, o melhor é dizer que me acostumei. Depois, passei para campeão e daí para campeão invicto. Sei que pareceu que eu era escravo daquele lugar, mas eu era tratado como o dono.

Loren reparou também que a flechada no rosto de Zaji já se parecia com uma das cicatrizes.

-Mas, eles não matam os oponentes que perdem? -Perguntou o garoto, estranhando. -Quer dizer, a não ser que você tenha ganhado todas as batalhas, o que eu não duvido. Afinal, todos berravam o seu nome enquanto batalhávamos.

-Quem escolhe se mata ou não, são os lutadores. Isso aumenta a euforia do público, pois podem descobrir quais são os mais cruéis. Ganhem muitas lutas. Mas admito que tive muita sorte. -Zaji respondia todas as perguntas com franqueza e o mais claro possível.

-Da arena que vim, era uma disputa pela própria vida. É mais desesperador. -Contou Loren, abraçando os joelhos para apoiar o queixo neles. -E o que acontecia quando você perde, mas permanece? Cuidam de você?

-Não acontece nada. Eles jogam ataduras de pouca qualidade e pomada para você e você que se vire. Conforme sua fama aumenta, o tratamento aumenta também.

A noite ficava mais fria e o fogo estava se esvaindo. Zaji jogou os embrulhos do pão na fogueira e atiçou o fogo com seu sabre.

-Entendi. Parece melhor. -Comentou o outro. Vendo que o fogo se extinguia, ele pegou uma raiz da areia, torceu e jogou o líquido que brotou dela no fogo, que se tornou roxo. -E o sabre? Como aprendeu a lutar com ele?

-Na prática, ué? Não é óbvio? -Zaji sorriu.

-Mas, você que escolheu ou foi a primeira arma que te entregaram? -Perguntou Loren, olhando o riso de Zaji. O fogo roxo balançava no seu olhar.

-Eu escolhi. Escuta, por que você tá me encarando? Pensando bem, por que o fogo tá roxo?!

O moreno demorou a perceber a mudança das chamas, distraído com as lembranças.

-Porque não enxergo quase nada e você está perto do fogo. -Respondeu Loren, sucinto. -Já tentou lutar com outras armas?

E, apenas para assustar, pegou uma erva do deserto, também próxima a eles e jogou no fogo, tornando-o laranja.

-É mágica. -Respondeu, fazendo um gesto de efeito com as mãos, um sorriso moleque na cara.

-Lutei com adagas por necessidade, antes. Mas não caiu muito bem.

Zaji encarou o fogo, tentando entender a tal "mágica".

-Pare de fazer isso. Vai atrair as pessoas de longe, com um fogo que muda de cor.

Mas sorriu, porque seja lá o que fosse aquilo, era bonito.

-Entendi. E, quanto ao fogo, é mais provável que fujam. As pessoas costumam ter medo do que não conhecem. -Disse o garoto, dando de ombros, mas pegando um pouco de sal, de uma de suas sacolas, jogando no fogo, tornando-o um laranja mais brando, algo mais normal.

-Mas as pessoas corajosas se aproximam, maravilhadas. E eu não quero nenhum corajoso por aqui. -Disse Zaji, um sorriso firme.

Loren observou o outro sorrindo por alguns momentos, até que fez outra pergunta:

-Zaji. Não precisa responder se não quiser. Como te levaram para a arena? -Perguntou o garoto, observando o outro com os olhos refletindo o laranja do fogo.

O moreno observou o fogo por alguns momentos e ponderou após a pergunta de Loren, desenterrando lembranças que deveriam ficar onde estavam.

-Essa pergunta passou um pouco dos limites. -Disse, cruzando os braços.

Mas pensou na hesitação de Loren sobre as ataduras, no nervosismo de mostrá-las, e por fim, no ato de mostrá-las. Queria retribuir a confiança. Não gostava de ficar devendo.

-Certo, posso dizer. Mas a coisa toda é meio longa.

-Posso pelo menos deixar nessa cor? Parece normal. -Pediu o garoto em uma pergunta mais atrasada, abraçando as pernas.

Observou enquanto o outro mudava de idéia, o que não era normal.

-Não se sinta obrigado a nada, ok? Eu entendo se for difícil. -Disse, deitando o rosto nas pernas, um pouco sonolento.

-Pode, claro. -Zaji coçou a cabeça, pensando em uma forma de começar a contar. -Bom, vamos do começo. Você sabe que com nove anos, fui para Pierrot. Foi lá que tive que me virar com adagas, para me defender de ladrões de rua, já que eu era um rato de rua. Um acrobacista.

"Passei o primeiro ano muito bem, literalmente subindo pelas paredes para ganhar a vida. Mas... Logo fiz dez. E logo depois... Ela apareceu. Era de Pierrot mesmo. Estavam em um passeio em família, com a mãe e o pai. Eles pararam para me assistir. No fim da apresentação, ela veio me cumprimentar e perguntou se eu a ensinaria todas aquelas piruetas.

No começo, pisquei, confuso. As pessoas assistem os artistas de rua, mas não se envolvem com eles. Respondi curto: ' Não.'

Mas ela não se abalou. Tirou uma flauta do cinto e tocou. Foi uma das coisas mais lindas que já ouvi na vida. 'Te ensino se me ensinar!' Ela disse.

Então, virou uma troca. E passamos um ano sempre juntos, andando entre as casinhas coloridas, tocando flauta e dando piruetas. Foi bom.

Porém foi por isso que pegaram ela também.

Ela andava sempre com roupas elegantes, mas para treinar piruetas, se vestia quase como um garoto. Os caçadores vieram e nos viram. Eles só pegam crianças sem família. Ratos de rua mesmo. Seus pais não estavam por perto, ela estava comigo, subindo em telhados, encardida. Era lógico que pensassem que ela também era uma rata.

Então, simplesmente nos pegaram. Em plena luz do dia. Ali mesmo, raptaram duas crianças para algo como a arena, porque supostamente não tinham família." -Zaji fez uma pausa e respirou fundo. -Ainda me lembro de como ela gritava. 'Me ajude, Zaji!' Mas, há, o que eu poderia fazer?!

Fomos para arenas diferentes.

Fim."

Zaji virou-se em um movimento brusco e se deitou, olhando a fogueira. "Vou encontrá-la" murmurou, mais para si mesmo do que para o amigo.

Loren ouviu atentamente ao outro e quase podia ver a história se desenrolar enquanto Zaji narrava sua história. Ela e ele, numa versão menor, andando e brincando na inocência da infância.

Podia ver os caçadores, também. E o grito da garota, tão desesperado quanto o seu fora ao avistar aquele desgraçado que tentou comprá-lo.

-Vamos encontrá-la. - Completou Loren, espreguiçando-se, sonolento. -Me leve para uma boa cidade e em troca eu o ajudo a encontrá-la. -Disse, sentando-se novamente em pernas de índio.

-Você pode me seguir, se quiser, já te falei. -Respondeu Zaji, fracamente. -Mas eu tenho que encontrá-la.

Sem querer continuar a conversar, virou-se de costas para Loren e o fogo. Pensou um pouco e disse um "boa noite" baixo, antes de cobrir a cabeça com a capa.

-Eu sei. -Disse o garoto, sorrindo.

Em seguida, jogou um pouco de areia próxima a fogueira, para impedir que ela se reavivasse por qualquer motivo.

Pegou uma sacola e colocou-a na areia próxima ao outro, deitando-se de costas para ele, ao seu lado, sem encostar.

Disse boa noite e adentrou o mundo dos sonhos.