II. VEAL PARMIGIANA
"Eu tive um sonho estranho com você ontem a noite". Diz Alice quando eu chego na sala do Yale Daily News, algo me diz que ela estava me esperando na porta.
"Se for algo indecente, pode guardar isso para você". Eu respondo enquanto caminho até a minha mesa.
"Eu sonhei que, mesmo sabendo que eu queria a matéria de religião, você preparou um jantar para o Mike e o roubou de mim!" ela diz me seguindo.
Apesar de termos nos conhecido no ano passado, Alice era a melhor amiga que eu já tive. Nós estávamos na mesma sala, e cursávamos jornalismo e também fazíamos parte do Yale Daily News. Alice e eu éramos bem diferentes um do outro, ela era mais extrovertida e impulsiva, além de teimosa e mandona. Era difícil fazer ela mudar de ideia quando ela decidia fazer alguma coisa, e, dessa vez, ela estava decidida a fazer o artigo de religião do jornal e eu sabia que nada poderia pará-la até conseguir. Seu sonho era trabalhar na televisão, como âncora de jornais, já eu preferia passar o resto da vida viajando pelo mundo, participando da história, reportando coisas, e mesmo com tantas diferenças, a gente se dava bem.
"Foi só um sonho, Ali" eu digo.
"Você fez vitela à parmegiana, e parecia bem real".
"Alice, eu nem sei fazer vitela à parmegiana, na verdade eu nem sei cozinhar, e nem quero a matéria de religião, eu quero a coluna, você sabe disso".
"Você diz que quer a coluna". Ela diz erguendo uma sobrancelha.
"E estou falando sério".
"Você sabe que eu sou muito sensitiva esse tipo de coisa, não é? E sonhos servem para dizer alguma coisa,é o nosso inconsciente nos preparando para algo para acontecer, e no meu sonho, você está me apunhalando pelas costas com a vitela à parmegiana!"
"Devia estar bem mal cozinhada, então..." digo sorrindo.
"Jasper nós somos amigos há um ano, nós somos bem próximos, tipo Telma e Louise, e eu odiaria se algo tão trivial quanto a matéria de religião se metesse entre nós. Você não quer mesmo a material de religião".
"Ah, meu Deus, desculpe, estava falando sobre a material de religião? Não, eu não quero!"
"Oh, Jessica também estava no meio sonho!" ela diz apontando para a garota de cabelos castanhos e pele clara que havia acabado de entrar na sala, Jessica Stanley ainda estava no primeiro ano, e Alice disse que havia ouvido rumores de que ela e Mike Newton, o editor-chefe, estavam tendo um caso. "Ela estava servindo a vitela à parmegiana! Ei, Jessica, vem aqui!" ela diz enquanto corre em direção à Jessica, e eu sinto pena da garota por alguns instantes.
Eu finalmente chego à minha mesa, onde acomodo as minhas coisas, e, assim que me sento, eu ouço Mike me chamar.
"Hey, Jasper, você viu isso?" ele estava próximo à mesa de Angela Weber, que estava sentada em sua cadeira, e parecia bem desconfortável.
"Não é nada demais". Diz Angela.
"O artigo de Angie foi publicado no New York Times!" Mike exclama, entregando o jornal para mim.
"Ah, foi o artigo que você escreveu sobre a reimpressão do The Anarchist Cookbook! Saiu na nossa última edição, não foi?"
"E o Times o pegou! Eles fazem isso de vez em quando..." diz Mike.
"Parabéns, Angela! Isso é incrível!" eu a parabenizo.
"Obrigada..." ela responde sem jeito.
"É mesmo incrível, não é? É incrível como eu fiquei o último verão em Indiana, trabalhando feito louco mo Muncie Messenger, e você Angela, uma aluna do primeiro ano, conseguiu um artigo no The New York Times!" ele exclama.
"Não liga para ele, Angela, seu artigo está ótimo e todo mundo está feliz por você" digo lançando um olhar para Mike.
"Eu sei" ela diz com um sorriso, e então seu celular, que estava em cima de sua mesa, começa a vibrar. "Ah, é minha avó, minha mãe espalhou a notícia para todo mundo, eu já volto". E Angela sai para atender o telefonema.
"Você não acha que está exagerando um pouco?" pergunto para Mike.
"E você não acha que está calmo demais? Angela é um ano mais nova que você e já está na sua frente".
"Mike, veja pelo lado bom, foi você quem editou o artigo dela, se não tivesse editado, talvez ela não tivesse no The Times!"
"Boa, Whitlock, está tentando fazer eu me sentir melhor?" ele diz revirando os olhos.
"Você está um pouco estressado hoje, ou é impressão minha, Mike?"
"Não é impressão, fiquei sabendo que ele vai voltar hoje".
"Ele quem?"
"O Cullen, é claro".
"Cullen?" o único Cullen que eu conhecia era Carlisle Cullen, milionário e dono de pelo menos 12 jornais diferentes, mas o que ele estaria fazendo aqui no Yale Daily?. "Carlisle Cullen?"
"Não, o filho dele". Diz Mike e seu semblante se fecha quando diz isso. "Dá para acreditar? Como o grande Carlisle Cullen pode ter um filho tão idiota?"
"Porque está dizendo isso?"
"Ele entrou no jornal ano retrasado, o cara não tinha jeito nenhum com jornalismo, mas como eu poderia dizer não para Carlisle Cullen?". Ele suspira. "Passei dois anos puxando o saco do filho dele só para ganhar crédito com Carlisle".
"Espera, ele entrou aqui ano retrasado? Como nunca ouvi falar dele antes?"
"Por que ele simplesmente decidiu tirar um ano de férias com os amigos! Ia velejar com o iate do papai pelo mundo, mas ele o afundou!" Mike diz com um pequeno sorriso de satisfação em seu rosto.
"Ele afundou o iate do pai?" parece uma história em tanto.
"Na costa das Ilhas Finji". Ele diz, o sorriso ainda maior dessa vez. "Passou seis meses vagabundeando em festas e Deus sabe mais o que mais, até o papai mandar um avião para buscá-lo. Agora eu vou ter que puxar o saco dele de novo..." o sorriso de antes simplesmente desaparecera e agora ele estava sério. "Cara, eu odeio esse tipo de gente".
"Que tipo de gente?"
"Esses homens brancos privilegiados".
"Mike, você é um homem branco privilegiado".
"E daí? Ele é bem mais branco que eu, e bem mais privilegiado" ele diz revirando os olhos. "Por que eu estou falando com você? Crowley, por que eu estou falando com o Whitlock?" e ele sai andando para o outro lado da sala.
Eu sorrio e reviro os olhos, por sorte eu tive tempo para terminar a maioria dos artigos que eu precisava para essa semana, e agora só precisava revisá-los, o que não dava tanto trabalho assim, portanto, em pouco tempo e meu trabalho estaria terminado por hoje.
"Jazz!" exclama Alice, quando volta para se sentar em sua mesa, que ficava ao lado da minha. "Eu falei com Jessica, já tirei ela da jogada!" ela sorri vitorioso. "Ei, eu estava pensando, vai fazer alguma coisa mais tarde?"
"Nada de urgente, porque?"
"O que acha de passarmos naquele restaurante japonês que abriu aqui perto?"
"Parece uma boa ideia" digo sorrindo.
Eu devo admitir que todo aquele lance do artigo de Angela me deixou um pouco preocupado, afinal, Mike estava certo, Angela estava no primeiro ano e já havia conseguido aparecer no The New York Times! Isso fez eu me sentir um pouco atrasado, todos os outros haviam tido férias incrivelmente produtivas, fizeram estágios em jornais locais, publicaram artigos no Times, e eu, a pessoa que vem dizendo querer ser jornalista a vida toda, fiquei o verão todo em casa, em Dallas, com meus pais. Na época eu achei que valeria a pena, já que raramente eu os via, exceto durante as férias e feriados, pois moravam um pouco longe, e eu também sentia falta do clima de fazendo onde cresci durante minha vida toda, mas agora parecia que eu deveria ter aproveitado esse tempo para tentar alguma coisa. Digo, até mesmo Alice, que foi viajar com a família pela Europa, embora não tenha feito nenhum estágio, ela voltou toda animada falando sobre os contatos que fizera durante a viagem.
Porém, graças a Alice, eu pude desocupar minha cabeça com aqueles pensamentos, e me diverti um pouco, coisa que não faço por um bom tempo. Ter aulas pela manhã e dividir meio tempo durante a tarde para trabalhar como barista e participar do jornal da universidade estava sendo muito desgastante, e eu nem sabia se poderia aguentar isso por muito mais tempo.
Nós fomos para o restaurante japonês como combinado, e passamos algumas horas comendo enormes quantidades de peixes crus, macarrão frio, e muitas outras coisas deliciosas que eu não estava muito acostumado a comer quando morava no Texas.
Já estava de noite quando saímos do restaurante, não ficava tão longe dos dormitórios, e Alice e eu pudemos voltar andando. Alice dividia quarto com uma garotas estranha chamada Maggie. Pelo o que Alice disse, ela era uma gótica alienada que passava a noite toda acordada conversando consigo mesma e andando pelo apartamento. Ela disse que Meggie acreditava ser uma vampira e evitava sair por aí durante o dia. Já eu dividia o apartamento com um coreano chamado Eric Yorkie. Por sorte, ele não era tão perturbado quanto Maggie, na verdade, ele era bem tranquilo, às vezes eu até esquecia da presença dele. Eric costuma ficar o dia todo em seu quarto, jogando vídeo game, basicamente é só isso o que eu sei sobre ele, já que nós raramente conversamos.
Enquanto caminhávamos pela rua, de volta para o campus, nos deparamos com um grupo de rapazes que caminhavam na direção oposta. Eles falavam alto e andavam de um jeito engraçado, pareciam que estavam bêbados.
"Oh, boa noite, moça" um deles diz, ele era alto e musculoso, e eu acho seu rosto um tanto familiar. Claro, eu havia visto ele duas semanas antes no Sue's, onde trabalho! Como era o nome dele mesmo? Emmett?
"Ignora que ele vai embora" diz Alice.
"Por que não me diz seu nome, linda?" Emmett insiste.
"Dá o fora!" ela responde, e os amigos de Emmett riem.
Espera, Emmett era amigo de Edward! Eles estavam juntos naquele dia, será que...
Eu o avisto, ele estava atrás de Emmett, observava seu celular, como se não se importasse com o que estava acontecendo, na verdade, eu acredito mesmo que ele não estava se importando.
"Hum, a gatinha tem garras..."
"Olha, ela não está interessada, deixe ela em paz". Eu defendo Alice.
"E quem diabos é você? O namorado dela?" ele pergunta erguendo uma sobrancelha, e eu sinto o sarcasmo em sua voz. Ele parecia um cachorro feroz esperando um comando para atacar.
"E se for, qual o problema?" eu digo, encarando-o e esse é o comando de que ele precisa, Ele dá um passo em minha direção estufando o peito e me encarando de volta, por um instante eu estremeço. Emmett era enorme, eu não poderia competir com um cara como ele, provavelmente acabaria comigo.
"Relaxa, Emmett" diz Edward, finalmente parece perceber o que estava acontecendo a sua volta. Ele vestia um suéter preto de gola alta, que realmente caiam muito bem nele."Nós não queremos atrapalhar o casal" ele estava olhando para mim quando diz isso. "Riley, James, porque não vão na frente com Emmett, eu resolvo isso" ele diz.
Os dois rapazes que estavam com eles, um baixinho de cabelos castanhos sorri e pula em cima de Emmett, passando o braço ao redor de seu pescoço.
"Vamos, Emmett, você está fedendo, precisa de um banho" o rapaz diz, e o outro, de cabelos loiros e cumpridos, presos em um rabo-de-cavalo, vai logo atrás dele, também rindo.
"Sinto muito por esses idiotas" diz Edward quando os três se distanciam. "Acho que beberam um pouco mais além do que deveriam, especialmente Emmett" ele diz com um sorriso torto.
"Tudo bem" diz Alice encolhendo os ombros. "Só não esqueça de por a coleira no seu amigo da próxima vez que saírem"
Edward ri. "Pode deixar, não esquecerei". E então seus olhos me encaram novamente. "Ei, eu não te conheço?"
"Ahm... sim, eu trabalho no Sue's... Acho que esteve lá outro dia..."
"Acho que sim. Bom, de qualquer forma, sinto muito por Emmett". Ele sorri com aquele sorriso torto perfeito com o qual venho sonhando nas últimas duas semanas. "Vejo vocês por aí". E ele sai andando, e eu o observo andar.
"Hum... Você parece bem... impressionado por esse cara".
"Não estou, é melhor irmos, temos que acordar cedo amanhã" eu digo, e continuo nosso caminho de volta ao campus.
