Primeira impressão
O conde Macgreen, cavalgando de volta a sua casa, observou com satisfação suas vinhas. Era evidente que haveria uma ótima colheita em sua propriedade e isso daria satisfação não só a ele, mas também aos camponeses que haviam trabalhado arduamente.
O conde cavalgava um de seus mais magníficos cavalos, que ele próprio criara e pelo que tornara-se conhecido em toda Sussex. Mas ainda assim não se sentia satisfeito. Desejava uma linhagem maior e mais aprimorada e tinha certeza de que, naquele particular, o conde Heinstein poderia ajudá-lo.
Acalentava o sonho de ver seus cavalos vencendo não só na Inglaterra, mas também na Alemanha ou em qualquer outro país onde os puros-sangues ingleses fossem apreciados. Na sua última visita a Escócia, havia aprendido muito.
Pensou que aquele seria um assunto interessante para se discutir com o conde alemão. Macgreen olhou para frente. Viu então sua propriedade recortada contra o fundo verde das árvores que se elevavam das bases de grandes rochedos.
Em nenhuma parte do mundo havia notado este contraste magnífico entre altura e profundidade, como acontecia em Sussex. Assim como em sua mansão de estilo vitoriano, as vinhas já haviam sido plantadas em outras partes, a fim de que se pudesse produzir os melhores vinhos de toda Inglaterra.
O desfiladeiro rochoso que margeava a estrada parecia alheio a qualquer existência humana. O conde quase chegava a acreditar que a natureza era habitada por espíritos, como costumavam dizer o povo simples, se não fosse a sua refinada razão para fazê-lo desprezar tais superstições.
Prosseguiu na cavalgada. A capa preta que trazia balançava ao vento ao subir o declive acentuado que se iniciava na planície do vale, até sua propriedade. Ao se aproximar da casa, notou que sua beleza jamais deixara de impressioná-lo. Visitava com freqüência Londres e outras partes do mundo, mas quando retornava, convencia-se de que ali era seu lugar.
No inicio da escadaria que conduzia ao grande pórtico da entrada, um cavalariço o aguardava. Ao apear, o conde comentou:
- Ele se saiu bem hoje!
O velhinho sorriu, como se o conde acabasse de fazer-lhe um elogio e então conduziu o belo animal de pelagem negra avermelhada para o estábulo.
A passos lentos, o conde subiu os degraus e chegou ao hall. Havia 2 lacaios a serviço e Macgreen entregou-lhes o chicote, as luvas e o chapéu, antes de o mordomo anunciar.
- Sir, o seu primo, Sir Patrick encontra-se no salão!
Por um momento, uma expressão de contrariedade anuviou os olhos do conde. Não esperava pela visita do primo, que era filho de seu falecido tio. Ele era alguns meses mais velhos que ele próprio, sendo, junto com ele, os únicos exemplares puros da família Macgreen.
Perguntou-se qual poderia ser o motivo de sua inesperada visita. Sabendo então que nada podia fazer, encaminhou-se a passos lentos em direção ao salão. Lá o encontraria sozinho.
Quando o lacaio abriu-lhe a porta, o conde viu que não se enganara. Pratick Macgreen encontrava-se sozinho, em pé, diante da janela. Ao ouvir o primo entrar, virou-se depressa, e antes que o conde pudesse dizer qualquer coisa, exclamou:
- Good Day! Deve estar surpreso por me ver aqui, mas preciso conversar com você!
- Sim, estou surpreso – replicou o conde – Na última vez em que ouvi seu nome, você estava em Londres divertindo-se!
Havia uma nota crítica no tom de voz do conde e sua ênfase na palavra divertindo-se, que não passou desapercebido ao primo.
Patrick era um homem bastante elegante, o cabelo farto e castanho, era penteado para trás. Seus trajes seguiam o ditame da última moda, e sua aparência denotava prepotência.
Os olhos perceptivos de Radamanthys, no entanto, apanharam os traços de devassidão escondidas por detrás dos traços da expressão singela do rapaz e que não deveriam estar ali, considerando-se sua situação financeira.
As linhas duras de seus lábios faziam contraste com as palavras doces que ele sempre dizia. Caminhando na direção da lareira que, por ser verão, estava florida, o conde parou para dizer:
- Posso imaginar o motivo que o trouxe até aqui, primo! E a resposta é a mesma que lhe dei na última vez em que me procurou: isso não pode continuar!
- Pensei que diria isso – respondeu Patrick – porém devo dizer-lhe que atualmente me encontro numa situação embaraçosa e que, se não for resolvida, poderá resultar num escândalo!
O conde retesou o corpo e um tom de aspereza permeiou a voz dele quando indagou.
- O que aconteceu desta vez?
Patrick sentou-se numa poltrona.
- Não foi realmente minha culpa, Radamanthys – começou ele – Tentei fazer algumas economias depois da última ajuda que me deu, mas envolvi-me num negócio com um homem que me trapaceou com uma grande quantia em dinheiro e como agora ele está falido, é improvável que eu recupere o capital.
O conde imaginou que já ouvira aquela história e em voz alta, perguntou:
- Posso saber em que gastou aquela grande soma em dinheiro que herdou por ocasião da morte de seu pai, meu tio, além das muitas libras que lhe dei na última vez em que esteve aqui?
Patrick nada respondeu e após um minuto de silêncio, o conde retrucou:
- Imagino que a maior parte foi desperdiçado com mulheres! Mulheres, como você já sabe, exercem um grande poder sobre os bolsos de um homem e pelo que sei, você não é suficientemente rico para mantê-las!
- Isso não é justo! – queixou-se Patrick – Você se diverte muito e não há motivo para que eu não o faça!
- Certamente que...me divirto muito, como você mesmo diz – replicou Radamanthys – mas tenho mais condições para isso que você, como posso constatar, está indo longe demais!
- Não entendo por que diz isso – asseverou Patrick – Sou jovem e nobre e é normal que eu queria gozar a vida antes que minha mãe obrigue-me a me estabelecer na nossa propriedade, onde não há nada para se fazer e onde as mulheres não passam de camponesas sem graça!
Por um momento, um brilho de divertimento se acendeu nos olhos de Radamanthys e ele declarou:
- Você jamais se importou em melhorar a propriedade que lhe pertence, tendo tirado de sua mãe todos os bens que possuía!
Patrick levantou-se.
- Acusações, recriminações é só o que ouço!
- Merece ouvir! – disse Radamanthys com enfado – Você dilapidou uma parte astronômica de seu patrimônio nos últimos meses, e como já lhe disse antes, isso não pode continuar assim. Você não é o único parente que depende de mim!
- Sei disse – falou Patrick – Mas você é rico e por que eu deveria ser exceção quando todos usufruem do seu dinheiro? – Radamanthys franziu a sobrancelha
- Não confie muito nisso – advertiu o conde – Eu tenho examinado a lista das pessoas a quem EU concedo mesada e seu nome vem em primeiro lugar como o que mais esbanja!
- Mas sou seu único parente puro – queixou-se Patrick – Minhas reivindicações são bem diferentes das do restante da família!
- Devo acrescentar que eles são muito gratos pelo que recebem – replicou o conde – Não desperdiçam dinheiro como você faz com as prostitutas!
- O senhor sabe disso melhor que ninguém, primo!
Replicou Patrick em tom mordaz, mas ao ver a expressão severa do rosto de Radamanthys, seu tom mudou.
- Por favor, ajude-me. Estou metido numa tremenda confusão, recebendo ameaças de credores, aos quais não tenho mais desculpas a dar!
O conde não respondeu. Pensava já ter ouvido este argumento antes. As palavras que seu primo usava já haviam sido proferidas vezes e vezes sem conta.
- Prometo que não vou contrair dívidas outra vez. Mas, por favor, ajude-me!
Havia um tom dramático na maneira como Patrick falava que muito desagradou ao primo. Oura vez, lembrou-se que Patrick comportara-se da mesma forma na última vez em que viera procurá-lo em sua casa. Radamanthys olhou o relógio.
- Vejo que é hora do almoço! Sugiro que adiemos nossa conversa para mais tarde e que você procure meu secretário para fazer uma lista do que deve! Só então podemos discutir a respeito e decidirei se irei ajudá-lo ou não!
Quando terminou de falar, o conde encaminhou-se até a porta e antes que seu primo pudesse dizer qualquer coisa, ele deixou o aposento. Ao se ver sozinho, Patrick cerrou os punhos.
- Maldito seja! Por que diabos não me dá o dinheiro e me deixa viver como eu quiser?
Enquanto falava, sentia o ódio crescer dentro do peito. Desejava que as posições se invertessem e que pudesse dizer ao conde o quanto odiava os laços de família que os unia.
Disse a si mesmo que a única solução era persuadir o primo a financiar-lhe os gastos. Se isso significava ter que lhe beijar os pés, o faria. Não obstante, a condição em que se encontrava fazia com que a indignação tomasse conta de seu ser. Sempre tivera inveja da importância que davam a Radamanthys.
É claro que apesar de seu pai ter sido um aristocrata, ele não poderia competir com a magnificência e a distinção dói conde Macgreen. A propriedade de Sussex que Patrick tanto abominava, era na realidade, sua única fonte de riqueza.
Quando Patrick tornou-se adulto, seu primeiro sonho foi afastar-se de casa, passando a desfrutar dos prazeres de Londres. Homens elegantes e jovens eram sempre bem vindos na sociedade londrina, que não era muito bem aceita no antigo regime.
Patrick, a sua maneira, era bem sucedido. Jovem e bonito, recebia favores do sexo feminino sem pagar um preço muito alto, como acontecia com os homens mais simples. Mas Patrick desejava status.
Mesmo que isso acontecesse entre mulheres, consideradas inaceitáveis por sua mãe, e entre homens que, por sua péssima reputação, jamais freqüentariam a alta roda inglesa. E tudo isso despendia uma grande soma de dinheiro. Quando não podia extrair mais nada de suas propriedades, Patrick era obrigado a recorrer ao primo.
"Eu o odeio!" – disse a si mesmo
Sabendo que o almoço seria servido em breve, Patrick atravessou o corredor na direção da sala de refeições. Era o lugar onde o conde e os hóspedes ficavam até o almoço ser anunciado e todos poderem acomodar-se em seus lugares.
As refeições ali eram soberbas, sempre acompanhadas de vinhos de qualidade. O que enfurecia Patrick era saber que, apesar de odiar o primo, os outros membros da família o tratavam como se fosse um rei. Rodeavam-no com obediência e ouviam-no como se ele fosse um deus.
Quando Patrick entrou no salão, o conde o informou:
- Temos um novo convidado! – falou para alguns parentes que ali se encontravam
As cabeças se voltaram na direção do rapaz.
- Patrick, que surpresa! – falou uma tia avó
"Eu os odeio!" – pensou Patrick
Externamente ele sorria com o mesmo charme do qual podia lançar mão quando bem lhe aprouvesse. Patrick costumava fazer elogios a todos, flertando com as moças mais jovens. Quando entrou na sala, percebeu que o conde parecia de bom humor. Mas também notou que ele o fitava com prudência, pois sabia que Patrick poderia extorquir dinheiro de qualquer parente mais velho.
A refeição foi excelente. Na Inglaterra era costume conversar na mesa, por isso os assuntos fluíam com naturalidade. Patrick conseguiu ser ainda mais espirituoso do que costumava ser em Londres. Somente quando a refeição terminou e todos os convidados haviam ido embora, é que Radamanthys desapareceu de vista, pois tinha algumas correspondências para abrir.
Também desejava refletir um pouco sobre o problema do primo antes de tornar a conversar com ele. Foi direto a biblioteca, pois sabia que ali teria mais privacidade. Era lá que também costumava sentar-se para redigir a história de sua família. A árvore genealógica encontrava-se estendida sobre a escrivaninha.
Ao lado de seu nome, viu também inscrito o nome de sua esposa que morrera no mesmo ano que se casara. Apesar de tudo ter acontecido 2 anos antes, ele sabia que seria difícil esquecer. Foi um infortúnio pavoroso que o marcara.
O pai de Radamanthys, como era comum nas famílias aristocratas, havia decidido com quem se casaria seu único filho. Pareceu-lhe uma idéia admirável , já que sua propriedade e a do marquês York fazia fronteira. A união das duas famílias fariam com que se tornassem ainda mais importantes em Sussex.
A filha do marquês, conforme o pai de Radamanthys notara, era uma moça belíssima. Apesar de conhecê-la muito pouco, sabia que daria uma ótima esposa para seu filho tão logo completassem 21 anos. Era importante que os herdeiros ingleses cassassem nesta idade.
Radamanthys tornou-se um jovem elegante e belo. Era um cavalheiro brilhante, mais ainda como esgrimista. Não havia uma só família que não tivesse desejado unir-se a família Macgreen. Ele podia ter escolhido uma mulher com facilidade entre as muito distintas famílias inglesas. Porém, seu pai já havia se decidido e dado sua palavra.
Os dois jovens viam-se raramente, já que Radamanthys passava a maior parte de seu tempo em Londres, nos "divertimentos" da juventude. Além do mais, tinha paixão por cavalos e cuidava pessoalmente da linhagem que possuía. Também era excelente caçador e suas manhãs de domingo eram preenchidas com esta diversão.
O casamento realizou-se com luxo. A aparência de Radamanthys não podia ser mais magnífica, enquanto sua noiva também não ficava a dever em beleza e charme. Foi só depois de 1 mês na companhia da moça que Radamanthys descobrira a verdade.
Sua esposa, tão adorável na aparência, era doente. As vezes permanecia em total silêncio, enquanto em outras, gritava de forma descontrolada, não permitindo qualquer aproximação. O conde foi sensato o bastante para perceber que caira numa armadilha.
Os pais de Annabel haviam se mostrado muito ansiosos por casá-la. Mas tinham ocultado de todos as evidências do estado mental da moça. Tarde demais, Radamanthys lembrara-se que jamais esteve sozinho com a esposa antes do casamento.
Sabia agora que isso acontecia não porque os pais de Annabel temessem que ele a assustasse, mas o contrário. Radamanthys levou a esposa de volta para casa dos pais, fazendo que as famílias aceitassem a verdade.
Annabel foi levada para a propriedade e dormia em um quarto separado do marido. A moça suicidara-se, enforcando-se, antes de completarem-se 6 meses de casamento. O que foi, diga-se de passagem, um alívio para todos.
Mas o fato fez com que Radamanthys desenvolvesse um tal horror ao casamento, que jurou jamais contrair matrimônio. Jamais permitiria que decidissem sua própria vida. O que realmente aconteceu, foi que Radamanthys amadureceu e tornou-se homem.
Com a idade de 23 anos, herdou o título de conde após a morte do pai. No entanto, amava-o e respeitava-o sem qualquer sombra de mágoa. É claro que esta obstinação, fez com que o restante da família o vissem com frieza. Ele passou a fazer o que bem quisesse. Londres o recebia de braços abertos. E as mulheres também!
Passava grande período das semanas nos braços das cortesãs, mas logo descobriu a existência de mulheres casadas e bem mais excitantes. A maioria delas sonhava com um affair com os homens de seu círculo social.
Então, gradualmente, tornou-se exigente no que diz respeito a este tipo de divertimento. Preferia a companhia de mulheres inteligentes e sofisticadas do que as beldades que ensandeciam os homens. Era como se o fantasma de Annabel o perseguisse. Foi então, que seus parentes começaram a pedir que se casasse novamente.
- Jamais tornarei a me casar – ele confessou a tia – a menos, é claro, que me apaixone! O que jamais aconteceu e acho difícil que venha a ocorrer!
- Mas meu querido, o que tem feito desde a morte de Annabel?
- Me divertido! – replicou
- Não entendo... – murmurou ela
- Prometo-lhe, tia, que quando me apaixonar pedirei sua aprovação para a minha escolha!
A duquesa teve de se contentar com a promessa incerta do sobrinho. Amava-o em demasia e quando soube de seu último caso com uma bela marquesa, lamentou copiosamente.
Os berçários da propriedade de Sussex estavam vazios. Pensou que naquele momento vários pequenos poderiam estar correndo em torno do chafariz. Com certeza enfiaram as mãozinhas para pegar os peixes.
- Que devo dizer-lhe? – perguntava-se em suas orações
Sabia que Radamanthys não a ouviria, preferindo agir a sua maneira, seja lá o que lhe dissessem. Na idade de 23 anos era dono de sua própria vida, tomando conta de todos os bens deixados pelo pai. Mas sua verdadeira satisfação era montar. Ganhava uma corrida após a outra, fazendo os outros competidores muitas vezes exclamarem:
- Se continuar assim, Macgreen, seremos obrigados a emigrar para podermos ganhar alguma vez! – o rapaz ria alto
Naquela tarde, após suas obrigações formais, ele dirigia-se ao estábulo. Costumava visitar os cavalos antes do anoitecer e escolher o animal que montaria no dia seguinte. Conversou com o cavalariço a respeito de um que parecia adoentado. E então congratulou-o pelo desempenho dos outros, treinados por ele.
Quando retornou a casa, notou que já eram 4 e meia. Por tentar sempre ser um bom anfitrião, providenciou chá e sanduíches de pepinos para receber o conde alemão, que deveria chegar por aquela hora.
Entrou na propriedade, mas não havia ainda nenhum sinal de Joahnn Heinstein. Entretanto, uma outra visitante o aguardava. Ele ansiava por vê-la outra vez. Era belíssima e fora aclamada como a mais fina flor da juventude inglesa.
Aos 18 anos, a marquesa de Lancaster encontrava-se no auge de sua beleza. Os cabelos vermelhos realçavam com sua pele branca manchada de pequenas e singelas sardas. Seus olhos esverdeados lhe davam um ar felino e seu corpo simplesmente perfeito.
A moça encontrava-se de pé num dos extremos do aposento quando o conde entrou. Por um momento ele ficou imóvel, admirando a beleza e a elegância da moça que tinha diante de si, julgando-a indescritível. Quando a moça percebeu-lhe a presença, encaminhou-se em sua direção com a mão estendida.
- Pensei que havia esquecido-se de mim – comentou ela
- Desculpe-me – tornou ele – É que não a esperava tão...cedo! – ele sorriu insinuante; ela retribuiu com as faces coradas
Radamanthys beijou-lhe a mão suave e sentiu-se excitado com o toque na pele dela. Ela então indagou:
- Sentiu minha falta?
- Claro que sim! – replicou ele
- Radamanthys, contei as horas com ansiedade antes de vir aqui para vê-lo!
- Bem, agora que está aqui, vejo que trouxe o sol com você!
Ele falava com eloqüência. A marquesa sorriu, oferecendo-lhe os lábios, mas antes que ambos pudessem mover-se, a porta se abriu e a duquesa Macgreen, tia de Radamanthys, entrou no aposento.
- Ai está você! – disse se dirigindo ao sobrinho – Perguntava-me onde poderia ter passado toda tarde! Então teremos chá especial hoje?
- Sim – foi a resposta do conde – Já que estou aguardando a visita do conde Heinstein. Mas deixe-me apresentar-lhe a marquesa de Lancaster, que acabou de chegar!
A duquesa estendeu uma das mãos com semblante nada satisfeito.
- Já ouvi falar de você! Os comentários sobre sua beleza já se espalharam por toda Sussex!
- Obrigada! – a marquesa sorriu – É um grande prazer estar aqui!
Radamanthys sorriu e então, sem que desse conta, seu rosto assumiu uma expressão adorável, capaz de seduzir qualquer mulher. Foi então que o mordomo assomou a porta anunciando em sua voz grave:
- O conde Heinstein, sir!
Radamanthys deixou escapar uma exclamação e encaminhou-se para o recém chegado. Quando estendeu a mão, percebeu que este estava acompanhado.
- Como vai? – cumprimentou Johann – Agradeço-lhe pela carruagem que mandou para nos apanhar na estação!
Radamanthys sorriu e então, com expressão inquiridora, olhou para a jovem ao lado do conde.
- Ah sim, espero que me perdoe o esquecimento – tornou o alemão – Esta é minha filha. Como não poderia deixá-la sozinha, trouxe-a. Tenho certeza que haverá um lugar para ela!
Conforme o caminho, primeiro de trem e depois de navio e em seguida de trem novamente, Pandora ficou encantada com a beleza de Sussex, A magnificência da propriedade arrebatara-lhe os sentidos e ao entrar na residência, sentira-se como um personagem de conto de fadas. Agora, foi como se o príncipe encantado a recepcionasse.
O conde era completamente diferente do que ela esperava, Para início de conversa ele era bem mais alto do que a maioria dos ingleses que conhecera. Com ombros largos, também parecia bem atlético. No momento em que ele saudou seu pai, Pandora pensou, não sem um certo mal estar, que estava diante do homem mais atraente que já conhecera. Com certeza, bastante diferente da idéia que fazia dele.
Pandora estendeu-lhe a mão e fez uma breve reverência. Foi então que o calor e a cordialidade que percebera nos olhos do rapaz, no momento que este cumprimentou o conde Heinstein, havia desaparecido. Em vez disso, ele só a contemplava com uma expressão que só poderia ser descrita como contrariedade.
Em tom de voz totalmente diferente, Radamanthys comentou:
- É claro que teremos acomodações para sua filha! Minha tia, que o senhor deve conhecer, providenciará tudo!
Enquanto falava, voltou-se de maneira abrupta na direção da tia que se aproximava, olhando-a com desconfiança. Após ela ter cumprimentado os visitantes, Radamanthys afastou-se.
Encaminharam-se todos, então, para a mesa do chá, que já se encontrava arrumada junto a lareira. Quando lá chegaram, Pandora notou que o jovem conde, de costas para ela, conversava com a mulher mais bela que ela já vira.
Continua...
