Acho que por ser educada numa escola religiosa sempre agi de forma sucinta e de boa-índole. Sempre sabendo o que fazer, quando fazer e como fazer, me saia bem em qualquer situação, fosse essa desastrosa ou não. Mas agora, com meus vinte e poucos anos, estando sentada com um copo de vodca na mão e com Selena bêbada ao meu lado, estava mais desesperada que uma virgem.

O lugar que nos encontrávamos era barulhento, grande e cheio de pessoas, o típico lugar que minha mãe vomitaria ao ver. O tipo de lugar que eu detestava.

Estava me sentindo um personagem de Charles Bukowski.

– Sabe Demi, – Selena se manifestou. – sempre te achei um tesão. – Sorriu de uma forma suja com malicia fluindo seus olhos castanhos.

– Você tá falando besteira, tá bêbada. – A arrumei sobre o sofá.

– Eu to bêbada, mas não to idiota. – Resmungou me olhando de forma fixa. Era como se pudesse ler minha alma e arrancar de mim meus piores segredos. – Você é bonita, sabe disso.

– Para você todos são bonitos, Selena. – Sorri enquanto ela concordava com a cabeça.

– E são mesmo, mas você me faz querer te chupar. – E o sorriso lascivo estava lá novamente. Senti meu coração querer pular para fora. – Brincadeirinha. – E riu. Provavelmente da minha cara de espanto ou do quão absurdas aquelas palavras soaram.

– Brincadeira sem graça.

– Ué, pensei que você gostasse disso em mim.

– Não dessa forma...

– E de que forma seria? – Arrumou a coluna e se inclinou até a sua boca ficar na altura da minha orelha. – Te chupando de verdade? – Sussurrou. – Sabe, só de brincadeirinha... – E a empurrei de forma leve a fazendo rir.

– Você é muito boba. – Grite para que ela pudesse me ouvir.

– Não é como se você não gostasse. – E levantou-se meio grogue me puxando pela mão. – Vem, vamos dançar.

E então me vi na pista improvisada no meio da sala com a mão de Selena me segurando a cintura enquanto esta tentava me fazer rebolar ao som da musica de estilo eletrônico.

– Se seu namorado te visse agora com essa bundinha empinada ele com certeza me agradeceria. – Meus olhos rolaram. – Quer dizer, deve ser um saco ficar pagando de bom samaritano enquanto se punheta no quarto. Porra! Vocês nem treparam ainda!

– Acho que meu gostar de você bêbada foi para o lixo. – Ela riu. Ficava risonha quando estava alcoolizada. Eu gostava disso.

– Vai beber isso aí? – Apontou para o copo em minha mão.

– Acho que você já bebeu demais. – Ela crispou os lábios.

– Eu ainda nem comecei.

E com um levantar de ombros, apenas entreguei minha bebida a ela. Ela tomou tudo num único gole. Continuamos dançando por mais incontáveis musicas até ela reclamar dos seus pés já com bolhas. Chamou-me para ir ao gramado. Aceitei.

– Esse vestido é da minha mãe, espero que ela não fique puta por ele ficar cheio de grama. – Falou enquanto deitava-se naquele monte de verde rodeado de sujeira típica de festa. Eu apenas a imitei. Sempre a imitava.

– Você tem que parar de pegar as coisas da sua mãe. – Aconselhei.

– Não é minha culpa se fica melhor em mim do que nela.

E riu. E se calou. E eu apenas a imitei. E então, ficamos em silêncio.

Virei minha cabeça e a olhei. O brilho da lua banhava seu rosto borrado de maquiagem e seus olhos fechados denunciavam um falso sono. Lábios entreabertos. Vermelhos.

– Seu olhar está me queimando. – Ela disse me assustando. – Eu não gosto que me encarem.

– Desculpa.

E voltamos a ficar em silêncio.

– Está pensando no quê? – Perguntei depois de longos dez minutos.

– Uma semana para o ultimo semestre acabar. Estou com medo. – Confessou e eu quis conforta-la.

Minha mão encontrou-se com a dela. A apartei.

– Não precisa ter medo.

– A realidade me assusta. – Me olhou. – Tô apavorada. Não quero perder esse conto de fadas.

– Queria poder te falar algo para te fazer se sentir melhor, mas acho que sinto o mesmo. – E ela sorriu como se aquilo bastasse.

E então passamos a nos encarar como se quiséssemos nos ler e percebi nela um olhar sóbrio, castro. A olhei da mesma forma. Estava me afundando naquela imensidão castanha. E me assustei quando percebi que ela estava por cima de mim me olhando daquele mesmo jeito. Estava agindo de forma inesperada como sempre fazia quando estava bêbada;

Senti meu estomago se revirar.

Eu sabia o que estava por vir, sabia e queria, porém, não podia. Não quando sabia que aquilo era errado. O medo e a ansiedade estavam tomando meu corpo e enquanto ela continuava a indagar pelo o olhar se podia ou não me beijar, eu apenas sentia o ar desaparecer. E cedi. Ela me beijou. E senti sua língua pedindo permissão para invadir minha boca. E deixei. Deixei porque queria, deixei porque desejava, porque a amava. A amava há mais de cinco anos. E agora a amava por mais cinco enquanto sentia sua mão fazer uma trilha na minha cintura exposta pela camisa.

A parte sensata do meu cérebro berrava para que eu parasse com aquilo. Berrava que ela só estava fazendo aquilo porque estava bêbada e ansiosa com o fim do semestre. Mas não me importava, só queria sentir mais e mais daquela boca com gosto de vodca.

Mas ela parou e senti o ar ir e desaparecer novamente. Seu olhar mostrava tanta confusão que senti vontade de correr.

– Seus lábios têm gosto de cereja. – Ela falou e eu sorri. – Será esse o motivo de Joseph ficar tão de quatro?

Mordi os lábios me recordando de Joseph. Eu estava traindo meu namorado e minhas crenças bíblicas, mas estava me mantendo fiel a mim mesma e aos meus desejos, por mais errado que pudesse parecer. Se é que era errado. Até porque, não era esse o proposito bíblico? Amar e ser amado? Amar independente de todas as coisas? Simplesmente amar? Não era isso que o Grande Criador queria para suas pequenas ovelhas? Será que o sexo da pessoa realmente importava em relações tão inocentes e puras? A alma, mesmo sem sexo, mesmo sendo apenas uma mera de uma alma, seria condenada por amar?

Porra, aquele beijo me parecia tão certo.

E então ela voltou a me beijar, liberando minha alma da culpa, fazendo com que o desconforto se esvaziasse, fazendo com que as indagações se escondessem.

Fazendo com que eu me sentisse uma pecadora no paraíso.