Acordou cedo, só tinha que estar na escola pelas oito da manhã, quando se levantou não passavam das seis. Tinha adquirido esse habito ainda em sua antiga casa: se levantava, corria por pouco mais de uma hora, então voltava pra casa e ia para o colégio. Não quis correr naquela manhã, ficou em seu quarto desmanchando a pilha de caixas.

Dobrou todas as roupas que ainda usava, colocou os figurinos de ballet numa outra caixa já vazia. Colocou livros na prateleira que ela, no dia anterior, tinha colocado sem esforço algum. Quando deu por si, eram sete e meia da manhã.

Tomou um banho, vestiu uma saia longa, preta, um suéter largo na cor cinza e prendeu o cabelo. Saiu de casa terminando de calçar as botas desgastadas. Hugo esperava por ela ao lado de um jeape preto que o pai usava quando iam para o rancho.

_ Então irmãzinha, você vai ter o prazer de me levar à escola hoje._ ela encarava o carro atônita._ Papai disse que é melhor você se acostumar com ele.

_ Você tem que estar brincando comigo._ disse pegando as chaves da mão do irmão.

O caminho até Hogwarts High não era tão longo, mas daria uma boa caminhada se fossem andando. A primeira coisa que notaram é que o colégio se parecia com um daquele internatos para filhos de famílias abastadas, era uma espécie de palacete. Macabro. Parou o carro numa vaga no meio do estacionamento, quando desceu as poucas pessoas ali encaravam de uma forma diferente.

Respirou fundo, apertou o rabo-de-cavalo.

_ Não pode ser pior que os outros primeiros dias certo?_ ouviu o irmão. Ele tinha razão. Retiraram seus horários na secretaria, o número e a senha de seus armários. Hugo tomou o corredor à direita e ela foi para o lado oposto.

Alguns alunos ainda estavam no corredor, mas ela não teve dificuldade de achar o armário, ou a sala, que estaria vazia se não fosse a presença do professor.

_ Bom dia Sr. Dumbledore._ cumprimetou ainda na porta. O senhor a olhou por cima dos óculos meia-lua._ Rose Weasley, vim transferida de Londres.

_ Ah sim, claro. Eu tive acesso ao seu histórico ontem mesmo senhorita. Creio que apesar de estarmos no meio do semestre a senhorita será capaz de acompanhar-nos perfeitamente._ disse ele._ Srta?

_ Pois não professor?

_ Eu tive a oportunidade de vê-la em Gisele quando estive em belíssimo espetáculo.

Ela sorriu brilhantemente. "Obrigada professor".

Se sentou no fundo da sala,vendo os alunos entrarem ao poucos. Dumbledore era professor de literatura, falava sobre o objeto de analise atual, O retrato de Dorian Grey de Oscar Wilde. Suportou aquela e todas as outras aulas. Não que fossem ruins, mas já vira boa parte daquelas matérias. Quando o sinal para o intervalo tocou, teve vontade de ir pra casa, contudo se lembrou do irmão.

Acabou por avistá-lo com algumas pessoas de sua sala, não quis se intrometer, fez sinal de que ia para o refeitório.

Sentada numa mesa mais distante observou o salão onde todos riam e conversavam alegre e ruidosamente. Você tem que estar tirando uma com a minha cara. Scorpius Malfoy tinha acabado de entrar pela porta principal rodeando por suas gruppies enfiadas em uniformes minúsculos de líder de torcida.

_ Oi, eu sou Roxanne, essa é Dominique, nós estamos na sua turma de literatura._ disse uma menina morena se apresentando._ Tudo bem se a gente se sentar com você, as outras mesas meio que estão perto demais daquela fuinha albina.

_ De maneira alguma.

_ Nós soubemos que você veio de Londres._ começou a outra menina._ Quando a turma da fuinha ouviu, eles ficaram em polvorosa achando que você era uma deles.

Refletiu por um instante no que a loira tinha dito. Já tinha sido uma deles, o céu era o limite.

_ Eu costumava ser._ Hugo tinha finalmente dado as caras, sentiu-se mais aliviada._ Não me fez nada bem._ dois rapazes se aproximaram, sentados ao lado das duas meninas, a cumprimentaram.

_ Desculpa a falta de educação dos dois Rose, o idiota número 1 é meu irmão, Fred, e o idiota número 2 é Lorcan, namorado da Domi.

Eles eram divertidos no fim das contas, faziam piada sobre o pouco que a ruiva comia, e disseram que dali em diante, ela era protegida deles. Há tempos não ria daquela maneira. Quando o sinal tocou novamente saiu acompanhada dos dois. Lorcan fazia questão de contar as proezas de Fred desde que se conheceram.

_ Agora que sabe de todos os nossos podres, conte-nos sobre você ruiva.

_ Eu nasci, cresci e morei em Londres a vida toda. Não há muito o que contar.

_ Domi disse que ouviu o prof. Dumby falando que te viu em Londres como Gisele. Por que não nos conta como é ter outra identidade?

_ O quê? Gisele é um espetáculo de ballet que eu participei na última temporada. Sem outra identidade._ disse colocando as mãos para o alto em um gesto de rendição.

Notou que estavam numa espécie de campo, com grandes arquibancadas. No meio do gramado um grupo de acéfalas saltando com pompons nas mãos e uma alegria plástica. Teve que revirar os olhos. Se sentaram nas cadeiras no meio da arquibancada vazia.

_ E depois me dizem que elas levam isso a sério._ ironizou._ Olha bem Fred._ disse indicando as meninas que chutavam o ar de maneira medíocre._ Na boa, meu irmão que é uma viga de concreto quando se trata de movimento consegue um chute mais decente.

_ Vai lá mostra pra elas como se faz ruiva._ brincou Lorcan.

_ Passo. Eu nasci com um cérebro Lorcan querido.

Rose se esticou um pouco sentindo o sol no rosto. Eram raros os dias ensolarados na sua cidade, a maior parte do tempo o céu era de um cinza muito carregado. Olhou o relógio em seu pulso: uma e meia. Despediu-se dos meninos embora suas aulas terminassem somente às três da tarde.

_ Você não devia estar na aula?_ perguntou vendo o irmão ao lado do carro.

_ Você também mocinha. Eu não conto, você não conta.

_ Fechado.

No caminho de volta pararam no mercado, a mãe tinha dito mais cedo que não tinha comida alguma em casa, a não ser que cedessem à torta da Sra. Malfoy. A ruiva viu atráves das portas de vidro do lugar a mesma cabeleira loira que acompanhava a doninha albina perto do jeape. Saiu antes do irmão que pagava as compras no caixa.

_ Malfoy, o que diabos você pensa que está fazendo perto do meu carro?

_ Oi pra você ruiva estressada. É um carro forte demais para uma patricinha que fica rodando na ponta do pé por aí não acha?

_ Patricinha é a senhora sua mãe! Vai encher a paciência de outro coisa albina.

_ Rose, o palhaço tá te chateando?_ perguntou Hugo colocando as compras no carro.

_ Não vale a pena. Vam'bora.

Dentro do carro, nas poucas ruas que faltavam, o silêncio imperava. Ela deixou o carro na entrada da garagem, subiu para o quarto depois do irmão. No celular sobre a cômoda, quatro ligações perdidas do primo. Reparou na foto de James, ele sorria canalha, de um jeito que ninguém jamais desconfiaria que era um dos melhores dançarinos que já pusera os olhos. Foi por causa dele que começou no ballet.

Deixou a bolsa em cima da cama, no canto da parede, trocou a saia e o suéter por um short e uma segunda pele. Espalhou na pequena escrivaninha branca seus cadernos e livros, ligou as caixas de som do seu iPod. Repassou a matéria do dia, fez os deveres, ouviu o vizinho reclamar da vida. Uma gritaria inesperada na varanda ao lado a tirou do tupor que lhe fora causado pelos livros.

_ Quer saber, fique com seus livros estúpidos e vá para a faculdade, talvez um dia você me terá de volta seu idiota!_ ralhava uma garota morena e incrivelmente incoerente com a fuinha loira. Pode ouvir o som da porta se chocando com força contra o batente.

Parada no meio do quarto só observou enquanto o rapaz dava de ombros e se sentava no carpete com um livro aberto em mãos.

Viu o celular vibrar de maneira meio insana em cima da cama, no visor uma nova mensagem.

"Madame Minerva tem um novo espetáculo, queria que estivesse aqui, essas ordinárias não teriam nem chance. Saudades. - L."

Respondeu rápido, Também queria estar aí Lil's. Daria minhas sapatilhas pra não ter saído. -R.

Olhou no canto direito da porta, pregado na parede, um suporte com ganchos onde todas as sapatilhas que usou estavam penduradas. Não se lembrou de ter colocado aquilo na parede. No pequeno post-it pregado ao lado, a caligrafia fina da mãe dizia "Tomei a liberdade de colocar isso aqui, espero que não se incomode. Seu tio Harry ligou, disse que tinha uma surpresa."

Naquela tarde desafiou-se em frente ao espelho novamente, viu de vulto Scorpius apoiado na varanda, observando-a, mas nenhum dos dois disse um a.

_ Rose?_ ela o ouviu chamar. Sobre a ponta do pé esquerdo, o direito a frente e os braços acima da cabeça, se virou para ele._ Posso falar com você civilizadamente?_ ela desceu para sola de súbito.

_ Pois não, Scorpius.

_ Eu meio que percebi que fui um idiota com você desde que chegou. Desculpas?_Ele sentiu os olhos castanhos da menina o medirem, desconfiados._ Eu sei que eu dei razão pra você estar assim, mas é que eu achei que não estava fazendo mal quando falei do filme ontem e por hoje também.

_ Olha Scorpius, eu convivi com pessoas como você a minha vida inteira. A primeira oportunidade de mostrar alguma coisa diferente pros seus amigos e você expõe o primeiro que passa. No fim das contas, você esconde de todos eles quem você é, porque se fizer o contrário, eles farão como os meus amigos, arrumarão a primeira desculpa plausível e te deixarão na mão. Acontece, que eu não sou como os seus amigos, ou qualquer outra pessoa dessa cidade, eu desisti de manter as aparências há algum tempo.

_ Isso quer dizer que você me desculpa?

_ Se você nunca mais me comparar a qualquer bailarina terceirizada.