Especulações
Sexta-feira.
Por volta de dez da manhã, o diretor está sentado em seu escritório aproveitando a calmaria das férias para pôr sua leitura atrasada em dia. Se encontra agora devorando um livro imenso de alquimia recentemente atualizado com as mais novas e avançadas técnicas da transfiguração de metais preciosos ao mesmo tempo em que chupa, com igual empenho, seu terceiro sorvete de limão consecutivo. Mas, tal como era de se esperar, todo esse sossego não vai durar muito.
Isso porque logo se ouve claramente o som distinto de pedra sendo arrastada quando a gárgula que guarda seu escritório pula para o lado e abre as portas atrás de si, dando passagem para alguém. Depois o barulho modorrento das escadarias rodopiando para cima, seguida de batidas, nitidamente femininas, na porta de carvalho.
– Entre – ele pede e fecha cuidadosamente o livro, mas não sem antes posicionar o marcador na página onde tinha sido interrompido. Ainda se lembra de abrir um sorriso educado quando a porta se abre.
– Bom dia, professor Dumbledore – diz a mulher magra de óculos enormes e voz macia e misteriosa, fechando a porta atrás de si. Ela parece um pouco mais agitada que de costume.
– Olá Sibyll! – ele responde gentilmente, se levantando. Afinal, não era nada cavalheiresco permanecer sentado enquanto havia uma dama de pé no recinto. – Que bom vê-la fora de sua sala hoje, está mesmo um dia adorável para...
Mas ao invés de ir se sentar na cadeira que o outro tinha oferecido de frente para a escrivaninha, Trelawney corre até ele de braços abertos, os muitos colares e pulseiras tilintando exageradamente no ato. E, para o total constrangimento do bruxo, ela o abraça maternalmente e segue dando tapinhas carinhosos em seu ombro.
– Eu sinto tanto! – ela fala transbordando piedade, como se esperasse que a qualquer momento ele caia no choro ou algo assim.
E Albus se solta e suspira resignado. Era uma pena, pensou, que fosse ele o escolhido dessa vez. Já fazia quase cinco meses que ela não previa a morte de ninguém do corpo docente...
– Sobre o que, minha cara? – o bruxo pergunta com sua educação milimetricamente estudada, tentando parecer verdadeiramente interessado em seja lá qual for a tragédia que ela imagina que estará em seu futuro.
– A sua dor – a professora respondeu, transbordando de genuína compaixão. – Um homem tão bom não merecia tal destino.
– Oh sim, sou mesmo muito infeliz – Dumbledore concorda, mantendo-se tão sério quando a situação exigia. Mas era quase impossível não rir de todo aquele dramalhão.
– Que lástima, que lástima! Mas assim é a vida, não é mesmo?
– Sem dúvidas.
– O olho interior é uma dádiva, mas também pode ser uma maldição algumas vezes – a outra discursa em tom solene. – Ao menos me alertou para a a desgraça de um amigo.
Então Trelawney ajeita seus xales muito grandes e ainda mais estranhos que de costume, uma vez que estavam em pleno verão, esperando que ele dissesse alguma coisa. Por um instante Albus pensou em indagar qual seria esse destino tão cruel que pairava sobre ele, mas decidiu que não estava tããão curioso assim.
– E obrigado por vir me avisar – ele fala, mas mantém o olhar sério na direção do retrato de uma bruxa idosa de longos cachos prateados chamada Dilys, que está se coçando de vontade de dar um [merecido] diagnóstico de doença mental para a professora de Adivinhação.
– Aquela megera sem coração! Ela não devia brincar com seus sentimentos desse jeito.
Mas Dumbledore não está disposto a perder mais de seu tempo tentando entendê-la, apenas prossegue paciente e delicadamente levando-a pelo braço até a saída, ao mesmo tempo tentando parecer o mais torturado emocionalmente que podia. E com um gesto dramático ele escancara a porta, apoiando-se na maçaneta de latão em formado de grifo como se estivesse prestes a cair no chão em total desespero.
– Apenas peço que não diga comente isso com ninguém, porque eu prefiro ficar sozinho com a minha dor.
– Claro, claro – a professora concorda com um suspiro entristecido, saindo lentamente na direção da escada. - Pobre Albus...
– Mais uma vez obrigado, Sibyll. Foi um prazer revê-la!
Assim que fecha a porta atrás dela, o velho tem de cobrir a boca com uma das mãos para não cair num sonoro ataque de risos. Mas imediatamente sua atenção se volta para os quadros dos ex-diretores na parede, que observavam a cena completamente perplexos.
– Dumbledore, o que demônios foi isso? – pergunta Armando Dippet, como se fosse o porta-voz da incredulidade pasmada de todos os colegas de parede, a testa ampliada pela calvície enrugada sobre as sobrancelhas muito juntas.
– Eu não faço idéia – o atual diretor encolhe os ombros e deixa escapar uma última risada. – Apenas pensei que seria indelicado contrariá-la, uma vez que estava tão empenhada em me consolar.
Algumas horas depois, em outra parte do castelo, McGonagall caminha sem pressa pelos corredores, apreciando a tranquilidade em sua volta e o fato de pela primeira vez em meses não ter absolutamente nada para fazer. Até mesmo os quadros ultimamente pareciam mais quietos que o habitual e, senão fosse a chuva que batia com força contra as janelas de Hogwarts, o silêncio seria absoluto.
Mesmo assim ela se sente incomodada, como se alguém a estivesse seguindo. Quase pode ouvir passos apressados abafados pelo som das gotas batendo violentamente contra as vidraças... Ou seria apenas a sua imaginação?
Não, ela jura que há uma presença atrás de si aproximando-se cada vez mais, como se pudesse sentir alguém sondando-a através da nuca. Até que finalmente olha por cima dos ombros e não vê ninguém, então sacode a cabeça por um instante achando-se ridiculamente paranóica, e se vira novamente para continuar seu caminho. Mas pára em seguida quando quase tropeça em alguma coisa, ou melhor, em alguém.
- Minerva? - pergunta o professor Flitwick esbaforido, dando dois passinhos apressados pra trás bem a tempo de salvar seus pés de levar um pisão. Viera correndo do salão principal, onde tinha avisado aos colegas que faria sua primeira sondagem ainda hoje.
– Por Mérlin, Filius! – ela leva uma mão ao peito, assustadíssima. – De onde é que você veio?
O professor reprime uma reposta mal-educada, afinal de contas ela não tinha culpa por ele ser, hum, verticalmente desfavorecido. Quanto ao fato de não ter sido visto ao alcançá-la, ele já estava acostumado demais com esse tipo de coisa para se sentir realmente ofendido. Certa vez Madame Hooch, quando estava especialmente distraída, havia derrubado uma pilha de pergaminhos em sua cabeça porque confundira-o com uma mesinha de centro.
Além disso, se ele queria mesmo descobrir a verdade sobre o que estava acontecendo entre a chefe da grifinória e o diretor da escola, e quem sabe ganhar uns galeões extra com isso, tinha de ser um sujeito de muito tato agora.
Minerva não é exatamente uma pessoa muito aberta a conversas íntimas, e certamente é inteligente demais para deixar escapar qualquer coisa que estivesse tentando esconder, por mais sutil que fossem as pistas. Sendo assim, ele optou por uma abordagem direta, apesar de estar com muito medo de ofendê-la, não somente por prezar sua amizade como também porque, convenhamos, isso não seria nada recomendável.
Ninguém em sã consciência ia querer vê-la zangada.
– Tem um momento? – ele pede, apontando para uma sala vazia qualquer. – Gostaria de conversar um pouco com você em particular.
– Como queira.
Ela o acompanha curiosa até a já mencionada sala, então se senta em uma carteira bem na fileira da frente. Porém Filius prefere manter-se de pé, assim eles podem conversar com certa igualdade.
– Sabe, eu estive aqui me perguntando... – sua vozinha estridente vai morrendo junto com sua coragem.
– Sobre?
Só então ele se dá conta de que fora uma péssima idéia desde o princípio. Mesmo assim, já era tarde demais pra voltar atrás.
– Somos amigos, certo?
– Claro! – ela responde prontamente. Ao menos parecia estar de bom-humor.
– Então podemos ter uma conversa totalmente franca, certo?
– Certo.
– Você trabalha em Hogwarts há décadas e somos colegas há muito tempo – ele prepara o terreno com calma, com o intuito de levar o assunto o mais delicadamente possível. Em todo caso, elogiar um pouco sempre é um bom meio de acalmar os ânimos, principalmente quando se trata de uma mulher. – Bom, você é uma mulher muito interessante. Uma bruxa impressionante mesmo, e saiba que eu te admiro muito.
– E...? – McGonagall incentiva, já começando a ficar nitidamente impaciente com o amigo.
– E, pode parecer um pouco intrometido de minha parte, mas eu sempre pensei que é estranho que não tenha alguém ao seu lado... – enquanto ele fala, as sobrancelhas da outra se arqueiam de surpresa e a boca se contrai ameaçadoramente. E Filius tem a certeza de que já é um homem morto. – Bem, prometa que não vai ficar chateada se eu te fizer uma pergunta pessoal?
O rosto atônito da amiga dá lugar a um brilho momentâneo de compreensão, seguido por um sorriso complacente, quase divertido. E o baixinho prende a respiração de expectativa.
– Ah, sim. Eu acho que entendo o que você quer dizer, Filius.
– Entende? – ele exclama, aliviado. Fora bem mais fácil do que ele tinha imaginado!
E Minerva chega um pouco mais pra frente, sentando-se agora na pontinha da cadeira e observando-o constrangedoramente bem nos olhos. Algo no sorriso de Monalisa da amiga é mais assustador do que se ela tivesse começado a gritar com a varinha em punho.
– Perfeitamente – ela diz com voz suave. – E saiba que eu me sinto lisonjeada, de verdade. Tenho um grande carinho por você, mas não desse jeito.
– Quê? – ele exclama quando finalmente entende o que a outra estava querendo dizer.
– Sinto muito se isso te magoa, mas não posso fazer nada a respeito de meus sentimentos – ela dá um suspiro pesaroso e se levanta. – Eu só consigo vê-lo como amigo.
– Não, Minerva, você me não entendeu – ele ainda tenta argumentar, mas a outra já está a caminho da porta a essa altura.
– E espero sinceramente que isso não interfira em nossa amizade.
Dito isto ela sai da sala, deixando o pequenino professor Flitwick ponderando se tinha valido a pena passar pelo momento mais embaraçoso de sua estada em Hogwarts por causa uma aposta idiota. Em todo caso, ao menos ele saíra [fisicamente] intacto desse encontro e ainda há muito tempo pra descobrir o que se passa entre Dumbledore e McGonagall...
Uhura: Obrigada. Fica relax que eu vou tentar postar mais logo logo. Afinal, essa fic é culpa sua, hehe.
Deborah Black: Valeu pelo comentário. Sinta-se livre pra apostar e se vc vencer fica tranquila q eu te mando uma coruja com seus galeões.
:D
n/a: suhauhsauhaushauhsuahsauhsa
Fala a verdade, eu tenho um senso de humor estranho...
Como sempre agradeço os leitores e reviews. Eu amo vcs!
Bjs e até mais.
