De manha, acordou relaxada. Levantou-se, vestindo um novo vestido, este de tons mais leves. Um rosinha claro quase branco, um espartilho comportado, que sua tia havia dado de presente, cheio de babados. Uma bota longa, luvas altas, cabelo devidamente penteado, com alguns leves detalhes de enfeite.

Desceu vagarosamente a escada, encontrando a tia vestindo tomando seu chá. Ela lhe sorriu graciosa, deixando a xícara para o lado e observando a menina descendo as escadas.

Ellen usava um vestido preto, e o espartilho de um vermelho vívido misturado com preto. Apertavam-lhe os seios que quase pulavam da roupa, nos braços iam luvas longas também, e um grande casado marrom de plumas pretas. As botas de salto, deixavam-na ainda mais alta. Em seus lábios ia à pintura de vermelho. Mas não era vulgar como pode parecer, era, na verdade, exótico. Aquela mulher que havia passado da casa dos trinta anos de idade, mas que aparentava menos que isso.

Neil estava sentado ao lado, na poltrona. Vestia uma calça que lhe ia até os joelhos na cor azul clara, com detalhes brancos. A bota era negra, combinando com o casaco de plumas pretas que a tia comprara para ele. A parte de cima da blusa seguia-se combinando com a calça, azul clara com desenhos e detalhes em branco.

- Onde está seu casaco? – perguntou Neil, docemente.

- Oh! Esqueci-me totalmente! – disse numa risada, voltando a subir as escadas – Estou tão nervosa!

Voltou para o quarto, pegando se casaco branco de plumas brancas voltou para a sala, onde Ellen e Neil a esperavam. Sorriu, pedindo desculpas. Ellen ajeitou-lhe o busto, e prendeu-lhe o casaco a frente para que não o mostrasse.

- Nesse frio, congelaria sem ele... – comentou assim que a porta foi aberta, Annie.

- Eu também havia me esquecido do casaco... – riu Neil – Tia Ellen me mandou busca-lo na hora!

- Vamos, entrem na carruagem. – chamou Ellen.

Os dois jovens entraram e assim que a madame entrou, a carruagem partiu.

Enquanto iam para lá, percebiam os pobres e famintos que rondavam a cidade e poluíam-na. Annie fez uma careta para um que parou e ficou a observar a sua carruagem enquanto a mesma partia.

Neil mantinha-se quieto, observando as pessoas que andavam pela cidade. Alguns gentry, outros escravos. Mas grande parte, miseráveis. Assim que passaram perto de um beco pode ver um homem ser espancando por outro. Suspirou, fechando a cortina e deitando sua cabeça ali.

Ellen pensava consigo, sabia que Alphonse era apaixonado por Annie desde que a conhecera, e ela também havia se encantado com ele. Logo, ele faria tudo que aquela menina pedisse. Isso era o que mais preocupava Ellen. Seu trabalho não era fácil, e nem honesto. Como aquela deixara aquela menina se meter nesse mundo é que na sabia.

Demorou, mas chegaram ao seu destino. Vários homens, nobres, burgueses e escravos encontravam-se ali. A carruagem parou bem próxima, chamando a atenção de algumas pessoas.

A primeira a descer foi Ellen, saindo imponente e ganhando a atenção da maioria daqueles homens, pela sua beleza. O segundo foi Neil, que também causara espanto tamanho sua beleza. E esperando descer, estendo sua mão à ela, Neil esperou Annie.

Em passos firmes, a ultima pessoa de dentro do automóvel saiu. Sorrindo largo para o irmão e com a mão no peito, logo depois, procurando seu noivo.

A chegada dos três começou a ser o mais comentado do lugar. Mas logo a atenção dos homens foi voltada para outra carruagem que parava ali.

De dentro dela saiu um homem alto, seus cabelos eram castanhos, penteados para trás. Seu olhar era imponente e duro, a sobrancelha era fina, e a roupa pomposa.

O homem correu o olho pelo lugar, encontrando em seu campo de visão a adorável Annie. Logo depois, viu Ellen.

- Ellen? O que faz aqui? – perguntou o homem, em sua voz grave.

- Oh, Charles! – disse numa reverencia – Vim buscar o noivo de minha sobrinha. Annie, querida, venha cá.

Annie virou-se para a tia, indo onde ela estava com o olhar aflito e desesperado.

- Não encontro Alphonse, tia Ellen!

- Calma criança... Nobre Charles, essa é Annie Herman, minha sobrinha. Annie, esse é Charles Leraigh.

- É um prazer, senhor. – disse numa polida reverencia, dando um sorriso simpático.

- O prazer é todo meu. – disse.

- E o que faz aqui, Charles? – perguntou sugestiva.

- Claus está chegando de viagem também. – apontou para onde o homem vinha.

- Ah! – virou-se para ele, encontrando também em sua visão, Neil, que encarava o Claus fixamente. – Neil? Neil? – chamava a tia – Neil! – chamou-o mais alto, vendo o garoto se virar para a tia.

- Sim? – perguntou.

- O que tanto observava? – questionou.

- Estava procurando Alphonse na multidão. – disse, aproximando-se da tia.

- Charles, este é o irmão de Annie, Neil. Neil, Charles.

- É um prazer. – disse-lhe.

Olhou para traz, vendo que sua irmã acenava para longe para quem, provavelmente seria Alphonse. E assim que se virou, deparou-se com o homem de pouco tempo.

Ele vestia uma roupa mais simples que a do irmão, mas não menos bonita. Era azul escura e preta. Tinha da barba, apenas o cavanhaque. Os cabelos eram um pouco longos e presos em um rabo baixo, apesar de algumas mechas saírem dali. Tinha o cabelo sedoso e ondulado, além olheiras nos olhos, seu rosto delatava um homem frio e cruel, assim como o irmão, mas com uma pitada de desinteresse.

Na mesma hora em que olhou o homem, prendeu a respiração, em surpresa. Claus parecia ainda não ter visto Ellen e Neil, uma vez que sequer os cumprimentou, pegando o seu casaco com o irmão e colocando-o no corpo. E assim que o fez, colocando a grossa manda de cor marrom no corpo, virou-se para os presentes, cumprimentando-os.

- Seja bem vindo de volta, Claus. – disse Ellen.

- Madame... – pediu-lhe a mão, cavalheiro.

Ellen a deu e assim recebeu um beijo do homem. Annie acabava de chegar com o noivo, que tinha cara de cansado. Apesar disso, Neil não parava de observar o homem. Suspirou, soltando o ar com força.

Alphonse se aproximou, cumprimentando a tia, já que Claus terminava de se esquentar com o casaco.

- Puxa! Como está frio aqui na Inglaterra! – comentou Alphonse.

- Trouxemos um casaco para ti. Neil pegue na carruagem, sim?

- Claro... – disse no tom mais baixo que conseguiu, balançando a cabeça afirmativamente e indo ate lá.

Se Neil tivesse olhado para traz, teria visto que os olhos de Claus haviam se prendido a ela durante toda a ida do menino, mas ele ateve-se apenas a pegar o casaco.

Charles parecia interessado no que Annie contava sobre o que o noivo havia ido fazer na Espanha, outrora o homem lhe completava em algumas coisas. Mas Charles não estava, necessariamente, querendo saber o que ela dizia.

Ellen olhava para a carruagem impaciente. Neil havia acabado de chegar nela, e entrado na mesma.

- Madame. Quem é aquele garoto?

- Você diz aquele que estava conosco há pouco? – perguntou para confirmar – O nome dele é Neil, meu sobrinho. Irmão de Annie.

- Annie? – perguntou, sem conhecer a moça.

- Ela. – apontou com uma mexida de cabeça para onde a menina estava. Olhou novamente para a carruagem e Neil saia dela, trazendo em seus braços um casaco preto sem detalhes.

Aproximou-se de Alphonse, entregando-lhe a vestimenta.

- Nossa como você cresceu Neil!

- É, é sim... – disse ainda baixinho, pela voz falha de motivo desconhecido.

- Que houve? Está doente? – perguntou preocupado.

- Ah, não! – disse agora em um tom normal. – É o tempo que mudou um pouco minha voz...

A voz de Neil era tão doce quanto à de Annie. Quando falavam, parecia cantiga de tamanha a leveza de suas falas.

- Quinze anos, não é mesmo? Ou são dezesseis? – perguntou, nem mais se lembrando da idade do garoto, mas bagunçando-lhe os cabelos loiros.

- Quinze. – respondeu simplesmente, lançando um pequeno sorriso.

Annie conversava animada com Charles enquanto Alphonse trocava algumas palavras com Neil. Ellen e Claus observavam de longe, sem falar nada. Charles foi apresentar a moça ao seu irmão fazendo todos agora se conhecerem.

De repente, da mesma carruagem, sai uma mulher de longos e castanhos cabelos ondulados, seus olhos eram verdes e ia uma tiara de pano, com rosas, em tom pastel na cabeça. Seu vestido era na mesma cor, e num estilo quase idêntico ao de Annie, porém, muito mais sofisticado.

A saída dela chamou a atenção de todos. Ela tinha uma beleza impar. Assim que passou pelos dois degraus da escada, foi até Claus, abraçando-o fortemente e o mesmo a fez rodar um pouco, parando-a no mesmo lugar.

- Tive tanta saudade, Claus! – disse ela, ainda abraça nele.

- Eu também, my Darling! – retribuía o abraço.

- Heidi, isso são modos? Estávamos conversando... – repreendeu Charles

- Oh, perdoem-me... – disse uma graciosa reverencia – É que há tempo não vejo meu irmão... – comentou abraçada em seu braço. – Eu sou Heidi Leraigh.

E assim que todos foram apresentados, voltaram a conversar. Neil pediu licença dizendo que voltaria para a carruagem e esperaria sua família lá. Assim que saiu, Claus perguntou a Ellen por que o garoto tinha ido embora, ignorando completamente a irmã em seu braço.

- É o frio. – comentou – Deve estar com medo de adoecer... Mas por que a pergunta?

- Não é nada...

- Claus! – chamou Heidi.

- Eu também vou entrar. Até mais... – disse a todos, deixando a irmã junto de Ellen.

Sentou-se no acolchoado vermelho, descansando a cabeça na janela e suspirando. A irmã ainda estava lá fora, agora conversando com Annie. Marcaram de se encontrar para tomar um chá e trocaram endereços. Logo, Charles e Heidi entraram e a carruagem partiu. Annie, Alphonse e Ellen esperaram que o automóvel partisse para que fossem para o seu. Lá, encontraram Neil com a cabeça encostada à janela, onde tirava um cochilo, ou quase.

Enquanto isso, assim que começou a andar, Alphonse seguiu o mesmo caminho de Neil e foi dormir no colo da amada.

Ellen começou a contar sobre a família Leraigh e de como era uma das mais conhecidas e ricas famílias nobres de Inglaterra. Contou que Charles tinha uma noiva, mas recusava-se a casar e que Claus nunca se interessara por ninguém em especial. Heidi era a queridinha e todos os nobres queriam desposá-la, mas ela nunca correspondera nenhum deles.

Chegaram a casa, e surpreendentemente, a primeira pessoa que saiu da carruagem fora Neil, indo apressado para seu quarto. Ellen riu junto com Annie, que acordava Alphonse docilmente. Os três saíram e entraram em casa, onde a empregada já lhes esperava com um chá quentinho.

Enquanto isso, na casa dos Leraigh, Charles acaba de descer da carruagem, estendendo a mão para a sua irmã e vendo Claus descer logo depois. Um homem veio pegar suas malas e leva-las para dentro de casa.

A casa era enorme, parecia um palácio. Ricamente decorada, com porcelanas e tecidos finos para todos os lados. Os moveis de desenhos habilmente trabalhados e caros.

Charles, assim que entrou, encontrou Catharina, sua noiva. Ela estava sentada no sofá, e apenas olhou-lhe de rabo de olho, vendo quem chegava. Levantou-se, indo ate o homem e cumprimentando-o. Cumprimentou Claus e Heidi e assim voltou para seu lugar.

Claus subiu a escada que dava para o segundo andar, e assim que o fez, abriu uma das portas, aquela correspondente ao seu quarto. Ela estava devidamente limpa e arrumada. Retirou o casaco e jogou-se na cama, entrando em sono profundo. A viagem lhe fora muito cansativa e necessitava de dormir para repor as energias e voltar à vitalidade normal. Heidi passou em seu quarto, vendo o irmão jogado de qualquer jeito na cama, nenhum pouco preocupado. Cobriu-o com as grossas mantas para mantê-lo bem aquecido, ascendeu a fogueira e deu-lhe um beijo no rosto.

- Durma bem, irmão. – foi o que disse antes de sair do quarto.

Deixando somente Claus finalmente descansar depois de tanto tempo fora de casa. Durante um ano mais exatamente.