Capitulo Dois: Melodia.
Ao lado da outra permaneceram assim até o céu ser tingido por tons pastel de laranja e vermelho. Os pássaros voavam a fim de encontrar um abrigo para a noite que estava por vir e então Yumi olhou para baixo. Em seu colo Sachiko dormia, parecendo tão frágil quanto o mais fino cristal. Os dedos da garota percorreram os cabelos azulados, sentindo como se tocasse a mais fina seda, sorriu. Curvando-se lentamente depositou um beijo no canto dos lábios de sua Onee-sama, corando em contrapartida.
- Yumi?
- Você adormeceu Onee-sama. – comentou com um pequeno sorriso.
Ao levantar de Sachiko Yumi sentiu como se sua outra metade lhe fosse tirada repentinamente. Era engraçado como o tempo passava absurdamente rápido quando estava com aquela mulher. A mão suave se estendeu em frente a seus olhos, Yumi a aceitou de bom grado e ao pequeno puxão, corou furtivamente ao lembrar-se de Sei-sama.
Estavam sentadas a beira de um lago apenas ela e Sei. Não era fácil esquivar-se de Rosa Gigantea, então as duas estavam tendo o tão sonhado encontro, mas Yumi queria que ali estivesse outra pessoa.
- Yumi-chan? Yumi-chan?
- Hã?
- Está sonhando acordada Yumi-chan? – a mulher loira sorriu abertamente como sempre fazia, oferecendo-lhe a mão para ajudá-la a levantar-se. – Eu posso realizar alguns destes sonhos?
Corada Yumi aceitou a mão estendia, e em um puxão repentino viu seu corpo colado com o de Sei-sama. A loira ria, seus lábios roçando de leve os de Yumi. Imoral, Impróprio. A garota se afastou como um animal acuado. Satou Sei era altamente perigosa.
- Tudo bem Yumi? – Sachiko parecia preocupada com a coloração verde-amarelada que Yumi assumira.
- T-Tudo bem sim Onee-sama, tudo bem... – E o constrangimento tingiu de vermelho as maças do rosto de Yumi quando sua barriga soltou um muito audível ronco.
O riso leve de Sachiko preencheu o local, dissipando qualquer sentimento contraditório, sobrando apenas a estóica admiração. Caminhavam então no mais profundo silencio, deixando que o gorjear dos pássaros preenchessem de melodia pura as lacunas deixadas pela ausência de palavras. Fato era que em posse de total admiração, seres humanos sendo suscetíveis a falhas permanecem em sacro silencio incomodo e constrangedor de almas amantes.
A visão das melenas negro-azuladas a agitar-se de um lado ao outro era hipnotizante, e tamanha era a devoção do olhar de Yumi que mesmo quando a morena a sua frente já não estava mais de costas a ela, a jovem continuava a suspirar resignada ao ardor de um coração em pleno florescer.
- Tudo bem Yumi, estou começando a me preocupar com você!
Arrancada se seu devaneio impertinente Yumi corou mais uma vez, estava fazendo disto um hábito, levou a mão até o rosto e tocou seu nariz sorrindo.
- Sachiko Onee-sama, eu estou apenas feliz.
- Por hora aceitarei esta desculpa, agora mãos a obra que temos que preparar algo se realmente quisermos nos alimentar.
Dizer que estavam cozinhando seria totalmente ilusório dado ao simples fato de que não o estavam fazendo. Depois de tentar por inúmeras vezes e deixar a cozinha em um estado quase deplorável decidiram-se por utilizar de meios modernos e discar para o primeiro delivery que encontrassem na lista telefônica.
- Pizza ou sushi? – Indagou Yumi perto do telefone.
Sachiko ponderou durante um breve instante e decidindo pelo estomago de Yumi que novamente se pusera a protestar a falta de alimento, que Sushi seria preparado muito mais rapidamente do que uma Pizza de anchovas.
- Sushi! – ela disse sorrindo. – Vou me lavar enquanto esperamos.
Yumi assentiu discando o numero e fazendo o pedido a atendente simpática do outro lado da linha, e foi então que se lembrou, não sabia onde estavam. Pediu educadamente a atendente que esperasse do outro lado da linha para que fosse até sua Onee-sama perguntar o endereço dali.
Bateu a porta do banheiro, porém não obteve resposta alguma, repetiu o gesto, batendo novamente com as falanges. Nada. A curiosidade humana sobrepondo-se a ética e aos bons costumes. Yumi girou a maçaneta da porta e encontrou Sachiko submersa na banheira coberta por uma espessa camada de espuma.
- Sumimasen...
- Sachiko abriu os olhos e corou um pouco ao ver Yumi ali.
- Precisa de alguma coisa?
- Er... E-eu, bem, é que... É... Err...
- Yumi, está se enrolado.
- Gomem, endereço... Preciso eu... – ela disse desconexamente fazendo Sachiko rir.
- Na gaveta do móvel do telefone tem algumas cartas, procure o endereço do destinatário!
Yumi saiu como um pé de vento, corada até a raiz dos cabelos. Ao terminar de fazer o pedido já estava mais calma e as imagens em sua mente colocavam um novo tom avermelhado em seu rosto. Ficou sentada ali, até que Sachiko apareceu na sala, vestida com uma yukata leve e florida, os cabelos ainda úmidos.
- Tudo bem Yumi-chan, pode ir lavar-se agora... A propósito, a tranca da porta está com defeito.
Ao comentário Yumi corou mais e saiu novamente desculpando-se com sua Onee-sama. Então, sentada na banheira com a água quente circundando seu corpo foi que Yumi percebeu, estava realmente sozinha com Sachiko ali e mesmo a intromissão dela em um ato tão intimo quanto o banho, sua Onee-sama não demonstrou nenhum tipo de perturbação.
Terminou seu banho e encontrou delicadamente dobrada sobre o sanitário, uma yukata verde claro com as mangas e a barra em um tom ligeiramente mais escuro. Sorriu feliz ao vestir-se. Ouviu então a campainha e agradeceu a rapidez da entrega. Desceu as escadas do segundo patamar com um enorme sorriso no rosto e ao abrir a porta ela a viu, seu anjo particular, sentada sobre os próprios pés enquanto colocava a mesa. A morena parou e seu sorriso irradiante preencheu as fendas obscuras do pequeno coração de Yumi. Haveria algum ser em sã consciência que não se renderia aos doces encantos daquela mulher?
- Yumi-chan, venha.
Após o pequeno banquete, Yumi recostou a janela, sentindo o vento frio percorrer seu rosto. Ali no meio do 'nada' era apenas elas duas, ninguém para atrapalhar somente elas. E era isso mesmo que bastava. A melodia fina de um piano preencheu o ar com notas rápidas e graves, uma música singular, que levava qualquer um a sorrir. Olhou para trás e viu sua bela dama sentada a um piano de cauda, acariciando cada tecla como se quisesse fazer amor com elas. E o piano respondia as caricias com aquela belíssima música que deixaria qualquer Bach, Beethoven ou Mozart em um estado de puro torpor.
Irresistivelmente bela e sedutora. Yumi não tinha mais argumentos para lutar com o que vinha sentindo, e Sachiko ao mesmo tempo em que era mulher fina e requintada, era uma pequena garotinha que precisava de cuidados. Os olhos expressavam perfeitamente sua alma, bastava apenas alguém, com uma alma equiparada para ler. Sachiko necessitava de atenção em tempo integral, e Yumi fazia o que podia para não negligenciá-la. Era Amor. No mais puro e fiel sentido da palavra. Era o sentimento que induzia aproximar-se cada vez mais, proteger e conservar aquele delicado ser, e era o intenso sentimento de atração, como cargas opostas que se atraem. Também era a paixão certa e irrevogável como leis da física.
Sachiko tocava com sua alma, delicadamente da mesma maneira que sonhava tocar o corpo de sua Yumi. Sim sua. Ela era possessiva demais para se permitir dizer de outra maneira. Pretendia dizer isto a ela, mas temia demais a rejeição. Não haveria maior mal no mundo do que não ter sua sempre tão doce Yumi. Olhava para o corpo relaxado que descansava na janela, deliciando-se na melodia leve do piano.
Desejava uma a outra daquela forma amante e mesmo assim escondiam-se sob a vergonha e medo. Se pudessem ver, conhecer o quanto a outra sentia, não esperariam mais tempo nenhum, porque o tempo dos amantes é extremamente curto, por mais tempo que se passem juntos. Todo o tempo o mundo não seria nada.
O ritmo diminuía conforme a musica chegava ao seu fim, e com uma ultima nota as duas se olharam. Cúmplices, os sentimentos expostos sem o menor dos pudores. Entenderam naquele momento tudo o que estava escondido, não havia ali espaços para medo vergonha, era tempo de se arriscar.
Não souberam identificar quem se aproximara, sendo que a volúpia levara as duas a moverem-se, encontrando-se na escuridão das almas perdidas, gerando a luz que as guiaria eternamente para o amor. As mãos tocaram-se calmas tímidas demais, os olhos não se desgrudavam e palavras não cabiam ali. Os rostos estavam próximos, apenas as respirações descompassadas lhes separada e em um simples pestanejar, os lábios se uniram como o toque singelo de uma borboleta na flor. E a tormenta veio trazendo o desejo reprimido, transformando em um beijo sôfrego e cheio de significados. As línguas em uma sintonia inescrupulosa tocavam-se como somente os amantes sabem, retirando o fôlego uma da outra. E quão bom era ser beijada pela pessoa que se ama. O beijo tornou-se terno e tranquilamente se separaram com sorrisos estampando as faces rubras. Elas sabiam, o Eu te amo subentendido no olhar.
N/A: Eu agradeço a BlackSakuyamon que me deixou mais inspirada a continuar a escrever!
Obrigada!
