Nota da autora: Eu esperava poder postar um capítulo por dia, mas ontem não consegui cumprir porque, quando comecei a revisar, demorou mais do que o previsto. Precisei mexer muito na estrutura deste capítulo e do próximo e fazer algumas mudanças agressivas, puxando dali e encaixando aqui — pelo bem maior. Espero que gostem!


Conforme o enorme destróier desacelerava e entrava na órbita de Bespin, Kylo se colocou na frente da janela que tomava uma parede inteira do corredor estéril. Sob um brilho cinza enevoado, manteve-se imóvel ao som de passos leves, quase furtivos, em sua direção. Seguiu-se um pigarro insolente e o bater de botas.

— O que é? — exigiu saber Kylo, extenuado, sem se virar. Reprimiu a vontade de revirar os olhos em recriminação à sua presunção.

— Aproximação realizada com sucesso — informou-lhe Armitage Hux, parando à sua direita. Nenhum stormstrooper o acompanhava.

— Muito bem — disse Kylo. — Relatório?

— Batedores e droides espiões serão enviados à Cidade das Nuvens para rastrear o delator que nos contatou a respeito dos Rebeldes. A sua última posição conhecida foi nas imediações, há dois dias. Ainda assim, suponho que... as suas suspeitas...

— Obrigado, General Hux — interrompeu Kylo, aprumando-se quando um espasmo ansioso o invadiu.

Na sua presença, lutava para sustentar a expressão inescrutável e a pose imperturbável.

— Qual o seu comando, Supremo Líder? — indagou Hux, a voz rouca já permeada de deboche. Ele se aproximou um pouco, apenas o suficiente para que a sua respiração atingisse a pele nua de Kylo, arrepiando-a. — Quer que...?

— Mais tarde — rosnou Kylo, girando para encará-lo com ímpeto.

Assomava sobre Hux, cujo sorriso lascivo somente se alargou, ciente da influência precária do outro sobre todos ali e da chantagem do conhecimento. As garras do traidor flagrado não se atreveriam a acariciar a sua mente, embora pudessem tocá-lo onde quisesse.

— Isso é tudo — concluiu, à guisa de despedida.

Hux se calou, assentiu obedientemente com a cabeça e se pôs a se afastar dele, a postura travada e impecável, as mãos entrelaçadas às costas. Nenhum fio solto do cabelo ruivo voou. Tão logo a sua sombra desapareceu na curva do setor de observação, Kylo soltou o fôlego que mal percebera que tinha prendido e refez o caminho rumo ao quarto, onde se exilou até a tarde cair.

Desabou na poltrona de canto, atento à ferocidade dos esforços em conter a frustração da saudade e a tristeza latente, a vergonha e a culpa. Como as cartas de jogatina de Canto Bight, os lampejos de fracasso se sobrepunham sob suas pálpebras: as estratégias desastrosas, o horizonte obscuro e as pistas falsas que despistavam as tropas, a fagulha das primeiras insurgências nos principais sistemas. Ao menos, a sofreguidão do desejo escoaria. Um curto alívio, pensou.

O estrondo alto de trovões combinados reverberou, retumbante, pelo quarto. Uma tormenta devia estar para chegar à cidade flutuante.

Kylo tornou a ver Rey dar um passo para longe da Millennium Falcon, escapando do abrigo seco da nave achatada e do ardor da fogueira para apreciar a tempestade, sem temer a sua fúria e revolta. Mesmo a lua era uma suposição, sem haver como buscar o seu brilho.

Em repetição, os relâmpagos tremulavam e chamuscavam o mundo visível. Antes de caírem, os raios mordiam as nuvens, estendendo-se como num espreguiçar. As suas bordas serrilhadas rasgavam o ar, cambiantes, e a luz dançava em torno de Rey, a energia crepitante no ar.

Ela fitava as ondas encapeladas do mar volumoso, o corte da espuma prateada, a escuridão das rochas quebradas. As poucas flores, sempre secas e fenecendo lá em Jakku, ali eram regadas impiedosamente. As gotas gordas transbordavam das folhas, arrebentando com pequenas explosões, vazando pelos caules, enfim bebidas pelas raízes. A terra escondida encharcava. O vento rodopiava e valsava, invadindo as cavernas como faria com convidadas em alcovas do salão de baile, revolvendo a poeira negra e as lascas de pedras. A tempestade atingia a Força dentro deles e em tudo à sua volta, avivando-os.

A tensão de relembrar o fez sentir o repuxar da cicatriz que lhe atravessava o olho direito, de modo que ele tocou o rosto dividido.

Ben.

— Rey — murmurou ele em resposta ao eco, a língua enrolando em torno de seu nome.

Para ela, ele era apenas Ben, sem máscara nem legado. Tornou-se confidente, reflexo, sombra, igual.

A cada conversa na ilha sagrada em Ahch-To, olhou-a com paciência e entendimento, à espera. Embora não fosse abnegado e virtuoso, permitiu que Rey desabafasse para ele, perguntasse e aceitasse as verdades cruéis de seu passado, uma vez limpa a ilusão de querer os pais em favor da necessidade da sensação de pertencimento.

Dissera que ela não estava mais sozinha porque ele estava ali agora. E Ben também não estava mais sozinho.

Encontrara empatia nela. Teve de sentir a plenitude da raiva e do medo para começar a aprender a controlá-los e a infligir os extremos, mas a usual dificuldade em subjugar esses sentimentos foi apagada por Rey, que o deixava centrado, em equilíbrio.

As preocupações e dúvidas se cruzavam sob o desejo de se apoiar no outro e descansar, vulnerável, mas seguro. Ben e Rey viviam o apelo da sensibilidade e da compreensão mútua, a carência indomável e a ansiedade em procurar acolhimento numa figura paterna, a solidão e o medo persistente de rejeição e abandono, a própria força escondida.

Kylo se descontrolara só quando soube que era sua a culpa por estar prestes a perdê-la. Ainda assim, deixou-a ir, ajoelhado, implorando-lhe com os olhos brilhantes até que, como Han, Rey fechou a porta da Millennium Falcon e se desvencilhou dele, para longe.

O isolamento puxava a Força, que os aproximava, querendo ou não. Ele só conseguia ver Rey porque ela conseguia vê-lo, borrões no clarão turvo da galáxia em guerra. Desde então, nenhum deles se arriscou a articular palavras um para o outro, ambos sob a sombra gentil da verdade, mas temerosos demais para reivindicá-la ao sair à luz intensa.

Tantas inseguranças se acumulavam, confundindo Kylo como a selvageria da tempestade lá fora. Se o período introspectivo se arrastasse muito, ele ficaria preso, congelado na sucessão de incertezas entre decisões ainda não tomadas e as possibilidades invocadas.