Capítulo 2

Camus acordou sobressaltado.O sol ainda não raiara lá fora,mas pela luz fraca e pálida que entrava pela fresta da cortina,ele deduziu que o dia já estivesse bem próximo.Bocejou e estalou o pescoço,reclamando em voz baixa por causa do desconforto que aquela poltrona vinha lhe causando nos últimos dias.Olhou para o lado e pensou que Milo talvez estivesse dormindo,por isso não se atreveu a fazer barulho.

-Camus…-sussurrou uma voz feminina lá fora.

-Só um minuto.-respondeu ele,lavando o rosto na pia do pequeno banheiro do quarto.Abriu a porta,ainda sonolento.-Moa…assim tão cedo?-cumprimentou ele,beijando as bochechas da moça.

-Tenho que chegar cedo no trabalho ele está?-disse ela,entrando no quarto e olhando preocupada para Milo.

-Está bem melhor.

-Bem melhor?-indagou Moa,colocando a bolsa no criado-mudo ao lado da cama e sentando no banquinho ao lado dela.Passou lentamente a mão pelos cabelos de Milo,que respirou profundamente e acordou com um estremeção.

-Hmm?-resmungou ele,sem se virar,puxando mais as cobertas.

-Ah meu Deus!-murmurou ela,sorrindo.-É impossível!Ele…ele…

-Acordou,é.-terminou Camus,sorrindo também.

-Camus…-disse ela em voz baixa,com os olhos cheios d'água,levantando-se.Abraçou o amigo com toda a força,e sorriu ainda mais.Ele retribuiu o abraço.

-Ele vai pra casa hoje à noite,Moa.Por que não passa por lá?-convidou o francês.

-Ah,eu adoraria,mas tenho que encontrar o Julian hoje.Preciso ver os preparativos finais para o casamento.-desculpou-se ela.-Mas amanhã eu passo na casa dele,se você puder me dar o endereço.

-Claro…toma.-disse ele,entregando um papelzinho a Moa.-Endereço e telefone.

-Não é muito longe da minha casa.-disse ela,dando uma olhada no papel.-Bem,tenho que me apressar.Até logo,Camus.

-Até…-respondeu ele,fechando a porta depois que Moa passou.

Algumas horas se passaram desde então.Milo parecia ter entrado em coma de novo,mas os pequenos movimentos que ele fazia tiravam essa preocupação da cabeça de Camus.Quando a enfermeira bateu à porta para servir o café,Milo acordou assustado.

-Pensei que tivesse entrado em coma de novo.-disse Camus,servindo-se de café.

-Não diga isso nem de brincadeira.-murmurou Milo,sentando-se na cama.-Quem esteve aqui?

-A eu disse,ela ficou bastante feliz ao saber que você tinha acordado.-disse Camus.

-Por que você não me acordou?Eu queria conhecer ela!

-Você vai ter tempo pra isso depois.Agora é melhor você se ajeitar pra fazer os exames.Quanto antes você os fizer,mais cedo vai sair daqui.

-Sério?Vou lavar o rosto então!-exclamou Milo,levantando-se de um pulo e indo para o banheiro.Voltou menos amassado,mas ainda extremamente pálido.

-Você tá mais horrível do que antes,como se isso fosse possível.-satirizou Camus.

-Hahaha,como você é engraçado,não?-disse Milo.

-Senhor Milo?-chamou a enfermeira,reaparecendo no quarto.

-Sim?

-O senhor pode me acompanhar?O doutor Sapporo está te esperando para poder fazer os exames.

-Claro.-disse Milo,seguindo a enfermeira sorridente.Antes de desaparecer pelo corredor,ele deu uma última olhada para Camus.Ele estava quase caindo no chão de tanto rir.Só então Milo se deu conta de que estava num hospital,e automaticamente tentou olhar para as suas costas.A roupa não cobria nem a metade das suas nádegas.

-Algum problema?-perguntou a enfermeira.

-Você não tem nenhuma roupa mais…hã…confortável?

-Ah…esse problema.-riu-se a moça,parecendo se divertir com essa situação.Só não continuou a rir porque eles já haviam chegado à sala de exames.

-Ah,é bom vê-lo de pé,Milo!-disse o doutor Sapporo,erguendo-se de sua cadeira e recebendo o paciente com um aperto de mão.

-Eu que o diga.-respondeu Milo,sorrindo.Estava se empenhando em esconder o que as suas roupas revelavam,mas sem muito sucesso.O médico indicou o aparelho de ressonância magnética que ocupava a maior parte da sala.Milo deitou dentro dele e se cobriu com a manta térmica.Em alguns minutos a luz se apagou e houve um barulho ensurdecedor,como se um aspirador tamanho família tivesse sido ligado.

-Fique imóvel para não precisarmos recomeçar o exame.-pediu Sapporo.Milo não atreveu a se mexer.Em pouco tempo ele foi liberado,mas logo foi levado para fazer outros exames,que incluíam sangüíneos,cardíacos,radiografias e tomografias.Quando voltou ao seu quarto já era quase noite.

-Então?-perguntou Camus.

-O médico já está vindo.Eu fiz um milhão de exames,e todos bem chatos,por assim dizer,mas quando o doutor Sapporo chegar é para me dar alta.-respondeu Milo,sentando-se na cama.-Você trouxe roupas?

-Têm umas suas aí na mala.-respondeu o amigo,indicando uma mala preta ao lado da cama.Milo remexeu-a até encontrar uma regata branca e uma calça preta.Entrou no banheiro e tomou um banho demorado,e quando voltou para o quarto,o doutor já o esperava.

-Bem,Milo,aqui está o seu atestado.Sem você tiver amnésia,dor de cabeça intensa ou tonturas constantes,deve voltar imediatamente ao hospital.Os resultados dos exames feitos hoje sairão sexta-feira.

-Beleza…-disse ele,pegando o papel que o médico lhe oferecia.-E aí,será que dá pra você me levar em casa?

-Pode ser.-respondeu Camus,enquanto Sapporo os deixava no quarto.