DISCLAIMER: Apenas a fanfic me pertence. Personagens, localizações, nomes, feitiços e artefatos pertencem a J. K. Rowling/Warner Bros ©.
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A família saiu de cabeça baixa da casa velha, o vento fustigando as roupas velhas e cabelos sem corte. A curandeira às costas estava gritando "Boa sorte!". O menino se pegou pensando que os vizinhos provavelmente achariam que ele tinha uma doença qualquer incurável, o que era irônico, pois era verdade. Não aguentava mais visitar diversos lugares, sabia que nenhum deles iria ajudar. A mãe tinha mais esperanças que o pai um dia fosse encontrar algo que os ajudaria. Uma cura talvez? Mesmo que temporária. Apesar de conhecer sobre o mundo da magia, seu coração ainda buscava pelo tradicional. O pai, pelo contrário vivia com a cabeça enfiadas nos livros, olheiras, e whisky, algo que o mantinha acordado sem o deixar alterado. Remus não gostava de vê-los assim, mas pelo menos sabia que era somente uma vez por mês que isso se acentuava. Seria na noite seguinte. Ele sentia isso sem ter que olhar para o calendário. Depois de 3 anos vivendo assim ele conseguia perceber a leve mudança de ouvir tudo ao seu redor, virar os olhos mais rápidos e sentir melhor o cheiro das coisas. Não gostava de se sentir um animal, mas ao menos era um sinal, para deixá-lo atento e para ter cautela.
Ao entrar no carro velho da família Lupin, Remus se enfiou dentro do cachecol.
- Pai? - ele chamou. O pai não respondeu verbalmente, mas olhou para ele por cima do ombro, esperando a pergunta se completar - Se não for pedir de mais, pode não tentar poções esse mês? Meu estômago não está muito bom. - ele mentiu. O pai suspirou mas concordou fingindo um sorriso. Remus sabia que era importante para ele tentar de tudo, afinal se sentia culpado pelo estado do filho, mas na verdade, Remus estava cansado de provar gostos e texturas que nem sequer alteravam seu comportamento. De que iria adiantar? Sabia que o pai vivia mergulhado nas pesquisas, mas aquilo não faria efeito algum a não ser pôr tudo para fora quando o monstro começasse a correr pelo porão em círculos. Ele adormeceu no caminho de volta. Os pais, sentados no banco da frente não conversaram durante a volta. Não precisavam. Estavam ambos pensando a mesma coisa e sabendo como seria a noite seguinte. Não podiam dizer que haviam se acostumado, Hope sinceramente achava que nunca iria. Quando o carro estacionou, ela o acordou com carinhos, e Remus subiu para seu quarto. Ao chegar na cama, ele se atirou de cara no travesseiro duro. A família não tinha dinheiro para comprar um bom, mas quando se dormia na madeira fria embaixo da casa, um travesseiro duro era mais do que ele queria. Não arriscaria levá-lo, pois a última vez que tentara, acordara no meio das penas.
No andar de baixo, os pais conversavam sobre o que viria pela frente. Remus já conhecia a conversa então pôs o travesseiro por cima da cabeça, tentando evitá-la.
- Acha que ele conseguirá entrar na escola? - Hope se perguntou enquanto sentava no colo de Lyall. Ele enlaçou sua cintura com os braços. Ela sempre fora muito leve, com uma cintura bem fina. Suspirou e apoiou a cabeça em seu colo.
- Não sei Hope. Não consigo achar alguma solução que possa ser trabalhada - ele suspirou. Olhou para a varinha em cima da mesa de centro. - Não sei o que fazer… - como se a varinha fosse respondê-lo. Sussurrou um breve "Me Oriente" que nem Hope conseguiu ouvir. A varinha instintivamente girou na mesa para a direita, tremeu e parou. Lyall se pegou perguntando se alguma vez Remus seria capaz de fazer algo legalmente pela magia. Ele sabia que o filho tinha o gene mágico. Havia feito talheres tremerem quando estava com raiva e coisas do tipo, só precisava da devida educação. Lyall pensou que poderia ensinar o filho em casa mesmo, poderia comprar uma varinha ou deixá-lo usar a dele mesmo e praticariam com feitiços básicos. Ele sorriu e fechou os olhos. A varinha relaxou.
O menino encarava o vazio enquanto o pai trancava as janelas com tábuas de madeiras já separadas e a mãe esticava o cobertor no chão a seu lado. Já estava tarde e o crepúsculo estava indo embora. Remus se sentou no banquinho e observou os pais trabalharem. Ao terminar a janela, o pai tirou a varinha do bolso e começou a pronunciar feitiços baixinhos. Algumas palavras fizeram Remus perceber que eram para prover silêncio e proteção. A mãe se demorou nas almofadas velhas e tapetes. Normalmente ele as destruiria e preferia que ela não as deixasse ali, mas não tinha coragem de dizer a ela que não queria seu carinho. Sendo assim, assim que ela subisse, antes de se transformar, ele as guardava em cima da cômoda.
Remus subiu devagar pelas escadas de madeira mirando biscoitos de chocolate na cozinha. Precisava de doce, isso iria acalmá-lo. Ele subiu no balcão descalço, roubou alguns do pote que ficava em cima do armário e desceu antes que os pais vissem. Ele os enfiou na boca antes de descer correndo para o porão. Encontrou os pais terminando alguns ajustes antes de olharem pra ele. Ele desviou os olhos pela janelinha na parte de cima. Agora estava tapada, mas por entre as tábuas, não havia mais claridade, a não ser uma leve luz prateada que fazia algumas marcas no chão iluminado pelo lampião no teto.
- Subam vocês dois - Remus disse - já está na hora. Os pais olharam para ele e ao passarem por ele na escada lhes deram um abraço. Hope foi a última a sair, trancando a porta atrás de si. Lyall respirou fundo antes de levantar a varinha e lançar feitiços silenciadores e protetores na porta também. Remus conseguia ouvir baixinho do outro lado da porta, mas se manteve em silêncio. Lyall terminou os feitiços e sentou encostado da porta com as mãos na cabeça.
O menino sozinho no andar de baixo engoliu em seco e se sentou contra a parede. Ele suspirou e manteve os olhos no teto. Tudo estava escuro e ele podia ouvir a mãe cantar uma canção de ninar no andar de cima. Era uma pena que o feitiço silenciador funcionasse em apenas uma via, seria mais fácil não ouvir coisas como essa e coisas como o choro do pai na porta. Talvez nem soubessem que ele podia escutar. Talvez, se fosse 100% humano, não poderia. O tempo começou a não passar e Remus conseguia praticamente ouvir a Lua se mexendo pra chegar no topo do céu. Do lado de fora, a coruja que normalmente vivia na árvore próxima da casa piava baixinho. Remus começou a se distrair tirando lascas do chão de madeira, e com elas tentava montar algum desenho no chão. Se pegou desenhando um castelo, exatamente como o pai lhe contava as histórias. Torres altas, na base de um morro com o lago embaixo. Eram feitos de lascas, mas Remus via as cores. Daria tudo para ir para a escola e finalmente ter amidos, mesmo tendo ciência da sua condição. Os pais normalmente o mantinham preso, ou se o deixavam conversar com alguém na rua, ficavam observando a cada palavra. Ele sabia que não seria possível, mas não custava nada sonhar. Nunca fora acostumado a brincar com os vizinhos, mas agora talvez nem fosse mais possível, pois as crianças do vilarejo passavam por ele e se encolhiam nas mães. Tinham medo dele. Talvez por ser pobre com roupas rasgadas ou talvez por ter uma cicatriz na têmpora de sua própria garra.
Remus tirou as roupas em um determinado horário e as dobrou em cima da cômoda, não podia se dar ao luxo de rasgá-las. Chegou até cochilar esperando a Lua atingir seu ponto máximo, e naquele momento agradeceu a mãe pelo tapete. Ele teve sonhos, apesar de não se lembrar de detalhadamente nada deles. Acordou infelizmente suando frio e tremendo. Não sabia quando começou, mas notou que estava tendo tontura e a visão ficava mais pesada. O corpo se sentia pesado e ele gemeu ao se por em quatro apoios. Ele tentou engatinhar para seu canto longe dos acolchoados da mãe, mas notava que estava tombando levemente para um lado. Ele caiu deitado e dali não teve forças para se levantar sozinho. Sabia que no andar de cima, o pai estaria se sentindo culpado, provavelmente escondendo o choro da esposa. Ele tentou controlar a respiração encarando uma parte específica do chão onde uma faixa branca da luz da Lua estava brilhando. Ele se concentrou nela e tentou controlar a respiração ofegante de um corredor de maratonas, sem muito sucesso. Os olhos nem chegavam a piscar. Não precisava de um relógio para saber que estava próximo. Ele suspirou. Ele olhou para a parede da escada, a parede favorita em sua forma lupina. A madeira estava arranhada e em alguns cantos mordida e roída. Parecia que era um cão qualquer que havia feito aquilo, não ele com seus próprios dentes. Tentou não pensar nisso.
Remus sentiu o tornozelo coçar e ao virar notou que a luz já estava tocando-o. Ele continuou deitado no chão e observou a faixa branca subir pelo corpo em minutos, sentindo a pele formigar em cada centímetro que a luz o tocava. Ele queria coçar e bater na pele para que voltasse a sensação de controlar os membros, e em pouco tempo se desejou querendo mordê-los. Ele não conseguia mais prestar total atenção, as paredes a sua volta estavam em um tom vermelho escuro e pareciam ondular em sua direção, fazendo o porão parecer menor e se fechar em cima dele. Ele gemeu de vertigem. Conseguia ouvir um rato atrás de um barril à esquerda guinchando e ele sentiu a cabeça virar na direção e rosnar. O rato era o inimigo. Era um intruso. A respiração estava totalmente fora de controle, e ele sentiu as garras empurrarem suas unhas pra frente e elas se afiaram. A ponta dos dedos latejava. Sentiu o torso se expandir e as costelas se deslizarem para a posição de um animal quadrúpede. Os pés criavam novos formatos e da base da coluna sentia novas vértebras serem formadas para criar a cauda peluda. Sentiu-se mais quente, pois o pelo começava a crescer agora, da cor que normalmente era seu próprio cabelo. Não podia ver, mas as íris de seus olhos se tornaram amarelas e as pupilas dilataram. O focinho explodiu da boca e sentiu seus dentes humanos darem espaço para presas afiadas dolorosamente. Ele grunhiu e tentou por as mãos na boca, mas o que veio foram patas. Na presa de se equilibrar, o lobo bateu na parede e rosnou para a mesma lhe dando uma investida com a boca arreganhada. Ele agarrou um pedaço de madeira e arrancou com chacoalhadas de cabeça. Nesse tempo, notou que a luz da lua estava exatamente em cima dele e ele parou. Durante alguns segundos o lobo ficou imóvel olhando para o céu, o brilho branco era a única coisa que não tinha um tom vermelho sangue. Ela pulsava, como uma fonte de poder e ele a adorava. Ele abaixou a cabeça levemente e a jogou pra cima, soltando um uivo assustador. No andar de cima, os pais tremeram, pois infelizmente o feitiço de silêncio só ajudava parcialmente. Conforme os barulhos continuaram durante a noite inteira, Lyall pegou Hope no colo, que havia adormecido na poltrona com uma coberta de lã por cima e a levou para cama. Já no andar de cima, não era possível ouvir mais as investidas do filho, que batia de parede em parede, tentando sair de sua prisão.
Remus acordou com frio, pois foi a primeira coisa que sentiu. Sentiu os pelos do corpo humano se eriçarem e as pernas nuas tremerem. Ele tentou abrir os olhos levemente. O porão ainda estava escuro, mas os raios da manhã estavam atravessando as frestas. Deu uma leve olhada pelo porão para avaliar os danos causados na noite anterior. Um banco de madeira estava caído com uma perna quebrada e havia um buraco no chão ali perto. As paredes pareciam arranhadas em todos os lados desta vez e uma gaveta da cômoda estava quebrada. Ele se mexeu e notou que seu braço estava arranhado e mordido. Ele chorou baixinho e se arrastou até chegar perto do cobertor, mas antes de chegar ouviu a porta abrir a tranca.
- Remus? - a mãe o chama no topo da escada. Ele se deixou ficar ali enquanto ela descia correndo e o pegava nos braços. Ele estava gelado e tremia. Ela enrolou o menino na colcha que ela havia trazido nos braços. Ele tremeu e deixou a cabeça pender em seu peito. Em silêncio, a mãe o levou para o quarto.
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