Capítulo 02 – Neo Genesis.

A fúnebre construção estava lá, diante de cada um dos recém-chegados, ainda atônitos para verbalizarem seus pensamentos confusos... Aquele local parecia ter saído de um filme de macabro, destoava completamente da entrada ao lado, mesmo que essa possuísse vestígios de vandalismo.

Ainda em silêncio os jovens se separaram, chegando mais próximos a construção. Kai se encaminhou para a porta dupla subindo os degraus que separaram a entrada da calçada, enquanto cada um de seus amigos chegava mais perto dos portais menores.

Uruha, que estava à direita do moreno, reparou nos detalhes entalhados na madeira... Era um brasão antigo no qual um dragão jazia de perfil cuspindo fogo e com suas garras afiadas ameaçadoramente postas. O loiro então se desviou daquele local indo a lateral do prédio onde havia uma ruela estreita, com espaço apenas para um pequeno caminhão. Logo foi capaz de perceber que o local não possuía saída e havia apenas uma porta na parede do pub que, supôs, ser o local onde as mercadorias eram descarregadas, no mais havia apenas uma grande lata de lixo.

Na outra porta simples, Ruki visualizou o mesmo entalhe de dragão, delicadamente o tocou com as pontas dos dedos da mão direita, admirando-o em sua perfeição, embora achasse aquilo um pouco estranho, e então olhou para trás vendo que o inglês ainda estava próximo ao carro alternando o olhar entre o trio.

"Tem certeza de que é esse o lugar?". O pequeno indagou, incrédulo.

"Claro, pode não parecer nada demais agora, mas, pelos registros, o público é grande e fiel.". Polidamente respondeu o advogado.

Kai havia prestado atenção à pequena conversa, logo em seguida voltando seu olhar para a porta diante de si, percebendo que não havia entalhe, a madeira era rigorosamente lisa e poderia dizer que era inteiriça caso não houvesse duas maçanetas douradas em formato de til e uma tênue linha que separava as partes do portal.

"Qual o tipo de pessoa viria em um lugar assim?". Perguntou-se mentalmente o moreno.

Uruha e Ruki continuavam a observar o local, em silêncio, tendo pensamentos parecidos.

"Por dentro deve ser bem melhor...". Supôs, Kai, ainda em pensamento.

Yutaka então olhou para o lado, vendo Uruha reparar na ruela lateral enquanto um homem coberto por um sobretudo com capuz preto, que descia até o meio das coxas da figura, aproximava-se do loiro a passos calmos. Alarmou-se ligeiramente, porém permaneceu apenas observando de onde estava, reparando que o transeunte calçava luvas e vestia uma calça lisa, tudo no mais puro negro.

"Com licença...". Kouyou se assustou ligeiramente quando ouviu uma voz soando atrás de si.

"Hai!?". Disse, o loiro, ao mesmo tempo em que se virava no intuito de ver que havia lhe chamado.

Um estranho frio subiu pela coluna de Uruha enquanto borboletas bailavam em seu estômago. Diante de si encontrava-se um homem... A face dele estava parcialmente encoberta pelo capuz e não podia ver os olhos, apenas parte do nariz e da boca, porém não conseguiu desviar o olhar daquela região... Os traços que a formavam eram perfeitamente simétricos, um tentador volume estava presente nos lábios que, devido ao pequeno sorriso que ali havia se formado, facilmente percebeu serem também alongados e um peculiar piercing preto, imitando parte de um espiral, jazia colocado no lábio inferior, no canto direito e, estranhamente, tudo o que desejou, naquele momento, foi saber a textura daquela pele.

"Vocês vão reabrir?". Novamente o homem se pronunciou.

Uruha viu aqueles lábios se movendo, graciosamente, o hipnotizando cada vez mais, sabia que palavras haviam sido pronunciadas, porém não havia conseguido discernir nenhuma delas devido ao encanto em que se encontrava e sabia... Tinha que fazer algo! Bravamente desviou o olhar, balançando levemente a madeixas mel, retomando o controle de suas emoções.

"Desculpa, eu... O que você disse?". Falou, um pouco envergonhado por sua atitude nada discreta.

"O 'Mausoléu' vai reabrir?". Educadamente, repetiu a pergunta, sorrindo mais abertamente.

"Oh, sim! Muito em breve.". Uruha informou satisfeito.

"Isso é bom, estive viajando por um tempo e fiquei decepcionado quando o vi fechado.". Comentou em tom casual.

"Espero que haja mais clientes fiéis assim!". Brincou, o loiro.

"Eles certamente existem. Tenho que ir... Encontrar um amigo para jantar. Nos vemos na inauguração!". Falou já se afastando.

"Até lá então!". Uruha respondeu estranhando a firmeza da afirmação do estranho.

"Quem era?". Kai indagou parando ao lado do amigo.

"O dono da boca mais sexy que já via na vida...". Confessou deixando um suspiro discreto lhe escapar.

"Ahf não era isso que eu queria saber...". O moreno falou um pouco exasperado.

"... E também um freqüentador do nosso bar que queria saber se ele reabriria.". Informou em tom normal.

"Bom sinal então...". Murmurou, guiando seu escuro olhar para o céu, reparando no manto pesado e gris que impedia os raios do poente de serem vistos.

"É melhor irmos, logo vai anoitecer.". Yutaka chamou, voltando a olhar para o loiro.

"É verdade...". Uruha concordou.

Rapidamente se aproximaram de Ruki e Larry, que trocavam algumas palavras a respeito daquela região e das pessoas que a freqüentavam.

"Com licença, desculpa interromper, mas acho que devemos ir.". Kai falou assim que parou diante da dupla.

"Ah sim é claro, afinal logo vai anoitecer e os senhores devem estar cansados da longa viagem.". Disse de modo simpático, o jovem inglês.

"Além do mais já abusamos demais da boa vontade do senhor...". Uruha comentou com um meio-sorriso nos lábios.

"Pode me chamar só de Larry e faço isso com prazer.". Respondeu sorrindo.

"Mas também acho boa a idéia de irmos...". Ruki abandonou seu silêncio entrando na conversa.

"Então vamos.". O advogado chamou já abrindo o carro.

Rapidamente os quatro homens entraram no veículo que, logo em seguida, entrou em movimento, abandonando aquele local. Enquanto prosseguiam uma agradável conversa se instaurou, Larry passava diversas informações a respeito da cidade, de como poderia se deslocar da mansão para o pub usando o serviço de transporte público e, vez ou outra, respondendo a alguma pergunta, também informando sobre pontos turísticos da cidade.

Conforme os quilômetros foram sendo deixados para trás a cidade mudava drasticamente. As construções, antes muito próximas, estavam mais distantes uma da outra, à altura dessas ia a contrapartida, diminuindo e, logo, já estavam no que lhe parecia uma pacata cidade interiorana.

"Agora sim estou me sentindo no cenário de um filme antigo...". Uruha comentou enquanto olhava pela janela.

"Ah sim, é difícil crer que existe um lugar assim tão perto de um dos maiores centros econômicos do mundo, não?!". Ainda conduzindo o carro, o advogado comentou.

"Sim, muito difícil...". Ruki murmurou.

"Tudo é muito diferente de Tóquio.". Kai falou estranhando a arquitetura antiga e toda aquela harmonia tranqüila.

"Oh, sim é...". Uruha murmurou, observando as poucas casas.

"Acho que vou sentir falta do caos.". O moreno pensou consigo mesmo, sem ter ouvido o loiro.

"Vocês se acostumarão e vão gostar, garanto!". Larry disse calmo.

"Tomara que sim...". Ruki comentou, ainda em tom baixo, levemente incomodado com toda aquela mudança, embora soubesse que ela ocorreria , senti-la na pele era algo muito diferente do que apenas supor.

Mais um pouco e as construções se tornaram quase inexistentes, colinas cobertas por campos verdejantes desenhavam em todo o horizonte, e casas podiam ser vistas em alguns pontos e, mesmo que longinquamente, podia-se perceber que se tratava de palacetes, em sua maioria, antigos.

O veículo convergiu à esquerda entrando em uma estrada mais estreita, calçada por pedras lisas entrando em um pequeno túnel formado por arcos metálicos recobertos com uma trepadeira, que iam perdendo o tom seco para se tornar verdes, no seu ciclo vital natural.

"A casa fica logo depois do túnel.". Informou o inglês.

Olhares ansiosos se prenderam no fim do túnel que estava muito próximo, longos instantes pareceram passar até que puderam visualizar o princípio de um jardim dividido em três partes, no qual o centro era coberto por grama as e laterais contiam arbustos floridos.

A primeira parte da construção que pode ser vistas foram duas escadas, uma de frente para outra que davam acesso a uma espécie de varanda e a residência se erguia atrás dessa. O palacete possuía quatro colunas centrais. No meio delas havia portas brancas e altas, ladeadas por dois pares de janelas tão compridas quanto o portal.

"Uau...". Ruki murmurou.

O carro ia se aproximando ainda mais e, logo, parou diante das escadas que davam acesso ao local. De imediato as portas se abriram e os recém-chegados saltaram, quase que simultaneamente, rapidamente subindo as escadas e parando diante do palacete, reparando nas vidraças lisas das janelas e em tudo o que podiam.

"É linda, não?". Larry comentou quando se aproximou novamente do grupo.

"No mínimo...". Uruha murmurou atônito.

"Foi construída no estilo neoclássico, as obras se iniciaram em mil setecentos e sessenta e dois, sendo concluídas quatro anos mais tarde...". O advogado informou.

"Você está bem informado!". Kai exclamou levemente admirado com o rapaz.

"Obrigado, faço o que posso...". Respondeu um pouco sem graça, o loiro.

Matsumoto e Takashima se aproximaram um pouco mais, olhando para cima, reparando na altura da casa.

"Estou me sentindo... Pequeno.". Uruha declarou em tom calmo, sem olhar o amigo.

Ruki desviou o olhar, fixando-o no loiro a seu lado que ainda fitava o topo da construção.

"Você vem dizer isso pra mim?!". Indagou em um misto de cinismo e raiva.

De imediato um sorriso se formou nos lábios do jovem de belas madeixas mel, que somente então encarou o amigo.

"Desculpa. Você sabe que eu não quis dizer isso...". Justificou-se, mas sem ser capaz de conter o pequeno riso que lhe escapou, pois sabia, não havia nada que irritava mais o amigo do que brincadeiras a respeito de sua baixa estatura.

"Vou fingir que acredito e deixar como está...". O loirinho disse, não conseguindo esconder a irritação que aquilo lhe causara.

"Aqui está a chave.". O advogado falou entregando o objeto a Kai.

"Apenas essa?". O moreno franziu o cenho, olhando para a chave antiga e preta, um pouco maior que a palma de sua mão.

"Essa é a chave-mestra, as individuais estão no escritório e serão entregues quando tudo for devidamente acertado.". Falou em tom normal.

"Ah sim, compreendo.". Respondeu, lembrando-se de que alguns documentos ainda tinham que ser assinados.

"Já é tarde, vocês precisam descansar. Vou deixá-los a sós... Aliás as malas ainda estão no carro.". Larry disse calmo.

"Estava esquecendo!". Uruha se pronunciou.

Novamente o grupo se aproximou do carro retirando o que era necessário do porta-malas.

"Muito obrigado!". Ruki agradeceu estendendo a mão ao outro.

O advogado inglês apenas sorriu apertando a mão do pequeno, repetindo o gesto com Uruha e Kai.

"Amanhã, pela manhã, venho para levá-los ao escritório e depois posso deixá-los no 'Mausoléu'...". O jovem lembrou.

"Seria ótimo!". Kai respondeu sorridente.

"Até amanhã então.". Falou já abrindo a porta do carro.

"Até amanhã!". O trio respondeu em uníssono.

Em seguida o jovem entrou no automóvel e deu a partida saindo do local.

"Acho que ele gostou de você, Kai.". Ruki comentou malicioso, enquanto olhava para o carro se distanciando.

"Não sei de onde você tirou isso... Ele estava de olho no Uru...". O moreno disse simplista, pegando sua bagagem e começando a caminhar.

"Eu?!". O jovem de madeixas mel indagou piscando os olhos de forma inocente e se perguntando, mentalmente, como havia ido parar no meio da conversa da dupla tão repentinamente.

Os outros dois apenas riram do amigo que passou a acompanhá-los na rápida subida até o pátio que antecedia o palacete.

"Pelo menos terei meu próprio quarto!". Kouyou exclamou satisfeito olhando para o casarão.

"Quero ver se você vai manter toda essa empolgação na hora da faxina...". Kai disse desgostoso.

"Sempre pessimista...". Ruki comentou, remoendo aquele pensamento.

"Mas é verdade, não teremos grana para contratar alguém tão cedo...". Informou, ainda cético.

Uruha parou, olhando para a construção diante de si, analisando a afirmação do moreno, tentando imaginar a cena dele limpando cada uma daquelas janelas...

"Acho que já estou com saudade do nosso pequeno apartamento...". Toda a empolgação de Takashima simplesmente desapareceu, afinal odiava dar uma de dona-de-casa.

"Não será assim por muito tempo... Espero.". Ruki disse, murmurando a última palavra mais para si mesmo.

Finalmente chegaram à porta e Kai pegou a chave, colocando-a na fechadura. Todos estavam ansiosos para ver como seria lá dentro... Houve um pequeno barulho e a trava destrancou com o girar do objeto, as portas foram empurradas, abrindo para dentro revelando o que os olhos curiosos queriam tanto vislumbrar.

O saguão de entrada era comprido, indo de um lado ao outro da construção, o piso era impecável em madeira, não aparentando emendas com desenhos geométricos em marrom escuro como se fosse natural. Alguns metros a frente havia uma escada que se dividia em duas, uma indo para a esquerda, outra para a direita, dando acesso ao segundo andar e, ao lado dessas, no piso no qual estavam, havia uma porta de cada lado que se abriria para o restante do palacete.

"Bem humilde...". Uruha comentou sorrindo levemente.

"Não sei quanto a vocês, mas eu preciso descansar antes de explorar isso tudo.". Kai falou, sentindo-se ainda mais cansado ao se imaginar percorrendo todos os cômodos daquele local.

"Tenho que concordar...". Ruki respondeu.

"Eu que o diga!". Exclamou o mais alto, afinal a viajem fora especialmente cansativa para si, já que praticamente não havia conseguido dormir.

O trio rumou para o segundo andar, indo pela escada da esquerda, enveredando em um corredor com algumas portas que logo descobriram se tratar de alguns quartos. Devido ao mau tempo, a noite havia chegado precocemente e ficaram aliviados ao constatarem que a energia elétrica do local não havia sido desligada.

"Toda mobília é clássica...". Uruha comentou com Kai que estava a seu lado enquanto fechava uma porta.

"Como era de se esperar...". Respondeu, o moreno.

"A cama desse aqui é maior! Ele é meu!". Ruki disse, parado à porta que havia no fim do corredor.

"Ei! Isso não é justo! Você deveria ficar com a cama menor!". Kouyou protestou em tom debochado.

"Seu...". Os olhos escuros de Matsumoto cerraram-se ameaçadoramente.

"É melhor não implicar com o dono da casa, Uru.". Kai avisou.

"Como?!". Ruki indagou se aproximando da dupla.

Yutaka apenas encarou o pequeno vendo que a face dele havia ganhado uma expressão séria e levemente magoada.

"Essa casa não é apenas minha, ela é nossa, Kai!". Exclamou sério.

"Ruki, eu não...". O moreno pretendia dizer que não havia dito aquilo intencionalmente, embora tivesse que admitir que era a verdade que bailava em sua mente, porém foi interrompido pelo menor.

"Aquele apartamento... Você comprou e mesmo assim sempre se referiu a ele como sendo 'nosso'! 'Nossa casa', então não me venha com esse papo agora, essa é nossa casa, agora!". Ainda em tom sério e reprovador, Takanori falou.

Um pequeno suspiro escapou dos pulmões de Uke que, logo em seguida riu em tom baixo enquanto balançava levemente, e de forma negativa, a cabeça.

Uruha apenas sorriu para o pequeno.

"O mais engraçado de tudo isso é que foi o Uru que te chamou de pequeno e eu quem levou sermão...". Disse inconformado.

Kouyou olhou para o moreno, incrédulo pelo que havia ouvido, observava a conversa com a esperança de que Ruki esquecesse seu comentário e sabia que isso havia acontecido, mas Kai tinha que lembrá-lo! E então desviou seu olhar para o loiro diante de si, vendo os olhos ameaçadores em sua direção.

"Foi a segunda vez hoje... Você me paga, seu...". Ameaçou se aproximando um pouco mais do jovem mais alto.

"Ah estou com sono e cansado. Boa noite...". Kouyou falou rapidamente, já se afastando, abrindo a porta do quarto ao seu lado, logo em seguida a fechando.

"Ele foi rápido, heim!?". Kai brincou sorridente.

"Mas ele não me escapa!". Disse convicto.

"Também vou descansar agora, tenha uma boa noite, Ruki.". Informou Yutaka.

"Ah, sim! Boa noite.". Respondeu, vendo o amigo moreno entrar na porta que havia diante da que Uruha havia adentrado instantes antes.

Matsumoto voltou pelo corredor, rapidamente alcançando a entrada do aposento que escolhera, tudo o que desejava naquele momento era um bom banho e uma bela noite de sono, afinal, sabia, o dia seguinte traria o início de uma longa jornada de trabalho.

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Dia seguinte.

Kai foi o primeiro a acordar e depois de se arrumar chamou por Ruki, que havia se levantando naquele momento, porém foi especialmente difícil tirar Uruha da cama... Os amigos foram obrigados a entrar no quarto e praticamente arrancar o jovem dos lençóis. Quando finalmente finalizaram a árdua tarefa de encontrar a cozinha no andar térreo, constataram o óbvio, a despensa estava vazia.

"Devíamos ter pensando nisso...". Kai murmurou, fechando a porta de um dos armários.

"Tem uns chocolates na minha mala...". Uruha informou calmamente.

"Você trouxe chocolates?". Ruki indagou incrédulo.

"Alguns do meu favorito, caso não encontrasse aqui...". Disse dando de ombros.

"Pelo menos vai resolver o problema do café da manhã.". O moreno opinou.

O jovem de madeixas mel novamente subiu até o quarto, revirando uma das mochilas encontrando um embrulho e descendo logo em seguida. Os amigos se alimentaram e, pouco tempo depois, ouvira-se alguém batendo a porta, era Larry.

O grupo deixou a propriedade indo diretamente para o escritório de advocacia onde vários documentos foram lidos e assinados. As escrituras e chaves do palacete e do pub foram entregues e, depois de quase duas horas, deixaram o local.

Larry, após ter sido informado sobre o desjejum dos rapazes, tratou de levá-los a um local onde pudessem se alimentar melhor e, somente depois disso, os levou novamente para o 'Mausoléu', relembrando todas as opções que eles possuíam para retornar à mansão.

"Bom, é isso. Espero que tudo dê certo!". O advogado falou apertando a mão de Ruki.

"Muito obrigado por tudo!" O pequeno agradeceu.

"Estou aqui para isso. Qualquer coisa que precisarem é só ligar.". Informou, agora cumprimentando Kai.

"Obrigado e pode ter certeza que não me esquecerei disso.". Disse, o moreno, sorrindo.

O inglês então pegou a mão de Uruha, apertando gentilmente, enquanto olhava no fundo dos olhos escuros diante de si.

Kai e Ruki olhavam discretamente a cena, muito interessados

"Foi um enorme prazer.". Larry sibilou em tom brando.

"Igualmente. Esperamos que venha na inauguração.". Kouyou respondeu sorrindo um pouco sem graça, pois sabia muito bem que os amigos estavam observando e, sem dúvidas, não perdoariam aquela.

"Certamente virei. Até breve então.". Falou circulando seu veículo, abrindo a porta entrando e logo dando a partida.

"Eu falei. Era no Uru que ele estava de olho!". Kai falou zombeteiro.

"Mal chegou e já está arrasando corações!". Ruki debochou.

"Ahf... Não comecem, vamos entrar que estou louco de curiosidade. Quero ver como é lá dentro.". Suspirou resignado se afastando dos amigos chegando mais próximo a entrada do pub.

Ruki e Kai riram da reação do loiro mais alto, seguindo-o logo sem seguida. O pequeno abriu a porta e os três entraram..

"Puta que pariu!". Uruha murmurou.

Diante do grupo havia várias mesas e cadeiras quebradas, pedaços estavam espalhados por todo o canto. Alguns metros de onde estavam havia uma bar no qual o balcão formava uma meia-lua, as garrafas que estavam expostas na parede de fundo haviam sido quebradas e o cheiro da bebida ainda estava no ar.

A parede ao lado de onde estava eram, até a metade, coberta de madeira marrom e a parte de cima contava com um xadrez que misturava tons de verde-claro, nela havia duas guitarras e dois saxofones, dependurados. E, um pouco adiante, diante do início do bar, havia um piano vertical, típico de cabarés. Felizmente todos os instrumentos estavam intactos.

Os três se separaram. Uruha foi ao bar encontrando a entrada do outro lado de onde estava, reparando em uma porta fechada, anotando, mentalmente, que deveria verificar o que havia naquele local. Kai se aproximou do piano, abrindo-o vendo as teclas, deixando seus dedos passearem por sobre elas, tirando algumas notas suaves. Já Ruki caminhava, desanimadamente, por entre os destroços das mesas... Então parou se abaixando e pegando um pedaço do pé de uma cadeira.

"Onde eu fui meter vocês...?". Murmurou baixo e triste.

Ao ouvirem a declaração Kouyou e Yutaka se entreolharam e depois fixaram seus olhares no loiro cabisbaixo e desanimado.

"Ruki, você acredita e nós seguimos.". Uruha falou em tom sério, porém sorriu ternamente quando calou.

Matsumoto ergueu o olhar, surpreso pela declaração do rapaz de madeixas mel, desviou seu olhar para o moreno.

"Você também tem essa opinião?". Indagou perplexo e viu Kai sorrir, desviando o olhar.

"Fica calmo, chibi, nem começamos ainda...". Declarou, o moreno, começando a caminhar.

Por um instante Ruki pensou em jogar o pedaço de pau que trazia na mão no outro, porém sorriu, largando-o indo na mesma direção que Uke, feliz pela afirmativa oculta naquelas palavras e, saber que seus amigos tinham tanta fé assim em si lhe dava ânimo para prosseguir. Uruha saiu do bar, acompanhando os outros dois.

Passaram a um corredor, que havia na direção da porta de entrada. Este era completamente feito por pequenos tijolos marrom-claro, o teto era mais baixo que na outra parte e arredondado formando um arco contínuo. Logo no início existia uma janela de madeira escura, com pouco mais de sessenta centímetros de altura e cinqüenta de largura, ao se aproximarem, Uruha a empurrou para cima revelando uma pequena cozinha toda branca e, felizmente, inteira.

"Todo bar tem petiscos...". Ruki comentou e logo recomeçaram a andar.

O corredor era levemente sinuoso, nas paredes havia algumas lâmpadas caprichosamente embutidas e, logo, chegaram ao fim, já que não era comprido. Saíram em outro corredor, à direita puderam ver os banheiros. Indo para o outro lá, a parede da direita possuía duas portas e a da esquerda, apenas uma, mas essa era larga.

"São os acessos vindo daquela fachada estranha.". Uruha comentou a respeito das duas entradas menores, enquanto passavam por elas indo ao outro portal, logo o transcendendo.

A cena que viram encheu os corações dos três de uma satisfação agradável. O local estava intacto e era belíssimo! Havia um amplo espaço para que as pessoas pudessem circular e dançar, a altura era de pelo menos dois andares, como aparentava do lado de fora, nas paredes laterais, inclusive na que continha a porta pela qual entraram, existiam sacadas que também serviriam como pistas de dança, no entanto, o que mais chamou a atenção dos rapazes foi o palco que havia à direita de onde entraram.

O local tinha o piso um pouco mais alto do que o resto do lugar, cortinas de rubro veludo jaziam abertas deixando ver uma grande tela branca no fundo. Na lateral esquerda do palco se podia ver parte do equipamento de som e holofotes estavam colocados tanto no chão quanto no teto.

Uruha desviou o olhar, guiando-o para o teto do local, surpreendendo-se ao ver uma magnífica pintura de querubins brincando entre nuvens no céu azul-celeste. O que mais chamou a atenção do jovem foi à vivacidade daquela imagem, os olhos das pequenas criaturas pareciam cheios de vida e pureza, os cabelos cacheados pareciam se mover e as faces rosadas eram tão palpáveis! Nem mesmo o lustre simples e alguns outros acessórios de luz e som apartavam a beleza da pintura.

"Muito talentoso o autor dessa obra.". Kai afirmou acompanhando o olhar do outro.

"Sem dúvidas...". Kouyou murmurou, ainda vislumbrado.

"Tira toda aquela má impressão de lá de fora.". Ruki falou, também admirando a figura.

"Ah! Tem uma porta ao lado da entrada do bar. Vamos ver o que tem lá?". Uruha perguntou, lembrando-se do local.

"Sim.". A dupla respondeu em uníssono.

O pequeno grupo voltou pelo caminho que fizeram e logo estavam diante do local indicado pelo mais alto. A porta foi aberta, revelando uma escadaria que descia por um corredor mau iluminado. Havia um interruptor junto à entrada e a luz foi acessa por Kai.

"Vamos lá...". O moreno disse já descendo e os outros foram atrás.

Havia apenas duas portas, uma à direita, outra à esquerda. Os jovens se aproximaram. Takanori e Kouyou abriram uma delas, permitindo que seus olhos percorressem o local, curiosos, enquanto Uke abria a outra, adentrando nos locais rapidamente, saindo praticamente ao mesmo tempo.

"Uru, você está proibido de entrar aqui...". Kai sério, falou, fechando a porta.

"Por quê?". Indagou inocente, sem compreender o amigo.

"É a adega...". Respondeu debochado, mas feliz por saber que não teriam que comprar bebidas para repor o que foi quebrado.

"Seu...". O jovem de madeixas mel disse de forma indignada e irritada.

"Aqui é o depósito.". Ruki falou, rindo da cara do amigo loiro ao mesmo tempo em que apontava para a porta da qual saíra.

"Chato!". Uruha resmungou, cruzando os braços, emburrado.

Kai conteve bravamente uma gargalhada, assim como Ruki.

"E o que tem aí dentro?". O moreno indagou, curioso.

"Muitas coisas. Desde lâmpadas até várias mesas e cadeiras. Parece que meu tio pretendia trocar as que estavam lá em cima, devido à quantidade, não é apenas um reserva.". Ruki disse muitíssimo satisfeito, mal acreditando na sorte que tiveram, seria um investimento a menos que deveriam fazer.

"Nossa, isso é que é sorte!". Kai disse animado.

"O que faremos primeiro?". Uruha indagou descruzando os braços e desfazendo a expressão emburrada.

Ruki apenas olhou para o amigo moreno, como se repetisse à pergunta com o olhar.

"Vamos verificar se o telefone está funcionando, caso esteja, vamos procurar por vidraceiros, as janelas têm que ser reparadas. Enquanto isso, vamos limpar tudo...". O moreno falou sério.

"Então, mãos à obra!". Uruha disse empolgado, enquanto o grupo subia novamente as escadarias.

Rapidamente constataram que o telefone estava em perfeito funcionamento. Enquanto Kai fazia alguns orçamentos, os outros já iniciavam a tarefa de tirar os restos das mesas e cadeiras. Voltando para a pista de dança encontraram uma saída que dava para a ruela ao lado do pub e, tudo o que estava danificado foi sendo jogado no lixo.

O dia passou rapidamente. Naquela mesma tarde, as janelas foram restauradas, as luminárias externas substituídas por outras em perfeito estado que estavam no estoque e as garrafas, cadeiras e mesas destruídas foram retiradas. Apenas uma mesa, com três cadeiras, foram colocadas no lugar, para que os amigos pudessem conversar.

"Tô morto...". Kouyou confessou cansado, largando-se displicentemente sobre uma cadeira.

"Foi um longo dia... E ainda há muito que fazer...". Ruki comentou olhando pela janela refeita.

"Acho que devíamos vender o palacete.". Kai disse sério, de braços cruzados, onde estava sentando.

"Vender?". O pequeno loiro indagou surpreso encarando o moreno.

Uruha também se alarmou, endireitando-se para ver melhor a face do amigo.

"Sim. A mansão é grande demais para nós três, além do que é distante. Com o dinheiro da venda podemos comprar um apartamento menor e um carro.". Informou em tom normal.

"E tem aquela dívida trabalhista...". Uruha lembrou.

"...!". Ruki desviou o olhar para a mesa, analisando a situação.

"Ainda tenho que verificar se realmente teremos que pagar isso, afinal, não éramos os proprietários no período em que essas pessoas trabalhavam aqui, dependendo de como os contratos foram feitos não temos responsabilidade alguma...". Yutaka falou calmo.

"Quando você acha que poderemos reabrir?". Indagou, Takashima.

"Duas semanas, no máximo. Quando voltarmos para casa vou analisar o restante da documentação necessária.". Afirmou ainda sóbrio, o moreno.

"Kai...". Matsumoto chamou, erguendo o olhar.

"Hai?". Respondeu olhando para o jovem de madeixas platinadas.

"... Tem algo naquele palacete, eu não queria vender, não agora. Você acha que é possível continuar com ele?". Ruki perguntou sério.

Um longo e cansado suspiro deixou os pulmões do jovem de negras madeixas.

"Confesso que também gostei de lá e ainda quero descobrir como o seu tio conseguiu comprá-lo... Ahf... Tudo bem, o dinheiro que temos vai dar por um tempo, mas esse negócio vai ter que dá lucro rápido...". Kai afirmou.

"Como assim 'como o tio dele conseguiu comprá-lo'?". Kouyou perguntou estranhando as palavras do amigo.

"Ora, Uru. Um apartamento em um bairro milionário e um palacete daqueles... Por mais que o 'Mausoléu' dê bons ganhos não é o suficiente para tudo isso!". Explicitou o que tinha em mente.

"Como você acha que ele conseguiu?". Quis saber, Ruki.

"Não adianta supor. O melhor que temos a fazer agora é voltar pra casa.". O moreno declarou, já se erguendo.

"Ótima idéia!". Uruha concordou, também se levantando.

"E, no caminho, temos que comprar comida.". O pequeno lembrou depois de se erguer e apagar a luz, já caminhando até a porta onde os amigos se encontravam.

Assim fizeram, compraram mantimentos e retornaram a mansão. Lá se reunirão em um pequeno escritório montado na biblioteca que havia no palacete. Várias atividades foram distribuídas para agilizar a realização delas. Uruha agora estava encarregado da publicidade, teria que criar algo que chamasse a atenção para a re-inauguração. A cargo de Ruki ficou a responsabilidade de pesquisar e selecionar músicas, e Kai resolveria algumas pendências burocráticas.

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Empenhados em suas funções e na resolução de pequenos imprevistos, que surgiram esporadicamente, e várias outras tarefas, o grupo mau via os dias passando, um após o outro trazendo, enfim, à noite da reabertura do pub. Ansiedade e expectativa preenchiam os corações dos três amigos, pois ali eles começariam uma nova vida!

"Chegou a hora...". Ruki murmurou.

O trio estava abraçado, formando um pequeno círculo, todos inclinados para frente.

"Vamos fazer o nosso melhor!". Kai falou empolgado.

"E vamos ter sucesso!". Uruha concluiu.

Logo em seguida, deixaram que suas vozes se unissem em um grito de guerra e, somente então se separaram, cada qual indo para um lugar. Kouyou era o responsável pelo bar, Takanori foi nomeado D.J. e Yutaka controlaria a entrada do público.

O moreno caminhou para a entrada. O acesso ao interior da casa se daria apenas pela entrada mais sombria, pois as três portas remetiam a um único corredor, no qual havia uma espécie de gaiola, onde ficava o caixa, e uma catraca para entrada e outra para saída.

"Vou ficar enjaulado...". Pensou olhando aquele local, reparando na parede do fundo, onde havia sido colocado um cartaz promocional feito por Uruha.

A idéia de uma caveira envolta em uma túnica que lhe cobria todo o corpo portando um sorriso macabro e, entre as mãos, na altura do peito, a face de um homem de barba rala, a princípio lhe assustou, no entanto, tinha que admitir que combinava com o local e com a frase escolhida pelo loiro: 'Mausoléu – Neo Genesis'. Tanto a figura quanto à citação eram brancas sobre superfície negra, a mesma imagem estaria no telão do palco.

As portas foram abertas deixando o ar da noite, a pouco chegada, entrar. A rua estava movimentada, como havia vários pubs na região muitas pessoas circulavam, assim como veículos. O fato das nuvens de chuva terem desaparecido completamente há quase uma semana contribuía para o aumento da movimentação.

Kai voltou a seu lugar, já ouvindo a música sendo tocada lá dentro e esperou... Quase uma hora se passou quando o primeiro grupo de pessoas chegou para o alívio dos sócios que já pensavam que a noite seria um fracasso total. Esse temor foi cada vez mais se mostrando infundado, pois pessoas chegavam a cada instante.

"Divirtam-se!". Yutaka disse sorridente a um grupo que entrava.

"Duas, por favor.". A atenção do moreno foi chamada por uma voz máscula e agradável.

Quando seus olhos escuros se fixaram nas figuras diante de si, não pôde conter um certo espanto, afinal uma delas era um jovem de belas madeixas, loiro-claro, lisas partidas para a esquerda, de franja comprida que cobria o olho esquerdo, mas deixava a mostra o outro e uma mexa em tom chocolate saia da raiz até as pontas dos fios onde o cabelo se dividia. As feições lhe revelavam que se tratava de um conterrâneo, mas o que mais lhe chamou a atenção foi uma estreita faixa que lhe cobria o nariz.

"Será que ele não tem nariz?". Foi a primeira coisa que veio a mente do moreno, porém logo descartou a possibilidade por notar um certo volume sob a bandana.

"Boa noite!". Yutaka disse, reparando no outro rapaz.

Esse também possuía traços nipônicos, dono de uma pele muito clara e cabelos perfeitamente lisos e negros, também partidos para esquerda, ocultando esse olho, os fios estavam levemente armados e um pouco repicados e, nesse jovem, o que mais lhe chamou a atenção foram os lábios carnudos e grandes enfeitados com um piercing preto e moldados por um sorriso discretamente debochado.

"Divirtam-se...". Kai disse, sorrindo ao dois que já entravam, reparando que o loiro parecia emburrado com algo.

Mais algum tempo se passou, várias pessoas entraram e o moreno sabia, a casa estava quase lotada! Esperava que a mesma recebesse um público razoável, mas estava se surpreendendo e isso o deixava satisfeito... E aliviado. Cabisbaixo organizava algumas coisas, fazendo anotações.

"Olá.". Uma melodiosa voz soou chamando a atenção de Uke.

Quando Yutaka ergueu o olhar deparou-se com uma visão que fez um leve estremecimento percorrer seu corpo. Diante de si estava um jovem de face levemente arredondada e delicada, sem perder a masculinidade, os lábios finos e nariz bem desenhado estavam em perfeita harmonia, os olhos, levemente puxados revelando sua origem oriental, eram possuidores de um brilho envolvente. As madeixas eram, predominantemente, negras, mas havia uma mecha loira na divisa dos fios que, em sua maioria, caiam para a esquerda, não muito curtas, de forma que a franja quase chegava aos olhos cor de ébano.

"Oi...". Respondeu um pouco deslumbrado, deixando seu olhar correr pelo resto do corpo daquele jovem...

Ele estava perfeitamente alinhando, vestindo um sobretudo branco impecável de gola acetina preta, a camiseta que havia por baixo também era branca, com alguns detalhes negros, a calça possuía o mesmo negrume com uma fivela na lateral do joelho direito.

"Uma, por favor.". Pediu educadamente sorrindo de modo discreto.

"Ah sim, claro!". Uke voltou a si, balançando negativamente a cabeça e se repreendendo, internamente, por ter sido tão indiscreto ao admirar o rapaz.

"Divirta-se!". Kai disse, abrindo seu melhor sorriso.

"Sim, pelo visto vou mesmo...". O jovem declarou, sibilando as últimas palavras de modo enigmático.

Kai sentiu um arrepio lhe subir pela coluna e continuou a observar o jovem que aparentava ter a mesma idade que a sua e parecia apenas um pouco mais baixo... E olhou-o até que ele sumiu de seu campo de visão.

Mais algumas pessoas entraram, porém ainda estava meio aéreo, há todo momento aquele jovem lhe vinha mente e, sabia, se não estivesse trabalhando, naquele momento estaria investindo tudo o que tinha para conseguir algo com aquele rapaz. Somente voltou a si quando ouviu um certo rebuliço, algumas pessoas que havia saído e algumas que pretendiam entrar começaram a murmurar algumas coisas que não conseguia discernir, porém viu que todas olhavam em uma mesma direção e acompanhou o olhar delas da maneira que pode, erguendo-se até que finalmente um jovem entrou em seu campo visão.

De imediato notou que o homem em questão era alguém descontraído, devido a seu modo de andar e essa impressão apenas se intensificou quando reparou na vestes da figura... Ele usava uma calça lisa social preta, vestia duas camisas de telinha transparente, a primeira sobre a pele não possuía botões, já a segunda sim, sendo que estes estavam abertos até o meio do peito e um blazer, também preto, jazia por cima das peças.

O rapaz já estava muito próximo, somente então pôde notar alguns desenhos no peito do jovem que possuía negras e lisas madeixas, parte delas estavam presas no alto da cabeça, mas a maioria caia livre, quase chegando ao meio das costas, havia também uma franja que caía aos lados dos orbes, sem ocultá-los. Pode ver ainda, no supercilho direito daquele homem, um piercing em formado de argola e, no lábio inferior, no canto direito havia outro brinco, sendo esse em formato de espiral.

"Deve estar na moda...". Kai pensou, se lembrando de que havia visto outro rapaz com um piercing exatamente igual àquele.

"Boa noite!". Yutaka falou sorrindo abertamente.

"Nossa! Com esse sorriso não há como a noite ser ruim!". O recém-chegado declarou se debruçando sobre o estreito balcão, somente não se aproximando mais devido à grade que os separava.

"Fico feliz que pense assim.". Respondeu, um pouco sem graça.

"Uma, por favor...". Pediu educadamente.

"Claro!". Kai disse, reparando na mão esquerda do outro e vendo que nos dedos indicador, médio e anular havia tatuado os números três, oito e dois, respectivamente e, mentalmente, perguntou-se o significado daquilo.

"Adorei suas covinhas...". Comentou o jovem do lado de fora da grade.

"Ah... Obrigado...". Kai sibilou ainda mais inibido, sentindo suas bochechas queimando levemente.

"Dá até vontade de morder, sabia?". Indagou de modo sensual.

Yutaka teve certeza de que suas faces adquiriram um tom mais rubro devido ao aumento do calor que sentiu nelas.

"Divirta-se...". Uke murmurou encabulado e surpreso pela cara-de-pau do outro.

"Se você viesse comigo garanto que íamos nos divertir...". Informou com o olhar fixo na face encantadoramente corada.

"E-Eu... Desculpa, mas...". Tentou argumentar, mas foi interrompido.

"Tudo bem, você está trabalhando. Mas não aceito essa como sendo uma resposta definitiva!". Exclamou se afastando, sorrindo sensualmente.

"...!". Kai suspirou um pouco aliviado.

"Aliás, me chamo Miyavi. Não esqueça!". Pediu, já se afastando um pouco mais.

"Tá...". Murmurou olhando para o moreno até perdê-lo de vista.

"O que foi isso? Como poderia esquecer?". Kai pensou. Tinha que admitir que aquele jovem era muito bonito, possuía um jeito muito sensual, mas ao mesmo tempo era tão... Peculiar e tão diferente de si que tinha dificuldade de imaginar algo entre eles...

Dentro do Mausoléu.

A música soava em tom elevado, o ritmo era sensual e sombrio, a tênue penumbra era rompida por canhões de luz prateada enquanto os corpos se moviam de forma sensual e instigante, roçando-se levemente enquanto o bailar prosseguia. Em alguns cantos casais se tocavam, pescoços eram beijados e expressões de prazer permeavam algumas das faces.

No entanto havia um jovem loiro recostado à parede de braços cruzados portando uma expressão de descontentamento na face à qual mantinha oculta por uma estreita faixa que lhe cobria o nariz e logo olhou para os que dançavam... Entre eles estava o jovem que acompanhava.

O moreno de lábios tentadores movia seu esguio corpo de forma insinuante junto a um belo ruivo de madeixas curtas. Ambos se moviam em sintonia perfeita, os corpos iam e vinham sem realmente se tocaram, um de encontro um ao outro, lânguida e sensualmente enquanto os olhares não se desviavam, gerando uma tensão quase erótica.

"Huf... Exibido...". O loiro praguejou baixinho.

Foi como se o moreno tivesse ouvido, pois, de imediato, ele parou guiando seu negro olhar para o amigo recostado à parede. Murmurou algo ao ouvido do ruivo que fez uma expressão de leve descontentamento e, em seguida, se aproximou do outro, chegando perigosamente próximo, os corpos quase se tocando.

"Qual o problema... Reita?". Indagou ao ouvido do loiro

"O problema é você ter me trazido pra cá!". Exclamou de modo ácido.

"Ah... Rei-chan, ainda está com raiva?". Quis saber o moreno enquanto colava os corpos sensualmente.

"Não faz isso, Aoi...". Reita falou em tom de aviso, colocando as mãos na cintura do jovem que possuía a mesma estatura que a sua.

"Eu já disse para tirar essa faixa. Você sempre fica irritado quando alguém cria alguma tese sobre ela...". Sibilou mordiscando o tecido, próximo ao maxilar, e o puxando levemente.

"Mas não ter nariz é um pouco absurdo, convenhamos!". O loiro falou irritado afastando o outro e cruzando os braços.

"É verdade...". Concordou sorrindo.

"Ahf...". Reita bufou levemente.

"Vamos para o bar, lá é melhor para conversar.". Convidou, Aoi.

"Tudo bem.". Concordou, já se desencostando de onde estava.

A dupla atravessou parte da pista de dança, em pouco tempo alcançando o corredor que levaria onde queriam chegar. Também ali alguns casais se tocavam, trocando beijos sensuais, e rapidamente chegaram ao outro lado do estabelecimento. A música ainda soava alta, porém não em um volume que pudesse abafar os sons de suas vozes. Encontraram uma mesa vaga e se sentaram.

"Você precisa aprender a levar essas coisas na esportiva...". Aoi falou em tom brincalhão.

"Não vem com esse papo, você sabe que não estou irritado por causa disso!" Exclamou levemente exasperado.

"Sei, mas...". O moreno ia argumentar, mas foi interrompido.

"'Mas' nada! Acabei de despertar e acho que devia ter continuado a dormir!". Falou convicto.

"Ah, não fala assim! Eu... Uau!!!". Aoi pretendia dizer algo, porém seu raciocínio foi completamente rompido quando seus olhos se fixaram em um jovem.

"...?!?". Reita estranhou o repentino silêncio do companheiro e acompanhou seu olhar até visualizar o que desejava.

Em meio às mesas, em pé e com uma bandeja na mão direita, estava um jovem de madeixas mel, vestido completamente de preto com um sobretudo indo pouco abaixo dos joelhos, completamente feito em tecido de vinil verniz possuidor de um zíper na frente, fechado até um pouco acima do meio do peito. Por um momento pareceu que o jovem usava uma calça comprida, de mesmo tecido, no entanto, quando ele se moveu, aberturas na frente, atrás e nas laterais da veste superior revelaram que as pernas da calça iam até o início das coxas, apenas, depois essas se revelavam nuas até chegarem a um curto short de mesmo brilhante e enegrecido tecido.

Em um rompante Aoi se ergueu, sem desviar o olhar nem por um momento sequer.

"Hei! O que vai fazer?". Reita indagou, sobressaltado, voltando a encarar o moreno.

"Reita, meu caro... Você me conhece melhor do que qualquer um. Deveria saber...". Respondeu deixando seus lábios carnudos se curvarem em um sorriso malicioso.

O loiro apenas balançou negativamente a cabeça.

"... Sou com um gato! Quando encontro algo que valha a pena... Humm... Adoro brincar com minha comida...". Sibilou de modo provocante, começando a caminhar em direção a seu alvo...

Continua...

oooOOOooo

Nota da Autora:

Enfim, o segundo capítulo. O que acharam? No próximo os vampiros vão iniciar, efetivamente, suas investidas contra os humanos indefesos... Rsrsrs.

Uma coisa que gostaria de esclarecer é peguei o visual de épocas diferentes de nossos lindos, por exemplo: O Reita está com o visual da época de 'Reila', já Ruki e Uruha com o visual atual, 'Burial Applicant'. Vou colocar algumas imagens aqui para ficar mais fácil...

http // img. photobucket .com /albums/v238/Aikohosokawa/Gazette-Reita69.jpg - Aliás, ainda não descrevia, mas o Reita está com essa roupa no momento, na fic.

http // img. photobucket .com/albums/v238/Aikohosokawa/Gazette-Aoi18.jpg - O Aoi também está com essa roupa.

http :// img. photobucket. com/albums/v238/Aikohosokawa/Gazette-Kai14.jpg - Não ele não está com essa roupa, e sim com a Burial

http :// img. photobucket. com/albums/v238/Aikohosokawa/Gazette-Uruha139.jpg - Tentei descrevê-lo assim...

http :// img. photobucket. com/albums/v238/Aikohosokawa/Gazette-Ruki122.jpg - Ele está assim, mas vou mostrar só no próximo capítulo.
http :// img. photobucket. com/albums/v238/Aikohosokawa/AliceNine-Nao02.jpg - O Nao não muda, drasticamente...
http :// img. photobucket. com/albums/v238/Aikohosokawa/Miyavi17.jpg - Sem comentários...
Gostaram das escolhas?

Gostaria de agradecer especialmente a Dark Wolf, Bella Potter Malfoy, Yuuki Nate Kurosaki River, Kitty Suzuki-chan, Prixy, Ana Sparrow, May 31, Nate, Kaori, Duh, Gloomy, Tâmara, Yuu, Cássia, Reita, Bárbara-chan, Bê, Verônica, Saga, Harlequin Girl e Snake-fromhell (Eu procurei o teu nome, mas só encontrei o do teu live Journal...). Cada um de seus comentários serviu de apoio e incentivo enquanto eu escrevia esse capítulo. Valeu mesmo!

Aiko Hosokawa,

Belo Horizonte, 07/10/07 03:29 P.M.