Bilhetes
Por: Aryam
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Logo na segunda, cheguei decidido no colégio. Ao entrar na sala, procurei entre os mais ou menos sessenta alunos, aquela garota que estava de olho há algum tempinho. Ela era bonita e parecia bem estudiosa. Conversara com ela algumas poucas vezes, quando estava com Duo e os outros, e ela me pareceu ser legal também. Para ser bem sincero, eu não estava me sentindo muito exigente.
Sentei ao seu lado e comecei a planejar o que fazer em seguida. Cumprimentamo-nos com um "bom dia" e um aceno de cabeça. Ela me perguntou como foi meu fim de semana, como se puxando uma conversa meio tímida. Trocamos algumas palavras, eu não muito expressivo por realmente não saber bem como jogar conversa fora sem propósito, e a aula começou. Ótima desculpa para me fechar em seu mundo e fingir prestar atenção.
Entretanto, surpreendi-me quando, no intervalo, ela veio conversar comigo. Ignorei meus amigos e eles pareceram entender. Duo até me lançou um joinha quando passei por ele.
Fomos para o refeitório com uma conversa agradável. Ela se distraiu um momento ou outro enviando algumas mensagens no celular, mas ao todo parecia bem focada em me conhecer. Depois de comermos alguma coisa, ela me puxou para o jardim, onde estávamos relativamente a sós.
Fiquei um pouco nervoso. Ela estava mostrando todos os sinais de estar interessada. Tocava no meu braço, mexia no cabelo, sorria e prestava atenção a tudo o que eu dizia. Não seria o meu primeiro beijo, mas sempre há uma trepidação, um momento de excitação e nervosismo antes...
— Sabe Wufei — ela começou com um sorriso recatado. — Te achei um cara muito legal.
Contive o meu próprio sorriso, não querendo parecer convencido. Preparei-me para tomá-la em meus braços...
— Por isso que quero te apresentar o meu amigo.
Ela saiu do meu alcance, deixando-me completamente atordoado por um momento, e retornou arrastando um rapaz corado da cabeça aos pés.
— Ele está interessado em você há um tempão — ela riu, parecendo ignorar a minha expressão abobalhada e como o amigo dela encarava o chão fixamente —, mas nunca teve coragem de chegar em você. Então resolvi dar uma mãozinha!
Com uma piscadela e um "delicado" empurrão no seu amigo para cima de mim, ela nos deu as costas e saiu rindo.
Continuei encarando uma árvore logo à minha frente, boquiaberto até o rapaz parecer ganhar coragem para me encarar.
— Me... desculpa por isso — ele balbuciou baixinho.
Precisei de mais um tempo para me recompor, mas não estava assim tão surpreso. Afinal, não era exatamente a primeira vez que isso acontecia. O que não significava que eu não podia ficar injuriado com a situação.
Ergui a mão quando o vi abrir a boca para, provavelmente, se desculpar outra vez.
— Não tem problema. Muitas pessoas acham que sou gay por causa dos meus amigos — comentei, tentando aliviar o constrangimento.
— Você não é gay? — ele perguntou com a voz esganiçada, genuinamente espantado, de olhos arregalados e tudo.
Respirei fundo, não deixando a raiva se apoderar de mim. E aquela história do Quatre de que os gays sabiam se reconhecer? O radar desse aí estava quebrado!
Consegui resmungar um "com licença" e me retirei, voltando para a sala de aula envergonhado e abatido.
Para distrair-me do recente vexame, resolvi ler um pouco. Sempre carregava um livro comigo na bolsa, então abri meu material para buscá-lo e, entre os meus cadernos, encontrei um envelope. Estava selado com cera quente. Não pude reconhecer o emblema impresso pelo sinete e o verso estava em branco.
Parecia um objeto tão antiquado e fora do seu tempo que me perguntei se era de verdade ou se tinha uma fenda dimensional no fundo da mochila.
Olhei para os lados, desconfiado. Só estavam eu e mais dois outros conversando, completamente alheios à minha presença. Com cautela, abri o envelope como se contivesse algum tipo de veneno e retirei, lentamente, o papel ali encontrado.
Caro Sr. Chang,
Venho por meio desta informá-lo de meu interesse em cortejar vossa pessoa.
Devo lhe dizer que, desde quando nos encontramos, não pude parar de pensar em Vossa Senhoria e adoraria, em breve, poder encontrá-lo pessoalmente. Até lá, gostaria de lhe reafirmar as minhas intenções.
Por terceiros, obtive a informação de que não está atualmente engajado em nenhum tipo de relacionamento, portanto, espero que meus avanços não sejam inconvenientes.
Atenciosamente,
Alguém que o admira.
Após passar meu choque inicial, tampei a boca com a mão para aliviar o som da minha risada.
Aquilo era... hilário! Duo se superara dessa vez. Quatre deve tê-lo ajudado com o tom formal. Com certeza meus amigos me viram desanimado após nossa conversa na sorveteria e resolveram me pregar uma peça para me animar.
Quando a sala começou a se encher, eu ainda ria.
— Qual a piada? — Heero perguntou, sentando-se na fileira ao meu lado.
— Essa carta é uma obra de arte — falei, erguendo a dita cuja para lhe mostrar que já a havia descoberto.
— Que carta? — Trowa, que chegara logo atrás, tomou o papel de minha mão e tanto Quatre quanto Heero se penduraram em seus largos ombros para lerem juntos.
Apenas balancei a cabeça. Para quê fingiriam que não sabia do que se tratava?
Após terminarem, vi dois pares de olhos verdes e um de azuis me encararem surpresos.
— Wufei, quem te enviou isso? — o loiro perguntou enrubescendo.
Encarei o rosto dos meus três amigos ali presentes e notei que todos eles pareciam completamente ignorantes do que se tratava aquele bilhete estranho.
— Pelo jeito, o Duo — respondi.
— O que tem eu? — nosso amigo de trança apareceu, sentando-se na frente do namorado. Os dois combinaram de ele não se sentar mais atrás do Heero, pois Duo não conseguia se conter em irritá-lo durante toda as aulas cutucando-o e jogando-lhe bilhetinhos.
— Essa carta que você enviou — apontei para o papel ainda em posse de Trowa. — Muito engraçado. Mesmo, me fez rir.
Ele pegou a carta. Riu até gargalhar e me devolveu.
— Que admiradora mais classuda que você arrumou! — ele comentou. — Mas não me responsabilizo por nada.
Duo era brincalhão, sacana e atrevido, mas não era mentiroso.
A piada de repente tornou-se séria para mim.
Continua...
