Capítulo 2
"Não há presente ou futuro – apenas o passado, a acontecer de novo e de novo." Eugene O'Neill
"Não está nem um pouco preocupado com o que podem ter visto do seu arquivo?" Blake encarou Spencer Reid com certa resignação. Ele não era de falar sobre suas preocupações, mas parecia bem menos preocupado do que ela esperava.
"Realmente não sei o que podem querer ver." Declarou. "Que eu presenciei o assassinato de alguém especial; que minha mãe é esquizofrênica; que fui o responsável por Declan Doyle levar um tiro e ver o pai morrer?" Ele enumerou alguns fatos que pudessem ser importantes, embora ele mesmo não tenha pensado em outro de importância bem maior.
Ele ficou quieto o restante do voo. Tinha pegado os arquivos da agente desaparecida para ler e ver se, através das anotações dela, descobria alguma coisa sobre seu paradeiro, enquanto Blake e Rossi olhavam para possíveis rotas de voos.
"Ela não mudaria a rota." Reid declarou. "É correta demais e dá atenção aos detalhes. Pela letra eu diria que é bem cuidadosa."
"Certo. Então vamos focar no que ela fez em Seattle antes de sumir," Rossi concordou, "quem sabe assim não encontramos alguma pista."
O voo até Seattle foi longo e com turbulências, mas a equipe continuava se comunicando de tempos em tempos para se atualizar sobre alguma possível mudança no decorrer do caso.
"Rossi..." Alex Blake levantou-se e caminhou em direção a máquina de café, na pequena cozinha que o jato particular tinha. Aproveitou que Reid dormia profundamente e, entre sussurros, falou: "Você o conhece há mais tempo. Temos que nos preocupar? Porque eu estou preocupada com ele."
"Conheço o garoto há bastante tempo e, acredite, ele tem melhorado de uns tempos para cá." Comentou o mais velho. "Por hora, vamos ficar de olho nele." Tentou acalmar Blake, que após ver a forma como Reid ficou após a morte de Maeve, não queria que algo assim acontecesse de novo.
Seattle, mesmo lá de cima, era uma cidade sombria. A proximidade com o oceano trazia uma brisa marítima que esfriava constantemente o ar da cidade, trazia consigo uma névoa densa que pairava sobre a periferia da cidade, impedindo uma visão limpa e dificultando o trânsito. O carro dos agentes percorria vagarosamente as ruas da cidade até chegar ao centro, onde ficava o edifício federal.
No escritório central do FBI, tudo o que os agentes superiores de Christine Beauford sabiam sobre ela, estava reunido em uma sala. Havia uma imensa seleção de trabalhos, títulos de livros, até mesmo músicas e correspondências. Ela havia participado de casos relativamente importantes e, assim, conseguira mostrar ao seu supervisor que tinha tudo para ser uma boa agente e acima de tudo, uma boa profiler. Reid, a pedido de Blake, ficou revisando os casos fechados pela agente desaparecida, afim de descartarem a possibilidade de algum tipo de retaliação.
"Temos testemunhas e um vídeo de segurança que confirma o embarque dela no avião para Los Angeles." Um analista técnico mostrou aos dois agentes as filmagens, em uma delas, a loira era vista puxando uma mala de rodinhas de porte médio preta. Também trajava uma calça social e camisa, como a maioria dos executivos ali.
"Não havia porte de arma de fogo." Outro agente confirmou. "Ela carregava um pequeno teaser dentro da bolsa, sua identificação como sendo agente do governo e qualquer coisa que uma mulher carregue dentro da bolsa." Revirou os olhos. "Acreditam na possibilidade de sequestro?" Perguntou temeroso.
"Vamos apenas checar outros detalhes aqui, se ela não deixou o avião ou retornou, coisas desse gênero." Alex Blake murmurou pesarosa. "Mas em todo caso, vamos tratar como sequestro."
"Nossa equipe está em Los Angeles averiguando as informações. Vamos entrar em contato com eles em breve." David Rossi enfiou as mãos nos bolsos e passou a olhar as imagens da agente passando pelo corredor de embarque.
Os agentes de Quântico foram deixados a sós na sala e Reid juntou-se a eles logo que terminou de olhar a maioria dos arquivos. Era como encontrar uma agulha num palheiro, só que não havia um palheiro para ser vasculhado e, quem quer que tenha feito o que quer que fosse, havia escondido suas provas muito bem, ele havia concluído. Spencer, por fazer uso de uma habilidade peculiar de leitura, absorvia mais informações que qualquer outro e, naquele instante, após ter revirado a vida de uma agente, sentia como se a conhecesse muito bem.
Uma conferência entre Los Angeles e Seattle tinha sido iniciada logo no início da noite, quando Hotch, JJ e Morgan voltaram para o FBI. E contra o que se pensava, foi em Los Angeles que o jogo ganhou novas peças.
"O agente Ford também desapareceu." Morgan ergueu os braços para estralar as juntas. "Chegamos aqui para falar com ele, afinal ele foi o último a vê-la viva, mas ao que parece ele deve ter sido capturado ao mesmo tempo."
"Vimos os dois deixarem o prédio do FBI e entrarem em um veículo sedan preto com a identificação do FBI." JJ ajeitou-se em sua cadeira para observar melhor os colegas no monitor. "Mas adivinhem..."
"O carro não era do FBI." Reid murmurou.
"Não, não era." Assentiu ela. "Estamos esperando os resultados das câmeras de tráfego, para saber sobre o paradeiro do veículo, mas não estamos muito esperançosos."
"Eles nem chegaram ao aeroporto, então estamos reduzindo as buscas pela cidade." Hotch adicionou. "Não temos evidência do motorista ainda."
"É, não temos um palheiro." Reid disse para si mesmo.
Los Angeles, tingida por uma camada púrpura e azul marinho em degradê como um vestido da era vitoriana, estava especialmente movimentada naquela noite. O clima quente estava propício para apreciação dos esportes, principalmente os jogos da NBA, o que tornava a cidade movimentada durante todo o final de semana. Para os agentes era trabalho em dobro, pois o governo redobrava a vigilância em aeroportos e rodoviárias; também o volume de veículos e pessoas que transitavam na cidade dificultava as buscas pelo sedan preto.
A madrugada veio lenta e dolorosamente, as horas se arrastavam e o relógio parecia estar parado cada vez que Morgan abria os olhos e via a hora entre um cochilo e outro. Os agentes preferiram não ir para um hotel, então se instalaram em salas de descanso no prédio para ter acesso rápido aos recursos e informações pertinentes ao caso. Hotchnner estava parcialmente adormecido, com os dedos fechados em torno do celular e a cabeça pendida levemente para o lado direito, quando foi acordado por JJ.
"Encontramos o carro." Ela disse suavemente. O chefe analisou sua expressão e percebeu que não havia boas notícias. "E encontramos o corpo do agente Ford."
"Os peritos já foram para a cena do crime." Um analista que estava de plantão informou quando eles voltaram para a sala de conferências. "Não encontramos quaisquer evidências do motorista. Os peritos não encontraram digitais, fios de cabelo, saliva, nada!" O analista frustrou-se. "Eu gostava do agente Ford, e a menina, ficou um dia aqui e já havia me conquistado." Confidenciou.
"Sinto muito." Morgan disse em um tom de voz sonolento. "Vamos fazer o possível para encontrar Beauford."
"Mesmo que ela esteja morta. Vamos, agentes! Três dias? Que esperança Beauford pode ter?" Ele exclamou de frustração, decepcionado. Morgan não falou nada, pegou seus pertences e seguiu os outros para a cena do crime.
A rua estava deserta, exceto pelos policiais ali presentes. Não havia casas naquele ponto, somente um complexo de edifícios comerciais, ladeados por estacionamentos e pequenos restaurantes; um amontoado de árvores próximo ao farol de trânsito pareceu seu colocado de maneira estratégica, pois impedia a visão das câmeras de segurança, mas não impedia que os analistas buscassem quaisquer evidências nos vídeos.
O sedan, concluíram os profilers, bateu com força em uma das árvores, resultando em um para-choque afundado no lado do carona e ambos os airbags disparos e inflados. O para-brisa não estilhaçou com o impacto, pois a película interna o manteve intacto, protegendo os passageiros, ou seja, possibilitando a fuga do motorista. Hotch viu uma cena limpa, exceto pela batida que foi uma consequência do descontrole da direção, provavelmente por conta de uma briga entre o motorista e seu carona. Contudo, quando aproximou-se, notou certa familiaridade naquele quadro.
"O que foi?" JJ perguntou-lhe, parando ao seu lado e observando a cena do crime. "Algo errado?"
"São nestes momentos que eu gostaria de ter a memória do Reid." Ele respondeu. "Por favor, peça ao legista para não mexer no corpo." Pediu ele.
"Ele fugiu, algumas pegadas parciais seguem naquela direção." Morgan apontou. "Não sei se iremos encontrar alguma evidência dele em nossos bancos de dados, mas nós vamos encontra-lo." Ele estava categórico em relação a encontrar o assassino.
"Esta cena, a forma como o corpo está disposto..." Hotch tentou puxar em suas memórias mais antigas onde havia visto aquela cena antes. "Nós já a vimos..."
"Hotch!" JJ exclamou e acenou para ele. "Olhe!"
"Encontramos isso: "E vi aparecer um cavalo esverdeado. Seu cavaleiro tinha o nome Morte; e a região dos mortos o seguia."" Um perito leu o que continha no papel. "Apocalipse."
Morgan sentiu um arrepio na espinha. Ele não precisava que Reid se lembrasse da cena do crime, porque ele mesmo conseguia fazer isso e a via claramente, como se estivesse lá novamente. Lembrou-se da cama e do casal assassinado no chão do quarto em Atlanta; lembrou também da página arrancada da bíblia, cujo texto grifado era exatamente o mesmo. Sentiu o estômago embrulhar ao lembrar do suspeito que torturara seu melhor amigo; havia levado anos para enterrar aquelas lembranças e agora elas o invadiram como se uma represa estivesse arrebentado.
Hotch encarou JJ, recordou o trauma pelo qual a agente passara oito anos atrás. Não podia ser coincidência que os arquivos do Reid estivessem abertos no computador de Garcia; não podia ser coincidência que a nova agente tivesse desaparecido e antes o corpo do outro agente tivesse sido encontrado daquela forma.
Uma linha cor de abóbora, vivo, quase como se uma chama se arrastasse pelo horizonte e explodisse junto ao sol, mandando o azul marinho da madrugada embora. O cansaço de noites mal dormidas começava a permear pelo corpo, mas tudo parecia estar ficando cada vez mais longe de acabar. Faltava a confirmação com Penelope Garcia, mas seria possível que Tobias Hankel estivesse voltando?
