Eu já estava em Hogwarts há dois meses.

Eu levantava todas as manhãs, passava pelo salão comunal, tomava café da manhã, ia para as aulas, fazia os deveres, andava pelos corredores, jantava no Grande Salão e voltava para meu dormitório todas as noites. E quase ninguém falava comigo.

Meus primos não olhavam na minha cara, nem ninguém da Grifinória. Minha mãe me mandara um berrador no dia seguinte da seleção, dizendo que eu envergonhara a família, não por não ter entrado na Grifinória, mas por que eu entrara na pior casa da escola, na casa em que só entravam bruxos das trevas, e que era isso que eu estava destinada a me tornar agora.

Depois disso, ninguém mais da minha família falara uma mera palavra para mim. Claro que o discurso da minha querida mãe sobre a Sonserina não fez minha fama na casa melhorar. Tanto é que ninguém lá falava comigo também.

O pessoal das outras casas preferia não se meter, portanto ninguém mesmo falava comigo.

Assim, eu estabelecera uma rotina, que consistia em estudar o máximo possível e não pensar na desgraça que a minha vide se tornara a partir do momento em que eu decidira não entrar na Grifinória.

Claro que havia algumas exceções.

Como Carter e Blake, que se tornaram companhia constante, mesmo quando eu lhes pedia que me deixassem em paz. Eles estavam mais do que convencidos de que eu não deveria ter vergonha de ser uma Lottus na Sonserina. Eu deveria ter orgulho de ser diferente e de quebrar parâmetros.

Mas eu não sentia isso. Não quando todos se recusavam a falar comigo ou olhar na minha cara, não quando o sentimento predominante em meu coração era a solidão, não quando o que deveria ser o começo da melhor época da minha vida se tornara o início de uma vida infernal.

Outra figura que também parecia não se importar com o que os outros pensavam de mim era James Potter. Ele insistia em conversar comigo sempre que me via nos corredores ou quando tínhamos aulas juntos. O que era mais estranho ainda, por que fora eu que jogara ele no lago no nosso primeiro dia.

Mas, alem desses três meninos, que se odiavam entre si, ninguém mais falava comigo. Eu era completamente sozinha naquele castelo imenso.

E foi numa dessas caminhadas solitárias que eu descobri que não precisava ser a loser que todos diziam que eu era, a traidora da família Lottus, a escória da Sonserina, eu podia ser alguém que todos na escola iriam respeitar, de uma maneira ou outra.

Eu estava indo pala a aula de Herbologia depois do almoço, caminhando tranquilamente pelo corredor da ala leste em direção as estufas, quando fui emboscada por um grupo de septimanistas da Sonserina, todos com sorrisos maliciosos e varinhas em punho.

Eu tentei ignorá-los, continuando meu caminho, mas um garoto grande, com os cabelos bem curtos, me puxou de volta e me jogou na parede. Eu bati as costas com força e meus livros foram arremessados para longe.

Os garotos riram. Uma menina com as pontas do cabelo cor de rosa deu uma risada histérica e se aproximou de mim, enquanto eu tentava me levantar.

- Você acha que pode simplesmente ser selecionada para nossa Casa que você será uma de nós? – disse ela com uma voz aguda e cruel – Você acha que só por que vem de uma família grifinória você é melhor do que a gente, sua traidorazinha? – ela então ergueu a varinha e apontou em minha direção.

Eu fechei os olhos, mas senti o feitiço me atingir com tal força que me fez bater a cabeça na parede e quase perder os sentidos.

Fiquei no chão por alguns instantes, enquanto os septimanistas riam alto.

Por que estavam fazendo aquilo comigo? Alguma vez eu agira como superior, melhor do que eles? Eu acho que não! Acho que fiz exatamente o contrario, abaixando minha cabeça e ficando na minha. Então qual era o problema deles? Eu não sabia, mas também não queria descobrir.

Quando consegui pensar direito, me mexi o mínimo possível e alcancei minha varinha no bolso interior da minha capa. Eu até podia ser uma simples primeiranista, mas era sim de uma família puro sangue e tradicional, e todas as crianças assim criadas ganham suas varinhas muito nova, e sempre aprendem feitiços antes mesmo de entrar na escola. Então eu tinha alguns truques que aqueles idiotas não esperavam.

Quando pararam de rir tolamente, o grupo se virou para mim e viu que eu estava levantando. Um garoto baixinho com cabelos cor de palha ergueu sua varinha e um feitiço roxo explodiu em minha direção, mas dessa vez eu já espera, e rolei para o lado, desviando do feitiço, que bateu na parede e fez um buraco nas pedras.

Eu me levantei e ergui a minha varinha. Os septimanistas não gostaram nem um pouco, e então todos apontaram suas varinhas para mim. Eu não me intimidei, continuei com a varinha em punho, andando lentamente para trás, como se eles fosse animais selvagens que qualquer movimento brusco atiça. Eles continuaram em minha direção, e eu cheguei a uma parede. Não havia mais para onde fugir, e eu tinha cinco varinhas apontadas para a minha cara.

Foi quando eu resolvi atacar. Pena que foi na mesma hora que eles também decidiram.

Eu gritei um feitiço e recebi cinco de volta. Felizmente, sendo pequena, eu consegui desviar deles rolando para o lado, e correndo enquanto a fumaça dos feitiços que acertaram a parede ainda me encobria.

Sai correndo pelo corredor, com a varinha ainda em punho, olhando para trás o tempo todo para ver se eles tinham notado a minha fuga.

Foi quando trombei com algo maciço e ligeiramente maior do que eu.

Eu cai no chão, mas não soltei a varinha, pronta para atacar meu novo inimigo.

- Nossa, Julie, você devia olhar para onde anda, sabe. – disse uma voz rouca em tom de brincadeira.

Eu ergui os olhos e dei de cara com os olhos incrivelmente azuis de Carter Malfoy. Ele estava estatelado no chão a minha frente, os cabelos muito loiros meio bagunçados e seus livros jogados ao seu redor.

- Oh, desculpa Carter, mas eu não tenho muito tempo para conversar agora. – arfei e me levantei de um salto, ouvindo o grupo de septimanistas se movimentando no fim do corredor.

- Ow, o que está acontecendo? – ele também se levantou e sacou a varinha, sem se preocupar de pegar seus livros no chão.

Eu não tive tempo de responder, porque os septimanistas entraram no corredor e seguiam em nossa direção, com as varinhas em punhos e expressões raivosas.

Carter arregalou os olhos para mim, e eu apenas dei de ombros. Ambos levantamos as varinhas e começamos a gritar todos os feitiços de ataque que conhecíamos.

Feitiços choveram e explodiram pelo corredor, de ambos os lados. Me senti no meio de uma guerra, mas logo os feitiços pararam de ser lançado em nossa direção, então também cessamos nosso ataque.

Quando a fumaça e a poeira dos feitiços richecotiados nas paredes baixou, eu e Carter levantamos nossos olhos e encontramos os cinco septimanistas desacordados.

Entreolhamos-nos surpresos, quase sem acreditar que, sendo dois primeiranisntas, conseguimos derrotar e estuporar cinco veteranos.

Logo nossos olhares de surpresa se tornaram sorrisos enormes e divertidos, e começamos a rir descontroladamente.

- Não acredito que acabamos de fazer isso! – exclamei sem ar, ainda rindo.

- Nós fazemos uma bela dupla, não acha? – Carter piscou um dos seus olhos azuis, divertido, e eu concordei.

Enquanto continuávamos rindo bobamente no corredor, o sinal indicando o fim da aula.

Logo o corredor estava lotado de alunos, que olhavam incrédulos dos septimanistas desacordados para nós, pequenos e com olhares inocentes, com as varinhas em punhos e sorridentes, como se tivéssemos acabado de fazer uma travessura.

Os olhares assombrados dos alunos nos seguiram enquanto nós guardávamos nossas varinhas e andávamos pelo corredor pegando nossos livros, e fomos rindo em direção a nossa próxima aula, deixando os septimanistas desacordados e os outros alunos incrédulos para trás.