Impecavelmente vestido de azul, Philippe foi ver o irmão. Encontrou-o aparentemente bem disposto. O rei abriu um grande sorriso para recebê-lo. Mostrava-se totalmente interessado e bastante afetuoso. Philippe ficou logo de sobreaviso. Eram anos de experiência com as segundas intenções de Louis.

-Seja bem-vindo, irmão!

-Obrigado! É sempre bom voltar.

O rei parecia genuinamente satisfeito em revê-lo. Philippe sabia que Louis era bastante ciumento e competitivo em relação a seus êxitos militares. Resolveu se abster de tocar no assunto. Mas quem falou da guerra foi o próprio rei.

-Você é um herói. Parabéns! Trouxe glória à França. Mais uma vez.

Aquilo era inesperado. Philippe não se manifestou porque sabia da volatilidade das opiniões do irmão. Aceitou os elogios sem se abalar, mostrando muita reserva. Desviou-se prudentemente do tema assim que foi possível. Resolveu externar a sua gratidão.

-Agradeço o seu desvelo para com a minha esposa. Não esquecerei a sua consideração. O Chevalier de Lorraine me contou do seu empenho para que ela se recuperassse.

Louis gostou daquela gratidão.

-É minha obrigação, irmão. Seu filho será um neto ou neta de França. Aliás...

Foi aí que Philippe teve certeza de que havia algo mais em tudo aquilo. Sua intuição jamais falhava.

-Sim?

-Veja bem, irmão. Sabe que tenho um enorme apreço pela nossa Liselotte...

Uma das sobrancelhas do Duque de Orléans se levantou ligeiramente. As manifestações de apreço do irmão podiam ter consequências inesperadas. Ele afetava grande respeito e consideração pela cunhada, mas com Louis tudo era possível...

-Mas noto que desde aqueles infelizes incidentes no Palatinado, ela não foi mais a mesma.

Aí foi a vez de Philipe ficar na defensiva. Se ele que era francês e príncipe não engolira as justificativas para aquela barbárie, a Princesa Palatina muito menos. As pessoas podem deixar de tocar em certas questões por prudência, mas isso não significa que elas aceitem ou esqueçam.

-Bem, ela teria que ter uma pedra no lugar do coração para não se importar e seguir em frente como se nada houvesse ocorrido.

Louis achou interessante o modo como Philippe, mesmo sem gostar da mulher, a defendia. Provavelmente ele agia assim só para contrariá-lo.

-Aí está. Após conversar com o médico, eu pensei...

Aquela conversa reticente de Louis estava deixando Philippe irritado. Mas não tinha outra opção a não ser entrar no jogo.

-Pensou em quê?

-O médico explicou que ela tem uma gestação de alto risco. Infelizmente, há a possibilidade concreta de um insucesso...

Aquelas palavras soaram agourentas aos ouvidos de Philippe. Achava aquela conversa absurda e não via a hora de terminá-la.

-Ela já está com mais de seis meses. Não vai haver nenhum insucesso.

-Assim esperamos. Mas caso ocorra, eu considerei muito a situação e resolvi deixar o futuro desse casamento a seu critério.

-Temo não estar entendendo.

-Se ela perder a criança, eu acredito que não haveria mais motivos para retê-la, a não ser que esse seja seu desejo expresso.

Philippe ficou surpreso com a proposta do irmão. Não pela anulação em si, pois ele próprio pensara em anular o casamento e devolver a princesa ao Palatinado logo no início do casamento. Mas Louis sempre manifestara publicamente uma grande deferência pela cunhada. Aquilo lhe soava agora um oportunismo traiçoeiro da parte dele. Mas esse possível aceno da sua liberdade bem diante do seu nariz o abalou.

-Eu realmente não sei nem o que dizer...

-Não diga, nada. Vamos aguardar para ver como as coisas evoluem. Talvez tudo dê certo, afinal.


Philippe estava ceando na companhia do Chevalier de Lorraine. Havia contado a proposta do irmão.

-E então?

O Chevalier de Lorraine ficou calado.

-Não vai dizer nada?

-Não. Pelo menos, não agora.

Philippe estava pasmo. O Chevalier devia estar doente. Aquele não era realmente ele. Ele era mestre em externar opiniões, mesmo quando não lhe pediam.

-Mas você ama dar palpites em minha vida e odeia me ver casado. Detestava Henriette e sei que não gosta igualmente da Princesa Palatina.

-Isso não é verdade.

Philippe estava assombrado.

-O que não é verdade?

-Esse "igualmente" que você acabou de usar...

-Como não?

-Henriette - e que ela esteja em bom lugar- apesar de bela e requintada, era uma intrigante da pior espécie. Semeava a discórdia entre você e o seu irmão, era infiel a você e gostava de me boicotar. Madame é diferente. Não é bonita, veste-se muito mal, mas é leal a você. E preciso dar a mão a palmatória, ela nunca tentou nos jogar um contra o outro, muito pelo contrário...

-Eu sei disso. -assentiu Philippe.

-Por isso eu não vou dar opinião sobre o que você tem que fazer, Mignonette. Mas isso prova que o seu irmão age como uma cobra.

-Ele é uma cobra. Eu o amo, mas sei exatamente como ele é. Ah, e discordo que a minha segunda esposa seja feia. Ela é um tipo germânico, e as pessoas por aqui não estão acostumadas.


Ele passou no quarto da esposa antes de dormir. Parecia cansado e tinha uma ruga de preocupação na testa que não escapou a Liselotte.

-Que bom que veio. Está exausto, não? Vá se deitar...

-Não, estou bem. Já jantou?

-Sim, tomei um caldo extremamente insosso. O médico não quer que eu coma nada pesado para não passar mal.

Ele notou que apesar de seu bom apetite ela quase não havia engordado na gravidez.

-E o bebê? Está chutando ainda?

-Está mais sossegado. Sabe, eu não me incomodo quando ele chuta. Fico até aliviada. É sinal de que está vivo.

Philippe sorriu.

-Tem razão, Madame. Temos que pensar no nome.

No rosto de Liselotte apareceu um imenso sorriso. Ficou feliz com essa demonstração de interesse da parte do marido.

-Melhor você escolher, eu não sei o que convém por aqui.

-Talvez seja melhor esperar o bebê nascer e ver o que combina com ele. Meu irmão certamente espera que o chamemos de Louis.

-Bem, não é um nome feio.

-Nada disso. Queremos algo mais imponente. Algo elegante, grandioso...Como Philippe, por exemplo.

Liselotte deu uma risada gostosa. Apesar das limitações de seu casamento, as coisas ficavam melhores, mais divertidas com Philippe por perto