Nota da (caríssima) autora: quero agradecer pela simpática review e pedir mil desculpas por esta demora.
Glorfindel atirou-se para cima da cama e fitou o tecto, tal adolescente contrariado pelos pais.
Ali estava ele, na situação em que mais temera encontrar-se. Esfregou a cara com as mãos, tentando organizar os pensamentos. Bom... primeiramente, precisava de um banho... tresandava a cavalo... Depois... depois talvez fosse tentar falar com Aarne. Não que estivesse muito confiante...
Banho tomado, vestiu as roupas simples do costume e seguiu caminho até ao quarto do elfo de olhos verdes. Pelo caminho elaborou um discurso bonito, coerente e convincente que certamente convenceria Aarne. Sim, Glorfindel era um grande mestre na retórica! Bateu à porta e esperou, olhando em redor nervosamente.
Ouviu o som de algo a cair, provavelmente um livro, uma praga e passos apressados. Então Aarne abriu a porta, um par de perturbantes olhos verdes num rosto morbidamente alvo, e aquele par de olhos fitou-o, a princípio surpreso. Depois, as sobrancelhas finas e loiras de Aarne arquearam-se:
-Deseja algo, meu senhor Glorfindel? - perguntou o elfo sardento, fazendo uma pequena reverência com a cabeça:
-Sim. Que páres de me chamar 'senhor'. - volveu Glorfindel, desconcentrado. Aarne apenas assentiu, irritantemente calmo - E gostava de falar contigo.
-Estou ocupado. - foi a resposta seca. Aarne apressou-se a fechar a porta.
Todavia, Glorfindel não se dava por vencido! Nunca! Deu meia volta e correu para os jardins, procurou a varanda do quarto de Aarne, tomou balanço e saltou. Agarrou-se ao guarda-corpos, içou-se, passou as pernas por cima do parapeito e entrou, silencioso, na varanda.
O elfo de olhos verdes estava sentado de costas para a varanda, tentando voltar a concentrar-se na leitura:
-Ouve, eu não fiz por mal! - exclamou o elfo de Gondolin. O elfo sardento mandou um pulo da cadeira e caiu ao chão, assustado. Esbugalhou os olhos:
-Como é que entrou aqui? - indagou num tom histérico. Ergueu-se de um pulo e endireitou-se em toda a sua franzina estatura, esperando por uma explicação. Que indecência, pelo menos Legolas jamais faria uma barbaridade daquelas!
-Vamos falar... - pediu Glorfindel, juntando as mãos. Aarne apenas cruzou os braços:
-Oiça, fez-me de parvo! Posso ser um simples elfo silvestre, mas mereço o mínimo de respeito e de consideração! Estou habituado a tratar bem e a ser bem tratado, não admito que façam pouco da minha cara! - resmungou Aarne, os olhos verdes cravados nos olhos claros de Glorfindel. O elfo de Gondolin começou a andar em círculos pelo quarto:
-Eu não te fiz de parvo! Percebe isto; sou... sou muito mais velho que tu, já vivi muito! Já conheci muita gente, já passei muito mal! Eu só... eu só queria ter a certeza de que não te ias aproveitar de mim, como os outros!
Olharam-se. Aarne bufou, irritado; caramba, aquela criatura só tinha morto um Balrog e regressado dos mortos, seria isso motivo para alguém se aproveitar dele? Revirou os olhos e desviou o olhar lá para fora.
Bom... estavam os dois no mesmo barco solitário...
Um pequeno escândalo da derrota. Mas antes que Glorfindel pudesse sorrir, Aarne apontou a porta do quarto:
-Não me pressione! - advertiu, enquanto o cabisbaixo elfo de Gondolin abandonava o quarto - Hei-de ir ter consigo.
Quando, é que não sabia dizer. Ia analisar muito bem a situação.
Legolas e Tjaden trotavam lado a lado por um caminho enlameado. Por cima das cabeças deles, os ramos retorcidos das árvores tentavam ocultar o céu cinzento. Atrás deles seguia uma companhia de 19 elfos, um arreio vazio e outro sobrecarregado. Um corvo crocitou à passagem dos grandes cavalos:
-E pensar que quando era miúdo dava moscas às aranhas do jardim... - lamentou-se subitamente Tjaden. Legolas soltou um suspiro frustrado:
-Elas estão a cercar-nos, reparaste?
-Como assim? Estão a norte e a sul, ainda não estamos completamente cercados...
Legolas ergueu uma mão e a companhia atrás dele parou. Virou-se no arreio, deu instruções para que seguissem caminho e indicou a Tjaden que o seguisse. Meteram pelo meio das árvores escuras e seguiram o sentido oposto do curso de um pequeno ribeiro. Não tardou para que os grandes cavalos começassem a subir uma ligeira inclinação, que se acentuou mais ou menos a meio. O cimo do monte não tinha árvores, e foi lá que Legolas e Tjaden pararam os cavalos:
-Olha em redor, e diz-me o que vez. - ordenou Legolas. Tjaden, de sobrolho carregado, ergueu-se nos estribos e olhou em redor, chegando mesmo a esforçar a vista para que nada lhe falhasse. Encolheu os ombros:
-Não percebo...
-As árvores, olha bem para as árvores!
Tjaden assim o fez, cada vez mais confuso. Um manto invernal de várias tonalidades de verde, doirado e castanho espalhava-se diante dos seus olhos. Conseguia até distinguir o local do palácio. Porém, ao olhar com redobrada atenção, notou, lá muito ao longe, um emaranhado de árvores negras. Árvores mortas. Esse emaranhado espalhava-se, circundando a restante floresta como um cancro maligno. As árvores mortas oscilavam com o peso das aranhas.
Tjaden arregalou os olhos, horrorizados.
Legolas tinha razão; estavam cercados!
Faltava pouco para a Primavera quando Aarne recebeu uma carta de Legolas com as novidades de Mirkwood. O elfo de olhos verdes ficou bastante perturbado ao ler que a situação com as aranhas estava a piorar a uma velocidade alarmante. Sentiu-se terrivelmente mal por não estar ao lado de Legolas para o aconselhar e ajudar no que fosse necessário.
E quanto terminou de ler a carta de Legolas, Aarne amarfanhou a que começara a escrever, onde contava o seu problema com Glorfindel. O príncipe de Mirkwood já tinha preocupações suficientes, não precisava daquele pequeno drama...
Aarne tamborilou com os dedos na superfície fria da secretária. Não voltara a dirigir a palavra a Glorfindel, e o elfo de Gondolin estava constantemente a olhá-lo, esperançoso.
Pelos vistos, teria de ser ele mesmo a resolver aquele problema. Perguntou a si mesmo se era algum teste dos seres superiores, algum teste que posteriormente fosse útil ao seu papel de conselheiro.
Review?
