II – 24D02M3021A

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O domo que encontraram no dia seguinte não era tão grande quanto o de Romdo, mas parecia extremamente funcional. Embora tivesse sido abandonada pelos habitantes por algum motivo, a cidade mantinha uma organização impecável por conta dos Autoreivs. Re-l os viu limpando as ruas e lustrando os móveis de casas vazias, esperando por humanos que nunca mais voltariam, e se perguntou há quanto tempo eles eram os únicos ali.

Era como estar numa cidade-fantasma.

— Re-l, Re-l!

Ela virou-se para ver Pino correndo em sua direção. A garotinha — não, aquilo não era exatamente uma garotinha — então parou e suspirou com as mãos nos joelhos, como se estivesse cansada. Uma máquina cansada. Depois, abriu um sorriso e estendeu para Re-l uma barra de embalagem colorida.

— Vince mandou pra você!

Era chocolate. Talvez um dos últimos daquele mundo.

— Então eles ainda tinham isso aqui... — Re-l comentou, surpresa.

— Uhun!

— Onde ele está?

— A 85,036 metros...

— Ah, esqueça.

Re-l pensou que aquele era o problema de conversar com Autoreivs e seguiu pela rua. Pelo caminho, viu casas com gramados perfeitamente aparados e caixas de correio rente às calçadas — como se, naquela era, alguém ainda recebesse correspondências daquele modo —, e imaginou que ali deviam ter morado cidadãos exemplares. Nunca questione, nunca quebre as regras, apenas obedeça. Era a fórmula do cidadão ideal que pregavam em Romdo e que nunca funcionou com Re-l Mayer. Era um sistema de aparências que sustentava a ilusão de uma vida feliz, um sistema que, como todo o resto, estava caindo.

Quando ela voltou para o barco com Pino saltitando atrás de si, Vincent estava terminando de armazenar os suprimentos que havia encontrado na cidade. Re-l o observou carregar a última caixa para cima do barco e depois curvar-se para empurrá-la cabine adentro. Observou seus ombros largos sob a roupa e seus cabelos meio grudados na testa molhada de suor. Observou como seus olhos quase se fechavam naquela expressão de cansaço.

E desviou o olhar ao perceber que ele a observava também.

— Está pronto? — ela quis saber.

— Sim.

— Então vamos sair daqui. Não quero perder tempo.

Re-l subiu para o barco e, sem olhá-lo nos olhos — por que Vincent tinha que ser sempre tão irritante com aquela cara de quem não entendia nada? —, entrou na cabine, batendo a porta atrás de si. Sobre a mesa havia duas garrafas de Ginger ale, seu refrigerante favorito.

Vincent.


À noite, antes de dormir, ela escreveu no diário.

Encontramos um domo à três dias de Haro, mas não havia nada nele, como não há em qualquer lugar que se possa ir. É sempre a mesma coisa. Penso que os Autoreivs são tudo o que restou desse mundo, e um dia até mesmo eles deixarão de existir. Como num ciclo de caos.

Continuamos rumo a Moscou, se ela ainda estiver lá.

Seu coração deu um salto quando percebeu que Vincent a olhava da cama ao lado — mas esse idiota não estava dormindo? O relógio digital de cabeceira marcava quase uma da madrugada e, sob a luz dos números no visor, os olhos verdes de Vincent ganhavam um brilho esquisito.

— O que você escreve?

— Não é da sua conta.

— Tem alguma coisa... Sobre mim?

— Como se eu fosse gastar meu tempo escrevendo sobre você, idiota.

— Re-l... — ele suspirou desanimado.

— Vá dormir.

E virou-se para o lado da parede.

Mas ela mesmo demorou a pegar no sono.


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