RENASCER DOURADO
CAPITULO II
"PREDESTINADOS"
FRANÇA
Kamus sentou-se um tanto contrariado na única cadeira livre que tinha na pequena sala onde Afrodite se preparava para mais uma sessão fotográfica. Cristine puxava-o pelo braço de forma tão empolgada que não deixava abertura para uma recusa... não que ele não tivesse tentado – afinal ficar olhando um homem semi-nu congelar-se diante da lente de um fonógrafo e de mais meia dúzias de pessoas (a maioria curiosos, meio esse em que ele definitivamente não queria estar). Mas o que fazer se a boa educação que sempre teve o impedia de se desvencilhar e dizer um "não" a garota de um jeito um tanto mais... incisivo?
Pensando bem, embora doesse no seu ego maduro admitir, seu amigo Milo tinha razão... Ele necessitava de um pouco menos de polidez para sobreviver a esse tipo de assédio.
Olhou em volta e tentou não rir das garotas que suspiravam ao contemplar o modelo sendo maquiado e vestido na frente delas, com um leve sacudir de cabeça tentou entender como essas meninas não conseguiam perceber? Quer dizer... será que era precisa ser homem para reconhecer os sinais nada hetero do rapaz que nem ao menos sorria a elas com simpatia e que estava mais preocupado em dirigir a ele olhares muito suspeitos? E porque raio Cristine não desgrudava de seu braço? Aquela situação toda estava começando a passar do limite de desembaraçosa para insuportável.
O problema em questão não era apenas fingir que não via os sorrisos insinuantes que a delicadeza de modelo lhe dirigia, mas soltar-se da amiga sem parecer grosseiro e sem demonstrar a profunda falta de interesse que ele sentia por ela...
Cristine agarrada ao braço de Kamus sentiu um movimento em seu bolso, alguma coisa estremeceu de forma nada sutil para ser ignorada. Olhou para o amigo que parecia perdido num mundo de tensão e sorriu soltando-se dele, não de forma rápida ou chateada, só lenta e triste por perceber só agora que seu sentimento não era correspondido:
-- Kamus... seu celular ta tocando.
Kamus sentindo-se aliviado e grato a seu "gongo" salvador, sorriu educadamente:
-- Obrigado Cris. Vou atender lá fora para não atrapalhar o pessoal aqui...
Já no corredor, ajeitando o cachecol no pescoço e dando um suspiro profundo por ter saído daquela sala, Kamus atendeu o celular. Não ficou muito surpreso quando percebeu que se tratava de uma ligação interurbana... a cobrar. Aliás, sempre que isso acontecia, ele já sabia de quem se tratava a chamada:
-- Fala Milo.
-- Esse FILHO DA PUTA! – Milo parecia bem chateado do outro lado. O que, aliás, também não era nenhuma novidade. – Cara, cê não tem noção da raiva que eu to dessa rolha de poço do inferno! Se eu pudesse, cara... que vontade de varrer o chão com aquele saco de banha!
Kamus revirou o olho, pra variar o amigo tinha arrumado confusão com alguém, calmamente ele cortou Milo, que já lhe ditava uma lista de novos palavrões:
-- Milo... você tem noção de que está me ligando de um outro país a cobrar no celular, né?
-- Noção eu tenho, não tenho é dinheiro no bolso!
-- Pois é, mais um motivo pra você não arrumar encrenca com seu patrão...
Silêncio do outro lado e em seguida a voz indignada de Milo:
-- Kamus, falar contigo não tem graça, como é que sabe que foi isso que aconteceu?
O rapaz sorriu da previsibilidade do amigo: -- Sempre é Milo. E aí, saiu de casa de novo, brigou com seus pais? Arrumou uma garota satanista pra dividir um apartamento... o que foi dessa vez?
O amigo agora parecia mais calmo, embora sua voz mostrasse que ele havia ficado sem jeito com a pergunta:
-- É isso mesmo. Briguei com os velhos... Mas dessa vez eu não volto pra casa não!
-- Ahan... – Só esse ano, Kamus já havia ouvido essa conversa umas sete vezes – Então você nem ta sabendo que meus pais estão passando uns dias aí na Grécia com os seus, não?
-- Ow, seus pais tão aqui? D'hora! – Milo agora parecia empolgado com alguma coisa, como se uma idéia fabulosa tivesse invadido sua mente em apenas alguns segundos – Acho que vou lá em casa hoje à noite então, dar um "oi" pra eles...
-- Certo. E isso não tem nada a ver com o fato da sua geladeira estar vazia e você estar sem grana pra jantar fora, acertei?
Kamus sentiu que tinha encostado levemente na ferida de Milo, já que do outro lado o amigo novamente se enfezou:
-- Sabe de uma coisa? Você não sabe brincar... – Ele ouviu o "click", mas não ficou preocupado... Dentro de dois dias no máximo Milo iria ligar novamente para reclamar de alguma outra coisa, ou de outro patrão, ou de alguma namorada...
GRÉCIAMilo bateu o telefone com força e olhou para pilha de caixas de pizza sobre o balcão e ainda bufando de raiva (como é que o Kamus fazia aquilo? Quer dizer... ele não se esforçava nem um tantinho para pelo menos fingir que não o conhecia tão bem. Pensando bem, aquilo já beirava o abuso). Agarrou as três caixas e pegou as chaves da moto no chaveiro em forma de vaca preso a parede. Já na calçada subindo na sua moto "mais-ou-menos" de entregador, uma das garçonetes que servia um casal ainda gritou pra ele:
-- Ô bonitinho, tem uma moça querendo falar com você lá atrás, na mesa 14!
Sem muita paciência ele respondeu já dando partida na moto: -- Fala pra ela entrar na fila, bonitinha.
A garçonete se dirigiu a moça que esperava sentada na mesa 14. Ela usava óculos escuros e estava vestida com uma jaqueta de couro preta e calça jeans desfiada e rasgada, brincava com o visor de seu capacete descansando sobre a mesa... tinha um ar de encrenca que dava pra farejar a distancia. A atendente olhou de forma antipática pra ela e avisou cheia de si:
-- O Milo mandou você esperar na fila, junto com as outras que já passaram aqui hoje atrás dele.
A garota encarou a garçonete, sorriu debochada e provocativa. Depois se levantou lentamente apanhando o capacete, disparou com acidez em cada palavra:
-- Amiguinha, seria um prazer esperar na fila logo ali, atrás de você. Mas é que eu to cheia de pressa!
Deixando a garçonete fervendo de raiva e despeito, montou em sua moto e saiu cantando pneus.
ITÁLIADohko vestiu o agasalho não muito pesado e depois jogou a mochila nas costas enquanto conversava com um dos três alunos que sempre ficavam com ele até o fechamento do dojô:
-- O senhor nunca pensou em participar de um campeonato, mestre? Aposto que ia sair em primeiro com homenagem e tudo!
O rapaz sorriu imaginado a cena e contemplando a empolgação do aluno que já o viu no tatame com um monte de gente parabenizando em volta:
-- Não Oko, eu não sinto vontade de participar de campeonatos. Não quero lutar por um título. Quero usar meus conhecimentos para alguma coisa útil, só não em pergunte no que porque nem eu ainda sei.
O aluno um tanto decepcionado: -- O seu problema mestre, é um código de honra muito elevado...
Já na calçada, trancando a porta do sobrado e sem levar a decepção do aluno a sério, Dohko observou com um fio de ironia marota:
-- Sabe, me deixa muito feliz ver que você tem prestado bastante atenção nas aulas quando explico a forma honrada de se usar as artes marciais, Oko.
Foi então que ele percebeu a crescente onda de horror de tomou uma de suas alunas que apontava para alguma coisa que se aproximava perigosamente deles.
Só se deu conta do que se tratava quando o carro preto bateu com força contra o poste ao lado deles, deixando um rastro de pneu na calçada, vidro estilhaçado e cheiro de borracha queimada no ar. O estrago parecia grande, mas o motorista não estava fatalmente ferido, já que com um chute jogou a porta amassada longe saltou feito um gato louco de dentro do automóvel arrasado, de ferimento apenas um corte superficial na testa.
O barulho de sirenes invadiu os ouvidos de Dohko, mas ele nem precisava disso pra saber do que se tratava, bastou o motorista agarrar a aluna mais próxima pelo pescoço e apontar a arma para a cabeça dela gritando furioso:
-- Se alguém se meter a besta, a gente vai ter chuva de miolo pra todo lado!
Dohko dominando o desejo de voar em cima do homem e arrancar-lhe a arma, falou calmamente, para não colocar em risco a vida da garota. Sabia que na atual circunstância, qualquer palavra dita na entonação errada traria sérias conseqüências:
-- Calma amigo, não vai fazer uma besteira...
-- Calma o cacete! Não faz besteira você, ô china. Melhor ficar quietinho aí onde cê ta...
Dohko avançou alguns centímetros, ainda calmo, com as mãos levemente erguidas:
-- Cara, a policia está chegando, se ver que você tem uma refém, alguém pode sair machucado...
-- É, E VAI SER TU, SE NÃO CALAR ESSA PORRA DESSA BOCA!
As viaturas foram encostando, Carlo ainda apontava a arma para a cabeça da garota, embora não desviando os olhos de Dohko, que por sua vez continuava dando passos pequenos e calmos na sua direção.
-- PUTA QUE PARIU! EU JÁ FALEI PRA TU FICAR AI, SEU MERDA! QUÉ MORRÊ!
A garota não chorava, mas olhava para Dohko contendo a frustração por não poder fazer nada, enquanto os policiais já armados, saiam das viaturas.
Dohko percebeu que Carlo se afastava em direção a um beco logo atrás deles. Um policial grita para Carlo:
-- MELHOR ABAIXAR ESSA ARMA, AMIGO, ASSIM NINGUÉM SAI MACHUCADO.
Carlo empurrando freneticamente com o cano do revolver a cabeça da garota e Dohko ainda o encarando enquanto esse continua caminhando de costas em direção ao beco, arrastando a garota consigo:
-- AHHH, PODE APOSTAR QUE VAI SIM, E VAI SER A PRINCESINHA AQUI!
-- Cara, solta a garota... Me leva no lugar dela... – Dohko fazia sinal com a mão esquerda, para os alunos continuarem no lugar onde estavam, parados junto ao muro.
Carlo riu, num misto de deboche e irritação:
-- E EU LÁ QUERO SABER DE CUECA, MANÉ? VOU ME GARANTIR COM ESSA AQUI. MANDA OS POLICIAS ARREDAREM PÉ SE TU SE PREOCUPA COM A MINAZINHA!
Finalmente eles estavam dentro do beco, mas para a garota era como se o tempo se arrastasse. Seu pescoço doía onde Carlo apertava com uma chave de braço e o cano da arma começava a marcar sua pele da têmpora.
O lugar era estreito e mal iluminado... um forte odor de lixo em decomposição penetrou no nariz de Dohko, que entrou na frente seguido por três policiais armados, os alunos curiosos ficaram na saída.
Um dos policiais o advertiu:
-- É melhor você sair daqui, rapaz. A coisa pode complicar...
-- Nem pensar. – Embora educado Dohko estava impaciente – Shina está sob minha responsabilidade, é minha aluna. Não vou me arriscar a sair daqui pra vocês travarem uma guerra de tiros.
Carlo gritou do meio do beco: -- AEW, VAMO PARÁ COM ESSE PAPO MOLE AI! ABRAM CAMINHO PRA EU PASSAR, OU A MINA VIRA PENEIRA...
Antes que Carlo concluísse a frase sentiu uma suave brisa sacudir seu cabelo, mas não deu muita atenção. Porém, centésimos de segundos depois um forte tapa atingiu sua mão e viu para seu desespero, sua arma voar pra longe caindo a centímetros dos seus pés.
Todos olharam surpresos para o revolver no chão, mas não viam o autor do tapa, não havia ninguém mais ali além deles.
Antes mesmo de se recuperar pelo acontecido, Carlo recebeu no estomago uma violenta cotovelada de Shina, outrora sua refém, que após isso correu para Dohko, que abriu os braços para protege-la num abraço forte.
Carlo recolhia o revolver quando se surpreendeu novamente, agora uma voz embora feminina muito grave, falou em voz alta logo atrás dele:
-- Pra que isso, Carlo... Você pode fazer muito mais com um dedinho só!
Ele virou-se apontando a arma em direção da voz, mas não viu nada. Uma fúria crescente misturado ao medo de ser detido começou a tomar conta dele. O que em nome de Deus estava acontecendo ali? Que tipo de alucinação era essa agora, justamente quando estava careta há algumas horas... seria esse o motivo? Quer dizer... ele precisava estar careta para ter uma alucinação daquelas? Gritou tentando controlar a confusão que sentia a sua volta e dentro de si:
-- APARECE SUA VADIA!
Ouviu a mesma voz, mas agora ela tinha um tom divertido, beirando o debochado e gargalhava. Só então, quando virou-se se deu conta de onde estava a dona dela. Sua surpresa foi à mesma das demais pessoas ali; uma garota com a pele escura e cabelos prateados sorria enquanto olhava divertidamente para ele, parada ao lado do de Dohko, com as mãos nas cintura numa pose extremamente relaxada:
-- Qual é Carlo? Vai atirar em todo mundo? E quando acabar sua munição, vai querer sair no braço? Huahuahuahuahuahuahuhauhau!
Carlo agora ria quase insano, e transpirava. Então tinha sido ela... aquela mulher de braços musculosos demais para uma garota comum estapeou sua mão, atirando longe sua arma e tirou-lhe a única chance de sair vivo daquela situação; a refém. E agora, debochava dele.
Que fosse tudo pro inferno!
Podia não sobrar mais bala nenhuma pra se defender do resto, mas ele agora estava pouco se importando com os policias, com o china ou com o exército em peso, porque nesse momento a única coisa que desejava do fundo da alma era descarregar todo o canhão naquela vaca intrometida!
Vendo como o rapaz se descontrolava e como seu olhar tomou um brilho perturbado, Dohko ainda abraçado a Shina, advertiu a estranha:
-- Não acho que tenha sido uma boa idéia irritar ele, moça... se ele atirar, vai acertar todo mundo aqui!
Então ela olhou pra ele, seus olhos amarelos como de uma águia transbordavam ironia... Graças a eles, Dohko teve um péssimo pressentimento de que era exatamente o que a garota desejava, pior! Divertia-se com aquilo. Mais uma vez ela falou com a voz grave que deixava evidente suas raízes negras:
-- Então é melhor você fazer alguma coisa, né?
Dohko não teve tempo de responder, o que ouviu e viu em seguida foi apenas uma confusão onde tiros e gritos se misturavam com a gargalhada enlouquecida de Carlo, que já disparava contra eles:
-- ENGOLE CHUMBO, SUA PUTA! HAUUAHAUUAAUUAUAUAH...!
Não havia tempo pra pensar, tudo o que ele temeu desde o momento que viu aquele louco saltar de dentro do veiculo amassado, estava acontecendo. Os alunos atrás dele entraram num pânico louco, tentando se proteger jogando-se no chão e escondendo-se atrás das paredes, os policiais atiraram de volta, o desespero de serem atingido maior que a prudência...
Dohko sentiu sua aluna encolher-se nos seus braços, entregando-se para o que tivesse que acontecer, morte ou salvação... Mas, salvação de onde? De quem?
Viu que garota negra permaneceu parada, de braços cruzadas e com expressão divertida no rosto, imóvel como uma parede feita com o mais puro ébano.
Sem saída, sem ajuda de parte alguma, agora seria uma questão de tempo até que aquela carnificina fornecida pela troca de tiro, desse um fim a tudo. Mas que inferno!
Não salvaria ninguém aquele dia, e talvez dia nenhum... De que adiantou tanto treinamento? Tanta dedicação, se nada poderia ser feito contra aquele maldito metal? Que tipo de impotência era aquela que o fazia sentir-se tão mal? Para que tanto esforço para manter Shina viva, se agora ela morreria em seus braços? Nos braços do homem que se sentia responsável por sua segurança?
Sentiu algo além daquela sensação de impotência percorrer seu corpo.
Um calor que saia de seu peito e tomava conta de todo seu corpo e antes de pudesse se dar conta, viu o olhar de sua aluna para ele, não surpresa, mas assombrada!
Seu corpo emanava uma energia dourada, quase papável. E parte dela voou em direção a Carlo, atingindo em cheio seu ombro direito. A arma caiu longe novamente e o rapaz caiu de joelhos apalpando o ombro ferido que sangrava levemente. Mas as balas... onde elas estavam? Eles já não deveriam ter sido atingidos? E o que em nome do Diabo, sim porque ao que tudo indicava, Deus não estava muito preocupado com ele; era aquela luz que envolvia aquele china enxerido?
A energia dourada de Dohko estava agora se desvanecendo, desaparecendo lentamente, como se soubesse que o perigo imediato havia passado... Carlo virou-se em sua direção, boquiaberto e com os olhos fixos naquela inexplicável luz dourada:
-- O que diabo... – Não conseguiu concluir a frase, surgiu a sua frente às pernas da garota negra, Carlo virou o rosto para encarar novamente aquele sorriso de escárnio que ela fazia questão de demonstrar desde que chegara para ferrar com a sua vida. Viu quando ela abriu a mão para jogar no chão todas as balas que eles havia trocado, lá estava aquela merda de riso que ele começou a odiar desde então... A desgraçada ainda sorria:
-- Acho que parte disso é seu...
Dohko não acreditava no que seus olhos viam, como ela poderia ter apanhado todas as balas! Quem ou o que era ela? Que tipo de poder sobre-humano, concedeu a ela a possibilidade de ser mais rápida que a velocidade dos tiros!
Já Carlo estava mais preocupado em dar aquela vaca de braços fortes o que ela merecia, levantou-se novamente e ficando cara a cara com a garota, disse entre os dentes enquanto alguma coisa começava a fazer seu corpo todo formigar. Um calor incontrolável crescia dentro de seu peito:
--Vai pro inferno... – Então ele sentiu aquela energia dourada iluminar sua visão, estava rodeado dela, que explodiu como uma bomba de dentro pra fora. Apontou o dedo indicador para todos ali, e gritou rouco de fúria:
-- QUERO QUE TODOS VOCÊS VÃO PARA O INFERNO!
Um redemoinho dourado começou saiu da ponta de seu dedo em direção a ela, atingindo também Dohko e os demais. Só então a expressão da garota negra mudou, agora estava séria, impassível:
-- Finalmente!
E começou a correr em volta dele, primeiro numa velocidade normal, depois mais rápido. Ouvia os gritos atrás de si, enquanto Dohko protegia abraçando mais forte sua aluna.
As pessoas agora não passavam de borrões disformes para ela. Sua velocidade atingiu tal limite, que o vento dentro do circulo que fazia a volta de Carlo, formou um pequeno ciclone abaixo dele, que sentiu seus pés soltarem-se do chão. Nessa hora ele perdeu toda a concentração e começou a berrar, quebrando de súbito aquela energia dourada que se dissipou imediatamente:
-- QUE MERDA É ESSA! ME COLOCA NO CHÃO, SUA VAGABUNDA!
Então ela parou, com a mão erguida para o alto, e Carlo continuava a mais de dois metros acima do solo. Ainda com o braço estendido, ela olhou por cima dos ombros e sorriu aquele riso sarcástico para Dohko, que notou a mesma energia que sentiu em si, sair dela... via uma luz irradiar de seu corpo, porém mais forte e poderosa que a dele:
-- Só lamento, mas estou bem decepcionada com vocês dois, Cavaleiros Dourados de Libra e Câncer!
GRÉCIAAiolos desviou os olhos, sorrindo divertido depois de ver seu irmão sem jeito fazer um carinho na namorada, Marin.
O rapaz não gostava do posto de segura-vela, então preferiu sentar numa mesa mais distante dos dois. Fazia um calor insuportável, o guarda-sol acoplado a mesa quebrava um galho, mas não podia se dizer que refrescava.
Estava com a boca aberta, pronta para abocanhar um bom pedaço do seu lanche cheio de gordura saturada que Aiolia provavelmente condenaria, claro!
Sendo seu irmão um amante de esporte, nada mais natural que condenar aquela quantidade de gordura, não que ele fosse algum tipo de hindu fanático por saladas... mas preferia um sanduíche de queijo branco e carne de chester, a um hambúrguer na brasa cheio de maionese e queijo derretido...
Aliás, igualzinho ao que Aiolos estava prestes a saborear.
Mas a boca permaneceu aberta e imóvel com o sanduíche a centímetros dela, porque seus olhos miraram numa garota que passava ao seu lado. Não pela sua beleza, ou pela forma como seu quadril se movia quando andava, e sim pelo tamanho dela.
A garota devia medir no mínimo 1,80 centímetros, e tinha um corpo de fazer inveja em qualquer marombeiro! Braços capazes de disputar uma queda de braço com ele e de obter um empate tranqüilamente, sem falar nas pernas... Dois troncos firmes e torneados onde nem uma fibra se mexia ou tremulava quando ela dava seus passos pesados.
Aiolia percebeu ter ficado durante um bom tempo observando aquela garota peculiar, porque mal notou que ela estava olhando pra ele, sorrindo simpática enquanto se dirigia a mesa ao lado da sua. O rapaz sorriu sem graça, enquanto colocava o sanduíche (agora um tanto desinteressante) sobre o prato descartável. Mas o sorriso desapareceu quando percebeu o pequeno acidente preste a acontecer...
A garota ainda olhando pra ele, não viu que a mesa estava perigosamente próxima, e tudo o que se ouviu e viu depois foi um forte baque e ela se estatelando de bunda no chão. Seria impressão dele, ou exatamente no momento em que ela caiu, pôde sentir um leve tremor no chão...?
Todos viraram a atenção para a garota alta, inclusive Aiolia, que só agora percebia impressionado o tamanho daquela mulher... Marin vendo o súbito interesse do namorado na moça caída, deu-lhe uma leve cotovelada enciumada.
Aiolos levantou-se e ofereceu a mão para ela se levantar e só então, depois de ficar cara a cara com a moça (o que não era muito difícil devido ao seu tamanho), reparou que apesar daquele corpo enorme, a garota tinha uma expressão meiga, quase infantil, proporcionada por seus olhos grandes e brilhantes.
-- Obrigada... – Agradeceu numa voz sussurrada enquanto ele levantava a mesa que ela derrubara no chão com o corpo.
-- Não há de que. Mas acho que... a perna ta meio bamba...
Ela corou ferozmente agora, a vermelhidão cobriu quase toda a face, perguntou: -- O que disse!
Aiolos sorrindo e coçando a nuca, se explicou melhor: -- A perna, da mesa!
A garota então abaixou a cabeça e esfregando sem jeito a mão na barra do vestido florido que usava, respondeu: -- Ah é. Eu estraguei, sou mesmo um desastre...
-- Que isso... essa mesa tava mesmo capenga – O rapaz se aproximou dela e apontou a mão para mesa onde estava sentado e ao lado de sua cadeira havia mais duas vazias: -- Bom se você quiser, pode dividir a mesa comigo.
Ela arrumou o cabelo atrás da orelha, envergonhada: -- Humm... na verdade eu não posso demorar muito... e nem você...
Aiolia sem entender o que a garota quis dizer, olhou desconfiado pra ela, mas ainda com um meio sorriso no rosto – Como... o que você disse?
Mas não houve tempo para respostas, gritos, um forte barulho de mesas sendo jogadas e cadeiras sendo atiradas contra paredes, invadiram o pátio de alimentação do museu. As pessoas começavam a correr descontroladamente e a abandonar o local aos berros. Havia homens invadindo, homens usando vestimentas estranhas... não, não eram roupas eram... armaduras!
Homens usando armaduras em pleno século 21! Cerca de cinco deles e o do centro, parecia o líder. Um guerreiro alto e corpulento, de cabelos louros claros caídos sobre o ombro numa cascada que deslizava sobre a capa pesada que ostentava, usava uma armadura vermelha e apesar de não ser mais alto que Aoilos, cada braço do sujeito dava dois do dele.
Aiolos imaginou o estrago que o soco daquele homem causou no rosto do segurança que cruzou o seu caminho quando ele avançava em direção as mesas. Mais perturbador que a sua força era a frieza com que falava... O tom monocórdio com que se dirigia a eles, deixando claro que os via apenas como criaturas inferiores, dispensáveis.
-- Não percamos tempo com esses aqui. O que viemos buscar está à frente.
Aiolos foi tomado de um sentido de prontidão que nunca tivera antes. O dedo do estranho e bizarro homem apontava para seu irmão e Marin!
Viu quando Aiolia se levantou, furioso com o peito estufado e sabia o que o irmão estava pensando; ele podia ler os movimentos corporais dele ali estava escrito que não colocariam as mãos na sua namorada.
Não iria esperar até seu irmão caçula tomar o primeiro soco e correu para ajuda-lo, mas sentiu uma mão pesada e forte detê-lo pelo braço... era a garota:
-- Não! Eles ainda não perceberam você... Não deve ir. – Ela tinha o cenho carregado e sério, nem sinal da menina tímida e desajeitada de antes. Mas isso não importava, porque o absurdo que ela disse não parecia digno de ser levado a sério. Aiolos se libertou de sua mão:
-- Não devo ir? Que história é essa, garota!
Ouviu um grito de dor, olhou novamente na direção do irmão e o viu socando um dos capangas de armadura do tal guerreiro de vermelho. Aiolia arrancou sangue do rapaz, e possivelmente quebrara o nariz dele também, foi o suficiente para que os outros três avançassem contra ele que se preparava para distribuir soco, cerrando os punhos.
Foi o suficiente para Aiolos sair do estado súbito de confusão em que permaneceu por poucos segundos e para correr para junto de Aiolia.
Que se danassem as explicações de quem eram e de onde saíram, o que importava agora era defender o irmão mais novo e a sua namorada. Mal percebeu que a garota corria ao seu lado, dizendo alguma coisa que ele não conseguia ou nem queria prestas atenção:
-- Você não entende? Não podem lutar contra eles! Vocês não têm força suficiente contra um Herói do deus dos deuses!
Aiolos só parou quando sentiu então alguma coisa atingindo-o no estomago, aliás não parou, voou alguns metros do chão. Não viu de onde viera, apenas sentiu a dor lancinante que parecia rasga-lo ao meio. Caiu de joelhos, amparando com a mão a barriga dolorida, sem nem notar o fio de sangue que escorria de sua boca... ao seu lado percebeu a garota parada olhando pra ele preocupada. Viu se aproximar o homem de armadura vermelha, ouviu sua voz forte:
-- Quão tolos são os humanos... Poderia ter fugido como os demais que aqui estavam, rapaz. Mas por esse sentimento tão especial que une os irmão, entregou sua posição... Tsctsctsc... Acha que pode contra mim? Acha mesmo que pode derrotar...
Então ele gritou, cheio de um prazer cheio de arrogância destrutiva. Sua voz encheu o pátio e verberou contra as colunas altas e o teto: -- ... O ELEITO DOS DEUSES?
Ergueu o pé protegido pelo pesado metal de sua armadura e chutou Aiolos, que se viu novamente sendo jogado a centímetros do chão e caindo alguns metros à frente com o forte golpe.
Aiolia viu o irmão ser atacado, e a ira encheu ainda mais seu peito... Mas não podia ajuda-lo, não ainda! Tinha seus próprios problemas para resolver porque dois dos capangas de armadura o seguraram para que um terceiro o socasse no rosto.
Um deles, o que socava ria eufórico e cheio de desprezo:
-- Então esses são os homens que preocupavam o nosso mestre? Achei que pudéssemos nos divertir pelo menos um pouco... mas não dão nem pra saída!
Uma quarta voz chegou a eles, ela tinha um tom pastoso que deixava bem claro as intenções por trás de cada palavra: -- A nossa diversão fica por conta dessa gracinha aqui...
Então Aiolia viu, ele havia capturado Marin. Ela estava desacordada e uma grande mancha vermelha escorria de sua testa para sua bochecha... Vê-la desmaiada, sangrando e desprotegida nos braços daquele sujeito, fez seu corpo vibrar de ódio.
Sentiu uma explosão dentro de si e antes que se desse conta disso, os homens que o seguravam se afastaram, surpresos... A fúria era tanta que ele mal percebia a luz dourada que emanava de si.
Disparou contra o homem que segurava Marin, quando foi impedido pelos outros três que fizeram uma barreira a sua frente.
-- Sai da frente!
Cego de raiva e com aquela energia ainda tomando de seu corpo inteiro, cerrou os punhos e partiu pra cima deles, mas parou de repente, derrapando no chão frio de mármore...
Alguma coisa estava acontecendo com o chão onde os homens pisavam, o mármore sob os pés deles começou a tremular, as peças brancas do piso racharam e o concreto grosso ficou a mostra, os três capangas caíram, sem entender o que estava acontecendo. A voz da garota alta chegou aos ouvidos de Aiolia, que se virou para então descobrir de onde vinha o poder que movia o chão daquela forma: A garota com os braços rígidos e esticados ao longo do corpo, dispensava uma energia, semelhante a que emanava do corpo dele em direção ao chão. A tal energia formava veios nele, rachando o mármore em direção aos três homens. Ela gritava para ele enquanto seus cabelos eram sacudidos pela forte energia que envolvia seu corpanzil:
-- Vá salvar a garota, agora!
Ele não esperou uma segunda chance, saiu correndo em direção ao homem que carregava Marin, ignorando os outros que já se levantavam e corriam em direção a garota que os atacara.
Aiolia ainda com o corpo cheio do calor que a energia dourada emanava, desviou de um ataque de luz que o homem jogou contra ele, e continuou avançando para acertar em seguida um soco no rosto dele... Ouviu e sentiu ossos estalando e não precisou de mais para saber que havia quebrado o pescoço dele com um único soco e que isso com certeza era resultado daquela luz cheia de poder que seu corpo liberava, e que agora vendo Marin cair ainda desacordada, mas a salvo daquele homem, sumia lentamente...
Estava se abaixando para apanhar a namorada no chão, quando sentiu um forte golpe atingir em cheios eu maxilar. Era como se seu cérebro estivesse sido sacudido, a carna de sua boca e sua gengiva cortando-se graças a pressão junto aos dentes cerrados... Mordeu a língua graças a pressão do golpe, rolou pelo chão com o impacto e tentou se levantar, mas sentiu algo quente encher sua boca e teve que inclinar-se para cuspir seu sangue no chão.
Mal teve tempo para limpar a boca com as costas da mão e mais um golpe, agora atingindo suas costas, fazendo suas costelas estalarem num protesto que atingia o limite da dor... Ele voou para bater de frente contra uma das colunas e o homem com a armadura vermelha caminhou sem pressa nenhuma para Aiolia, que tentava apoiar fracamente os braços no chão a fim de se levantar...
-- Demonstre um pouco de sabedoria, mortal. Entregue-se junto com a garota, nosso Senhor pode demonstrar benevolência de Eras em Eras...
Ele agarrou com as duas mãos Aiolia pelo pescoço e o rapaz pode sentir os músculos rangerem debaixo da mão cheia de força sobre-humana do rapaz...
Mesmo assim, apesar da fraqueza pelos ferimentos e da falta de ar, ele ainda falou por entre os dentes, cheio de raiva:
-- Pega essa benevolência e enfia no rabo do seu senhor!
Os olhos do homem se tornaram duas chamas de fúria pela ofensa: -- Que assim seja, mortal. Prometo ser rápido!
A voz de Aiolos, repleta com um tom de aviso, falou logo as costas do guerreiro de armadura vermelha, que arregalou os olhos incomodados com essa intromição:
-- Mas eu não!
Ele foi atingido por um feixe de luz que se soltou do corpo de Aiolos e largou Aiolia, gritando de surpresa pelo golpe inesperado.
Aiolos avançou devagar contra ele, ainda com a mão no estomago dolorido pelo golpe que levara enquanto o guerreiro se recuperando, ria com desdém:
-- E pretende me matar com um poder tão débil, mortal deplorável?
Aiolos sorriu, aquilo fez todo seu corpo doer, mas não importava. Agora não era só uma questão de defender o irmão e Marin, não sabia porque... mas algo lhe dizia que ali tinha muito mais envolvido:
-- Matar eu não sei, mas fico feliz se conseguir arrancar uns dentes!
O guerreiro ferido no grande ego pelo deboche do rapaz, ergueu o punho e correu furioso de encontro a ele, Aiolos sentiu aquela energia dourada crescer dentro de seu peito, ergueu os braços para deter o golpe do oponente com um contra-ataque!
Mas foi impedido pela visão que tomou forma a sua frente. Novamente a garota alta, que agora se prostrou entre ele e o homem, agachada com as duas mãos espalmadas contra o frio chão de pedra.
O guerreiro cambaleou com o tremor que se formou sob seus pés, depois olhou com fúria para ela, avançando com os dentes a mostra contendo todo seu ódio, seus olhos quase soltavam faíscas em sua direção. Ele gritou quando ela jogou mais de sua energia para as mãos espalmadas contra o chão e paredes de terra, espessas como concreto circularam o corpo dele, formando uma prisão de argila ao seu redor:
-- Maldita seja, sua Senhora e todos os que declararam guerra contra o deus dos deuses!
Tudo que se viu sem seguida, foi a prisão de terra de fechar sobre a cabeça do rapaz e o eco de seus gritos morrerem ao longo do salão.
Aiolos olhou para ela espantado, estava preste a esboçar um sorriso, quando ouviram a voz desesperada de Aiolia:
-- MARIN!
Correram para ele, enquanto o rapaz seguia jogando cadeiras e mesas para os lados, a fim de encontrar sua namorada:
-- Onde ela está Aiolos! Ela estava aqui! Eu vi! Eles... eles...
Aiolos colocou a mão sobre os ombros do irmão, mas sua expressão não conseguia transmitir a tranqüilidade que Aiolia desejava... O irmão mais velho apenas balançou a cabeça, triste:
-- Desculpa Aiolia, mas eu estava tão preocupado em proteger você que não vi...
A garota chegou até os dois, ainda tensa falou seriamente:
-- Eles devem tê-la levado para fortalecer o outro exército... – Aiolia não esperou que ela terminasse, agarrou seu braço e o sacudiu com força:
-- Eles quem? Levaram pra onde? Quem é você e de onde conhece esses caras?
Aiolos tentou acalmar o irmão, mas foi a garota quem o deteve ao agarrar sua mão e a retirar com força de seu braço, lançando a ele um olhar ameaçador:
-- Todas as explicações serão dadas em seu tempo, Cavaleiros Dourado de Leão e Sagitário... mas agora devemos sair daqui...
Apontou para a prisão de terra que detinha o guerreio de armadura vermelha, ela começava a rachar e pequenos feixes de luz saiam de dentro dela. -- ... Se quiserem continuar vivos para salvar a garota.
CONTINUA...
