"Nossa, que tempo louco esse! Ainda bem que eu trouxe meu guarda chuva..." Matsumoto estava saindo da empresa após o expediente, e ao ver a chuva torrencial que a esperava do lado de fora, tratou logo de procurar o guarda chuva dentro de sua enorme bolsa. Passou um bom bocado de tempo revirando as mil coisas que costumava carregar: maquiagem, vidrinho de perfume, agenda pessoal, agenda do escritório, bombons, revistas feminina e de horóscopo, dois celulares...

"Ahá!!! Achei você!!!" falou alto e triunfalmente enquanto tirava o guarda chuva cor de rosa do fundo da bolsa, assustando as pessoas que estavam a seu redor. Quando se preparou para sair e enfrentar a chuva, escutou a buzina de um carro. Era Bykuya que tinha acabado de sair da garagem subterrânea do prédio e parado o carro em frente.

"Vou precisar ir ao centro antigo, quer uma carona? Acredito que fica no caminho de sua casa..."

"Ah, mas é claro que eu quero chefinh... quero dizer, Sr. Kuchiki! Muito obrigada..." Mas quando a secretária desceu a escadaria do imponente edifício,percebeu que a chuva ha via cessado e o céu se abriu, dando a visão do fim de tarde. " Mas... como pode isso? Estava o maior toró agora a pouco..." falou baixinho a loira, até que uma nova buzinada do carro do seu chefe lhe fez chamar a atenção. Imediatamente, ela se pôs pra dentro do veiculo, afinal, seu chefe era uma pessoa aparentemente tranqüila, mas às vezes se mostrava impaciente quando não tinha suas vontades atendidas prontamente.

Passaram-se alguns minutos de trajeto, e por incrível que pareça, sem engarrafamentos, sem maiores estresses. Os ocupantes do automóvel permaneciam calados, apenas ouvindo uma estação de rádio. A secretária pensava com seus botões todos esses fatos, até formular uma pergunta a seu chefe.

"Sabe, Sr. Kuchiki, eu te acho a pessoa mais sortuda do mundo!"

" Até você dizendo essas coisas Matsumoto?"

"Mas é verdade!!! Como pode, numa cidade louca dessas, o senhor não conseguir pegar nenhum engarrafamento, ainda mais nesse horário?"

"Eu sei quais as melhores vias para seguir nesse horário..."

"Tá bom! E os semáforos que sempre ficam verdes quando o senhor passa?"

"...Coincidência...."

" E a chuva que parou quando o senhor chegou em frente a empresa?"

"E por acaso eu controlo o tempo agora, Matsumoto?"

Enquanto Matsumoto continuava na sua teima, o locutor da estação seguia com a programação, anunciando que havia chegado a hora de escolher o número de telefone premiado da semana.

"Ah! Eu tinha até me esquecido! Eu sempre acompanho essa promoção, esperando ganhar o premio máximo!!! Tá certo que eu não tenho a sorte do senhor, mas não custa nada acreditar!" Matsumoto tira seus dois celulares da bolsa e fica esperando apreensiva um toque, a menor vibração que fosse. Bykuya manteve-se indiferente, com os olhos fixos no trânsito.

"Atenção pessoal, já escolhi o número, vai fazendo figa, se pega com todos os santos... Opa! Está chamando!!!" Nisso, o celular do executivo, que estava no apoio apropriado para o aparelho no painel do carro, começa a tocar, coincidentemente, em sincronia com o sinal do telefone que estava sendo chamado na rádio.

"Atende, chefe!!! É pro senhor!!! Só pode, só pode!!!" falou a secretária afobada, enquanto via o celular tocar e vibrar num número desconhecido. Por força da insistência dela, Byakuya pede para ela atender e deixar no viva voz, já que ele estava na direção.

"Alô?"

"Parabéns!!!! Você é o nosso mais novo ganhador!!!"

"AAAhhhhhh!!!! Eu sabia, sabia que era pro senhor chefinhooo!!!! E depois vem dizer que não acredita em sorte!!!"

"Menos, Matsumoto, menos..."

00000

Do outro lado da cidade, pessoas menos afortunadas tentavam ganhar suas vidas. Renji chegou esgotado ao apartamento (melhor dizendo, "apertamento") de número 13, em um modesto prédio no subúrbio da cidade. Urahara sempre o pegava para limão, espremendo-o até a última gota de energia e suor do ruivo. Teve que se contentar em voltar pelo metrô, num vagão lotado, tendo a sensação de ser uma sardinha espremida junto de outras dentro de uma lata. Que falta fazia a Zabimaru!

Seguiu para a pequena cozinha a fim de preparar algo para comer. Como não era um talento na cozinha, muito pelo contrário, só se dava bem fazendo comidas instantâneas e congeladas. Abriu um pacote e colocou no micro –ondas. Enquanto esperava a comida ficar pronta, abriu o jornal que havia comprado na banca de revistas da esquina, passando direto para o caderno de variedades e ler as tirinhas, era a primeira coisa que ele lia num jornal. Foi quando o título em letras garrafais de uma matéria na parte de fofocas e celebridades lhe chamou a atenção.

" Festa Top 10 d Soul Record ..." imediatamente, seus olhos passaram a ler os detalhes da matéria, que também continha fotos dos artistas e de Youruichi. "... A festa contará com vários artistas, celebridades e grandes empresários da indústria fonográfica; a presidente da gravadora, Shinhouin Youruichi premiará os artistas que mais se destacaram no ano..." Segundo a matéria, o evento aconteceria em um prédio do início do século passado, recentemente restaurado e transformado em uma badaladíssima casa de shows. Ao ler a data do evento, Renji sentiu uma alegre ansiedade, e acreditou piamente que o gênio da sorte resolveu lhe abrir uma janela, depois de ter lhe fechado todas as portas. "Será no próximo fim de semana! Dessa vez, ela não vai escapar!YOSH!!!" Prometeu solenemente a si mesmo, levantando-se da cadeira. Estava tão empolgado com a nova oportunidade que só veio se lembrar do seu jantar ao sentir o cheiro de queimado vindo da cozinha.

"Minha janta,porra! Já era.... " falou desapontado ao ver aquela gororoba nojenta escorrendo do forno de microondas.

0000000

Os dias se passaram até a chegada do grande evento. Os arredores da casa de shows estavam apinhados de gente, ansiosos para verem a passagem das celebridades e artistas convidados para o evento, além claro, de repórteres e inúmeros paparazzis. O prédio antigo era imponente e seus detalhes de estilo neoclássico em mármore criavam um clima ideal para um baile de máscaras. A idéia de Byakuya era recriar a atmosfera de encantamento de um carnaval em Veneza. Dançarinos e acrobatas mascarados estavam estrategicamente espalhados pelo salão e interagiam com os convidados. Uma estrutura metálica havia sido montada para que os convidados VIPs pudessem se acomodar separadamente dos outros convidados. Um grande palco montado dispunha de telões com a exibição de videoclipes dos artistas da gravadora. A música embalava as pessoas, fazendo-as acreditar momentaneamente na aura de magia que estava impregnada naquele lugar. Tudo estava correndo bem, tudo sincronizado e nos seus devidos lugares, o que não era novidade para Byakuya, que permanecia atento aos detalhes , supervisionava o trabalho da equipe.

"Sem dúvida, fez um belo trabalho, Byakuya san. Foi um grande acerto te deixar a frente da organização desta festa." Falou Aizen, elegante em seu terno preto Armani, com uma máscara da mesma cor, observando satisfeito o resultado de dias de trabalho indo a contento.

"Muito obrigado Aizen-sama."

"Quem diria que alguém tão sisudo feito o Bya-kun faria uma festa tão divertida?" falou Gin ao se aproximar da dupla, não menos elegante que seu presidente, trazendo consigo duas taças de champanhe importado. "Mmm... champanhe da melhor qualidade! Você pensa mesmo em tudo, rapaz! E aí? Gostou da minha máscara?" falou apontando para sua máscara japonesa de raposa, que estava posicionada de lado, de maneira a não encobrir seu rosto.

"Não vejo diferença nenhuma da sua cara pra ela..." pensou Bykuya, vendo a estranha semelhança entre a máscara e o rosto do vice-presidente com seus olhos apertados e sorriso rasgado.

"Não fique julgando o livro pela capa Gin... é certo que nem toda pessoa séria não seja dada a festas. Em nenhum momento eu escutei o Kuchiki san comentando que não gostava de festas, não é Kuchiki san?"

"É, sou forçado a concordar. Talvez a sisudez do Bya-kun desapareça com um pouco de álcool correndo no sangue!" falou Gin levantando sua taça de champanhe, como se estivesse brindando.

Byakuya tentou não se incomodar com este último comentário do homem de cabelos prateados, se despediu do presidente e seguiu para continuar com sua supervisão.

Enquanto isso, do lado de fora, um desafortunado ruivo tentava convencer os seguranças do evento que havia sido convidado para a festa, mas que tinha esquecido o convite em casa. Quando percebeu que podia ser atirado na sarjeta a qualquer momento, tratou de se retirar. Mas isso também não queria dizer que havia desistido.

"Já sei!Vou entrar pelos fundos!" pensou consigo. Se encaminhou para o outro lado da edificação onde estavam dispostos alguns caminhões da empresa de equipamentos de som. Um homem corpulento de meia idade avistou aquele rapaz alto de revoltos cabelos vermelhos e passou a gritar por ele:

"Hey, você!" Era só o que faltava agora! Renji tratou logo de arrumar uma mentira para contar ao homem. Mas quando estava articulando as palavras, o homem o interrompeu:

"Você é da companhia de dança ?" Renji ficou parado sem reagir. Foi então que o homem falou com ele outra vez: "Já está atrasado! Os dançarinos entraram já faz uns vinte minutos... "

"Hã? Ah! Ah! Claro, claro, eu tive dificuldade de chegar aqui... Mas eu tô indo agora! Valeu moço!"

"Certo, certo... quando você entrar, suba pela escada e entre no corredor a direita, é lá que você vai encontrar o vestiário." Imediatamente, Renji entrou pela porta que o funcionário havia indicado e saiu procurando pelo vestiário para os funcionários. Parecia que sua sorte estava realmente mudando, afinal!

00000

"E então? O que a senhora está vendo? Vou conhecer um grande amor?!" falava Matsumoto ansiosa para a cartomante que acabara de virar as cartas de tarô dispostas na mesa.

"Ansiedade pode acabar atrapalhando na minha interpretação, querida..." falou a mulher de pele morena e cabelos escuros, traços físicos que denunciavam o seu forte sangue cigano, para a jovem. "Vejamos o que as cartas querem dizer para você..."

Uma cartomante na festa havia sido sugestão de Matsumoto para seu chefe, pois a moça acreditava que se uma das motivações do evento era promover um efeito mágico nos convidados, porque não temperar tudo com um toque de misticismo? Byakuya acabou concordando, afinal isso poderia dar a festa mais um toque exótico e interessante. O lugar reservado para a mulher que leria as cartas ficava numa ala mais reservada, numa espécie de tenda, decorada com toda sorte de artefatos místicos, para criar uma aura de mistério.

Após a consulta, Matsumoto agradece as recomendações da mulher e se apronta para sair e 'cair na festa' como ela mesma disse. Já na saída da tenda, ela dá de cara com seu chefe.

"Ah, oi Senhor Kuchiki! Não me diga que veio ver o seu futuro nas cartas também?"

"Na verdade não, só estava checando se estava tudo bem, e também vim saber se a senhora não está precisando de alguma coisa. "

"Não, meu jovem, obrigada. Está tudo bem!" respondeu educadamente a cartomante.

"Sendo assim, eu vou indo." Quando viu seu chefe indo embora, Matsumoto o puxou pelo braço, forçando a entrar na tenda.

" Ah não, senhor Kuchiki, estamos numa festa, trate de relaxar um pouco! Senta aqui para a Madame Odara ver seu futuro! Ela acabou de ler meu jogo , pode vir agora..."

"Suponho que ela viu um homem interessante e apaixonado no seu futuro..."

"Ahn, foi mais ou menos isso... Vai ver o senhor tem o dom da adivinhação!"

"Isso já é de praxe, Matsumoto, não precisa ser adivinho pra saber de uma coisa dessas... "

"Aah... temos um cético aqui..." falou a cartomante, enquanto tirava as cartas da mesa. 'Em todo caso, acho que não custa nada ter uma experiência diferente..."

"Ah! Madame Odara tem toda a razão! Ele vai se consultar com a senhora sim! Pode começar a embaralhar as cartas!" Matsumoto empurrou de leve Bykuya para que se sentasse, tendo para si o olhar quase assassino do moreno, mas isso pareceu não abalar a simpática loira, que se despediu cantarolando:

"Bye, bye! Me conte depois tudo, tá bom?" depois da despedida, a jovem fechou as cortinas violetas.

Que vexame aquela secretária sem juízo o colocou... o jeito era iniciar a consulta, mais por educação do que por crença própria. A mulher então embaralhou o jogo de cartas e em seguida, pediu ao rapaz que cortasse o baralho em três partes. Após isso, Odara retirou três cartas na mesa, mantendo-as viradas para baixo.

Depois de uma breve pausa, a cartomante virou –as, revelando os arcanos. Um sorriso enigmático surgiu em seu rosto ao ver aquele jogo. A primeira carta disposta era a "Roda da Fortuna".

" Você é uma pessoa abençoada pela sorte. Minha intuição me falou isso no primeiro momento em que te vi e agora as cartas vem me confirmar isso...Todas as coisas vieram fáceis para as suas mãos, sempre conseguiu o que desejava, fosse material ou sentimentalmente falando..."

" Nada demais, apenas procuro ser bom em tudo que faço. É causa e conseqüência."

"Por favor, eu ainda não terminei..." interrompeu a mulher, levantando a mão cheia de anéis num jeito delicado, mas ao mesmo tempo severo, o que deixou seu cliente um pouco sem jeito. " Veja, a carta está invertida. Lembre-se que o mundo gira, e as coisas mudam. Sua situação hoje é assim,quase perfeita, mas amanhã pode ser outra completamente diferente..."

Byakuya sentiu um certo incômodo com estas ultimas palavras da mulher, que o mirava com seus grandes olhos negros, feito a Esfinge, pronto para devorá-lo.

A carta seguinte era A Morte, e o incômodo do rapaz cresceu ao vê-la. Não que ele acreditasse nessas coisas, longe disso, mas aquela carta representando um esqueleto com uma foice era realmente assustadora. Ao perceber a apreensão no rosto de seu cliente, Odara tratou de explicar o real sentido daquela carta:

"Não se preocupe. Esta carta raramente representa um falecimento, isso só acontece se estiver muito mal rodeada, o que não é seu caso!" A mulher sorriu para o moreno. "A Morte significa mudança de vida, o começo de uma nova fase. Ela só está reforçando o significado da carta anterior. "

Passou a mão para a carta seguinte, e seu sorriso se alargou mais com aquela carta.

" Vai conhecer uma pessoa, que será o grande amor de sua vida."

"Isso de alma gêmea já é tão batido... " falou baixo o rapaz num tom de ironia e Odara aparentemente não se incomodou com o comentário. Deveria estar acostumada com isso.

" E a mudança em sua vida está diretamente ligada a essa pessoa que irá conhecer. Melhor dizendo, ela que desencadeará esse processo..."

"Er... obrigado pela consulta, Madame... Odara! Mas realmente preciso ir, tenho muitas coisas a fazer nessa festa. Mais uma vez obrigado;" O moreno se apressou em sair, e a mulher recolheu as cartas.

"Tudo bem. Se quiser fazer mais alguma consulta comigo, pode ficar com meu cartão." Odara estendeu um dos cartões de visita que estavam na mesa, próximos a ela. Byakuya o recebeu e o guardou no bolso da calça e em seguida se retirou.

"Eu sei que você ainda vai me procurar depois, rapaz..." ainda falou Odara vendo o moreno partir.

"Hunf!Até parece que esses pedaços de papel decidem o que devo fazer da minha vida..." resmungou Byakuya, ao mesmo tempo em que punha a máscara prateada no rosto. Voltou para a festa, cuidar de seus afazeres, fazendo pouco caso do destino, que lhe reservava para aquela noite a maior reviravolta de sua vida.