Capítulo 2
Eu sempre soube que eu iria para o inferno. Algo sempre me disse isso. E eu também já estava preparado para essa possibilidade. Mas eu sempre imaginei o inferno como um lugar ruim, por algum motivo indecifrável, mas não que fosse dolorido. Não, aquilo não podia ser o inferno. O inferno era só o fim do julgamento, eu provavelmente estava no purgatório, e Deus sabia que eu era masoquista. Provavelmente estava tentando fazer com que eu me rendesse usando ferros quentes por cima de todo o meu corpo. Essa era a última chance para eu me render para o lado bom da força? Não, também não podia ser. Deus provavelmente teria métodos mais fraternais para isso. Eu definitivamente estava no inferno, em um daqueles caldeirões, enquanto o diabo me cozinhava, mexendo a água fervente com o tridente.
Mas eu tinha consciência do meu corpo – ou da minha alma, do meu espírito –. Eu estava deitado, não em posição fetal. Senti medo. Medo do pior dos meus pesadelos estar se tornando realidade.
Eu sempre tive medo de ser enterrado vivo. Mas não podia ser aquilo, eu sentia o fogo passando por cada uma das minhas veias, tomando conta do meu corpo imóvel. Eu parecia estar em uma espécie de coma induzido. Muito provavelmente, então, eu estava sendo queimado vivo, ou cremado. Lembrei-me de assombrar o resto dos dias da minha família por isso. Cremado? Jamais escolheria essa forma de morrer. Antes preso em um caixão do que virando pozinho. Estava realmente quente. Os dias abafados da minha cidade pareciam uma estação de férias dentro de um freezer perto do calor que eu sentia agora. Mas eu não era mais capaz de suar. O calor estava dentro de mim, como se pertencesse a mim, ou como se queimasse, como se quisesse se esgotar. Essa era uma dúvida que eu não conseguia esclarecer. Não era natural, ou era apenas uma experiência pós-morte, que só era sentida por aqueles que não podiam mais voltar atrás pra dizer o quanto é ruim morrer.
Isso também não importava. Eu estava claramente ocupando a minha mente com assuntos e sentimentos banais, para não lembrar que eu estava queimando "vivo". Estava realmente quente. Era verdade, eu estava sendo cremado. Ficaria cinza e residira para o resto da minha existência em uma urna sem graça, feita de louça simples, no topo da lareira da casa dos meus pais, entre dois santos, para que eles pudessem se lamentar eternamente por uma briga que eu mesmo havia começado. Eu seria o centro da tristeza – novamente – daquela casa. E eu não me sentia triste. Na verdade, eu estava maravilhado. Após muito tempo, estava sentindo coisas que nunca tinha sentido antes – mesmo que isso fosse doloroso -. A queimação era algo sobrenatural, algo que eu jamais tinha presenciado e algo me dizia que eu jamais presenciaria novamente. O jeito era aproveitar a ocasião. Eu não podia sentir nada – provavelmente porque tinha morrido desse jeito, na hora em que fui atropelado -, ouvir nada, ver nada, ou mover uma palha. Eu provavelmente estaria sendo confundido com uma estátua se meus ossos não estivessem todos quebrados ou se ninguém soubesse que eu estou morto.
Sim, agora eu estava totalmente conformado. Eu tinha morrido, e essa era uma experiência de pós-morte. Mas já faziam mais de vinte e quatro horas que eu estava tendo a mesma experiência, e com esse tempo eu já podia notar que esta queimação tinha uma direção. Ela claramente começara queimando minhas pontas. Minhas mãos e pés, primeiramente, tinham sido tomados por uma queimação forte, enquanto o resto do corpo tentava rejeitar as chamas e o calor. Após algum tempo, as pernas e os braços se tornavam cinzas, enquanto o calor das mãos enfraquecia. Depois de todo esse tempo de reflexão – no qual eu concluí que ou eu estava sendo cremado, ou realmente ERA o purgatório -, o calor concentrava-se de modo incrível, com um calor que eu jamais pensei que pudesse sequer existir, no meu coração. Os braços, as mãos, as pernas, as coxas, os ombros, todos estavam apenas dormentes, talvez por tanto tempo imóvel, ou por não existirem mais.
Eu me assustei. Claramente daria um pulo, com uma expressão cômica de pavor no rosto, mas eu não estava em condições de faze-los. Só agora eu tinha percebido que meu coração bombeava com força o sangue para todas as veias. O sangue parecia ferver, mas ainda sim era bombeado. Todos os batimentos, eu podia ouvi-los, conta-los. Eles exigiam toda a força do meu corpo. O coração tentava conciliar o seu movimento com o calor insuportável, tentava fazer uma última aliança antes de perceber que ele era o elo mais fraco, e ele ia ser quebrado. Eu afinal estava vivo, nunca tinha morrido. Aquilo me tocou de um jeito único. Meu cérebro começou a funcionar, enquanto eu tentava ignorar as reclamações do meu coração inquieto, que exigia cada vez mais de mim enquanto desacelerava exponencialmente.
De repente, minha audição se expandiu. Agora eu já não ouvia apenas as batidas do meu coração, mas tudo a minha volta. E eu só podia ouvir o silêncio. Nunca pensei que o silêncio pudesse ser ouvido, mas agora ele era. O silêncio não era nada mais nada menos que um barulho constante, em um mesmo tom. Um tom realmente baixo.
Eu agora também podia sentir. Eu sentia meu corpo, minhas mãos, cada um dos meus dedos. Eu sentia meus cabelos, deitados em algo macio. Sentia os mais diferentes cheiros, que eu jamais havia experimentado em vida, que vinham das mais diferentes direções.
Algo interrompeu a corrente de novidades que vinha em enxurrada. A última batida do meu coração, como em protesto por tudo aquilo que eu estava presenciado, tirou minha atenção de tudo. Ele bateu fraco, mas teve um significado que eu senti, porém nunca poderia explicar. Então ele parou. Tudo ficou silencioso, e o tom do silêncio me incomodava. Percebi que não estava respirando. Por instinto, puxei com força o ar por entre minhas narinas, e surpreendendo-me, ele entrou. Eu senti meus pulmões relaxando e novamente contraindo. Eu podia me mover novamente.
Antes que pudesse abrir os olhos, porém, ou fazer qualquer outro movimento, o vento pareceu quebrar o tratado silencioso que havia feito com as quatro paredes. Senti levemente por toda a minha pele o ar antes parado sendo jogado contra o meu corpo. Ouvi os passos rápidos, leves e precisos batendo no chão. Ouvi o corpo estranho se jogando contra algum móvel de onde quer que eu estivesse. Agora mais do que nunca eu tive certeza que aquela não era uma experiência de pós-morte.
Usei da força para abrir meus olhos, mas esta não foi nada precisa. Abri-os com elegância, mas por te-los forçado, abri-os tão rapidamente que pude ouvir o corpo estranho soltar um muxoxo de surpresa.
Isso não me impressionou tanto quanto o que eu vi. Na verdade, não seria nada de mais se tivesse sido visto antes da minha experiência de queimação. Eu conseguia ver tudo que eu estava acostumado a ver, mas de aspectos diferentes. Só ver qualquer coisa já me dava a sensação de estar o tocando, cheirando, provando. Parecia, a qualquer outra pessoa, apenas um teto comum, forrado com tábuas comuns. Para mim, era muito mais. Cada pequena tábua tinha um aroma especial, único, uma aspereza diferente de todas as outras. E eu conseguia notar cada uma das saliências de cada centímetro da tábua, notar todas as qualidades e tons delas. Era uma visão perfeita, impecável.
Foi quase o suficiente para eu esquecer que havia um desconhecido ao meu lado.
Ele inalou profundamente, como se esperasse com paciência algo que já era um lugar-comum. Por minha vez, o dei a chance de viver aquela experiência, e de exercitar sua paciência. Olhei para o lado oposto ao que ele estava sentado, propositalmente. A parede tinha um tom cinza claro e límpido, e dava a impressão de que a parede havia sido limpa cinco minutos antes de eu abrir os olhos. Estava impecável. A tinta repousava sobre o concreto de modo uniforme, fazendo com que o tom de cinza só variasse nos cantos, ficando mais escura.
O dia estava anormalmente claro – ou eram meus novos olhos que estavam acostumados com a proteção das pálpebras, durante toda a queimação – e o sol entrava com potência naquela peça, embora eu não soubesse exatamente como. Estava admirado de mais com o meu novo meio de olhar o mundo, e aproveitaria cada primeira impressão, a cada nova coisa para se olhar.
Percebi, com mais um susto – dessa vez dotado de um movimento particular especial e bizarro, em que eu engulo o ar de um jeito extraordinariamente cômico – que eu estava tão admirado que tinha esquecido de respirar, embora meu corpo não pedisse por ar. Forcei minhas narinas a comprimirem o ar à minha volta, e meu corpo foi tomado por um novo estupor, uma nova sensação.
Não era simplesmente ar que havia entrado para os meus pulmões, mas um universo inteiro. Um perfume inacreditavelmente agradável se juntou a cada partícula de oxigênio. Meus novos sentidos aumentados diziam todos ao mesmo tempo que o dono daquele cheiro era o estranho. Tudo à minha volta parecia olhar para ele, mesmo não tendo olhos. Parecia prestar atenção apenas à ele. Tudo existente naquela sala parecia me tornar um mero coadjuvante. Resisti mais ainda ao desejo repentino de ver quem era o dono daquele cheiro tão perfeitamente bom que não podia ser humano. Era um universo complexo e perfeito, o primeiro que conseguia coexistir com total harmonia ao outro universo que o envolvia. Era um universo que te instigava a mergulhar nele, para desvendar todos os seus segredos. Só de sentir o seu cheiro eu já podia saber que o dono daquele universo tinha um valor impagável, era especial em todos os sentidos.
O ar se movimentou novamente, com tal velocidade que atravessou a sala toda em segundos, junto com o corpo estranho que eu ainda tentava evitar olhar, tão rapidamente que eu me perguntei como ele conseguia fazer isso com tal graciosidade e silêncio.
De repente, o corpo que suspirara pacientemente, o que exalava um cheiro sobre-humano, o que meus sentidos gritavam para aprecia-lo apareceu na frente de meus olhos. Agora não era mais um vulto, não era apenas uma presença. Era a personificação de um Deus, a forma masculina da Vênus de Milo fixava seus olhos nos meus olhos, contendo um sorriso debochado que teimava em ficar exposto no rosto pálido.
Seus cabelos eram uma festa de tons castanho e vermelho que se misturavam e tomavam homogeneidade com extrema facilidade, dando um tom acobreado aos cabelos desalinhados do garoto. Seus olhos tinham um tom âmbar, que se encaixava em seu rosto pálido e seus dentes muito brancos que podiam ser vistos de relance por entre os seus lábios vermelhos, enquanto ele ainda tentava conter o sorriso que escapava.
- Edward Cullen. – Levantou uma das mãos, e eu rapidamente lancei a minha na dele, completando o cumprimento. Franzi o cenho por ele ter me respondido quem era exatamente no momento em que eu me questionava sobre o garoto. Ele movimentou a cabeça, soltando um riso baixo.
Edward usava uma camisa lisa de manga curta, de cor cinza claro, quase o mesmo tom das madeiras que forravam o teto. Abaixo, trajava jeans comuns e nos pés, um tênis qualquer, em que eu não me prendi à marca. Eram simples e bonitos.
Permiti-me sentar no local em que estava deitado. Algo parecido com uma maca, pois era duro e cobria toda a minha extensão. Ele ergueu uma sobrancelha, e logo percebi que aquilo não era nada mais que preocupação. Afinal, eu acabara de ser queimado em uma temperatura que me tornaria pó, e estava tentando levantar menos de cinco minutos depois de ter aberto os olhos.
Mas foi em vão. Consegui ficar em pé sem problemas. Apesar de ter estado muito tempo deitado, minhas pernas continuavam fortes e conseguiam suportar o peso do meu corpo sem dores. Logo a sobrancelha erguida de Edward voltou à sua posição original.
- Embora você não tenha perguntado, - olhei para ele de novo, mas fiz uma pausa necessária. Minha voz não era a mesma que eu tinha antes de acordar. Agora ela tomava um tom mais bonito, mais atraente. Eu tinha a voz de um galã de cinema. Embora com receio, continuei – Me chamo Otávio Machado. – e sorri. Ele sorriu de volta.
- É, eu sei. – Foi tudo que ele respondeu.
- Erm... – Mordi o lábio inferior, me perguntando se realmente aquela era a hora para um questionário, mas eu precisava saber. – Onde nós estamos?
- Estamos na casa de Carlisle Cullen, meu pai. Antes que você se pergunte, você agora não é mais uma pessoa normal. Você agora é um de nós.
Pedi silenciosamente alguns segundos para pensar na última afirmação. O que eles eram? Me passou a imagem bizarra da liga da justiça pela cabeça, e no garoto Edward soltando raios pelas mãos.
Ele não se conteve e riu, eu arregalei os olhos. Ele pediu desculpas com um aceno de mão.
- Nós somos vampiros, e antes que você destrua o seu próprio cérebro tentando entender, eu tenho uma qualidade especial, enquanto monstro. – Ele frisou a última palavra, como se adjetivasse "aberração". – Eu posso ler mentes.
- Vampiros? – Aquela conversa estava sobrenatural demais. Vampiros sequer existiam! – Como assim, vampiros? Isso é uma nova banda, um novo estilo, um grupo terrorista que me raptou pra me trocar por alguns cartões de celular?
Ele teve que parar para dar mais alguns risos baixos. Provavelmente não era aquela reação que ele esperava. Nem ele nem eu mesmo. Oras, vampiro!
- Você sabe. Aqueles que bebem sangue, são imortais, velozes, fortes. – Ele me deu mais alguns momentos para que isso entrasse em meu cérebro. – Isso somos nós.
- Quer dizer que agora eu sou um vampiro? – Meus olhos brilharam, ao contrário do que ele provavelmente imaginava. – Não acredito! – Não fora uma exclamação de pavor, mas sim de prazer. Eu estava maravilhado com a idéia de ter todas estas qualidades.
- E você acha isso bom? Somos seres fadados a viver eternamente, criaturas sem alma, que... – Ele parou ao que novo deslocamento de ar apareceu, e um novo cheiro permeou os ares já lotados da fragrância de Edward. Mas o segundo cheiro, embora mais suave, era tão apaixonante quanto o do garoto. Uma garota parou graciosamente ao lado de Edward, posicionando sua mão em volta do quadril dele. Mantinha um olhar interessado em mim, olhava desde meus pés até meus cabelos com curiosidade tamanha.
Só agora, após perceber o modo como a menina me olhava, lembrei-me do meu acidente, que parecia ter acontecido há alguns anos. Eram tantas as novidades que tudo o que eu havia passado, todos os meus dezessete anos de lembranças pareciam muito mais vagos do que deveriam ser. Mas eu conseguia lembrar de sentir meus ossos quebrando, praticamente todos eles, enquanto a parte posterior da moto batia com força no meu peito. Voltei os olhos para ela, entendendo o porque de todo aquele receio para comigo.
Ela era linda. Tinha cabelos cacheados e castanhos, que combinavam perfeitamente com a cor dos olhos também âmbar e com a pele clara. Se Edward era a forma masculina da Vênus de Milo, esta garota era a própria.
Mesmo tentando, ela não conseguia tirar o olhar de mim. Abraçava o garoto de um modo protetor, e tinha no rosto uma expressão que mesclava cautela com o interesse de uma novidade. Suspirei, e ela falou com Edward.
- Ele já acordou? – Sua voz era doce, quase cantada. Edward fez um movimento com a cabeça – E está bem? – ele confirmou novamente.
- Você é? – Ela franziu o cenho no mesmo momento em que a primeira palavra saiu da minha boca. – Desculpe, eu sou uma aberração tão grande assim? Imagino que eu não esteja bem, já que fui atropelado por uma moto e quebrei a maioria dos ossos do meu corpo.
- Eu sou Bella, é um prazer. – Ela sorriu rapidamente e logo escondeu o sorriso. – Desculpe, mas é a primeira vez que presencio uma transformação. Digo, eu sou a mais nova do grupo. – Embora tentando falar de um jeito descontraído, sua voz soou com um tom formal, ao menos para mim, como se você estivesse falando com o diretor da sua escola. – Quanto à sua aparência, imagino que não haja nada assustador nela.
- Não se preocupe. Eu já imagino que serei observado pelos outros por um bom tempo. – Eu tentei acalma-la, embora uma espécie de agitação tivesse tomado conta de mim quando ela falou "grupo". – Você disse grupo, certo? – Tentei manter um tom cauteloso. Era tudo novo demais para mim. – Quantos vocês são?
- Nós, você quer dizer? – Edward sorriu amigavelmente. – Nós estamos em dez. Em breve, você conhecerá todos os outros vampiros. Não se preocupe, eles também estão pelos arredores. – Sua expressão mudou rapidamente de descontração para seriedade. – Por hora, você terá de se preocupar com seus novos hábitos.
- E nós somos os encarregados em te ensinar isso. – Bella completou a frase, dessa vez expondo um sorriso mais amplo e duradouro. Tinha os dentes tão brilhantes quanto os de Edward.
- Bella, - ela fixou seu olhar nos meus olhos. Senti um tremor com isso, não estava acostumado em olhar os outros nos olhos, mas pelo jeito aquilo era um costume comum para vampiros. – o Edward me disse que ele pode ler mentes. Você também tem um desses poderes?
- Eu sou uma defensora, ou seja lá o que isso quer dizer. – Fora como se estivesse cantando novamente. Acho que nunca me acostumaria com esse novo modo impecável de falar, andar. Esse modo de ser. – Mas você não precisa saber disso agora, há coisas mais importantes para você aprender antes disso.
- Primeiro descanse. – Edward tomou a palavra. – Afinal, agora você tem toda a eternidade para tirar suas dúvidas e aprender o que precisa.
- Nós vamos te deixar sozinho um pouco mais. Em pouco tempo você começará a sentir sede. – Bella olhou para os próprios pés por um momento, pensativa. – Mas por favor não saia deste quarto. Nós o levaremos para caçar em breve.
- Vampiros bebem sangue, certo? – Tentei começar uma linha de raciocínio plausível. Que eu tinha me tornado um vampiro, eu já conseguia acreditar. Meu coração parado me dava a única certeza de que humano eu não era mais. – Então vocês matam humanos para sobreviver?
- Na verdade, a maioria dos vampiros faz isso, sim. - Fora Edward quem respondera, como se o discurso já estivesse pronto e fosse feito a todos os novos vampiros. – Mas nós, o nosso grupo em especial, bebemos sangue animal. Chamamos a nós mesmos de Vegetarianos – e sorriu de um jeito particular. Eu pude ver Bella o olhar com olhos apaixonados quando ele sorriu. -, e seguimos esta dieta porque acreditamos que isto nos dá uma condição menos monstruosa. Apesar disto, o sangue humano sempre nos é mais chamativo. Tem tanto cheiro quanto gosto melhores, e por isso é relativamente difícil nos controlarmos, principalmente nos primeiros anos. – Ele parou por um segundo para respirar. – Agora, peço que descanse. Você já tem bastante coisa para pensar por algumas horas. Então espere até a nossa volta. Para qualquer necessidade, estaremos pelos arredores.
Eles saíram com a mesma rapidez particular de sempre, tão velozes que eu penso que uma pessoa normal não conseguia vê-los do modo como eu os via. Agora meus olhos captavam tudo como em flashback, além de verem tudo perfeitamente.
Edward estava certo, eu tinha bastante coisa para pensar por muito tempo. Afinal, pelo tempo que eu estive desacordado, muitas mudanças aconteceram na minha vida. Eu estava andando descuidado pelas ruas da minha cidade quando fui atropelado e de repente acordo em uma peça aparentemente vazia. É, acho que a minha vida iria mudar muito daqui em diante.
Mas eu já tinha algumas certezas. Eu era um vampiro, e isso era uma inegável verdade, embora eu não soubesse exatamente o que eram vampiros e o que eles podiam fazer. Eu agora não poderia viver perto de humanos por um bom tempo, ainda não sabendo o real motivo, porque aparentemente eles seriam apetitosos demais para que eu convivesse sem problemas. Além do mais, não queria ser um assassino. E por fim, eu viveria com um grupo de vampiros vegetarianos com poderes incríveis.
Apesar do desconforto que sentia por saber que teria que abandonar a todos em que eu me apoiara nos últimos anos, a todos que foram a minha vida por dezessete anos, aquela era toda a anormalidade que eu pedira a Deus. De um jeito estranho, eu me sentia mais em casa do que nunca. Vampiro! Era isso que eu era, isso que eu sempre fora. Era meu inegável destino.
Fiquei parado por alguns instantes, tentando fazer com que meu cérebro entendesse o que até eu já havia entendido, enquanto olhava para o único lado que eu tinha visto até então. Já que ficaria ali por horas, decidi levantar e conhecer o resto do aposento. Virei-me para onde minhas costas ficaram desde quando havia me levantado, só agora descobrindo o porquê de a peça estar tão clara. A parede às minhas costas era formada por vidros muito grossos, e davam para um grande terreno aberto, com diversas árvores frutíferas, arbustos e muita grama. O sol estava à pino, e seus raios entravam como um emaranhado das cores do arco-íris pelos vidros como se eles não existissem, e entravam com a mesma perfeição atingindo alguma superfície do quarto.
Não havia mais móveis além da maca branca, com ferros prateados. As paredes estavam lisas e não havia nada de muito espetacular para se avistar dali, excluso o verde que estava à minha frente.
Foi quando cheguei mais perto do vidro e toquei-o, fechando os olhos e aguçando meus sentidos para tentar cheirar o verde de fora, que senti um formigamento ao redor do pescoço. O formigamento pareceu avivar o antigo fogo que me queimara até momentos antes de eu ter acordado, todo concentrado apenas no pescoço. Meus lábios secaram, e todo o meu corpo, todos os meus instintos indicavam apenas uma culpada: era a sede. Eu estava já sentindo sede, e era uma sede insuportável. Levei minhas duas mãos ao pescoço tentando conter a queimação, mas era impossível. Eu estava queimando por dentro. Esqueci o verde, esqueci a sala, esqueci a maca. De repente, só o que eu conseguia lembrar era o tom rubro do alimento que agora era o meu único. Sentei-me ao chão, com as mãos ainda no pescoço e dobrei os joelhos, ficando com meu corpo em forma de bola. Só agora entendia por que tinha de ficar longe de todos. Este era o preço por minha anormalidade.
