Neverending War...
Cap. 2 - Fatalidades

(...)

"...Argh!"

Ofegante e ainda assustado, Julian acorda de mais um pesadelo... Este, desta vez, parecia ter sido realmente aterrador...

Ele levanta os lençóis e se senta do lado da cama, pensativo, enquanto secava as pequenas gotículas de suor da testa. Tudo estava começando a ficar claro desta vez.

As imagens iam se formando aos poucos em sua mente, rápidas e distorcidas. Eram rostos...

Rostos distorcidos...

Lembrava-se de que estava no meio de uma imensa multidão, todos terrivelmente distorcidos e desfigurados... Enquanto chamas incandescentes caíam sobre as mesmas, destruindo todos na mais absoluta agonia.

Tudo o que se podia ouvir ali eram os gritos de desespero de todos, chamando pelo seu nome, pedindo ajuda.

"Finalmente..." Ele diz, recompondo-se. "Consegui lembrar o que me assustava tanto! Preciso dizer isso para o senhor Dimitri!"

Ele se levanta da cama rapidamente e parte para o banheiro, para se aprontar. Porém, pára bruscamente ao ouvir, só agora, um som peculiar do lado de fora da casa.

"Mas... O que é isso?" Pensa, indo até a janela do quarto e pressionando um pequeno interruptor ao lado. As persianas automaticamente se retraem. Vê então, a forte chuva que desabava sobre Autonoe. Na rua da frente pequenos 'córregos' se formavam, indo diretamente para os chamados "hidroescapes" (bueiros). Um cheiro característico de terra molhada invade o quarto. "Que coisa estranha, nem é temporada de chuva... Que tempo maluco."

Julian olha para o calendário que pendia em uma das paredes do quarto, com várias marcações feitas à tinta, em certas datas.

Na verdade, em Autonoe, não havia chuva comumente, como na Terra. Isso se dava à mística metamorfose que ocorrera anos atrás, quando a magia fora totalmente extinta daquele continente. Este fenômeno natural, agora, era tão raro que existiam datas de previsão de chuva.

E aquele não era um dia daqueles... Ao contrário, estava bastante longe de tal época.

"Mãe?" Ele chama pela mãe, enquanto se dirige para a sala, saindo do quarto. "Você viu que coisa estranha? Essa chuva tão forte e justo hoje! Não é muito estra..." O garoto pára de falar ao ver a mãe com um rosto um tanto preocupado, olhando para o aparelho televisor, que estava ligado em um tipo de reportagem. "Mãe, o que houve? Você está bem?"

"Julian..." Sem tirar o olhar do rosto, ela aponta para a tevê. O garoto presta atenção.

"Continuamos aqui, em frente ao palácio de Autonoe, onde faleceu hoje, por volta das duas da manhã, o presidente da República de Autonoe, Luchenko." Anuncia a repórter na TV, com um microfone preso ao ouvido e trajando um terno preto. Ao fundo, a forte chuva caía sobre o jardim do palácio, onde havia muitos outros repórteres de várias emissoras. "O presidente vinha sofrendo, já a algum tempo, de uma degeneração pulmonar aguda, o que lhe foi fatal hoje pela madrugada."

"Puxa..." Julian fica surpreso com o que escuta. O presidente de Autonoe, morto? Na verdade, apesar da surpresa, aquilo tem pouco impacto sobre o mesmo, pois Luchenko nunca mostrara o rosto em público. Ordem do complicado método de governo de Autonoe. "E pensar que nem tivemos a chance de conhecê-lo. Que tragédia..."

"Mas ele fez muita coisa por todos nós." Fala a mãe do garoto. "Ele nos deu muita importância, diferente dos antigos governantes que apenas tinham seus olhos voltados para as pessoas da parte urbana da cidade."

"Eu estudei um pouco sobre ele. Mas nem mesmo nos livros aparece alguma figura dele. Tinha certa curiosidade de saber como ele é." Afirma, voltando o olhar para a TV. Nesse exato instante, vê algo que lhe chama ainda mais a atenção... A mesma repórter, bem como vários outros, falavam com Anna...

A garota mal consegue falar aos repórteres, pois se mostrava muito abalada, ao lado de sua fiel escudeira, Subaru.

Por alguns momentos, Julian havia se esquecido de que o presidente da república era pai da garota pela qual dedicou tanto amor... E ainda dedicava, mesmo que contra sua vontade. Vê-la, agora, fazia-o sentir uma dor no peito... Mas também, uma sensação boa...

Começava a se lembrar daquele fatídico dia, em que ela lhe deixou sozinho naquele lugar. Sozinho, sem ninguém para socorrer-lhe, enquanto ela saía em segurança dali.

Sozinho, para morrer...

"Ahn... Mas o que estou fazendo!" Fala o garoto para si mesmo, sacudindo a cabeça. "Isso não é hora para pensar nisso! Ela deve estar muito abalada com a perda do pai. Eu sei, porque acho que ficaria assim também se eu perdesse minha mãe." Pensa.

A mãe de Julian podia ver o olhar distante do garoto enquanto observava a filha de Luchenko, falando à TV... Ela dá um leve sorriso, tapando a boca com os dedos.

"Julian?"

"Sim mãe?"

"Por acaso conheceu essa menina?"

"... Porque a pergunta?"

"Reparei o jeito que você olha para ela. Nunca vi um olhar tão apaixonado antes. É como se você já a tivesse visto antes." Fala sorrindo. "Estou certa?"

"N-Não mãe..." Ele continua ruborizado. "E-Ela apenas me lembrou de alguém que eu conhecia... Nada mais."

"Hum..." Julian continua olhando para a TV fixamente, enquanto a mãe fica um pouco desconfiada. Logo a repórter falava novamente.

"O enterro do presidente se realizará exatamente ao meio dia. Mesmo com o inesperado tempo que hoje faz em nossa cidade. Esta é uma convocação para todos os habitantes de Autonoe prestarem uma última homenagem ao presidente Luchenko."

"Nós vamos até lá mãe?"

"Claro que sim meu filho. É nosso dever como cidadãos ir ao enterro do nosso presidente..." Ela se levanta, fitando o garoto. "... Mas se você não quiser ir, acho que não haverá problemas."

"Não, não! Eu acompanharei a senhora sim."

A mãe sorri e dá um forte abraço no filho, que retribui. E a chuva continua a cair lá fora...

(...)

Não muito longe dali, em um pequeno laboratório, outra TV estava ligada, justamente para ver o trágico acontecimento daquele dia. Sob o som forte da chuva caindo do lado de fora, Keinzer observava o repórter falar, sentado sobre uma das cadeiras do lugar e segurando uma caneca de café fumegante.

"*Uaaa*!" A cientista adentra no laboratório, bocejando. "Oi Keinzer."

"Oi Alexis..." Responde, sem retirar os olhos da TV.

"Nham..." Esticando e alongando os músculos dos braços, ela se aproxima de Keinzer. "O que está vendo?"

Ele aponta para a TV em silêncio, e bebe um gole da caneca. Alexis presta atenção no que o repórter falava. Algo sobre algum sepultamento ou coisa assim.

"Mas... Quem morreu?"

"... Luchenko."

"O que?" Ela diz, chocada. "Mas como? Ontem mesmo ele veio aqui falar com Dimitri e parecia tão bem!"

"Pois é." Responde, seco, colocando a caneca fumegante sobre a mesa. "Com Luchenko morto, as coisas serão mais difíceis."

A cientista esfrega os olhos e olha para a chuva que caía lá fora, como se já entendesse do que se tratava. Com um olhar triste, vê as gotas escorrerem pelo vidro de uma das janelas.

"Keinzer..."

"Sim?"

"Quando "o primeiro" vai despertar?"

O cientista toma novamente a caneca em mão, um pouco antes de falar e dá um longo suspiro.

"Daqui a algumas horas, provavelmente no fim da tarde."

"Eu espero que aqueles garotos fiquem bem." Senta-se em uma outra cadeira que havia por ali. Keinzer permanece em silêncio, olhando a TV. "E... Onde está Dimitri?"

"Quando eu acordei não o encontrei aqui. Provavelmente ele soube da notícia da morte de Luchenko, antes de nós e foi para o palácio."

"É bem provável. Típico dele fazer isso..."

"E quanto a você?" Indaga Keinzer, colocando a caneca sobre alguns papéis que estavam na mesa.

"O que tem eu?"

"Sonhou com ele, não sonhou?"

"..."

"Pela sua cara acho que estou certo."

Alexis tinha uma nítida expressão de cansaço no rosto. Uma noite mal dormida... Como a de Keinzer. Seus cabelos estavam mais embaraçados que o normal e olheiras grandes estavam abaixo de seus olhos.

"Sonhei com ele sim..." Deita a cabeça sobre os próprios braços, na mesa. "Foi horrível. Não consegui fechar os olhos a noite toda, isso está me matando!"

"Eu percebi..."

"Mas mesmo que não tivesse sonhado, já estou nervosa demais com tudo isso que aconteceu, e o que vai acontecer, pra continuar dormindo..."

"Acalme-se. Tudo o que podemos fazer agora, é esperar..."

Nisso, ela vira a cabeça vagarosamente e continua observando a chuva...

(...)

Entre os enormes pilares do palácio do governo, podiam-se ouvir dezenas de vozes. Uma multidão de pessoas, a maioria políticos, se encontrava no lugar, sendo os primeiros a presenciarem o corpo do presidente, que era mantido lacrado em um grande caixão transparente no centro de um enorme salão. O clima por ali era tenso e pesado.

Exatamente na entrada do palácio, um aglomerado de pessoas tentava, de todas as formas, chegarem a uma única que estava ali. Eram dezenas de repórteres e câmeras, tentando conseguir nem que fosse uma pequena palavra da adorável filha do presidente, Anna. Esta se encontrava em prantos, limpando as lágrimas com um lenço de seda branco e vestindo um vestido longo e rendado, totalmente preto, enquanto Subaru a acompanhava ao seu lado, praticamente estática e, talvez pela primeira vez, expressiva, com o pensamento distante, enquanto olhava para Anna.

"Senhorita, por favor, diga-nos quando soube da morte de seu pai."

"A senhorita foi a primeira a ver o corpo do falecido presidente?"

"Como a senhorita está reagindo a tudo isto?"

"... *snif*... Eu sinto muito, mas... *snif*... Não consigo mais falar em meu pai. Sinto uma terrível dor no peito quando me lembro dele, feliz, há poucos dias atrás. Com a licença dos senhores, eu me retiro..." Ela vira de costas e se dirige para dentro do palácio. A multidão de repórteres pede para que ela esperasse mais um pouco, pois tinham mais perguntas. Mas Subaru coloca-se entre eles e a princesa, firme e com uma expressão séria.

Os repórteres recuam, vendo que não adiantaria continuar insistindo, e ficam sob a chuva forte, observando qualquer movimento no palácio. A cada segundo muitos flashes podiam ser vistos da multidão.

Dentro do palácio, Anna ia sendo cumprimentada por todas as pessoas e políticos importantes pelos quais passava. Subaru acompanhava Anna, cuidadosa, mas ainda pensativa e um tanto 'distante'.

"Princesa Anna, conheci seu pai há algum tempo. Sinto muito mesmo, ele devia ser uma pessoa de bem e muito respeitada." Diz um homem vestido aristocraticamente, para Anna.

"Obrigada senhor... *snif*..."

"Querida Anna, como um dos ministros de Autonoe, gostaria de dar-lhe meus mais sinceros pêsames." Diz outro senhor, com um monóculo no olho direito, aproximando-se da garota.

"Muito obrigada senhor... *snif*... Estou certa de que, onde meu pai estiver, ele estará olhando por todos nós."

Anna fica por alguns minutos falando com vários políticos e pessoas importantes dali e logo se dá conta de que Subaru não estava mais por perto, como sempre ficara.

Surpresa, ela passa os olhos rapidamente pelo salão a procura da Tecnomage e esboça uma reação de desagrado ao ver a mesma, em um canto mais afastado do salão, se dirigindo para um outro lugar qualquer.

"Subaru!" Diz Anna, correndo ao seu encontro.

"..." A tecnomage pára imediatamente e se vira para a garota.

"O que significa isso? Você deveria estar cuidando de mim como sempre faz! Lembre-se que você só pode sair de perto de mim quando eu lhe der ordens para isso."

"..."

"Bem, agora vamos! Temos que sair daqui. Não agüento mais ficar recebendo pêsames dessas pessoas!"

Sem ter o que dizer, Subaru faz um sinal positivo com a cabeça e volta a seguir Anna, com um olhar distante... E um tanto triste.

Logo as duas sobem por uma das grandes escadas do palácio e adentram no grande e luxuoso quarto da garota. Ela tranca a porta, digitando alguns números no painel ao lado da mesma e senta-se em frente a um grande espelho, soltando os cabelos e passando um pano úmido no rosto. Subaru fica em frente a porta enquanto observa Anna.

"Argh! Não suporto isso! Ter que chorar desse jeito estraga toda a minha maquilagem! Que ódio!"

Subaru não se manifesta. Ao contrário, ainda parecia muito distante, pensando em outras coisas. A garota nota que ela nem mesmo ouvira o que ela havia dito.

"Subaru, o que há com você hoje? É impressão minha ou você nem sequer está dando bola para o que eu digo?"

"..." A tecnomage volta a olhar para a garota, com uma expressão séria.

"Às vezes eu não entendo você. Sabe, acho que você está ficando velha. Talvez seu modelo seja muito antigo, sei lá! De todo modo, esse é um dos motivos pelo qual eu quero que aqueles cientistas teimosos construam mais algumas como você, e ainda mais aperfeiçoadas. Você me entende não é Subaru?"

A tecnomage escuta apenas. Era impossível saber se ela reagia com negatividade às ações de Anna, pois Subaru nunca esboçava uma expressão diferente da que tinha no rosto naquele momento. Raras eram às vezes que sorria (e estes eram apenas um minúsculo sorriso no canto da boca.) ou ficava zangada (apenas uma leve dobra nas sobrancelhas. E isso quando Anna era ameaçada...).

Após limpar o rosto adequadamente e dar alguns retoques, Anna levanta-se, pronta novamente. Antes, porém, ela se dirige até a grande janela de seu quarto e abre as cortinas. Pelo vidro, fica observando a forte chuva que caía do lado de fora, com desconfiança. Sabia que aquela não era época de chuvas...

"Senhorita Anna?" Fala alguém, do lado de fora da porta. "Chegaram mais repórteres. Eles dizem que querem muito falar com a senhora."

"Ah, ótimo! Diga para eles que eu irei daqui a pouco!" Responde animada.

Subaru repara no entusiasmo da garota... Mas apenas abre a porta para que ela passe, sem dizer uma palavra.

As duas descem novamente para o andar de baixo do palácio e se dirigem para a entrada, onde havia mais repórteres do que antes e, assim que ela se aproxima diversos microfones literalmente voam de encontro a sua boca.

"Senhorita Anna! Uma perguntinha, por favor!"

"Senhorita! Uma palavra para a imprensa!"

"Aqui senhorita, por favor!"

"Calma todos, por favor. Falarei com todos vocês... Um de cada vez." Responde sorrindo. "Você primeiro."

A garota aponta para um dos repórteres ali e este rapidamente fala ao microfone, esperando a resposta.

"Senhorita Anna. Com o falecimento do presidente Luchenko, como ficará o governo de Autonoe?"

"Bem, legalmente agora sou a responsável pelo governo de nossa querida Autonoe. E claro, não é necessário dizer que farei o possível para que o legado de meu pai perdure por muitos anos."

"... Quanto ao governo, vocês não devem se preocupar." Uma voz feminina vinda de trás de Anna chama a atenção dos repórteres.

A garota se vira, surpresa e vê que se trata de uma de suas damas de companhia, Rebecca, a mulher ruiva que aparecera anteriormente, na sala de comunicações.

"Rebecca...?" Exclama Anna, incrédula.

"Quem é a senhora?" Pergunta o repórter.

"Sou uma fiel amiga da princesa Anna senhores. Não existe ninguém melhor do que eu para dizer-lhes que Anna será uma excelente presidenta para nossa nação! E é claro que ela contará com o meu total apoio!"

"..." Anna fica sem palavras... Não sabia o que dizer ou o que fazer diante daquilo.

"A senhorita já possui uma meta para o seu governo?" Pergunta o repórter para Anna. Esta é interrompida por Rebecca novamente.

"A princesa Anna é uma pessoa obstinada que luta com todas as forças pelo objetivo da nação. Em outras palavras, ela é alguém que faz de tudo para alcançar seus ideais! Qualquer coisa..."

Anna e Rebecca encaram-se momentaneamente, com a segunda sorrindo de um modo irônico (ou cínico). Anna não conseguia dizer qualquer palavra, apenas responder com um olhar de desprezo, pois pelo visto.

A bela mulher ruiva de olhos rubros sabia demais...

Seria perigoso demais para a princesa de Autonoe falar algo desagradável agora, na frente de tantas câmeras...

Um pouco longe dali, ninguém, nem mesmo Anna, havia reparado que Subaru havia se distanciado da entrada principal.

Ela agora estava de frente para a grande porta do quarto do presidente com o mesmo olhar pensativo de antes.

Com o devido cuidado para que ninguém percebesse sua presença, ela abre a porta do aposento e entra, fechando a porta atrás de si...

Ela se aproxima lentamente da cama do falecido, mais precisamente, do bidê ao lado e toma em mãos o porta-retrato de madeira que estava ali já há algum tempo.

Enquanto olha para a foto, com uma expressão um pouco triste, começa a se lembrar de algumas coisas... Provavelmente o que lhe deixava tão distraída...

**FLASHBACK**

(...)

"... E é por isso que eu quero que vigie muito bem Anna enquanto eu estiver fora, Subaru. Você é a pessoa em que eu mais confio aqui e, por isso, deixo-a em suas mãos."

"..." Subaru acena positivamente com a cabeça.

Luchenko arruma vários aparatos e roupas em diversas grandes malas. Sairia a negócios por um bom tempo.

Junto dele, no quarto, estava Subaru, de pé em frente à porta, observando o presidente arrumar as suas coisas.

Após colocar todas as coisas na mala, ele fecha o zíper e prepara-se para sair do quarto, mas, pára instantaneamente ao se lembrar de algo.

"Ora... Quase me esqueci." Luchenko toma em mãos o retrato em cima do bidê e senta-se na cama, passando os dedos na foto e sorrindo. "Minha querida... Queria eu que você ainda estivesse aqui para viver ao meu lado."

Subaru apenas observava.

"Você me faz muita falta..." Luchenko levanta-se ainda com o retrato em mãos e começa a pensar em algumas coisas. Coisas estas que o fazem sorrir. "Tem algo que eu nunca lhe falei antes Subaru..."

"...?"

"... Você sabe, tão bem quanto eu que minha esposa já não está mais entre nós. E também sabe como ninguém, que... Eu a amava muito."

"..."

Subaru sorri... E balança a cabeça afirmativamente.

"Sabe Subaru... Seu criador, Dimitri, é um grande amigo meu. Amigo de infância devo dizer. Quando ele criou você para nossa família ele não apenas fez uma guarda costas para nós, mas sim alguém muito especial."Fala, colocando uma das mãos no ombro da Tecnomage.

"..." Subaru olhava fixamente para o presidente, com os olhos maiores e com um certo brilho...

"Você sabia que..." Ele anda alguns passos para trás, com as mãos nas costas, enquanto fala. "... Dimitri colocou em você a aparência de minha querida esposa?"

"...?"

"Sim..." Retorna o olhar para a Tecnomage, sorrindo ternamente. "Você é idêntica a ela, simplesmente igual... Até mesmo a sua beleza é como a dela..."

"..." Subaru, ainda olhando para Luchenko, fica um pouco corada.

"Mas Subaru, não quero que pense que é por isso que você é especial para mim." Ele diz, aproximando-se da tecnomage. "Você faz parte de nossa família desde a época em que foi criada. Cuida da minha filha como ninguém e me sinto seguro com você perto dela. Eu digo tudo isso porque estava tentando pensar em um jeito de agradecer-lhe... E este foi o único que encontrei."

Subaru tinha um olhar diferente dos anteriores. Luchenko exibe um singelo sorriso enquanto a tecnomage o olha fixamente com ternura e as maçãs do rosto vermelhas.

"..."

"...?"

"..."

Subaru se aproxima de Luchenko e, muito vermelha, beija levemente os lábios do presidente, sem tirar os olhos dos dele. Luchenko fica imóvel, apenas observando o que ela fazia e, como era gracioso o jeito que ela ficava na ponta dos pés para alcançar a sua boca.

Logo ela se afasta com um pequeno estalo, corada. Olhava para ele como se não soubesse o que estava fazendo, embora muito envergonhada.

"Subaru, o que foi isso?" Ele pergunta sorrindo como antes.

"..."

"Obrigado..." Ele continua. "... Você quer tentar me fazer feliz Subaru. Mas... Eu já sou bastante feliz com minha filha e com você ao nosso lado e com minha querida esposa..." O presidente continua falando, sempre com um sorriso calmo e amigável no rosto, enquanto observa o retrato da esposa. A tecnomage observa o quanto aquele homem era devotado a sua mulher... Mesmo depois que ela tinha vindo a falecer...

"..."

"Bem! Acho que agora preciso ir!" Ele diz, pegando duas das malas. "Ajude-me aqui, sim?"

Ela imediatamente pega todas as 10 malas restantes e segue Luchenko. Ambos saem do quarto e se dirigem para a saída do palácio. Lá, um transporte estava esperando pelo presidente. Dois homens imediatamente começam a colocar as bagagens no veículo.

Luchenko abre a porta e, um pouco antes de entrar, vira-se para Subaru.

"Tem mais uma coisa que eu esqueci de dizer. Você não se parece apenas externamente com ela... É tão doce quanto."

"...!" Subaru cora novamente.

"Até mais... E, por favor, coloque isto de volta no lugar sim? É muito importante para mim." O presidente entrega o porta-retrato de sua esposa nas mãos da tecnomage. Ela segura o mesmo com força, contra o peito.

Em pouco tempo, o veículo parte dali e Subaru ainda fica por alguns momentos observando o veículo se distanciar...

(...)

**FIM DO FLASHBACK**

O retrato em suas mãos mostrava a figura de Luchenko ao lado de uma jovem idêntica a Subaru. A não ser, é claro, pelas roupas e por aparentar ser um pouco mais madura.

Fora isso, cada detalhe era exatamente igual.

Sentindo uma leve dor no coração, ela retira a foto da porta-retrato e coloca em um pequeno compartimento, dentro de seu próprio corpo. Em seguida, sai dali, tomando cuidado para que ninguém a visse...

(...)

Cerca de algumas horas depois, uma enorme multidão de pessoas se encontrava em um local aberto e grandioso. Apesar da chuva, o mesmo possuía uma cobertura metálica e transparente, o que não permitia a infiltração da água que caía fortemente.

Tratava-se do cemitério de Autonoe. Em frente da maior lápide de todo o lugar... Um túmulo permanecia aberto, sinal de que o corpo do presidente Luchenko ainda não havia sido sepultado.

"..."

"Julian?"

"Hum?"

Julian e sua mãe haviam chegado a pouco no enorme cemitério. Era a primeira vez que ambos viam tantas pessoas reunidas, pois nem mesmo o centro da cidade ficara deste jeito antes.

O garoto parecia procurar por alguém em meio à multidão, até que sua mãe percebe e lhe chama a atenção.

"Quem está tentando encontrar? Você não pára de olhar para todos os lados..."

"Er... Desculpe mãe, é que estava pensando se o senhor Dimitri não estaria aqui. Queria lhe falar algumas coisas."

"Sobre os pesadelos?"

"É..."

"Bem, se nós o encontrarmos, falaremos com ele. Avisarei caso eu o veja por aí, está bem?"

"Tá certo, obrigado mãe." Agradece, dando um beijo no rosto da mesma.

"Olha só que coincidência..."

"Ah, Elliot!"

Julian vira-se assim que escuta alguém falando em suas costas e nota ser seu amigo do instituto, acompanhado de um senhor de idade, muito provavelmente seu pai.

Após todos se cumprimentarem, os garotos conversam um com o outro enquanto seus pais fazem o mesmo.

Mais pessoas começam a chegar em pouco tempo...

"Que coisa. É uma pena tudo isso que aconteceu. Nem chegamos a conhecê-lo..."

"É..." Concorda Julian. "Foi o mesmo que eu disse para minha mãe. Esse governo de Autonoe é muito estranho. Tá certo que eles dizem ser para a própria segurança do presidente, mas não deixar nós, que somos o povo, ver quem é... Para mim é no mínimo estranho."

"E para quem não é?" Continua Elliot, cruzando os braços e olhando para cima, observando a forte chuva escorrer pela cúpula metálica que cobria o cemitério. "Acho que mais estranho que isso, só esta chuva fora de hora."

"Sim, até parece que tudo resolveu acontecer ao mesmo tempo."

"Mas, mudando um pouco de assunto, como foi a sua visita ao senhor Dimitri?"

"Ah sim! Eu falei para ele sobre o meu problema e tudo o que ele me disse era pra me esforçar e tentar lembrar o que estes pesadelos mostravam. Ele disse também que é muito provável mesmo que eles sejam efeitos colaterais de minhas partes biomecânicas. E também me explicou sobre a Nanotecnologia."

"Puxa, então a visita foi bastante proveitosa!"

"Com certeza."

"E... Você sonhou novamente?"

"Esta noite mesmo. E com algum esforço, consegui segurar na memória algumas imagens. Bem como o senhor Dimitri disse que aconteceria."

"Puxa, que ótimo! Então você tem que falar com o senhor Dimitri novamente, o mais rápido possível!"

"É... Só que hoje, acho que isso vai ser meio difícil..." Fala Julian, olhando para os lados e para as pessoas do funeral.

"Bem lembrado, e falando nisso..."

Elliot aponta para a entrada do cemitério e ali, todos podem ver um veículo escuro adentrando no local vagarosamente. As pessoas abrem passagem e ficam em total silêncio enquanto o veículo que portava o caixão com o presidente passava. Os garotos e seus pais ficam lado a lado, com as cabeças baixas e olhos fechados em posição de respeito.

"... Tava pensando numa coisa..." Cochicha Elliot.

"... O que...?"

"Como que vai ficar o governo de Autonoe agora que não há mais presidente?"

"..."

"Será que vão deixar nas mãos da..."

"..."

Logo a seguir, seis homens de ternos pretos e óculos escuros retiram o caixão do carro e o levam lentamente para um grande pedestal... Ao mesmo tempo, outras pessoas surgem com instrumentos ao lado do pedestal e, assim que o caixão é colocado, o hino de Autonoe começa a ser tocado. Todos escutam com atenção.

Uma grande fila dupla começa a ser formada enquanto o hino é tocado. As pessoas passavam uma a uma ao lado do caixão, para ver o Presidente pela última vez (E alguns, pela primeira vez)...

Alguns minutos depois, Elliot e seu pai observam o presidente. O garoto olha seriamente para o corpo, sem esboçar alguma emoção real, já que era, para ele, um desconhecido. O pai do garoto faz o mesmo, dando lugar a Julian e sua mãe logo depois.

A mãe de Julian mostra-se emocionada ao ver o corpo e não consegue evitar derrubar algumas lágrimas, mesmo nunca tendo visto o presidente na vida. O garoto consola a mãe, acariciando seus ombros, pedindo um pouco de calma.

Logo, é a vez de Julian se aproximar do caixão e olhar para o corpo.

"...?"

"... Julian?" Elliot observa o olhar de surpresa do amigo perante o corpo do presidente e chama sua atenção.

O rapaz permanecia parado em frente ao corpo, com os olhos arregalados de surpresa.

"O que você tem? Porque está aí parado?"

"..."

"E então? Anda, fala o que houve!"

"O presidente..."

"Que tem ele?"

"... Quando eu fui à casa do senhor Dimitri, ele estava lá!"

"O que?" Elliot fica igualmente surpreso. "Quer dizer que você conheceu o presidente?"

"Bem, não exatamente. Quando eu o vi não sabia quem era, e ele também não me disse o nome. Inclusive escondeu quem era ele dizendo que era só um amigo do senhor Dimitri." Explica Julian.

"Mas, porque ele faria isso?"

"Não faço idéia. Talvez por segurança..."

"Pode ser. Mas se é mesmo verdade o que você tá dizendo, então você ironicamente conheceu o presidente de Autonoe um dia antes de ele morrer!"

"Er... P-Parece que sim..."

"Certo... Agora vamos sair logo daqui... As pessoas já estão impacientes com você parado aqui."

Os dois garotos se afastam do caixão. Julian ainda não acreditava que o homem que tinha visto na casa de Dimitri era o presidente Luchenko, em carne e osso!

Mas o que mais lhe fazia pensar era o que ele poderia estar fazendo lá...

"Olá garoto, não cumprimenta mais?"

Julian e Elliot param de andar e observam um homem aproximar-se de ambos. Ele também trajava um terno escuro como os demais.

"Senhor Keinzer!"

"E então garoto, como está?" Cumprimenta o cientista, aproximando-se dos garotos.

"Estou bem, obrigado. Esse é Elliot, um amigo meu."

"Prazer Elliot." Ele cumprimenta, sorrindo.

"O prazer é todo meu senhor! Já ouvi falar no senhor, é uma das pessoas que trabalha com Dimitri, não é?" Indaga um Elliot bastante entusiasmado.

"Sim, embora nossa fama normalmente sempre tenha haver com Dimitri..." Ele ri logo em seguida, brincando. "Não pensei encontrar vocês aqui, no meio de tanta gente."

"É, foi uma coincidência. Aliás, o senhor Dimitri também veio?" Pergunta Julian.

"Se veio, não foi comigo. Eu não o vejo desde hoje de manhã, quando acordei. Ele deve ter tomado conhecimento do que houve antes que nós e veio mais cedo. Vai ser difícil encontrá-lo por aqui..." Keinzer ainda dá algumas olhadelas pelo lugar. Havia realmente muita gente... Mas nem sinal de Dimitri.

"Pena, queria falar com ele. Aliás, tenho de lhe falar uma coisa senhor, ontem fui até o laboratório e falei com o senhor Dimitri e Alexis. Mas também estava lá o próprio presidente! Em pessoa! O senhor sabe dizer o que ele poderia estar fazendo lá?" Pergunta o garoto.

"Bem, como você deve saber, eu estava muito exausto ontem, então dormi, ou tentei fazê-lo, quase o dia todo. Mas pelo pouco que sei, Luchenko era um grande amigo de Dimitri e, provavelmente, estava lá para tratar de assuntos referentes a projetos do próprio. É tudo que sei." Alega. "Pessoalmente eu não o conhecia o suficiente para poder falar algo com certeza absoluta."

"Eu entendo..."

"Eu... Posso fazer-lhe uma pergunta?" Fala Elliot.

"Claro que sim! Desde que eu saiba responder, hehehe!"

"... O que o senhor acha que é isso?" Ele aponta para a cúpula de metal transparente acima deles. A chuva continuava desabando sobre a cidade...

Keinzer olha para cima e vai desfazendo o sorriso do rosto aos poucos. Por alguns instantes pensa no que iria dizer.

"Como o senhor sabe, não estamos em época de chuva, principalmente uma tão forte assim e que já dura horas..."

"Realmente é... Um fenômeno raro!" Responde, gaguejando um pouco. "... Muito raro!"

"..."

"Nós estamos trabalhando para ver se descobrimos o porquê deste fenômeno tão fora de época. Não se preocupem! Assim que descobrirmos algo, vocês serão avisados!"

Julian e Elliot levantam uma das sobrancelhas, tentando entender o motivo do aparente nervosismo do cientista... Teria aquela chuva algo fora do normal?

Há apenas alguns metros dali, após todas as pessoas terem visto o corpo do presidente, mais uma pessoa chega ao local. Na verdade, duas.

"Papai! Papai! ...*snif*...Porque!"

"..."

Anna e Subaru eram as últimas pessoas a chegarem ao local e prestarem uma última homenagem ao tão amado presidente. A garota apóia-se em cima do caixão transparente, em prantos. Subaru apenas fica ao seu lado, olhando para o corpo fixamente...

"Puxa, vejam quem chegou..." Fala Elliot para Julian e Keinzer.

Os três viam a cena toda. E, em meio aos flashes das câmeras dos repórteres, Anna levanta os olhos momentaneamente e observa os três, fixamente. Tanto que esta pára de chorar imediatamente, ficando em silêncio e séria.

"Ela tá olhando pra onde?" Pergunta Elliot.

"Para nós." Fala Keinzer, sério. Julian é o único a ficar calado, pois também olhava para a garota fixamente...

Sentia seu coração bater mais forte quando seus olhos se encontravam com os dela e o seu rosto ficar quente e ruborizado.

Anna sentia exatamente o oposto... Um tipo de asco terrível...

A visão daquele garoto observando-a tão fixamente lhe dava nos nervos...

Após alguns segundos encarando os três, Anna resolve sair de perto do caixão para que pudesse ser sepultado. Como antes, volta a ficar em prantos acompanhada por Subaru.

E, após cerca de duas horas, o corpo do presidente é velado e sepultado. O local vai esvaziando aos poucos...

Somente uma pessoa fica no lugar, olhando pacientemente para o túmulo.

Depois de alguns minutos, ela parte...

E a forte chuva continua a cair...

(...)

"Eu não posso aceitar isso! Não posso!"

Anna e Subaru, após toda a cerimônia do sepultamento do presidente, se encontravam de volta ao palácio, mais precisamente no quarto da primeira. Ela andava de um lado para o outro, bastante nervosa, com as mãos atrás das costas, pensativa.

"..."

"Quer dizer que para mim, a princesa de Autonoe, aqueles cientistas não dão a mínima atenção quando peço o que quero, mas em compensação, conversam livremente com um moleque como aquele... aquele..." Tenta se lembrar do nome do garoto, mas desiste logo."... Ah! Isso não importa!"

Anna vai de encontro a Subaru e pára em sua frente, com os braços cruzados, seriamente.

"Subaru... Ouça-me com atenção! Quero que você vá até a casa destes cientistas e veja o que está acontecendo por lá! Veja o que esse moleque sabe que eu não sei! Oras, se alguém como ele sabe de algo, tenho muito mais direito de saber também! E mais uma coisa... Se descobrir que é algo que estão tramando contra mim, mate-os, se for preciso! Isso é uma ordem."

"..." Subaru fica imóvel. Por alguns instantes ela não sabia se obedecia ou não aquelas ordens absurdas!

"O que está fazendo aí parada? Ande! Vamos!"

"..." A tecnomage faz um sinal de positivo com a cabeça lentamente e então parte dali, pela janela do quarto. Envolta em uma forte energia, ela voa em direção ao local dito por Anna abaixo da forte chuva.

Anna observa ela se afastar, pela janela, enquanto alguns relâmpagos começam a cortar o céu...

(...)

Fim de tarde... Quase 7 horas da noite...

"Julian... Tem certeza que vai mesmo sair? Com essa chuva forte e esse monte de relâmpagos..."

"Eu preciso mãe... Tenho que falar com o senhor Dimitri sobre o sonho desta noite. Como eu não o encontrei no enterro do presidente Luchenko, terei de ir até o laboratório de novo."

Julian preparava-se para sair de casa. Estava bastante agasalhado, com uma capa de chuva e um guarda-chuva. Neste exato instante a campainha da casa toca.

"Mas quem pode ser a essa hora?" Indaga a mãe do garoto.

"Ah, é o Elliot mãe. Ele combinou de ir comigo até o laboratório." Ele diz, abrindo a porta e o guarda-chuva em seguida.

"Tudo bem, cuide-se meu filho, e, por favor, não volte tarde..."

"Não se preocupe, vamos ficar bem." Afirma, sorrindo. "Tchau, estou indo!"

Ele fecha a porta atrás de si e abre totalmente o guarda-chuva. Além da chuva, o vento agora era muito forte e quase arrancava o objeto da mão do rapaz. Rapidamente ele se encontra com o amigo próximo ao portão de entrada da casa, também com roupas e o guarda-chuva para aquele momento.

*CABRUUM!*

"Argh! Melhor irmos depressa se não vamos ser levados por essa água toda!" Diz Elliot, um instante antes de uma lufada de vento molhar o seu rosto.

"Hehehe! Vamos logo então!"

Os garotos partem na direção do laboratório que não ficava (muito) longe da casa de Julian. O problema principal era que, devido a forte chuva, as ruas estavam completamente alagadas por não terem dispositivos de drenagem suficientes para tal chuva e os coletivos não estavam circulando devido às falhas no magnetismo do pavimento.

Com água alcançando um pouco acima dos seus pés, eles continuam em frente abaixo dos estouros violentos dos relâmpagos no céu. Apesar de ainda ser fim de tarde, tudo já havia escurecido e a única coisa iluminando eram as luzes dos postes e casas por ali perto.

Minutos depois de muita caminhada, os dois chegam em frente ao laboratório. Dali já se via as luzes acesas nas janelas.

"... Senhor Dimitri!" Chama Julian, ao interfone, protegendo os olhos da chuva trazida pelo vento forte. "Sou eu, Julian e um amigo meu!"

O portão se abre com um estalo e eles adentram o mais rápido possível.

Eles fecham os guarda chuvas e passam pela porta de entrada, que se abre automaticamente.

"Puxa, mas que chuva!" Comenta Elliot, assim que a porta se fecha logo atrás.

"..."

Para espanto de Julian e Elliot, o lugar parecia revirado! Vários papéis estavam espalhados por todos os lugares e alguns "beckers" contendo substâncias estavam no chão, quebrados.

Havia ainda duas garrafas de bebida alcoólica em cima da mesa, sendo que uma estava vazia e a outra caída, com quase todo o conteúdo derramado.

"Mas... O que aconteceu aqui?" Pergunta Elliot.

"Senhor Dimitri! Senhor Keinzer! Alexis! Tem alguém aí!" O garoto chama por alguém, bastante nervoso e assustado com a cena.

Do corredor que leva para os aposentos dos cientistas, um deles surge logo depois do grito de Julian. Cambaleante, com um copo de gelo nas mãos e ainda com a roupa que usara no enterro, porém amassada e amarrotada, Keinzer mostrava sinais claros de embriaguez...

"Ju-Julian… É você?" Indaga o cientista, esfregando os olhos, enxergando tudo com dificuldade.

"Senhor Keinzer! Mas, o que deu no senhor! Porque está bebendo desse jeito? E, o que aconteceu aqui!"

"Heh..." O cientista senta-se em uma das cadeiras e coloca o que restou da bebida no copo. "Vamos brindar..."

"Brindar ao que?"

"... Ao fim do mundo!"

"... O que!"

"..."

Julian aproxima-se de Keinzer e pega seu copo, colocando-o sobre a mesa. Ele então sacode rapidamente o cientista para que voltasse a si.

"Mas o que o senhor quer dizer com isso! E onde estão os outros!" Ele indaga.

"... Eles... Eles... Não estão aqui."

"Mas por quê?"

"..."

"Tem a ver com esta chuva, não é?" Arrisca Elliot.

"... Sim..."

"O que tem essa chuva! Vamos fale!" O garoto Julian parecia perder momentaneamente o controle.

"... Bem..." Ele então se levanta mais calmo. "Descobrimos que esta chuva não é um fenômeno normal, e sim de origem mágica."

"O que! Mas como assim!"

"Mágica...?"

"Tem uma coisa que eu não falei sobre Luchenko, Julian..."

"E o que é! O que ele tem haver com isso!"

"Luchenko nasceu em Elencia, o outro continente de nosso mundo Pasiphaë. Ele possuía poderes mágicos, naturais para as pessoas de Elencia..." Keinzer falava e os garotos apenas prestavam atenção. Lá fora, os relâmpagos ainda estouravam, enquanto o vento e a chuva continuavam fortes. A luz que iluminava o aposento começava a falhar, piscando aleatoriamente. "... Pelo que fiquei sabendo, ele participou da Antiga Grande Guerra contra o mago Loknath..."

"Antiga Grande Guerra?"

"Foi uma guerra que aconteceu há muitos anos atrás entre o povo de Autonoe e este mago, sumamente poderoso, que pretendia conquistar Pasiphaë." Diz Elliot, relembrando das aulas de história que tivera. "Autonoe então se uniu com Elencia para derrotá-lo e lacrá-lo para sempre em um lugar já esquecido. Ao menos é isso que me lembro pelo que estudei."

"Hum..."

"Exatamente... O problema é que..." Keinzer se dirige para a Janela fechada apenas com o vidro e observa a rua e a chuva lá fora. "... Esse mago, antes de ser selado, condenou o povo de Autonoe a uma maldição. No caso esta chuva."

"Mas... E o que Luchenko tem haver com isso?"

Keinzer se vira para Julian, sério.

"Luchenko era um mago poderoso que, com sua magia, detinha o poder da maldição de Loknath. Mas agora que está morto..." O cientista engole em seco, olhando para baixo. "A maldição se libertou..."

"..."

"Mas é só uma chuva." Elliot tenta amenizar o clima, sem entender o porquê de tamanha preocupação. "Ela realmente é muito forte, mas será que ela pode acabar com todos nós?"

"Você não entende nada garoto!" Keinzer pega o copo da mesa e joga contra uma parede, quebrando-o em pedaços! *CRASH!* "... Essa chuva está apenas iniciando um tipo de transformação! O índice de Ph dela está diminuindo monstruosamente rápido!"

"..." Elliot fica assustado, com os olhos arregalados.

"Bom, e isso significa o que?" Pergunta Julian.

"... Que a chuva vai se transformar em algum tipo de... Ácido ou coisa assim." Completa o amigo, ainda imóvel com a notícia.

"Não pode ser! Isso é sério!"

"Acha que eu brincaria com isso! Veja!"

Keinzer aponta pela janela e os garotos vão até ali para olhar. Reparam que os vegetais, e árvores próximos dali estavam completamente murchos! A grama que havia ali parecia tornar-se negra, como se estivesse queimada.

"... Não..." Julian olhava com desespero... Agora começava a entender o que eram aqueles rostos em seu pesadelo... Eram as pessoas de Autonoe sob essa chuva destruidora!

"Logo a chuva estará tão concentrada que derreterá até os ossos das pessoas... E o concreto das casas e edifícios. Tudo será destruído!" Fala Keinzer, sentando fatidicamente sobre a cadeira. "A menos que..."

"A menos que...!" Julian parte para cima de Keinzer, ainda mais desesperado. Ele pega o mesmo pela gola com as mãos. "Vamos! Deve haver algo que possamos fazer! Se tiver fale! Não quero que a minha mãe acabe daquele jeito! Fale droga!"

"Julian, calma!" Pede Elliot, assustado com a mudança brusca de humor do amigo. Ele parecia outra pessoa...

"... O único que poderia fazer algo é Dimitri, pois ele é um tecnomage com poderes avançadíssimos. Mas como pode ver infelizmente ele não está!" Diz o cientista, soltando as mãos do garoto de sua roupa.

Os garotos recuam um passo... Realmente, Dimitri não estava ali, e ninguém tinha um poder como o dele.

"..." Elliot, que se mantinha calado e pensativo, levanta a cabeça. "... Mas Julian também é um Tecnomage não é?"

"..."

"Sim!" Julian volta a falar. "Eu também sou um Tecnomage! Posso não ter os poderes que o senhor Dimitri possui, mas acho que posso me esforçar, se isso for salvar Autonoe e a minha mãe de morrerem desse jeito! Diga o que tenho que fazer! Por favor!"

"..." Keinzer, ainda sentado, suspira pensativo, enquanto olha fixamente para Julian...

(...)

Um único veículo voava baixo sobre as ruas alagadas de Autonoe. Dentro deste, estavam Keinzer e os dois garotos, Julian, no banco da frente, preparando-se e Elliot, no banco de trás. Os dois observavam a cidade sendo invadida cada vez mais pela água e o vento fortíssimo, enquanto Keinzer concentra-se em acelerar o máximo que pode. A água das ruas é jogada para os lados com violência assim que eles passam pelos locais. O veículo voa em ziguezague, devido a embriaguez do cientista.

"Para onde estamos indo?" Pergunta Elliot.

"Para o centro da cidade." Responde Keinzer, sem retirar os olhos da 'estrada', acelerando.

"E o que exatamente tenho que fazer?" Indaga Julian, preocupado, sentado no banco de carona.

"O mago Loknath colocou toda a maldição em uma 'pedra-recipiente' e a implantou no centro da cidade, no subterrâneo. Lembra-se do acidente com o Alurium?"

"O que tem?"

"Tudo mentira." Diz seriamente, enquanto faz uma curva bruscamente. "O que causou aquele acidente foi a força deste 'recipiente mágico', que tem um nome específico. Chama-se Limiar."

"Limiar..." Fala Julian, pensando sobre toda a história do Alurium. "Não acredito que tudo aquilo era uma invenção...!"

"O governo resolveu esconder para não assustar a população. E por isso, colocaram a culpa no Alurium que utilizamos para indústrias. O que aconteceu, de fato, é que os explosivos não atingiram o Alurium, mas sim o Limiar, que acabou reagindo e descarregando uma imensa quantidade de energia sobre a área. E isso causou a catástrofe que todos já sabem." Imediatamente ele freia o veículo bruscamente. "Chegamos. Vamos descer rápido!"

Os três saem do veículo rapidamente. Elliot e Julian ficam observando, abismados, no centro de um cruzamento da parte mais urbana da cidade, uma gigantesca esfera de energia, em um tom negro e cinzento, repleta de faíscas vermelhas! Keinzer abria o porta-malas do veículo e retirava aos poucos uma espécie de corda metálica com um gancho, presa em um rolo enorme.

"A-Aquilo é o Limiar!" Pergunta Elliot, impressionado.

"Sim. Aqui! Segure isso, rápido!" Diz, entregando o gancho para Julian. Este segura o objeto e o prende na roupa, após dar algumas voltas e ter certeza de estar firme.

"O que eu preciso fazer afinal!"

"Você deve retirar de dentro daquela coisa o pedaço de Limiar que está expulsando toda essa energia. Vou ser franco com você, não sei o que pode acontecer, portanto, caso algo dê errado, vou puxar você!" Explica Keinzer abaixo de chuva "É impossível para mim ou o seu amigo entrarmos ali! Aquela energia nos mataria em segundos!"

"..."

"Vai mesmo fazer isso? É muito arriscado!" Indaga Elliot, protegendo os olhos da luz da energia.

"... Vou. Eu preciso!"

"Ótimo!" Keinzer não perde tempo e desenrola uma parte do fio metálico. "Então vá o mais depressa possível!"

Imediatamente Julian se vira e arremessa-se contra o globo de energia reluzente. Elliot segura o fio enquanto Keinzer segurava na alavanca que liberava ou recolhia mais do fio metálico.

O vento naquele local era tão forte que o rapaz preso na corda literalmente plana no ar, em direção a energia!

Assim que colide com a mesma, vários relâmpagos no céu voltam a explodir enquanto ele faz força para penetrar dentro da luz, que o repelia! Dali, ele conseguia ver, com muita dificuldade em meio à esfera escura, um núcleo minúsculo e cristalino, provavelmente o tal Limiar.

"Força garoto... Você consegue..." Pensa o cientista enquanto as gotas de chuva escorriam pelo seu rosto.

Julian força a entrada no globo, mas era impossível! A força o repelia de tal maneira que ele não conseguia sequer chegar perto do Limiar. Logo, a energia o expulsa com força, lançando-o direto contra a parede de um edifício do outro lado daquela rua.

" *CRASH!* Argh!"

"Droga! Vamos recolher você Julian!" Avisa Elliot, gritando lá de baixo.

"Não!" Grita Julian, em resposta.

"... Mas você vai morrer assim!"

"... Eu... Não vou...!" O garoto agora havia descido e se recuperado da batida. Por terra, com água até seus joelhos, ele forçava a aproximação do globo, protegendo o rosto da chuva e do fortíssimo vento que ia contra ele. "Eu não vou morrer!"

Julian joga-se novamente contra o globo e golpeia com força o mesmo, forçando novamente a sua entrada. Mais uma vez a energia começa a repelí-lo com uma força monstruosa!

"Ele não vai agüentar!"

"... Olhe de novo garoto..." Diz Keinzer, calmamente. Elliot encara o cientista, perguntando-se do porquê de tamanha confiança... E volta a olhar o amigo.

Imediatamente, o braço direito do rapaz exibe pequenas marcas luminosas a sua volta, como se também expulsasse energia. A seguir, começa a penetrar lentamente no globo e a se aproximar cada vez mais do Limiar, o núcleo de toda aquela energia.

"Você não vai acabar comigo!" Seus cabelos eram jogados totalmente para trás com a força arrasadora do vento no interior do globo

"Isso garoto... Continue... Falta pouco!"

Perto dali... Protegendo-se do vento fortíssimo, Subaru observava tudo, impressionada com a força do garoto... Que toca no Limiar e o toma em mãos finalmente, causando um gigantesco clarão de luz.

*KBOOOM!*

"Argh!"

A luz cega temporariamente a todos e, segundos depois, dissipa-se... Deixando apenas Julian atirado no local, com o pedaço de cristal negro em mãos. O globo de energia desaparecera e o fragmento, pouco a pouco, deixava de emitir as violentas faíscas vermelhas.

Uma tonalidade de luz cinzenta e pálida envolvia o objeto, dando-lhe um ar sinistro

Elliot corre até o garoto e o levanta enquanto este ainda observava o objeto, com receio e curiosidade.

"Julian, você tá legal! Fala algo!"

"... Argh... Eu estou bem." Afirma, um pouco zonzo, com o objeto na mão.

"Você conseguiu! Você é incrível! Como fez aquilo!"

"Er... Não sei..."

Keinzer os observava do carro, sorrindo.

... E também... Observava uma outra energia... Crescendo atrás dos garotos...

"Vamos sair daqui..." Elliot levanta-se, ajudando o amigo a se levantar.

"..."

"O que foi?" Indaga o garoto ao ver que Julian para momentaneamente.

"... Mas o que?"

"Argh!"

Uma enorme elipse surge atrás dos garotos e os suga com um vento fortíssimo. Água, alguns destroços, árvores e os garotos começam a ser arrastados! Até mesmo Subaru, que estava distante, sente-se sugada pela energia.

Os dois garotos são erguidos do solo pelo vento, mas Julian rapidamente segura o cordão metálico com uma das mãos. Elliot se segura na perna do garoto, enquanto que sua outra mão segurava o cristalino Limiar.

"Senhor Keinzer!" Grita Julian. "Puxe-nos!"

Apesar do chamado de Julian, Keinzer apenas olha o que acontecia... Com as mãos nas costas.

"Senhor Keinzer! O que esta fazendo! Puxe-nos! Depressa!" Ele diz, segurando no fio enquanto sua mão sangra pela força do vento.

"Julian... Você fez bem o seu trabalho aqui!" Diz o cientista, retirando uma espécie de faca a laser (literalmente) das costas. "Mas se quiser salvar os seus entes queridos... Encontre os demais Limiares! Você conseguirá, eu sei que sim!"

"Senhor Keinzer!"

"Boa sorte...!"

O cientista então, corta o fio metálico e Julian e Elliot são arrastados para dentro da energia violentamente.

Keinzer, guarda a faca e o que restou do fio no porta-malas e prepara-se para sair dali... Quando algo lhe chama a atenção: outra pessoa adentra, sem hesitar, dentro da energia, desaparecendo rapidamente junto com os garotos...

"Hunf... Subaru..." Diz o cientista, entrando no veículo e saindo dali... Com alguma dificuldade para arrancar.

Logo... A energia vai desaparecendo, juntamente com os três...

-/-

Continua...