Capítulo 01
O quarto está na penumbra, as cortinas cerradas impedindo que a luz do sol iluminasse o cômodo. Meus olhos provavelmente estão inchados e vermelhos, mas eu não tinha coragem de encarar meu reflexo no espelho. Minha cabeça dói terrivelmente por ter chorado durante horas, antes que finalmente conseguisse dormir por um tempo.
Meus sentimentos estão tumultuados. O alívio era enorme, mas a dor ainda era constante. Eu sofria por tudo que poderia ter sido, pela felicidade que poderíamos ter vivido, pelos filhos que nunca tivemos, pelo o amor que um dia senti. Mas ele estragou tudo. As drogas, a bebida, a violência foram mais fortes. Ele era um sem caráter, seduzido pelo caminho dos fracos.
Eu queria ter sido mais esperta, mais perceptiva e inteligente. Eu queria ter percebido o que todos a minha volta enxergavam com nitída clareza - a baixeza de James. Eu me culpava todas as horas do dia. Fui cega e tola, encantada por um verniz tão fino e falso, quanto seu amor por mim. Meus sonhos, meu amor, minhas esperanças estavam todas perdidas. Eu nunca poderia confiar novamente, nunca entregaria meu coração a outro homem. James queimou minha alma para o amor.
Levantei-me lentamente. Meu corpo empregando toda sua energia para sair da cama. Meus músculos estão dormentes, pesando toneladas de chumbo e era necessário toda minha força de vontade para iniciar cada dia. Ir ao trabalho, almoçar, jantar, tomar banho, fazer uma corrida - tudo levava grande esforço. Necessitava de determinação e remédios para fazer coisas banais e rotineiras. Mas eu tinha decidido que a tristeza não duraria para sempre.
Escovei os dentes, lavei o rosto e prendi meus cabelos embolados sem nunca olhar para o espelho. Eu sabia que meu rosto estava curado. Não existiam mais olhos roxos e cortados, lábios sangrentos e partidos, bochechas inchadas e raladas. Mas lá no fundo, eu só me enxergava dessa maneira. Eu não conseguia me libertar da imagem horrível da minha fraqueza. Eu não pude para-lo, eu não quis para-lo. Acreditei em suas mentiras, em suas desculpas fajutas.
Respirei fundo e prometi que hoje seria melhor. Minha promessa diária, meu fôlego para superar cada hora de cada dia. O aroma de café enchia a cozinha, a cafeteira estava quase cheia e o vapor subia lentamente. Peguei duas fatias de torrada no pote de vidro e passei uma camada fina de requeijão cremoso. Me servi de uma gigantesca caneca de café e fui sentar no sofá da sala de frente à televisão. Liguei num canal qualquer, não me interessava o que estava passando, apenas não queria o silêncio opressivo do apartamento.
Domingo era o pior dia da semana. Eu não podia me distrair com o trabalho, com as pessoas à minha volta, com o trânsito caótico da cidade. Eu apenas podia relaxar e aproveitar minha solidão, no entanto isso era impossível. Todas as cenas rodavam pela minha mente num carrossel infinito de dor. Eu tomava uma garrafa de vinho e dormia a maior parte do dia.
Hoje eu não queria que fosse assim. Eu tinha pavor de tornar-me uma alcólotra como ele e o medo me dava coragem para fazer algo diferente. Podia reconhecer que o dia estava bonito, quase perfeito para um passeio. Talvez eu caminhasse pela praia, apenas matando tempo, admirando o mar e as pessoas. Talvez eu devesse ter um cachorro, seria uma companhia, não é? Talvez eu voltasse para a terapia. Era isso que eu deveria fazer, mas tinha medo. Um medo, que diferente do outro, me tornava uma covarde. O medo de descobrir que eu nunca mais seria feliz, que eu nunca mais pudesse sorrir, pudesse amar.
Terminei de comer e lavei a louça na pia da bancada de granito escuro. Meus movimentos eram mecânicos. Eu não sorria mais, meus olhos não brilhavam mais. Deus, como seria gargalhar, dar risada sem motivos, apenas porque estava feliz. Suspirei, sequei minhas mãos e voltei ao quarto. A cama grande me fazia sentir pequena e desprotegida, mas pelo menos eu não acordava no chão após um pesadelo.
Estiquei os lençóis e forrei o colchão com o edredom preto. Juntei as roupas sujas que estavam espalhadas pelo quarto e joguei no cesto de madeira clara do banheiro. Os sapatos foram organizados no closet e as jóias numa caixinha forrada de cetim azul escuro. Abri as cortinas para deixar que o sol e o vento arejassem meu quarto.
Meu banheiro estava uma zona. Calcinhas e sutiãs pendurados, meias -calças espalhadas pelo chão. Soquei tudo dentro do cesto e levei para lavanderia. Programei a máquina e deixei a roupa batendo enquanto tomava banho.
Eu detestava tomar banho. Eu tinha que passar as mãos pelo meu corpo e a sensação era aterradora. Parecia que tudo voltava, cada momento de pavor e nojo ressurgia e eu me sentia suja. Um trapo usado e rasgado. Às vezes eu me esfregava com tanta força com a bucha que minha pele esfolava e uma fina camada de sangue a cobria. Eu chorava aos soluços a cada banho.
Me enxuguei, desembaracei os cabelos e coloquei um short jeans e uma camisa branca. Calcei as havaianas azuis e me obriguei a deixar o apartamento. Fui caminhando lentamente pelas ruas do Bairro de Fátima até chegar à praia de Copacabana. O sol não estava muito forte e uma brisa fria vinda do mar soprava. Sentei na beirada do calçadão com os pés na areia clara e fofa. Um grupo de meninas praticava vôlei e soltava risadinhas a todo momento. Eu as invejava. Elas eram livres, podiam rir e divertir-se, não tinham que conviver com a dor. Suspirei infeliz, mas satisfeita por ter saído de casa, por ter enfrentado este dia com mais coragem que os outros. Quem sabe, enfim, eu pudesse me curar.
Fiquei tão distraída, ouvindo o som do mar, sentindo o sol esquentando minha pele e curtindo as risadinhas animadas das garotas que não notei o enorme cão que corria na minha direção. Dizem que nesses casos o melhor é manter-se imóvel. Eu não respirava, eu não piscava, meu coração não batia. O pastor alemão corria mais rápido, as orelhas em pé e a língua de fora. Ele parou a centímetros de mim, cheirou meus pés calmamente e depois lambeu minhas mãos como se fossemos velhos amigos. Eu arfava, minha respiração saía aos soluços e quase não chegava ar aos meus pulmões. Eu estava hipnotizada pelos olhos escuros e amistosos do grande cão.
- Tito... - Um homem realmente alto gritou a poucos metros de nós. O cachorro ficou com orelhas em pé e virou para o homem. Eu queria ter saído correndo, mas minhas pernas ainda eram gelatinas.
O homem andou a largos passos em nosso encontro. Seu cabelo castanho estava molhado e bagunçado, a camisa jogada no ombro largo e a bermuda de surfista colada ao corpo úmido e bronzeado. Ele era bonito, tinha traços bons e olhos suaves. O cachorro abanava o rabo, mas seu focinho se manteve em minhas mãos, como se quisesse ter certeza de que eu não fugiria. Hunf, como se eu conseguisse sequer respirar regularmente depois do susto.
- Tito, não faça isso de novo. - O cidadão dono do cão enorme brigou. Então seus olhos claros estavam em mim brilhando de preocupação. - Desculpas por ele, geralmente, ele fica ao meu lado o tempo todo. Você está bem?
Eu assenti, impossibilitada de falar. Sua preocupação genuína envolveu-me num manto aquecido que há muito eu não sentia. Ele estava cuidando de mim. As lágrimas queimaram atrás dos olhos, um nó surgiu em minha garganta e eu respirei fundo, buscando controle de mim mesma. Tito lambeu minha mão e me olhou carinhoso. Os cães podiam sentir?
- Ele é um bom garoto. - Disse enquanto afagava a cabeça dele. - Apenas me deu um bom susto, correndo desembestado até mim, mas somos amigos, certo Tito?
O dono dele riu suavemente. Ele tinha o rosto muito masculino e seu corpo alto e musculoso acentuava sua masculinidade, mas seus modos eram suaves. Ele era o tipo de homem que protegia, pelo menos parecia. Suspirei tristonha.
- Ele é sim. - Riu de novo. - Não sei o que deu nele, do nada saiu correndo e só parou quando te encontrou. Acho que se apaixonou por você.
O pastor alemão tinha deitado a cabeça grande em meu colo e empurrava minhas mãos para acarinha-lo. Acho que ele estava certo, Tito tinha se apaixonado. Eu sorri docemente ao canino. Oh, Deus! Eu sorri livremente, sem esforço algum. As lágrimas que tanto segurei saltaram dos meus olhos e desceram pelo rosto.
- O que houve? Tá tudo bem? Precisa de alguma coisa? - A voz dele transbordava preocupação e isso só aumentou minhas lágrimas. Um estranho se preocupou comigo mais do que meu marido foi capaz em todos os anos juntos.
Neguei com a cabeça. Precisava me controlar. Ele ainda era um estranho e com certeza não queria saber das minhas merdas. Enxuguei o rosto com as costas da mão e fiquei de pé. Tito deixou um lamento escapar, mas continuou sentado. Seu dono ficou de pé junto comigo, seus olhos buscando os meus. Era tão intensa a sensação que me tomava.
- Não é nada. - Murmurei com voz rouca. - Apenas há muito tempo eu não sorria.
Uma última lágrima me escapou antes que eu me virasse e deixasse o estranho e seu cachorro para trás. Corri meio sem rumo pelas ruas, com medo que ele pudesse me seguir, mas não demorou muito chegar ao meu prédio. Cumprimentei o porteiro e subi ao apartamento solitário. Tomei um banho rápido, apenas para tirar o suor do corpo e joguei-me no sofá.
Passei o dia vendo televisão. Apenas o Sheldon foi capaz de me distrair com sua inapetência social. Dormi e acordei e ainda não era noite. Comi um sanduíche de frango com maionese e um copo de leite. As memórias iam e voltavam, às vezes eu apenas me desligava.
Quando finalmente anoiteceu, tomei meu comprimido para ajudar com os pesadelos e escovei os dentes antes de deitar na cama ortopédica. Meus olhos estavam fechados, meu corpo relaxado graças ao remédio. Eu estava embalada pelo sono, mas meu subconsciente ainda funcionava e nele eu só pensava no estranho bonito da praia e no seu cachorro destrambelhado. Pela primeira vez em meses eu não chorei longamente antes de dormir.
Olá, como vão? Então, curtiram o primeiro capítulo? Gostaram, não gostaram, queriam algo diferente? Deixe seu review com a sua opinião, ficarei muito feliz em responde-lo! Beijos.
