Capítulo 2 - Caça
Ela estava mole. E ele sabia que ela sentia fome. Cavalgaram o dia inteiro, apenas comendo algumas maçãs. Ele a segurou antes que ela caísse do cavalo. Carregou-a até um tronco de árvore, colocando-a no chão.
Maldito Passarinho! Amaldiçoou. Por que ela tinha que desmaiar logo agora? Era tão fresca que não poderia aguentar alguns dias a cavalo?
Ele pegou um trapo que havia na bolsa suspensa pelo cavalo e correu para o riacho para molhar. A água estava fria.
O inverno está chegando.
Sandor voltou para Sansa, que continuava pálida e de olhos cerrados. Ele colocou o trapo molhado na testa da menina. Pegou o cantil com água e obrigou-a a beber, segurando seu rosto.
– Vamos, menina. Acorde.
Em poucos minutos, ela parecia melhorar. Balançou a cabeça lentamente e gemeu baixinho. Sandor cortou um pedaço de queijo com sua adaga. Empurrou o pedaço por entre seus lábios macios, tentando obrigá-la a comer. Sansa moveu a boca sutilmente, buscando reconhecer o sabor e mastigando fracamente.
Ela parecia estar voltando à consciência.
Sansa abriu os olhos lentamente, tentando se localizar. Encontrando um rosto queimado que mantinha uma expressão num misto de preocupação e raiva. Fechou os olhos. Sentiu um gosto levemente salgado e amargo em sua boca. Parecia queijo. Mastigou aos poucos, voltando a abrir os olhos. Engoliu. Sentiu outro pedaço do gosto amargo ser empurrado contra seus lábios e os abriu para comer outro pedaço de queijo. Desta vez, sentia algo calejado e áspero acariciarem seus lábios. Tentou abrir os olhos aos poucos. Sua visão embaçada conseguia reconhecer aquele rosto carrancudo e queimado. Ele parecia preocupado.
A tontura começara a passar e ela se pôs a abrir os olhos pra valer. Sandor não estava mais a sua frente. Ela tentou mover sua cabeça para procurá-lo, pedindo para a tontura não voltar. Seu estômago roncou alto.
Sandor voltara com um cantil molhado e se ajoelhou a frente de Sansa, sem se ligar que ela havia acordado. Sem se importar que ela havia acordado. Pegou o rosto dela pelas bochechas e colocou o cantil em seu lábios, obrigando-a a beber.
– Obrigada.
Só quando ela sussurrou suas gentilezas é que Sandor teve a certeza de que ela havia voltado. Um ronco surdo foi ouvido e Sansa colocou a mão na barriga. Ela estava com fome.
– Você desmaiou de fome – afirmou Sandor.
Sansa sentiu-se um pouco envergonhada por ter desmaiado de fome. Sentiu-se fraca por isso e não queria que Sandor visse que ela desmaiava por qualquer coisa. Tinha medo de que ele desistisse de protegê-la e levá-la de volta para casa por conta de suas delicadezas que o deixavam bravo e desdenhoso.
– Eu estou bem – disse Sansa.
Sandor se levantou antes que ela pudesse dizer alguma coisa.
– Vou caçar algo. Você precisa de farta comida para sobreviver. – disse Sandor com sarcasmo em sua voz e um meio sorriso no rosto.
Era disso que Sansa não gostava.
– Ainda temos algumas maçãs e queijo – disse Sansa, tentando parecer forte, apesar de sua voz ainda sair meio sussurrada.
– Você não vai aguentar um dia com maçãs e queijo – afirmou Sandor, tirando o manto e jogando aos pés de Sansa. – Precisa de comida de verdade. Você é como um passarinho, mas por dentro, ainda é uma loba.
E dizendo isso, ele adentrou a floresta deixando Sansa sozinha com seu manto juramentado.
Como ele ousava deixá-la sozinha na floresta, ao entardecer?
Por dentro, ainda é uma loba. Ela poderia ser um passarinho e comer comida de passarinho, sobrevivendo com a pouca comida que tinham. Mas Sandor tinha noção de que ela era uma loba. E uma loba precisava de comida. Não gostava quando Sandor a chamava de Passarinho. Isso só mostrava o quando ele era sarcástico em relação a sua delicadeza e fraqueza. Mas se ele sabia que, por dentro, ela era uma loba, então por que ele não a respeitava como uma?
Se Sansa fosse um pouquinho mais forte, como uma verdadeira loba, ela ganharia mais respeito do Cão. Mas jamais seria como a irmã, Arya. Ela sim era uma verdadeira loba.
Lady. Lembrou-se da loba que fora morta injustamente. Queria chorar pela saudade, mas seu orgulho não deixava uma lágrima cair.
Passado algum tempo, o sol estavamais baixo, a floresta ficava escura. Ela continuava sentada e com medo de Sandor tê-la abandonado. Ele não faria isso. Ou faria? Ele deixara Estranho aos seus cuidados. Mas saíra tão repentinamente que tinha suas dúvidas de que voltaria.
Ouviu alguns passos e estava se preparando para levantar e correr quando Sandor apareceu. Ele segurava um esquilo morto e ensanguentado. Seu estômago embrulhou ao ver o cadáver, mesmo que não tivesse muita coisa para embrulhar.
– Nós vamos comer isso? – perguntou Sansa enjoada.
Sandor ignorou a pergunta e respirou fundo. Essa garota daria trabalho. Ele se afastou dela para perto do riacho.
– Você pode buscar madeira quando estiver se sentindo melhor – disse Sandor se sentando em uma pedra e começando a preparar o esquilo. – Não vá para muito longe.
Sansa se levantou lentamente. Ela não se sentia mais tão tonta, mas seu estômago ainda estava roncando. Ela olhou em volta à procura de madeira.
Sandor tirava a pele do animal, perto do riacho. Nós vamos comer isso? Ele riu abertamente ao se lembrar da pergunta. O que Passarinho esperava? Um banquete com frangos e bolos de limão? A viagem seria longa... E cansativa.
Quando o animal estava pronto, ele jogou um pouco de vinho sobre a carne e o espetou em um graveto. Olhou para trás e lá estava a ruiva, sem sua capa, com os cabelos despenteados, o vestido ligeiramente sujo, com os braços cheios de madeira e andando tortamente. Ela tentava não deixar os pedaços caírem, mas acabou tropeçando em seu próprio pé, deixando tudo cair no chão. Ela caiu de joelhos e Sandor soltou uma gargalhada sonora.
Sansa o olhou carrancuda. Não queria que ele risse de suas distrações. Ela se ajeitou e viu que seu vestido azul rasgara na altura do joelho. Sandor fora até ela e estendeu a mão, ainda risonho. Sansa não esperava que ele viesse lhe ajudar, depois da gargalhada. Não queria ceder e aceitar sua mão, pois já se sentia humilhada, mas acabou pegando a mão do homem. Ela se bateu em sua roupa para tirar a terra e folhas secas.
Sandor fez uma fogueira, enquanto Sansa estendia o manto para se sentar e esperar pelo... jantar?
A noite caíra e o esquilo estava assando. Sandor estava sentado em uma árvore próxima à árvore de Sansa. Ele bebia o cantil com vinho e Sansa se perguntava se ainda havia alguma bebida ali.
Sandor pegou o esquilo e cortou um pedaço da carne para Sansa. Ela pegou a carne com cara de nojo e com seus mindinhos levantados. Sandor revirou os olhos para a situação.
– Não está temperada, Passarinho. Mas é o melhor que conseguiremos.
Ele comeu um grande pedaço de carne, enquanto Sansa mordiscava aos poucos. A carne era macia, mas estava sem sabor nenhum. Apesar de tudo, sentiu um leve gosto adocicado e pensou se Sandor havia colocado vinho na carne. Não podia se dar ao luxo de rejeitar.
Depois de comer toda a carne, com o estômago de Sansa satisfeito e o fogo ainda aceso, Sandor ainda bebericava o cantil.
– Quais são os seus planos? – perguntou Sansa.
Sandor não respondeu. Ela não tinha ideia do objetivo que ele iria traçar para levá-la para casa, sã e salva. Tinha medo de estar sozinha na floresta com aquele homem. E também tinha medo dos perigos da mata.
– Temos que apagar o fogo – disse Sandor, ignorando a pergunta anterior de Sansa. – Já está noite.
– Não podemos esperar só mais um pouco? – perguntou Sansa. Ela sentia frio, estava encolhida perto do fogo e com o rasgo do vestido na altura do joelho, sentia mais frio em suas pernas.
O Inverno está chegando.
Sandor a olhou nos olhos. Ele estava levemente embrigado e Sansa percebia pelo olhar. Ele se levantou e cambaleou para perto de Sansa, se sentando no manto da Guarda Real com ela. Sansa se afastou, ligeiramente. O Cão estendeu o cantil com vinho para ela.
– Beba – ordenou Sandor, com sua voz firme. – Vai se sentir mais quente.
Sansa não queria aceitar o vinho. Mas percebeu o esforço que ele estava fazendo em oferecer a única coisa mais preciosa que tinha.
Ela empurrou o cantil e sussurrou um agradecimento. Sandor resmungou uma risada.
– Beba agora, Sansa! – ordenou o Cão.
Sansa se sentiu assustada pela brutalidade de sua voz. Ela pegou o cantil, cheirando o líquido. Já havia bebido vinho algumas vezes, mas em outras ocasiões, em festas, perto de seus pais. Aquela situação era diferente. Ele lhe dava o vinho para que ela se reconfortasse.
Ela bebericou um pouco do líquido vermelho, sentindo-o descer quente e ardido em sua garganta. Sandor pegou o fundo do cantil com uma mão e a nuca de Sansa com a outra e empurrou contra os lábios da ruiva, obrigando-a a beber mais e mais o vinho. Sua garganta queimou absurdamente, e estava prestes a se engasgar quando Sandor parou de empurrar o cantil e tirou-o de seus lábios, voltando a beber. Sansa tossiu um pouco, arrancando um riso de Sandor.
Ao mesmo tempo que sentia a ardência, sentia-se mais aquecida. Era como se o vinho estivesse queimando em suas veias, correndo junto de seu sangue. E também sentiu o vinho indo para sua cabeça, deixando-a tonta.
Sandor segurou a nuca da menina, novamente, e empurrou o cantil contra seu lábios e Sansa, já preparada, bebeu de bom grado, sem se sentir sufocada ou prestes a tossir, mas ainda sentindo a garganta arder. Ele obrigou-a a beber todo o líquido, deixando cair uma gota pelos lábios.
– Eu bebi tudo – disse Sansa, preocupada que Sandor não teria mais o vinho para beber.
Ele deu de ombros. Ele agora ficaria sóbrio e Sansa não sabia se isso era bom ou ruim.
– Vá dormir, Passarinho – obrigou Sandor. – Temos um longo dia pela frente amanhã.
Sandor começou a chutar a terra para cima do fogo, fazendo-o se apagar aos poucos, até ficarem na mais completa escuridão. A única luminosidade que surgia era da lua.
– Estou tonta – disse Sansa, sem pensar. Ela ouviu o Cão soltar uma leve risada. Ele ainda estava ao seu lado. Sentia o calor do seu corpo. Ou era o calor do vinho?
Sandor pegou a capa da menina e a cobriu, empurrando seus ombros para que deitasse. Ela deitou por sobre o manto e Sandor se encostou no tronco da árvore, com a mão na bainha da espada.
Ela não gostava muito da presença dele ali, dividindo o manto consigo. Não queria expulsá-lo, pois o manto era de Sandor. E ao mesmo tempo que se sentia em perigo, por tê-lo tão por perto, também se sentia protegida. Sabia que nenhum mal seria lhe causado enquanto o Cão estivesse por perto.
A não ser que o mal fosse o próprio Cão de Caça.
