Eu bem sei que estou deixando Belle interferir demais nas minhas decisões, participar demais da minha vida. Também sei que, nesse momento, é de vital importância que nada esteja entre mim e meus planos para achar Bae. Não entendo como deixei as coisas chegarem a esse ponto.

Não vou negar, eu gosto de me sentir humano novamente, aprecio os momentos em que o meu coração tem coragem para reivindicar um lugar para si em minha vida, mesmo quando aos sussurros. Sei, entretanto, que momentos como esses podem custar o sucesso da missão da minha vida. Então, como pude deixar as coisas chegarem a esse ponto?

Eu me deito, toda noite, pensando que o dia seguinte tem que ser aquele em que eu mandarei Belle embora – a ideia de matá-la é tão insuportável que eu já a descartei –, mas nem em sonhos ela me deixa em paz e, toda manhã, eu acordo com a certeza de não sou capaz.

Os dias transcorrem lentamente quando estou distante dela, embora as horas em que estamos juntos passem rapidamente. Belle tem conversado bastante comigo enquanto estamos juntos, perguntando-me a respeito de algum objeto que encontrou enquanto limpava a casa ou me contando sobre algum livro que ela esteja lendo. Eu não tento mais assustá-la – para ser sincero, tento omitir tudo em mim que possa fazê-la se afastar –, já desisti de me divertir com o seu sofrimento: ele só me causa um sofrimento igual ou mesmo maior.

Outro hábito que ela adquiriu foi o de me tocar. Às vezes, inesperadamente, ela segura a minha mão. Quando eu cheguei de uma visita à aldeia certa vez, limpou a poeira dos meus ombros. Quando retornei de uma rápida viagem que fui forçado a fazer para me encontrar com Regina, Belle me deu um rápido abraço de boas vindas.

Durante minhas visitas constantes à aldeia, eu sinto a ausência de Belle como um lembrete de que eu preciso dela em minha vida. Ela é tão constante em meus pensamentos que costumo levar pequenos presentes a ela da aldeia: alguma flor particularmente bela, bolos de diferentes sabores e, apenas uma vez, levei uma pintura retratando a paisagem de um reino longínquo, pois sabia que ela desejava ver o mundo e não podia – me esqueci subitamente de que eu era aquele que a impedia de realizar seu sonho. Belle sempre gosta dos meus presentes, ela sempre me dá um largo sorriso acompanhado de um educado agradecimento, e isso já é o bastante para que eu pense que o período distante dela valeu a pena.

A viagem para ver Regina ocorreu quase cinco meses depois de eu deixar o ladrão, Robin Hood, escapar com a varinha, quando já havia me acostumado à presença de Belle em minha vida. Eu imaginava que doeria estar longe dela por alguns dias, mas sabia que seria absolutamente necessário: Regina quereria se esconder como uma pessoa comum para tentar localizar Snow White e isso seria crucial para intensificar o ódio que ela sente. A rainha é uma tola, ela comete um erro após o outro, pois enxerga tudo através de um véu: o ódio que nutre por Snow White.

De todo modo, essa viagem me fez ver nitidamente o quanto eu apreciava a companhia de Belle. Posso dizer com muita convicção que foram três dos dias mais angustiantes de minha longa vida. Eu não podia deixar de passar cada segundo pensando nela, embora tentasse me ocupar com outros assuntos. No momento em que coloquei os pés dentro do meu castelo, ela me abraçou e eu tive que me conter para não abraçá-la também.

Acho que sou ainda mais tolo que Regina, pois minha cabeça está tão cheia de pensamentos sobre Belle que, quando a rainha veio ao meu castelo, na manhã de hoje, para que eu retirasse o encantamento que fazia com ela se parecesse com uma pessoa comum, deixei que descobrisse que eu tinha alguém em meu castelo. Espero sinceramente que ela não tenha notado o quanto aprecio a companhia de Belle.

Eu tentei desviar minha atenção da preocupação que estava sentindo fiando palha para transformá-la em ouro. Essa atividade sempre me tranquilizara, mas eu não consegui me concentrar: era – e ainda é – demasiado grande o medo de que Regina tivesse descoberto meu novo ponto fraco e eu precisassemandar Belle embora.

- Por que você gira tanto isso?

Encarei Belle e fiz uma brincadeira em resposta, o que provocou uma risada que me fez sentir meu coração dar um salto de felicidade, era – é – como se eu tivesse vivido apenas para ouvi-lo. Fui incapaz de permanecer sentado, aquele sentimento que me inundava era – é – excessivamente incômodo devido às perspectivas que ele evocava.

Foi quando percebi que Belle tentava com afinco afastar as cortinas para deixar o sol entrar na sala. Eu, que nunca senti muito apreço pelo sol, as havia pregado.

Após algumas tentativas, ela deu um forte puxão e as cortinas se soltaram; Belle caiu nos meus braços e tudo que eu precisei fazer foi segurá-la. Naquele momento, o mundo parou, a única coisa em que conseguia pensar era que ela estava em meus braços e que todo o meu corpo – não apenas meu coração – reagira àquela proximidade. A queda da cortina deve ter feito muito barulho, mas eu não escutei, porque, para mim, só havia eu e ela.

Demasiado rápido, ela me agradeceu e eu voltei à realidade, soltando-a. Ela me disse algo a respeito das cortinas depois, mas, embora tenha certeza que respondi algo, sequer me lembro da pergunta, pois estava – ainda estou – completamente tomado por um sentimento indescritível.

Voltei aos meus aposentos para pensar a respeito do que acontecera. O que é esse sentimento? Isso se parece com o amor, mas eu já amei antes e sei que, embora semelhante, não é exatamente igual ao que eu sentia por Milah e Cora. É algo completamente desprovido de interesses: eu não a desejava para mim, queria que ela me quisesse como seu e fosse feliz dessa forma.

E aqui estou, há quase três horas, caminhando pelos meus aposentos, tentando descobrir o que era – é – o sentimento que me preencheu naquele momento. Eu anseio por sair daqui e observá-la limpando meu castelo, mas temo pelo que pode acontecer quando eu fizer isso. Não sei se tenho mais medo de expressar, mesmo que brevemente, os meus sentimentos ou de perder a cabeça e mandá-la embora apenas para depois me arrepender.

Não sei o que faço. Eu redijo isso em uma vã tentativa de entender o que está acontecendo e, enquanto tento me recordar de mais detalhes, eu continuo andando pelo quarto.


Meus olhos estavam tão fortemente fechados que demorei a perceber a natureza dos meus sentimentos…

Não! Eu não posso escrevê-los nesse momento.