Quando O Coração Guia
2. Deixe Uma Cicatriz.
-Já não está na hora de chamar a polícia? Já faz horas...
-Shura, se acalma, meu irmão jamais nos abandonaria. – Olhou ao mais velho, incomodado com a impaciência dele.
-Vou esperar mais uma hora, do contrário... – Foi até a janela, notando a chuva que caía. –Ainda por cima chove, e ele não saiu de guarda-chuva... – Aiolia foi até ele e o trouxe ao sofá, para sentar-se consigo.
-Aiolos vai aparecer... – Tranquilizou o capricorniano, de semblante fechado. –Acho... Que se fosse você com ele, não estaríamos passando por isso agora...
-Estou lisonjeado em ouvir isso... De certa forma, mas nós não prevemos acidentes não é mesmo...? – A divagação fez ambos se fecharem em pensamentos.
-Tenho medo de perder o Aiolos para um destino assim. Quando eu era mais novo, tinha medo de que ele se tornasse adulto e... Se fosse cedo... Mas a gente cresce e vê que poderia ir primeiro que ele.
-Não diga uma coisa dessas, Aiolia. – Ainda de semblante fechado, olhou para o dele, entristecido.
-É inevitável pensar nesse assunto, pelo que aconteceu. O namorado do Aiolos estava todo feliz e saudável há uma semana, quando sofreu um acidente de moto, ficou praticamente uma semana vegetando, para o coração parar. – Olhou o moreno ao seu lado. –O que me dói, é que se não bastasse esse fim, o relacionamento dele com o meu irmão foi todo conturbado. – Desviou o olhar, ressentido pelas lembranças. –Preconceito cretino.
-Ignorância das pessoas é completamente decepcionante, Aiolia.
-Você sabe que eu não gosto de você. – O olhou por um momento, sério. –Mas não sou idiota de não admitir que você seja o melhor para ele. Aiolos sabe do que sente, não é? E eu não gostava desse cara... Para satisfazer a família, ele tinha que ser hetero, enquanto o Aiolos sofria se sentido traído, e com a sensação de que não era amado. Ele era um filho da puta com o meu irmão. – Acabou por se levantar, e Shura o olhou com censura, mas concordava com as palavras dele.
-O destino não me achou o melhor para o Aiolos. Mas não é falta de tentar, há pelo menos dez anos. E eu via como ele era tratado... Algumas vezes eu briguei com o seu irmão, ao falar verdades e ele não quis escutar...
-Não, até agora, deve pensar assim. Nada é à toa, Shura... Eu acred- - Interrompeu a si mesmo ao escutar a campainha. No instante seguinte, já abria a porta. –Maninho! – Um sorriso aberto surgiu no rosto de ambos que o esperavam, porém, no rosto de Aiolos, não havia brilho, apenas dor.
-... Desculpa não avisar onde estava, eu...
-Aiolos, esquece. Porque não toma um banho e deita? Farei um chá para você.
-Sim, irmãozinho! – Não tirava os olhos do loiro mais velho, que não fitava nenhum dos dois.
Adentrou a casa, molhado. Desfez de seu casaco, enquanto Aiolia se afastava e ia até o banheiro mais próximo com uma toalha de banho em mãos. Shura tocou no rosto do sagitariano com ambas as mãos, em uma tentativa de secar as lágrimas e a chuva que havia molhado seu rosto. Olhava-o preocupado, para se afastar e observar o leonino lhe ajudar a secar-se superficialmente.
-Leva ele para o banheiro, farei o chá.
-Ok. – Por um momento observou Shura se afastar, então guiou seu irmão para o banho.
Deitado, puxou o cobertor para cobrir-se. Sentia frio e tristeza, por mais que tentasse lutar contra aqueles sentimentos. Shura sentou-se à beirada, ao seu lado, com uma pequena bandeja com o chá relaxante para o amigo. – Toma um gole. – Com a mão que não segurava a xícara, levou ao rosto dele, acariciando com as costas das mãos. Preocupava-se com o silêncio incessante do amado, e com sua situação. O viu sorrir com um ínfimo de ternura pela carícia e então fungar, e por fim, tocar por cima de sua mão. Shura sorriu, não esperava por aquela atitude.
Aiolia chegou por trás, silenciosamente, e aquela cena lhe fez fechar o semblante. Sentia muito ciúme de seu irmão mais velho. Mas quando Aiolos o notou ali, trocaram um sorriso e o capricorniano cessou a carícia. Ambos assistiram o loiro se erguer um pouco para tomar a xícara entre as mãos, assoprando discretamente para poder experimentar a bebida quente.
-Obrigado... – Falou entre uma das assopradas, oscilando o olhar entre o amigo e o irmão.
-Não assusta a gente novamente. – Ainda havia preocupação no olhar de Shura. –Você precisa descansar.
-Avisaram quando e onde será o enterro? Mesmo sabendo que não serei convidado...?
Os outros dois se entreolharam em dor, até que Aiolia quebrou o silêncio de resposta.
-Nós... Não sabemos. Saí em seguida de você.
-E desculpa por não tê-lo trazido para casa, eu...
-Aiolos, esquece. É difícil o que aconteceu hoje, é recente, mas tenta descansar um pouco, amanhã conversamos sobre isso. – Aiolia foi até o outro lado da cama, ajoelhando-se e trazendo um pouco do cobertor para si.
-Você... Vai trabalhar, ainda? – Assim que perguntou sua mão já segurava a blusa do capricorniano, impedindo-o de se mover dali.
-Quer que eu vá?
-Fica...? – Shura respondeu com um sorriso, e Aiolia revirou os olhos, irritando-se com o açúcar daquele momento.
Ao fim do chá, Aiolos tornou a se deitar, Aiolia fez o mesmo, abraçando o irmão por trás e fechando os olhos. Shura acariciava suavemente a perna do amigo por cima do cobertor, enquanto os cobria melhor.
Chegou a assistir ambos adormecerem, e aos poucos, também sentiu sono, mas ainda relutou, para então se deitar na cama, sem se importar com a falta de espaço à frente do amado, enquanto trouxe um braço seu para circundar seu corpo e então adormecer também.
x-x-x
-Sabe, estou feliz de ver você um pouco mais animado. – Colocou as mãos nos bolsos do casaco, e se virou para ele. Fitava o amigo com ternura.
-Ainda dói. – O olhou de forma com certa tristeza. –Mas estou tentando superar, eu juro. – Respondeu, com um sorriso travesso.
-Aiolos... Chamei você para darmos uma voltar, porque estou precisando conversar com você.
-Pode falar. – Mordeu o lábio inferior, desviando o olhar, em um semblante pensativo e curioso.
-Talvez... Não seja o momento... Mas se eu não o fizer... Posso de alguma forma, me arrepender. – Aiolos corou, pois acreditava já saber qual seria o gênero da conversa, mas permaneceu dando-lhe atenção. Ambos trocavam um olhar, que Shura poderia dar a certeza de que era apaixonado. –Sei o quanto a situação é recente e dolorosa, mas... – Fez uma pausa, pensando em como continuar.
-Shura... – Interrompeu o moreno. –Fala de uma vez... Preciso ouvir. –Houve tristeza em seu semblante. Mas dessa vez em um misto de arrependimento.
-Quero que não exista apenas amizade entre nós. Dou-lhe o tempo que quiser para pensar, mas... – Desviou um pouco o olhar sem jeito de como continuar, já que não era a primeira vez que fazia aquele discurso romântico e as batidas do seu coração eram a cada segundo mais intensas.
-É muito tarde eu dizer que quero fazer parte da sua vida? –Novamente interrompeu o capricorniano. Sabia que ele já havia sofrido com essa conversa antes, e sabia o quanto tinha culpa nisso, mas, independente dos acontecimentos, seus sentimentos eram recíproco.
-Aguardo ouvir isso há tanto tempo.
-Quero que me perdoe por isso, se fosse possível. Meu coração saltou sempre quando eu estive perto de você, mas achei que poderia lhe perder por ser tão atirado e pensar com o coração apenas. E quando me disse o que sentia por mim...
-Você estava com outra pessoa... Talvez eu tenha errado por admitir tão tarde. Mas tive dúvidas de que não sentisse o mesmo, apesar de todo o seu carinho.
-Sempre me curando, não é, Shura? – Seu tom foi sério, convicto, porém amoroso.
-Porque eu te amo, faria tudo para vê-lo feliz. – Sorriu apaixonado e deu um passo próximo à ele.
-Eu também, faria tudo para vê-lo sorrir. Mas... Neste momento, eu estou infeliz. Muito.
-O que quer que eu faça meu amor? – Chamá-lo daquela forma fez o sagitariano corar, tornando a olhá-lo, com brilho.
-Me abraça? – Em resposta ao pedido, o moreno envolveu seu amor entre seus braços. Aiolos escondeu o rosto entre o pescoço e o ombro do espanhol, abraçando-lhe pela cintura, fortemente, enquanto suas mãos o seguravam na roupa.
Afastou em poucos centímetros o rosto para observar a expressão de Shura, que aproximou o seu também. –Eu te amo, Shu. – Continuou, quando no momento seguinte às suas palavras os lábios de ambos se encontraram.
