Capitulo Um - Irmão
Japão, 1930, Kioto
"Sumie!" Gritava Yukari Shinji, uma mulher de quase quarenta anos, enquanto segurava a saia para não tropeçar. "Já está quase na hora do almoço, o senhor não vai gostar se o jovem mestre sumir de novo! Sumie!"
A mulher parou um pouco apoiando as mãos nos joelhos, estava cansada e respirando com dificuldade. Era a terceira vez que ele fazia isso. Não sabia quantas vezes mais o pai do menino, o senhor Masanori iria suportar estas fugas. Mas, como das ultimas vezes, desistiu, aquelas terras eram enormes e haviam dezenas de lugares apropriados para quem quisesse se esconder, e logo ela compreendeu – mais uma vez, que não adiantaria gritar ou procurar.
Suspirou fundo e deu meia volta. Só não gostaria de estar perto quando o senhor percebesse que seu Sumie não desceria para o almoço.
Sentado em um alto galho de uma arvore não tão distante dali, Sumie apenas recostou sua cabeça para trás fechando os olhos para ignorar melhor a voz que lhe chamava. Mas logo o silêncio voltou, e seu coração se aquietou de novo. Não queria pensar, preferia não pensar na jovem dama que deixava sozinha pela terceira vez. Se sentia muito mal por isso, mas ainda assim seu receio em relação a ter uma noiva era mais forte.
"Jovem mestre, escondido aqui mais uma vez?"
A voz doce de Hiroki despertou Sumie de seus pensamentos. Eles estavam atrás de um grande monte, onde podia ser vista uma caverna grande e escura não tão distante, era um lugar longe do movimento e evitado por haverem muitas cobras. Porém Hiroki sabia que o jovem garoto estaria ali, pois sempre ia se sentar nos galhos daquela antiga cerejeira quando precisava ficar sozinho e pensar.
Sumie apenas olhou para ele demoradamente e depois voltou novamente seus olhar para o alto, para os poucos pedaços de céu que conseguia ver por entre as flores.
Hiroki tinha dezessete anos, apenas dois a mais do que ele, porém a maior parte das vezes se comportava como um perfeito adulto, sempre lhe aconselhando e lhe dizendo coisas serias, como o que fazer ou o que dizer. Mas tudo isso sempre com a enorme humildade que um servo deve ter perante o filho de seu patrão.
"Seu pai ficará chateado de novo. Tem certeza que desta vez também não quer tentar ao menos conhecê-la?"
"Vi uma foto dela." Falou pela primeira vez Sumie depois de um longo período de silêncio.
"Mesmo?" Indagou Hiroki esforçando-se para parecer interessado o suficiente para manter o outro falando.
"Sim."
"E o que achou?"
"Ela é linda. Tem a sua idade, minha mãe disse. Esta estudando em uma universidade, faz artes. Sabe falar três línguas, já visitou o ocidente duas vezes, e sua mãe me falou que ela pode pitar quadros tão facilmente quanto podemos contar de um a dez."
Hiroki ficou surpreso. Nunca imaginou que seu jovem mestre tinha tanto interesse na garota que chegasse a saber tanto a respeito dela. De alguma maneira, aquilo lhe incomodou.
"Isso é... Maravilhoso." Afirmou com um sorriso calmo.
"A propósito, sua mãe estava me chamando, se encontrá-la diga a ela que não se esforce mais porque não vou sair daqui."
Após alguns minutos de indecisão, Hiroki subiu cuidadosamente na arvore sentando-se perto de Sumie, mas este permaneceu firme olhando para cima, não queria demonstrar que haveria chance alguma de ser convencido a ir almoçar.
"Não lhe entendo..." Murmurou o jovem servo mantendo seu olhar fixo no chão.
E dito isso, aguardou, por que tinha certeza que a curiosidade de Sumie não lhe deixaria não perguntar sobre o que estava falando.
"Não entende o que?" Finalmente indagou.
Hiroki quase riu diante da previsibilidade do garoto.
"Se admira tanto ela, porque não quer conhecê-la? Não seria ótimo ter uma noiva tão bela e inteligente assim?"
Após demorar um pouco pensando se responderia ou não, Sumie finalmente falou.
"Ela lembra a minha mãe."
Esta resposta fez com que o jovem servo entendesse imediatamente do que se tratava tamanha relutância em firmar o noivado. A mãe de Sumie, a senhora da casa, era uma verdadeira carrasca de todos ali, com exceção, naturalmente de seu marido, para o qual se dedicava como uma adorável esposa e companheira. Sua relação com o filho sempre fora de imposições e humilhações, sempre exigindo dele o impossível para uma criança, e nunca reconhecendo todo o esforço que ele vivia fazendo para agradá-la.
"Senhorita Shiori e a senhora Tomoe?! Não consigo ver nenhum tipo de semelhança nas duas, de onde o jovem mestre tirou essa impressão?"
"Os olhos delas. Olhos... Escuros... Não falo da cor, entende? Falo do... Bem, eu não sei direito... E além do mais, o que eu iria dizer a ela? Nunca sai das terras de meu pai, não conheço nem meu próprio país, como poderia entreter alguma conversa que lhe interessasse? Ela é culta, conhece coisas que eu apenas sonho em conhecer um dia, e eu... Eu sou apenas..."
"O jovem mestre é o orgulho de sua família, também é culto e letrado, e está quase terminando a segunda fase de seus estudos. Não deve desvalorizar a se mesmo, tenho certeza que qualquer jovem dama do Japão seria enormemente feliz por entregar-lhe a mão."
Ao ouvir isso Sumie virou-se para Hiroki e encarou-o sério, como se acabasse de ouvir algo inesperado e estranho. Sob aquele intenso par de olhos cor de mel, o jovem servo baixou a cabeça constrangido, arrependido de ter ido tão longe em expressar suas próprias idéias.
"Agradeço sua intenção, Hiroki, mas ainda sou muito jovem, não poderei dar a ela o que minha mãe quer que eu dê, e então as coisas acabarão se complicando... E já que não tenho coragem de ir lá e acabar com todas as expectativas da minha família e da dela... Prefiro ficar escondido."
O servo não disse mais nada, ficou ali por mais alguns minutos e depois partiu com um breve aceno. Sabia que apesar da altura e do corpo já formados, Sumie não passava de uma ingênua criança por dentro, mimado, temeroso quanto ao que não conhecia. Mas ainda assim... Adorável.
Balançou a cabeça afastando aqueles pensamentos e voltou aos seus afazeres.
Não demorou e a tarde foi se tornando mais e mais escura, o som dos pássaros foi diminuindo e o vento foi ficando mais gelado. Sumie permanecia recostado sobre o galho, mas já há algum tempo cochilava.
Não tão distante dele uma luxuosa carruagem se aproximava do local, dentro dela, apenas um jovem rapaz que observava atentamente a belíssima paisagem pela janela. Ele se prendia em cada detalhe, nos arcos e coretos tão bem distribuídos, nas pequenas estatuas a estilo ocidental que se misturavam com as arvores aqui e ali, nos empregados que já caminhavam para a grande mansão levando frutas, outros as roupas limpas e outros ainda sacolas cujo conteúdo não podia perceber.
A noite já caia, ele não imaginava que chegaria tão tarde ali, mas também não contava com a incrível distancia que separava a casa dos Masanori da "civilização".
Porém, antes da carruagem se aproximar o suficiente, com um gesto ele pediu que o cocheiro a parasse ali mesmo, e que levasse somente suas bagagens – que não eram poucas – para que pudesse seguir andando.
Caminhou então sentindo o vento gelado tocar-lhe o rosto e apreciava, com um discreto e quase imperceptível sorriso nos lábios aquele lugar, aquela gigantesca mansão distante, respirando fundo para sentir bem aquela nova atmosfera. Era a primeira vez que vinha para o Japão, e aquele lugar lhe pareceu um tanto que... Exótico. Mas ainda assim não se importou, afinal, não estava ali para apreciar a beleza, e sim para algo muito, mas muito mais importante.
Sentia-se quase excitado diante de suas novas possibilidades.
Enquanto caminhava sem pressa e observava a tudo, viu quase escondida os já quase camuflados tons rosa de flores de cerejeira. Desviou-se então um pouco de sua rota e seguiu até lá, demorando vários minutos até chegar ao seu destino. Era uma bela árvore, grande e cheia. E... Havia alguém deitado em um de seus galhos?
O jovem rapaz se aproximou silencioso e observou a figura, cujos detalhes estavam ocultos pela pouca iluminação da lua minguante.
Era um garoto de cabelos quase do tamanho dos seus, na altura dos ombros, estava dormindo e tinha um semblante distante e sereno. Alguma coisa o fez perceber que sentia já tê-lo visto antes, pois aquela figura lhe parecera muito familiar.
Dando meia volta para sair, afastou-se alguns passos quando ouviu o barulho. O garoto, provavelmente desperto pelo som de seus movimentos, acordou sobressaltado e desequilibrou-se, caindo. Sem raciocinar, ele jogou-se sob o mesmo em um rápido impulso a tempo de diminuir o impacto de sua queda no chão, mas não de evitar que a cabeça dele batesse com aquele pequeno estado em uma das grandes raízes sobre o solo.
Sentiu em suas mãos o liquido quente que começava a escorrer do local. Mas, ainda com os olhos semi abertos, o mais jovem pode murmurar...
"Tenchi...?"*
E então perdeu os sentidos.
* Anjo
