N/A: Como prometi, toda sexta-feira!
Capítulo 2 - O que estou fazendo?
Os raios de sol entraram pelas frestas das cortinas que foram fechadas de qualquer jeito. Joan não se mexeu, não havia dormido um único minuto. Os pensamentos a atormentaram por horas sem fim, relembrando-a de cada palavra, cada olhar, cada lágrima que deixou escapar. Não queria pensar naquilo, não queria imaginar como seria se tivesse revelado o que sentia. Não. Era um erro dizer qualquer coisa do tipo. Era uma verdade que a acertou de uma só vez, como se tudo tivesse trancado em sua mente, acumulando-se durante meses e então tudo explodiu. Com meras e singelas palavras... tudo explodiu. Inundando-a com um sentimento certo para a pessoa errada.
― Idiota...
Precisava ter total certeza do que sentia pelo singular Sherlock Holmes, só assim saberia o que fazer, como ignorar tudo isso. Com esse pensamento afastou as cobertas e se levantou.
Não tardou a se arrumar. Não havia nenhuma mensagem, nem ligação.
― Tudo bem Joan, ainda é muito cedo.
O silêncio e a falta de certas características em sua casa a incomodou. Não havia os passos de Sherlock, nem seu cheiro impregnado na casa ou nenhum sinal de suas experiências. Não havia papéis sobre o caso no chão e nenhum livro que a fizesse pensar nele. Não haveria mais nada disso.
Já estava sentindo falta dele.
― Watson! Ainda bem que veio ― saudou Kitty sorridente ao abrir a porta.
― Ele está? ― perguntou hesitante.
― Não, saiu cedo com a desculpa de que precisava resolver alguns problemas.
Joan foçou um sorriso e entrou, colocando uma enorme quantidade de sacolas sobre o sofá.
― Fazendo compras logo de manhã? ― Kitty questionou ao ver a enorme quantidade de sacolas.
― Sim, preciso de comida. Meu carro está com problema, então tive que ir andando. Não é muito longe, mas eu precisava passar aqui antes.
― Ainda bem que veio, minha viagem foi remarcada para daqui a duas horas e eu preciso de ajuda com as malas.
― Já? Eu ajudo, claro ― Joan concordou seguindo a jovem até o quarto
― Como você está? ― Kitty perguntou retirando as últimas roupas do seu closet e jogando sobre a cama.
― Preciso ser sincera. Não foi uma noite muito boa.
― Não dormiu também?
― Também?
― Acho que Sherlock também não dormiu, ficou lá embaixo a noite toda.
Joan suspirou. Estava sendo mais difícil do que imaginou.
― Eu tentei conversar com ele ― declarou colocando algumas roupas dentro da mala de Kitty ― Ele foi bem... sincero. Mas eu não pude mudar minha decisão, não agora.
― Aconteceu algo entre vocês?
― Aconteceu tanta coisa... mas acho que só eu percebi isso.
Kitty sorriu, tudo estava bem claro para ela agora:
― Desde quando?
― O quê? ― Joan questionou confusa.
― Desde quando está apaixonada por ele?
Joan paralisou. Ali estava de novo, aquela palavra. Apaixonada.
― Não tenho certeza se o que eu sinto é paixão ― declarou incerta.
Kitty arregalou os olhos com o que ouviu.
― Então está mesma apaixonada por ele! Meu Deus!
― Ei, silêncio! ― a consultora protestou ― Ninguém mais pode ouvir isso.
A jovem continuou sorrindo de orelha a orelha, sem conseguir se conter.
― Eu não acredito. Finalmente alguém vai dar algum brilho na vida de Holmes!
Ela queria dizer que não era bem assim, não tão fácil. Mas então como era?
― Por favor, não conte nada a ninguém.
― Mas...
― Kitty! Ainda está em casa?
Era Sherlock avisando que estava em casa. Joan não queria mais vê-lo, mesmo que aquele tenha sido seu inicial objetivo.
― Por favor, Kitty ― Joan suplicou mais uma vez.
― Tudo bem ― cedeu Kitty a contragosto ― Mas só porque eu acho que você mesma tem que dizer isso a ele.
― Muito obrigada ― ela agradeceu a abraçando ― Preciso ir agora.
Colocou as últimas roupas que dobrara dentro da mala e se apressou para sair do quarto, sendo seguida por Kitty.
― Holmes, Joan veio nos visitar ― avisou Kitty aumentando o tom de voz.
― Não, eu preciso mesmo ir ― tentou enquanto pegava as sacolas que deixara no sofá, querendo fugir.
Ela não queria lidar com Sherlock agora, sua mente ainda estava uma bagunça.
― Está com pressa, Watson?
Parou de tentar pegar todas as sacolas de uma vez e lentamente se virou em direção a cozinha. Na porta, com as mãos escondidas nos bolsos e um sorriso torto, estava o alvo dos seus tolos sentimentos.
― Eu esqueci que tenho um compromisso hoje ― argumentou forçando um sorriso.
Era verdade, ela tinha um compromisso, mas era dali a quatro horas.
― Você disse que não me abandonaria ― lembrou Sherlock, dessa vez sério.
Foi suficiente para ela ceder. Ela mesma disse que não o abandonaria, que não se afastaria. E logo no primeiro dia...
― Tudo bem ― disse largando de vez as compras ― Precisa de mim exatamente agora?
― Por quê?
― Preciso deixar as compras em casa, antes que as frutas estraguem ― esclareceu indicando uma única sacola com frutas.
― Vai levar todas essas sacolas no braço? ― questionou Kitty escondendo um olhar malicioso ― Mas está sem carro.
Joan a fuzilou com o olhar, pedindo internamente para que ela não tentasse empurrar Sherlock para seu coração pelo resto de seus dias.
― Eu vim até aqui, não? Posso chegar até em casa. Não é tão longe ― garantiu Joan lançando um olhar irritado para Kitty, que apenas sorriu de lado.
Sherlock franziu o cenho, olhando desconfiado de uma para outra.
― Sem problemas, Watson. Eu ajudo você.
― Realmente não precisa...
Mas ele nem a ouviu, ou a ignorou. Apenas foi pegando o máximo de sacolas que conseguia e indo em direção a porta.
― Vamos logo, Watson.
Joan suspirou e pegou as poucas sacolas que restaram, acompanhando-o logo em seguida.
O caminho até sua casa foi feito em completo silêncio. Joan começou a ter uma feia dor de cabeça de tanto pensar em um assunto para qualquer conversa com Sherlock. Bem, nunca precisou pensar em um assunto em especial, ele sempre falava mais do que ela podia acompanhar e escolheu justo hoje para se manter educadamente calado.
― Por que está tão calado? ― ela questionou já abrindo a porta de sua casa.
― Só estou pensando em algumas coisas ― Sherlock respondeu indiferente ― No caso, claro.
― Surgiu alguma novidade?
― Surgiu um novo corpo ontem a noite.
Joan o olhou alarmada.
― E por que não me chamou?
― Kitty disse que eu devia dar um tempo para você arrumar suas coisas na casa nova. Não se preocupe, não perdeu nada importante.
― Olha, que se dane a casa nova, okay? ― ela retorquiu bufando ― Quando surgir qualquer coisa sobre qualquer caso, você vai me chamar.
Sherlock sorriu, sabia que a parceira diria algo parecido.
― Onde eu deixo as compras? ― perguntou erguendo os braços que suportavam as várias sacolas.
― Deixa na cozinha, por favor. É logo no final do corredor.
― Sua casa tem um cheiro estranho ― ele comentou enquanto sumia pelo corredor.
Joan revirou os olhos. Holmes sempre encontrava algo estranho onde ia. Ela o seguiu até a cozinha e se apressou em guardar todas as frutas, em seguida juntou todas as compras sobre a mesa e virou-se para ele.
Mas Sherlock não estava mais ali.
― Sherlock?
― Seus livros são interessantes...
Ela seguiu sua voz e o encontrou na sala, analisando os livros da estante com extremo interesse. Um título passava de uma mão para outra com agilidade e depois foi erguido diante de um estranho sorriso dele.
― Por que está tão interessada nos venenos e seus efeitos?
Joan franziu o cenho, confusa. Do que ele estava falando?
― Como assim?
Sherlock se virou, agora ele estava confuso.
― Tem mais de cinco títulos nessa estante sobre venenos, Watson. Não sabia?
― Não, claro que não ― a consultora negou se aproximando em passos rápidos.
― Como não? É a sua estante.
Joan analisou a estante rapidamente e retirou os livros que desconhecia, ainda sem acreditar.
― Deve haver algum engano...
― Alguém invadiu sua nova casa, minha cara Watson.
― Tem certeza que vai ficar bem Joan? ― Kitty insistiu ainda desconfiada.
― Claro, ainda não confirmamos a invasão ― reconfortou Joan sorrindo.
Kitty revirou os olhos, indicou Sherlock com a cabeça discretamente e sussurrou:
― Estou falando dele...
Joan virou a cabeça para trás, Sherlock estava andando de um lado para o outro relendo os textos que encontrou na casa da vitima.
― Eu vou dar um jeito ― garantiu por fim.
Kitty lançou um último olhar de alerta e saiu.
Joan suspirou e deu meia volta, indo direto para cozinha para preparar mais uma xicara enorme de chá. Seria um longo dia.
― Já notifiquei o Gregson sobre o nosso suposto invasor ― avisou Sherlock entrando na cozinha em seus tradicionais passos retos.
― Por favor, não me diga que ele mandou a cavalaria ficar na minha porta.
― Não, ele não mandou nenhuma cavalaria. Mas eu insisti para que mandasse pelo menos dois policiais. Por precaução.
A mulher bufou e virou-se para ele, quase indignada com a atitude.
― Por que fez isso? Eu posso me cuidar Sherlock.
― Alguém entrou no seu apartamento Watson e ninguém viu nada ― ele argumentou colocando água quente no próprio copo.
― Eu não gosto de ser vigiada e você sabe muito bem disso.
― Eu preciso lembrar que alguém entrou na sua sala e colocou diversos livros sobre veneno na sua estante preferida? ― Sherlock questionou sarcástico ― São os policiais ou voltar a morar comigo. Você escolhe.
Joan bateu a xicara na mesa e foi até a geladeira.
― Eu não vou voltar a morar com você, desculpe. Eu disse que preciso de um-
― Tempo. Precisa de tempo ― ele complementou cansado daquela palavra.
Por que ela precisava tanto de tempo?
― Sherlock... por favor, entenda ― pediu Joan mais calma, tentando se aproximar dele.
Ele abandonou o copo e se esquivou das mãos dela com rapidez.
― É melhor resolvermos logo esse caso.
Joan fechou os olhos com força, sentindo uma súbita onda de agonia. O que estava fazendo? Se afastando ou só evitando um maior envolvimento da sua parte? De qualquer forma, estava fazendo tudo errado. Estava só piorando as coisas.
Afinal, o que queria?
Droga!
― O que foi isso?
Abriu os olhos imediatamente. Sherlock a fitava confuso. Ela respirou fundo e encarou tudo o que restara do copo que acabara de jogar contra a parede. Fragmentos pequenos e desconexos. Como seus pensamentos.
― Era o meu preferido... ― ele lamentou ainda confuso.
― Eu... Eu... ― Respire Watson ― Vou limpar. Desculpe. Se quiser compro outro igualzinho depois.
― Sem problemas.
Sherlock lançou um último olhar a ela e voltou para a sala. Joan respirou fundo e apoiou-se na mesa, abaixando a cabeça em seguida. Essa não era ela. Quem jogava as coisas ali era Sherlock Holmes. Joan Watson não era assim por causa de um homem. Confusa, perdida, nervosa.
Nunca foi, por que seria agora?
― Você vem ou não? ― ele gritou.
― Um minuto!
Apressou-se em limpar os cacos de vidro com as próprias mãos, nem se importando com os pequenos cortes que se formavam.
― Tudo pronto. Onde paramos? ― questionou ao voltar para a sala.
Sherlock tirou os olhos do seu painel sobre o caso e a fitou com atenção:
― Está tudo bem com você? Parece diferente.
― Diferente como? ― quis saber quando ficou lado a lado com ele, fingindo analisar as pistas que tinham.
― Não sei dizer e isso me perturba.
― O que? Não saber das coisas? ― implicou ainda sob o estranho olhar dele.
― Não saber decifrar você.
A atenção dela se perdeu por alguns minutos. E mais uma vez se perguntou o que estava fazendo. Por que se sentia daquele jeito? Por que era tão difícil negar um sentimento tão recente?
Sacudiu a cabeça. Foco Watson.
― Muito bem. O que já conseguiu de novo? ― desconversou voltando a ler os papeis grudados na parede.
Sherlock pigarreou e seguiu o mesmo caminho que o dela: a indiferença.
― Parece que Veiga trabalhava com veneno há anos. Começou, aparentemente, na antiga loja do seu avô que vendia ervas para fins medicinais. Certo dia o homem apareceu morto em sua cama e o neto havia sumido ― ele apontou para a foto de um idoso que estava no painel e depois indicou outras fotos, organizadas lado a lado ― Dois anos depois, um novo assassinato. Uma mulher de 27 anos foi vítima do nosso velho conhecido gelo seco, morava a duas casas de Veiga. Seis meses depois um homem chamou a polícia depois de encontrar plantas estranhas sobre a cama e depois foi encontrado morto com um único tiro na cabeça. Esse foi colega de quarto da nova vítima. E ainda há dez assassinatos sob investigação, incluindo a vítima que foi encontrada ontem à noite.
― Descobriu tudo isso em uma noite? ― Joan desacreditou arregalando os olhos.
― Não ― Sherlock negou e em seguida entregou uma pasta a ela ― Tudo estava nessa pasta, muito mal escondida por sinal, naquela sala de plantas venenosas que você encontrou.
― Então nossa vítima era um assassino. Mas por que ele guardaria provas contra si mesmo em casa?
― Não foi ele. As digitais não batem. Veiga nem tocou nessa pasta, ou melhor, na original. Porque essa é só uma cópia.
― E de quem são as digitais?
Sherlock suspirou e colou uma nova foto no seu painel improvisado:
― Pertencem ao seu parceiro de crime. Hector Blanc.
― Então o próprio parceiro implantou a prova? Por que? ― Joan questionou jogando a pasta no chão.
― Tenho uma teoria, mas ainda imperfeita.
― Podemos ter um serial-killer entregando o outro?
― Não tire conclusões precipitadas, Watson ― Sherlock alertou ― Eu li sobre as vítimas de Veiga a noite toda. Não sei quanto ao parceiro, mas Veiga não era um. Seriais-killer possuem padrões e se os outros casos forem mesmo da autoria de Veiga, e eu acho que são, significa que ele escolhia suas vítimas aleatoriamente. Por isso não conseguiram incrimina-lo, não havia nada que interligasse as vítimas e nenhuma vítima que pudesse ser ligada a ele.
Joan cruzou os braços e fitou a foto de Holloway com desconfiança.
― Veiga e Blanc trabalham da mesma forma?
― Eu pedi para Gregson procurar mais registros de Blanc, mas pelo modo que ele matou Veiga, acredito que sim.
― Acha que Blanc matou o parceiro?
― As digitais dele estão por toda a casa ― Sherlock respondeu indiferente ― Não é o suficiente para provar um crime, mas faz parte da minha teoria imperfeita. Se eu estiver certo... tudo fica mais confuso. Está tudo claro demais, obvio demais. Parece que há enormes letras de néon indicando que Blanc é o assassino, mas por que? Por que parece proposital?
Joan compreendeu a desconfiança de Sherlock. Tudo estava tão claro e confuso ao mesmo tempo. Ambos, Veiga e Blanc, trabalhavam com venenos, matavam a maioria de suas vítimas assim. Mas só a maioria. Havia vítimas de arma de fogo e agora o próprio Veiga morto com por uma faca.
― Podemos começar procurando os instrumentos que ele utilizou para manipular as plantas ― sugeriu pensativa ― Ou a faca que matou Veiga escondida embaixo da cama.
Sherlock a fitou com o cenho franzido:
― Será que ele seria tão obvio?
Ela continuou analisando a foto de Blanc. Nem se importou com os cabelos extremamente loiros dele, mas sim com seus olhos claros, mesclados entre o azul e o castanho. Eram familiares. Mas de onde?
― Esse homem... eu conheço esse homem de algum lugar.
― Tem certeza? ― Sherlock questionou com interesse ― Consegue pensar da onde o conhece?
Quase com um click, a mente de Joan se iluminou como se realmente houvesse uma enorme lâmpada dentro de sua cabeça. Sabia exatamente de onde conhecia o dono daqueles olhos.
Ah não...
