Contingente
Era assim, mas não era.
Só gostaria de ir para casa nesse momento. Embora ver seu sorriso todas as tardes fosse um alívio da realidade, este hábito estava consumindo minha sanidade, dia após dia, doce após doce, a cada gole de chá, a cada lembrança do passado. Não era culpa de ninguém, Jacob nasceu Non-Magi, era inviável manter suas lembranças após o acidente de Newt no MACUSA, mas vê-lo ali, à minha espera, partia os últimos fragmentos do meu, agora, pequeno coração. Seria também pouco responsável mantê-lo ao meu lado, quando o nosso mundo colapsava lentamente no maior caos. Mas tornava-se também cada vez mais difícil não sorrir naturalmente.
Ao deixar o Departamento de Permissão Para o Uso de Varinhas, passei pela banca de jornal, como era hábito, antes de entrar na padaria, sorrir e pedir os costumeiros docinhos azuis. Era inegável que ele ainda mantinha recordações dos animais da maleta, todos os produtos da loja eram uma referências a esses sonhos seus, que por um acaso, por uma fração de segundos, foi a nossa história juntos, contra um mundo inteiro. A infusão também ajudava a deglutir todo o açúcar, a manter a rotina, a manter um olhar sobre Jacob, ter certeza que ele estava bem, manter sua mente ocupada, por assim dizer.
Provavelmente eu seria só mais uma cliente para ele, no meio de Nova Iorque inteira. Passei meses observando Non-Magis antes de realmente começar a visitar a padaria. A maioria deles levava consigo casacos e guarda-chuvas, que na maior parte das vezes não usavam, além de um jornal embaixo do cotovelo. Era usual que frequentassem as mesmas lojas, aos mesmos horários, com o mesmo pedido todos os dias, com um esquema de cores planejado, seguindo pelo mesmo caminho. Pareciam sorrir sempre, sem grandes motivos, agradecer e se curvar ligeiramente em sinal de respeito, corar, além dos mesmos diálogos, todas as vezes, olá, por favor, obrigada. E Jacob parecia gostar disso.
E talvez eu também tivesse aprendido a gostar desse hábito. Era agradável saber prever a meia hora que passaria ali, todas as tardes. Era muito agradável vê-lo sorrir e me deixar levar por esse fluxo de ordem e regularidade. Jacob tornava-se lentamente uma pequena obsessão quotidiana. Era, na realidade, o único momento em que eu conseguia me permitir ser quem realmente era. Era inebriante, a sua companhia, embora extremamente sutil, ele provavelmente não me notaria de qualquer forma, não era o tipo de pessoa que se prende aos detalhes. Era exatamente essa a ideia, passar despercebida por seu dia-a-dia, mais uma em sua rotina, só para ter certeza que estava bem.
E assim correu mais um dia. Ao deixar a padaria, ortodoxamente em direção à floricultura, vesti o casaco, escorreguei minhas mãos dentro das luvas, prendi o chapéu na cabeça, enfrentei o vento de Outubro que começava a ser frio, ignorei o pavimento irregular da calçada e o desviar das pessoas que caminhavam apressadas. Virei à direita, como tinha que ser, para não ser notada. Desaparatei para meu apartamento imediatamente em seguida.
Ou pelo menos pensei ter desaparatado. Na realidade nada tinha acontecido, continuava parada na rua menos afolada, à direita da avenida principal. Ainda rodeada por vestidos longos e cães, carros barulhentos, coisas estranhas que os Non-Magi mantinham e faziam. Tentei repetir o aceno da varinha, tentei desaparecer novamente, e nada aconteceu. Repeti o floreio da varinha mais algumas vezes, as pessoas começavam a olhar curiosamente para mim. Não era possível que minha varinha tivesse sido danificada, é sempre tida comigo, bem aparada dos encontrões, dos poluentes, de toda a toxicidade da cidade. E então o céu tornou-se negro como nunca tinha visto antes. Retornei correndo para a padaria.
Assim sendo, não era assim, mas o era, na realidade.
