Hsi Wu abriu e bateu as suas asas cinzentas. Apesar da atmosfera sombria do Netherworld, ele nunca perdeu o prazer que voar lhe dava. Às vezes ele tinha pena dos pesados irmãos, que não tinham asas e agilidade. Ele até perguntara a Tso Lan por que os outros eram tão diferentes dele.
O demônio da lua nunca deu uma resposta direta, apenas disse que cada ser era diferente do outro, mesmo que fossem da mesma raça. Era o mesmo com os demônios, cada um era perfeito para o seu próprio elemento.
E Hsi Wu aceitou isso, ele era uma prova viva. Ninguém mais seria um demônio do céu melhor do que ele. Ele era pequeno e ágil, tinha asas e membros longos. Tso Lan era o único que tentava entender a ele e o seu desejo de voar nas alturas, mesmo que realmente não gostasse desse tipo de atividade.
Hsi Wu tentou evitar os irmãos por um tempo. A maioria deles fora libertada por um pequeno momento apenas para ser mandada de volta logo em seguida. Eles estavam furiosos e quando Shendu, que era o culpado de tudo, não estava lá os demônios tinham que descontar a raiva em outro.
Para a maioria deles, o pequeno e delicado Hsi Wu era a melhor escolha. Principalmente Dai Gui, que voltara há pouco tempo e achava que o demônio mais novo era um excelente saco de pancada. Então Hsi Wu se afastou e esperou que o seu portal fosse aberto.
Ele deveria ser o próximo e achou que ia explodir de alegria quando pensou na liberdade e no céu azul, que ele logo teria de volta. Os seus irmãos quiseram reconquistar as suas respectivas terras, mas Hsi queria aproveitar o mundo primeiro. Depois ele poderia ter alguns pedaços de terra. O seu reino sempre seria o céu, ele não precisava de palácios para ser feliz.
O demônio do céu notou algo do canto do olho e agitou as asas para se virar. Ele inclinou a cabeça, surpreso. Tso Lan. Dos seus sete irmãos, o demônio da lua era o que Hsi mais respeitava. Ele na verdade não sabia por quê, Tso não o tratava com mais respeito do que os outros, mas de alguma forma Hsi achava que Tso se preocupava com ele.
Ele balançou a cabeça com raiva. Demônios não precisavam de sentimentos, todos os seus irmãos diziam isso. Ele não sabia de onde vinha essa lição, realmente não se lembrava de nada do seu passado.
Tso Lan dissera que ele era o mais jovem deles e que os heróis antigos da China o tinham aprisionado em uma estátua feita de jade, que sugara todas as suas lembranças. Alguma coisa nesse conto fez Hsi Wu se sentir inseguro, mas por que Tso Lan mentiria pra ele?
Os outros demônios quebraram o feitiço, mas ele era apenas uma sombra de si mesmo. Os seus poderes se foram, ele não era tão forte quanto os irmãos e não tinha nenhuma lembrança da sua vida anterior. Tudo o que ele sabia era o que os outros lhe contaram, e não era muito. Eles disseram que o passado não era importante, que ele tinha que se concentrar no futuro. É, como se ele tivesse um futuro neste inferno vermelho.
– Tso Lan – Hsi Wu saudou e aterrissou para ficar ao lado de seu irmão levitando. Tso Lan fora libertado algumas semanas atrás e Hsi ficou com medo de que tivesse sido deixado sozinho com seus irmãos sórdidos, mas então Tso retornou. Contra a sua própria vontade, é claro, o demônio da lua disse que nunca desistiria da sua liberdade por causa de um irmão mais novo.
Mas Hsi Wu ainda estava feliz antes que fosse libertado. Então não importava o que acontecesse, se ele pudesse apenas voar.
– Hsi Wu – respondeu Tso Lan. Ao contrário dos outros demônios, não ele levou o seu retorno tão a sério. Não foi consumido pela raiva cega como Tchang Zu e Dai Gui nem ficou muito deprimido como Po Kong e Xiao Fung. Claro que ele também ficou chateado, mas se recuperou muito mais rápido e melhor do que os outros.
Pela voz do irmão, Hsi Wu sentiu que algo estava errado. Ele franziu as sobrancelhas, pensativo e interessado, nada nunca acontecia no Netherworld. Uma mudança seria refrescante, fosse boa ou má.
– O que está acontecendo? – perguntou o demônio do céu curiosamente e Tso Lan balançou a cabeça.
– Eu nem tentei mentir e você já pode adivinhar – ele disse e Hsi não pôde suprimir um sorriso. Os olhos vermelhos de Tso endureceram e ele franziu as sobrancelhas um pouco. – Mas você ainda deveria respeitar um irmão mais velho – disse, irritado, e o sorriso de Hsi morreu. O demônio alado o encarou com um reflexo curioso nos olhos.
– Mas o que está acontecendo? – ele perguntou de novo.
Tso Lan deixou sair um suspiro.
– Os outros têm uma surpresa pra você – ele disse. Ele não aceitava a decisão dos irmãos, eles nunca paravam para pensar antes de agir. Hsi ergueu as sobrancelhas e bateu as asas repentinamente.
– Uma surpresa? – ele perguntou, ansioso. Que surpresa poderia ser? Surpresas eram impossíveis no Netherworld, e se eles tivessem a chance de ter uma, por que a desperdiçariam com o mais novo da família? – Que surpresa? – ele pressionou, mas Tso se recusou a responder. Embora ele gostasse da companhia de Hsi Wu mais do que ele gostaria, digamos, da de Dai Gui, ele só podia franzir as sobrancelhas quando Hsi se esquecia da sua posição e começava a agir como uma criança.
– Você vai ver – disse o demônio da lua, para a decepção de Hsi.
Ele não podia esperar! Ele tinha que descobrir o que estava acontecendo e o que os outros lhe dariam! Por um momento ele pensou que poderia ser algo sórdido, mas então chegou à conclusão de que Tso não participaria de algo tão infantil assim.
– Quando eu vou poder ver? – ele perguntou.
– Quando estiver pronto – respondeu Tso Lan e Hsi não se sentiu nem um pouco melhor.
Às vezes eles deixavam os outros demônios por muito tempo só para conversarem e passarem um tempo juntos. Tso Lan realmente não se preocupava com os outros demônios, eles eram idiotas e não entendiam nada sobre o verdadeiro poder, sabedoria. Não que ele considerasse Hsi Wu muito melhor, mas pelo menos o demônio do céu não ficava sempre mostrando os músculos e gritando ameaças vãs. Hsi se acostumou a ser desprezado pelos irmãos e irmãs e Tso Lan, que pelo menos às vezes o tratava de igual para igual, era uma companhia bem melhor.
Tso Lan olhou para cima, onde o vermelho sombrio continuava sem fim. Às vezes ele desejava saber se alguém poderia fugir para longe deste lugar e já até considerou fazer Hsi Wu tentar. Então desistiu da idéia, mesmo que fosse possível só seria de algum uso para Hsi.
Mas eles exploraram este lugar e descobriram que o Netherworld uma vez foi algo mais do que aquilo, vermelho e pedras. Alguém, ou algo, usara o lugar como um depósito de lixo e jogara um monte de coisas pelo portal antigo antes que eles tivessem sido banidos. Como se poderia adivinhar, Tso Lan realmente não gostou da idéia de que eles tinham sido abandonados em um antigo depósito de lixo.
Ele se preparou para esperar o dia inteiro. O ritual que os irmãos dele estavam executando era complicado e gastava muita energia. Outros se sentiriam fracos por um tempo, mas eles estavam prontos para aceitar isso.
– Nós deveríamos voltar – anunciou Tso Lan de repente e Hsi Wu abriu as asas ansiosamente. O entusiasmo infantil que consumiu o demônio mais novo divertiu Tso Lan, que nem se lembrava de quando ele sentira o mesmo. Talvez uma das bibliotecas da China antiga o tenha afetado assim?
Hsi Wu bateu as asas novamente e voou ao redor do demônio da lua. Ele queria dizer ao irmão para se mover mais rápido, mas seria um comportamento muito baixo falar assim com um demônio mais velho. Tso Lan freqüentemente lhe dava broncas, mas não tão furiosamente quanto Tchang Zu, que parecia achar que era o seu dever dizer a Hsi Wu o quanto ele era fraco e inútil comparado aos irmãos mais velhos.
– Paciência – comentou o demônio da lua, sentindo a obsessão de Hsi Wu para ver qual era a surpresa. Hsi Wu concordou com a cabeça, apesar de não ter se sentido nem um pouco melhor, e quando finalmente viu os outros demônios ele realmente teve que se acalmar.
Embora a surpresa fosse pra ele, seria vulgar correr para lá antes do irmão mais velho. O demônio do céu pensou que Tso Lan estava andando devagar de propósito só para irritá-lo, entretanto se livrou desses pensamentos. Tso Lan era um demônio sensato, nunca faria uma coisa dessas.
Quando eles chegaram mais perto, Hsi notou algo que não se ajustava ao quadro. Com os seus seis irmãos estava uma sétima figura, que estava próxima a Tchang Zu. Ele franziu as sobrancelhas, quem era ele e como ele chegou aqui? E também tinha uma outra boa pergunta, o que Shendu estava fazendo aqui quando ele deveria estar procurando pelo portal de Hsi?!
Isso deveria ser a surpresa, mas qual a graça em um estranho total? Nada, mas pelo menos ele estava curioso agora.
– Tso Lan, Hsi Wu – saudou Tchang Zu e, depois de curvar a cabeça para o irmão, Hsi virou os olhos para o estranho, dando-lhe um olhar interrogativo.
Ele era pequeno, quase do mesmo tamanho que o próprio Hsi Wu, estava vestido em preto e prata e no início Hsi o confundiu com um shadowkhan. Ele desistiu dessa idéia, os shadowkhans eram comuns e um não seria uma surpresa. O rosto do estranho lembrou Hsi de um humano, a sua pele era pálida e cinzenta e os olhos vermelhos brilhantes como se ele fosse um demônio. Ele tinha o cabelo longo e branco com algumas faixas vermelhas e que estava preso em um longo rabo-de-cavalo. As suas orelhas eram afiadas e estavam parcialmente cobertas pelo cabelo branco. Na orelha esquerda, havia um brinco preto e três linhas azuis de seda penduradas.
O estranho se parecia muito com um shadowkhan, mas os seus dedos eram mais longos que os dos servos de Shendu, ele não cobria o rosto e não tinha nenhum tipo de sapato. Talvez fosse um elfo negro? Bem, o estranho era interessante, mas o que ele tinha a ver com a surpresa de Hsi Wu?
Tchang Zu fez um gesto para o estranho.
– Hsi Wu, este é o seu irmão Ni Tang, o demônio da noite polar.
Hsi Wu deu um passo surpreso para trás e os seus olhos se arregalaram um pouco. Um irmão? Mas deveriam ser só oito demônios! De onde tinha vindo esse nono e por que ele nunca tinha ouvido falar dele?
– Eu vejo que está confuso, Hsi Wu – disse Tchang Zu, e o demônio do céu concordou.
– Como esse... demônio pode ser meu irmão? – ele perguntou e pensou ter visto um flash malicioso nos olhos de Tchang.
O demônio do trovão pôs a mão no ombro de Ni Tang fraternalmente e o demônio da noite polar se retraiu.
– Ni Tang é como você, os Imortais da China o aprisionaram em uma prisão feita de jade há muito tempo atrás. Como você era mais velho, nós te libertamos primeiro, mas nunca pudemos libertá-lo antes que fôssemos todos banidos. Você tinha perdido todas as suas lembranças e nós não quisemos transtorná-lo, você e Ni sempre foram muito amigos. Durante estes anos nós tentamos libertar o nosso último irmão, mas era muito difícil localizá-lo daqui. Mas agora o trabalho duro acabou e todos os nove demônios estão finalmente juntos de novo – ele disse e Hsi Wu se sentiu bem estranho quando olhou para Ni. Ele tinha um irmão menor?
– Ni Tang? – ele perguntou com cuidado e o demônio da noite polar virou os seus olhos vermelhos para ele.
– Sim? – ele perguntou.
– Como você, ele não tem nenhuma lembrança do passado. Vai precisar de muita paciência de todos nós fazê-lo voltar ao que era, mas eu tenho certeza de que conseguiremos – Tchang Zu disse e pela primeira vez em muito tempo Hsi Wu realmente concordou com ele.
Ele não era mais o mais novo! Ele sabia que isso o tornava mais forte e lhe dava mais poderes na família, isso era tão perfeito. Agora ele tinha alguém para ensinar e os outros não poderiam tratá-lo como de costume quando o mais novo não estivesse lá. Agora Ni ficaria com o seu lugar de fraco.
– Prazer em conhecê-lo de novo, irmão – disse Hsi Wu, e Ni Tang o cumprimentou com a cabeça. Ele estava confuso, onde ele estava, como ele tinha chegado aqui e quem eram esses oito seres? E a pergunta mais importante, quem era ele? Esses outros o chamavam de Ni Tang, mas soava tão estranho. Era como se ele uma vez tivesse sido outro...
Mas tudo o que ele se lembrava era de como ele acordara aqui neste mundo vermelho, cercado por essas criaturas. Ele não tinha nenhuma lembrança do que foi, se é que ele foi alguma coisa. O demônio da noite polar? Ele achava que sabia o que era um demônio, mas não sabia de onde vinha essa lembrança. Ele tinha bastante certeza de que não gostava da palavra.
Agora ele só se sentia confuso e solitário, sentia como se estivesse totalmente só em um lugar frio. Mas por que isso, ele não sabia. Ele não estava sozinho e este frio com certeza não era frio. Mas mesmo assim.
– Ni, você já conheceu o seu irmão Hsi Wu, o demônio do céu, mas deixe-me apresentá-lo ao resto da sua família – Tchang Zu disse excepcionalmente educado e fez um gesto para Tso Lan, que estava próximo a Hsi Wu. – Este é Tso Lan, o demônio da lua e o mais sábio de nós. Ali está a Po Kong, ela é a demônio da montanha e a nossa feiticeira do chi. Próximo a ela está Xiao Fung, que é o demônio do vento, e Dai Gui, o demônio da terra que mantém a nossa família unida, Shendu, o demônio do fogo, Bai Tsa, a demônio da água, e eu, o demônio do trovão Tchang Zu, o mais velho e o mais forte – disse o demônio do trovão.
Ni cumprimentou com a cabeça cada um dos irmãos, que devolveram o favor.
– Bem-vindo à família – disse Tchang Zu, e Ni se sentiu um pouco melhor. Pelo menos ele fazia parte de alguma coisa.
– Ele ainda é muito humano – Bai Tsa comentou depois e balançou a cauda com raiva. Xiao Fung concordou.
– Eu disse que ele nunca se tornaria alguma coisa. Olha pra ele! Ele pode ser um demônio, mas há uma grande parte humana nele. Se ele tiver contato com a vida anterior... – disse o demônio do vento tristemente e Shendu se virou para ele com um chio.
– Quieto! Você não vê como nós podemos usá-lo? Nós vamos mandá-lo abrir os portais e aí depois nos livramos dele. Não haverá uma chance melhor! – disse o dragão, e Xiao Fung franziu as sobrancelhas com raiva.
– Mas e se ele nos trair? Afinal de contas ele é um demônio, e poderia nos deixar aqui e ficar com o mundo pra ele – advertiu. Shendu abriu a boca para dizer algo, mas Tchang Zu fez um gesto para que ele ficasse quieto, olhando irritado para os dois irmãos.
– Vocês dois estão certos – ele disse e Po Kong ergueu uma sobrancelha.
– Como? – ela perguntou interessada.
– Ele ainda é muito parecido com um humano, mas nós podemos consertar isso. Ele não controla os seus poderes ainda adormecidos e está confuso, mas quando nós o ensinarmos qual o seu destino, ele esquecerá de tudo mais e será leal a nós – o demônio do trovão disse confiante e apontou para Dai Gui.
– Você pode ficar com a primeira lição. Certifique-se de que ele vai aprender por que vive e por que nós o libertamos. Só então nós poderemos confiar a ele algum tipo de poder.
O demônio da terra concordou com a cabeça.
– Eu farei isso.
Hsi Wu voou ao redor de seu novo irmão, olhando-o curiosamente. Os outros os deixaram a sós, disseram que eles precisavam de tempo para se conhecerem de novo. Hsi Wu estava agradecido, era bem incomum os outros se comportarem assim. Ele nem se lembrava de quando tinha sido a última vez em que eles foram tão educados com ele.
Ni Tang era um demônio interessante. Em primeiro lugar, ele se parecia muito com um humano e parecia mais um elfo do que um feiticeiro demônio. E mesmo assim Hsi Wu podia sentir o laço entre eles, muito mais forte do que ele sentia até com Tso Lan. Ele e Ni Tang, eles eram verdadeiros irmãos.
E isso o preocupou. Ele nunca se sentira assim, isso significava que ele estava ficando sensível? Ele não queria isso, ele era um demônio, tinha que ser frio e cruel. Não queria outra coisa e tinha que ser cuidadoso ao ficar com Ni, ele não queria começar a sentir nada por ele.
– Bem-vindo de volta, Ni – disse Hsi Wu. Ele se lembrou de como ficou confuso depois que tinha se libertado, era difícil viver sem nenhuma memória. Ni Tang afirmou com a cabeça.
– Obrigado, Hsi – ele disse com uma voz quieta, que não se parecia em nada com a de Hsi.
Hsi Wu não sabia o que deveria dizer ao irmão, ele não se lembrava de nada sobre ele, assim como o outro não se lembrava dele. Os outros disseram que eles eram muito amigos e ele estava pronto para começar de novo.
Ele agitou as asas e aterrissou, assim poderia olhar Ni nos olhos.
– O que você acha deste lugar? – ele perguntou quando não pôde pensar em nada melhor e Ni olhou para ele.
– É vermelho – ele disse depois de um tempo. Hsi piscou. Ni Tang parecia ser estranhamente quieto para um demônio.
– Mas o que você acha daqui? – ele tentou de novo. Ni mordeu o lábio e se virou para olhar ao redor.
– Ainda é vermelho. Eu não gosto de vermelho, é muito brilhante – disse.
– Brilhante? – Hsi perguntou surpreso. Nem ele nem nenhum dos seus irmãos sofria por causa disso. Ficar entediado, sim, depressão, sim, raiva e fúria, mas para eles nunca foi muito brilhante. – Talvez você se acostume com isso. Nós não vamos a nenhum lugar há muito tempo – disse o demônio do céu com um tom de amargura na voz. Ele não estava feliz por causa da volta repentina de Shendu, por que aquele maldito dragão teve que voltar quando era a sua vez de ser libertado? Agora ele nunca mais poderia ver o céu azul novamente... – Bem, o que você gostaria de fazer? – ele perguntou para pensar em uma outra coisa e Ni ergueu uma sobrancelha.
– Fazer? – ele perguntou. Hsi confirmou.
– Sim, não há muito o que se fazer aqui, mas nós podemos conversar. Você vai aprender mais sobre o que você é. Quando eu tinha acabado de voltar, o irmão Tso me ensinou tudo o que eu precisava saber. Claro que daquela vez foi mais fácil, nós ainda estávamos livres e tínhamos todo o mundo para nós.
– Você gosta muito do Tso Lan – disse Ni, e Hsi ficou feliz em ouvir o irmão dizer alguma coisa sem que lhe perguntassem primeiro. Ele concordou.
– Ele foi o meu professor e me tratou melhor do que os outros. Mas ele também pensa que eu sou inferior, mesmo que ele não diga isso – ele admitiu e realmente estava um pouco arrependido. – Então... O que você acha da sua família? Eu sei como é difícil quando se esquece tudo, mas vai melhorar quando você aprender a nos conhecer novamente – disse Hsi Wu para manter a conversa viva. Quanto mais ele pudesse fazer Ni Tang falar, mais cedo ele deixaria de lado a incerteza e a depressão. O demônio da noite polar tocou levemente o seu cabelo.
– O Tchang Zu é... poderoso. Ele deve ser um bom líder – ele disse e Hsi sorriu.
– Sim, mas é melhor você chamá-lo de "mestre". Ele quer isso e, embora Shendu seja o único que sempre faz a licitação, não é uma boa idéia enfurecê-lo.
– Você deveria tomar cuidado com o Dai Gui também, ele tem estado de muito mau humor ultimamente. Ele foi libertado por um momento mas alguém chamado Chan o baniu de volta e desde então ele tem descontado em todo mundo. Xiao Fung já disse que Dai é como um urso rotineiro que perdeu sua companheira pra alguém. O Dai não gostou muito disso e nós precisamos de Tchang e Po para impedir que eles se matassem. Eles nunca se gostaram muito – continuou o demônio do céu, divertido. – Nós outros somos mais razoáveis do que o Tchang e o Dai, embora a Bai Tsa possa ficar muito irritada às vezes. Principalmente quando ninguém a escuta cantando, ela não gosta disso.
Ni Tang ouvia a falação infinita de Hsi, Wu tentando pegar cada palavra e lembrar delas. Ele estava com muita pressa de juntar as novas lembranças para substituir as que perdeu.
Continua...
