Capitulo um
Nostalgia
A janela do meu quarto - situado a leste da choupana que a minha avó Esme presenteara aos meus pais há praticamente cinco anos atrás -, estava completamente revestida por um manto branco, que repousava sobre o seu parapeito, o que me impossibilitava visualizar o lado de fora do vidro embaciado. Apesar de Forks ser uma das localidades dos Estados Unidos da América em que raramente o Sol espreitava por entre a espessa camada de nuvens cinzentas, eu ainda mantinha a esperança de que um dia iria acordar e admirar um glorioso cintilar áureo sobre um claro céu azul, direccionado para a minha janela.
Era evidente que, além de ter herdado várias particularidades da antiga personalidade humana de Bella, como os olhos cor de chocolate e ser completamente desajeitada, ou possuir um feitio irredutível e terrível sentido de atrair problemas, parece que também herdei a aversão ao tempo chuvoso, o que não facilitava em nada a minha moradia naquele local.
Ainda que odiasse o tempo invernoso de Forks, eu tentava me mentalizar que essas temperaturas abaixo de zero eram sempre mais suportáveis, do que pensar na intolerável ideia de me mudar para um sitio que me distanciasse daqueles que amo, principalmente de avô Charlie e Jacob. O que mais acalmava minha agonia - quando ousava pensar nesse assunto -, era saber que isso ainda não estava nos planos de nenhum Cullen, pelo menos por enquanto. Mas até quando a minha paz interior iria durar? Quando ela iria ser substituída pela devastadora angústia de receber a notícia de que iríamos partir? Será que eu estaria pronta nessa altura?
Encolhi-me nos cobertores da cama, com um arrepio involuntário a percorrer-me o corpo todo. Essa era uma das reações que eu tão bem conhecia, cada vez que me lembrava dessas tormentosas suposições.
Claro que nunca estarei pronta para deixar Jacob, mas algum dia, os mais observadores iriam reparar que a minha família em nada envelhecia, já que isso era um dos seus pontos fortes, ou melhor, uma das características óbvias do que realmente eram: vampiros. Tal fazia parte da sua verdadeira identidade - como a extrema palidez ou suas peles frias -, e isso não passava indiferente aos olhos dos cidadãos daquela pequena localidade, que se deixavam deslumbrar pela beleza e perfeição dos rostos angelicais de meus parentes.
Pelo menos, era o que Rosalie me contava, já que poucas vezes saia de casa para ir ao centro de Forks, devido ao meu imparável crescimento.
Depois do encontro aterrorizante com os Volturi, onde temi perder toda a minha família e amigos, eu simplesmente recolhia-me em casa, para não chamar muita atenção dos humanos, já que eu era um ser invulgar que crescia descomunalmente a cada dia que passava. Não queria dar nenhum motivo para aqueles vampiros desprezíveis perturbarem novamente a paz da minha família. Não depois de ter visto tanto sofrimento exposto nos olhos de minha mãe, naquela dolorosa despedida - que ainda me pairava na mente -, de sentir o carinhoso e apertado abraço de Edward - tanto que julguei que nunca mais voltaria a senti-lo novamente - e do uivo angustiante que Jacob soltou ao me sentir em seu pêlo, na altura em que nos preparávamos para fugir.
Tinha sido uma situação que nunca, em toda a minha existência, iria esquecer.
Meus pesadelos se baseavam nesse dia e, por vezes, dava por mim a acordar aos berros, com Edward já ao meu lado, cantando no seu tom aveludado uma das suas belas canções de ninar, para eu voltar a encontrar a tranquilidade em meus sonhos coloridos. Também, por pedido de meu pai, Alice tentava me convencer de que os Volturi não voltariam mais a atormentar a nossa paz, mas eu não conseguia ter tanta fé naquelas palavras, não por que não acreditasse na minha tia, longe de mim duvidar das visões de Alice, mas por que não confiava em mim mesma.
Já tinha estado na presença de humanos, mas nunca infiltrada numa imensa multidão de gente, com um agradável cheiro a sangue fresco a correr-lhes tão vivamente em suas veias. Não sabia como iria me comportar, caso tivesse de me deparar com uma situação dessas. "E se não resistisse e atacasse pessoas inocentes? Se não conseguisse controlar meus instintos selvagens e pusessem em perigo um segredo de tantos séculos?" Essa seria, sem dúvida, uma óptima causa para os Volturi voltarem a Forks e aniquilarem o clã Cullen de uma só vez, fazendo assim justiça á humilhação que sofreram anos atrás.
Por isso mesmo, tratei de seguir um limite de regras estabelecidas por mim, e pretendia cumpri-las até atingir a minha maturidade - algo que meu pai achou totalmente exagerado.
Uma dessas regras, era não me afastar muito de casa, a não ser num caso de estrema necessidade.
As únicas saídas que fazia eram meramente fundamentadas nos passeios à beira-rio e na caça com Jacob – Bella já não nos acompanhava mais, visto ter aprendido a confiar em Jake -, nos acampamentos com a família Cullen – onde, sempre que podiam, Edward e Jasper apostavam por quanto mais tempo a tenda de Emmett e Rosalie ia ficar intacta, com eles lá dentro -, nas visitas aos recém-casados Charlie e Sue, e por fim, em La Push. Bill me recebia sempre com uma esplêndida amabilidade, mesmo sabendo das minhas origens - e após a pequena briga entre ele e Charlie por causa de Sue. Como é óbvio, os velhos companheiros não conseguiram estar muito tempo de costas voltadas e em pouco tempo fizeram as pazes.
Além disso, Bill aproveitava qualquer ocasião para organizar em sua casa as suas acolhedoras festas, com o propósito de reunir os amigos - tanto lobisomens, como vampiros "Cullen" -, e conviverem na harmonia e tranquilidade daqueles tempos, após terem finalmente anulado o trato e quebrado as barreiras dos limites de fronteiras que nos separavam, devido á confusão que praticamente nos aliou: o aparecimento dos Volturi.
Eram nesses pequenos e agradáveis momentos, ao som das velhas lendas de Quileute, contadas pela fraca voz de tenor do velho Quill Ateara, enquanto as fagulhas da fogueira voavam com o vento, que eu me esquecia completamente do que era, libertando meu espírito da aberração que me sentia.
Pela primeira vez na vida, sentia-me como uma humana.
Fora isso, quando não saía para visitá-los, ou para estar com Jake nas caçadas, os meus dias resumiam-se a uma série de tarefas diárias baseadas na minha educação, que ao longo dos tempos, tive que me acostumar.
E assim, nas primeiras horas da manhã, depois do meu pequeno-almoço das sete horas, começava a minha lista de afazeres.
Como não podia frequentar a Forks High School, por razões bastantes óbvias, Carlisle dispunha-se a me ensinar algumas matérias escolares lá em casa – Esme substituía-o, quando ele tinha de estar de plantão no hospital. Carlisle achava essencial que eu tivesse uma base geral dos três anos do ensino médio – e assim ter o meu falso diploma de formatura - para mais tarde entrar numa faculdade. A aberração escondida dentro de mim surgia em minha mente, e isso apavorava-me, pois não sabia se algum dia estaria pronta para abandonar o meu lar, e penetrar no meio de uma multidão de alunos.
Ao se aperceber do meu desassossego, nos momentos em que tocávamos naquele assunto, Carlisle apaziguava-me de forma afável, avisando-me que eu não estaria sozinha, pois provavelmente teria como colegas de turma a minha própria família, o que me proporcionava uma crise de riso. Não é que fosse um problema tê-los como colegas, mas simplesmente não conseguia imaginar me passando por filha adotiva de meus avós e irmã dos meus próprios pais e tios. Isso no meu imaginário era algo ridículo, apesar de saber que seria necessário, devido às circunstâncias da nossa espécie.
Mas quando me encontrava sozinha, na escuridão de meu quarto, e raciocinava melhor sobre o assunto, o ataque de riso era rapidamente dominado por aquele maldito arrepio, que possuía descaradamente meu corpo, sem pedir licença. Ir para a faculdade de Dartmouth – já que Edward tinha comprado lá uma casa, caso Bella tivesse mudado de ideias e quisesse continuar com seus estudos, mesmo antes de meu nascimento -, significava ter que partir de minha cidade natal.
O velho tema "abandonar Forks" parecia querer me perseguir em cada reflexão que minha mente articulava meticulosamente, embora me refugiasse no consolo de considerar que só quando atingisse a maturidade suficiente para me passar por uma pessoa quase normal, é que ponderariam sobre o assunto de entrar na faculdade.
"Seja como for, até lá posso sempre convencê-los a ficar. Eu preciso de os convencer."
No final de cada manhã, eu aprendia com Edward algo que se revelou uma das minhas maiores paixões: tocar piano. Esse era o nosso momento pai e filha que eu tanto adorava.
Eu apreciava cada acorde envolvente que ele executava, com sua habilidade apetecível - podia mesmo dizer que elas tinham o mesmo efeito tranquilizador que o dom de Jasper -, mas nada se comparava á sensação de escutar cada nota ser produzida apenas com o meu cuidadoso toque, fazendo um turbilhão de emoções inexplicáveis aflorassem em minha pele. Todavia, quando ele se apercebia desse meu abalo, Edward exibia um daqueles sorrisos enviesados, explicando-me orgulhosamente que essa era uma das magias de tocar piano. Ele demonstrava um gosto especial em me ensinar uma das suas mais belas artes, e por esse empenho, rapidamente aprendi a tocar a lullaby que ele tinha composto para Bella.
Sempre que as notas daquela música entoavam na pomposa sala dos Cullen, minha mãe sentava-se juntamente connosco e deliciava-se. Apesar de os vampiros não poderem chorar, eu sabia que, no preciso momento em que Bella escutava aquela deliciosa lullaby, a sua garganta apertava num soluço engasgado, emocionado.
-Julgo ter captado a essência desta música.
-Apesar de já saber o que você vai dizer, eu gostaria de ouvir em voz alta – induziu Edward num tom suave, não desviando a sua atenção do piano. – Talvez sua mãe concorde.
Isso era o que fazia ter um pai que ouvia nitidamente nossos pensamentos.
Para ele, minha mente era algo transparente, possivelmente um livro aberto que a qualquer momento só ele poderia consultar. Simplesmente não dava para ter um único segredo com Edward Cullen, o que me irritava profundamente, já que eu sou uma adolescente que tem o direito aos seus próprios pensamentos e segredos.
-Esta lullaby deixa trespassar várias emoções que você sentiu na altura em que a compôs. A tensão e a ansiedade estão presentes nesta doce melodia, disfarçadas por um toque surpreendente de paixão. - Um ténue sorriso se desenhou nos lábios dele, o que me encorajou a continuar: – Isso era o que sentia ao se ver apaixonado por uma humana, e, ao mesmo tempo, desejar provar o seu sangue. E por fim, um toque de surpresa, que foi o que revelou a vossa relação, ao longo do tempo, pois ninguém podia prever o final!
-Você é tão observadora quanto a sua mãe. – ele riu, numa gargalhada melodiosa, parando para fitar carinhosamente Bella.
Pelo que sei, não havia ninguém mais observadora que minha mãe, quando ainda era humana.
-Eu sempre soube como esta história ia acabar – murmurou Bella, num tom embargado pela emoção, não tirando os olhos de meu pai. – Só havia um final possível: ficar com seu pai, para toda a eternidade!
Eu admiro a história de amor deles - minha tia Alice tinha feito questão de me contar cada pormenor dela -, e do quanto ambos lutaram para conseguirem viver aquele amor sem fronteiras, para toda a eternidade. Uma típica e modernizada história de "Romeu e Julieta", protagonizada por uma humana mortal e um vampiro que, por várias vezes não acabou em tragédia, tal como a original, sobretudo quando ambos tentaram se matar, ao não suportarem a ideia de ficarem um sem o outro.
-Típico final de um conto de fadas, em versão vampírica.
Depois das aulas de piano, vinham as minhas preferidas: "como aprender a trapacear num jogo de Basebol com Emmett". Está certo, ele até podia ser o melhor professor do mundo nessa área, mas quando Alice decidia participar dessas supostas aulas de Basebol, juntamente com Jasper, os planos de Emmett em me ensinar a trapacear num jogo, acabavam sempre indo por água abaixo, visto que Alice constantemente antevia todas as suas jogadas. Sinceramente, ela adorava quebrar os esquemas dele.
E era aí que eu entrava.
Emmett sabia que, para irritar Alice, bastava me colocar numa posição em que ela não adquirisse a prévia visão das minhas jogadas.
Por um motivo que desconheço por completo, minha tia não consegue antever o meu futuro, nem o de quem se encontrasse na minha presença. Não é que me sentisse desgostosa por tal prodígio, muito pelo contrário, posso até dizer que me sinto satisfeita. Se por azar do destino, o dom de Alice funcionasse comigo, meu pai iria ficar informado de cada decisão que eu supostamente iria tomar, sem que ela precisasse abrir a boca para lhe contar, o que seria o meu verdadeiro inferno.
Enquanto Emmett amaciava a bola para a lançar, e eu esperava impaciente que ela viesse em direção ao meu taco, Alice paralisava completamente sobre a base, com o olhar estreito sobre mim e Jasper, á espera de ter uma visão sobre o que se iria passar.
-Então baixinha? Ainda decidindo qual o próximo vestido que vai comprar para Nessie? – Com uma expressão de puro escárnio, Emmett desistiu do lançamento, ao cruzar os braços de forma pensativa. – Ou está pensando em subornar sua própria sobrinha para saber se ela vai ou não bater na bola?
-Estou pensando em mil e uma formas de matar um Emmett sem mexer um dedo. – Pela expressão no rosto de Emmett, ele devia se sentir vitorioso pelo sucedido.
-Vá lá, irmãzinha, não leve isso tão a peito. – A provocação entre ambos era algo impagável de se ver. – É apenas um jogo amigável!
Apesar de me divertir nessas presumíveis aulas de Basebol, eu constantemente ansiava que elas acabassem o mais cedo possível, contando desesperadamente cada milésimo de segundo para que tal acontecesse.
Não é fácil nos concentramos quando quem mais desejamos ver, nos espera em casa.
E na altura em que Emmett proferia as palavras mágicas: "Bom, por hoje já chega", eu simplesmente saia voando rumo á densa e quase impenetrável floresta, pelo trilho forjado por nós, deixando-me guiar apenas pelo famoso cheiro que minhas narinas tão bem conseguiam captar no ar gelado. Todos os dias, utilizava as restantes forças das minhas pernas, numa ávida e apressada corrida. Ninguém desejava, mais do que eu, alcançar aquela casa vítrea do meio da floresta, num menor tempo possível, e vê-lo através do vidro, sentado naquele espaçoso sofá, como um ser intocável. Para mim, a distância já em nada fazia sentido, quando eu sabia que, ao abrir a porta da casa dos Cullen, ia ser recebida por aquela branca fileira de dentes perfeita, que delineavam um sorriso maravilhoso para mim, em sinal de boas-vindas.
Eram nesses momentos cruciais que o coração me denunciava deliberadamente, disparando num modo descontrolado e indiscreto, principalmente quando Jake se aproximava de mim, no seu jeito peculiar, e me envolvia em seus longos braços, num abraço afectuoso. O calor que emanava de seu corpo musculoso contra o meu, provocava-me tremores automáticos. Algo que não conseguia, nem queria evitar, e me acelerava fogosamente respiração, tanto que meus pulmões chegavam a doer.
Eu não sabia dizer ao certo, mas desde que meus olhos haviam focado a figura atordoada de Jacob Black, na sala dos Cullen, minutos depois de eu ter nascido, que o meu pequeno coração me pregava dessas peças. E agora que eu havia crescido, esse órgão vital ainda pulava freneticamente, implorando mais do que amizade. Era como se, além de meu corpo, os meus sentimentos por ele também viessem crescendo a uma velocidade descontrolada, algo inevitável.
Por mais que me esforçasse, e Deus sabe que fazia de tudo para parecer o mais natural possível na presença de Jake, eu não conseguia esconder os efeitos vertiginosos que o seu simples toque proporcionava em minha pálida pele, ou a sensação arrepiante de sentir seu lábios ternos e quentes contra minha face gelada. E cada vez que nos tocávamos, de maneira inocente e infantil, parecia acontecer uma gostosa colisão de temperaturas entre nossas peles, o que me deixava meia zonza. O pior era quando ele percebia esse meu comportamento embaraçoso, e ainda sorria em troca, fazendo minhas bochechas ganharem um novo tom rosado, envergonhada por tais reacções involuntárias possuírem meu corpo.
"Até quando ia conseguir esconder o que realmente sentia pelo meu Jake?"
Bom, essa era pelo menos uma daquelas perguntas que nem ousava procurar resposta, já que no mesmo segundo em que a obtivesse, ouviria um baixo rosnado vir do mesmo sofá em que Jake havia estado sentado. O fato era que já não conseguia ver Jacob como um suposto irmão, muito menos como meu melhor amigo - aquele com quem eu fazia questão de compartilhar cada momento do meu quotidiano. Agora via-o como algo mais! Não só queria compartilhar as melhores coisas da minha vida, como também queria que ele fizesse parte dela, de uma maneira mais intensa do que ele já fazia.
Seriam estas as palavras exatas para descrever o quanto eu queria que ele fosse meu namorado?
Foi por esses sentimentos evidentes, e talvez um pouco confusos, que afloravam em cada particularidade do meu vulnerável corpo, cada vez que estava perto dele, que comecei a evitar tocar no seu rosto moreno, com medo de demonstrar algo mais do que meros pensamentos do meu dia a dia, nas ocasiões que não estava com ele. Ao princípio ele estranhou essa minha atitude, li isso em seus olhos amargurados, porém ele nunca ousou protestar sobre essa minha incompreendida decisão, nem falar sobre isso.
Eu simplesmente não podia ser descuidada nesse aspecto
Por vezes considerava que já não tinha mais domínio sobre minha própria mente, quando estava perto dele. Era como se, por breves instantes, eu a entregasse de livre e espontânea vontade a Jake, e ele, com seus cintilantes olhos negros, penetrantes, a pudesse dominar por completo, sem exigir muito da minha parte, levando-me a pensar em coisas fora do meu controlo. Eu tinha receio do que poderia acontecer, no momento em que minhas emoções se misturassem com meus pensamentos - como se uma arrebatadora onda chocasse contra uma falésia desprotegida -, e fizesse trespassar algo que não pudesse evitar. Das consequências que poderia provocar a Jake, caso ele descobrisse que eu estava apaixonada por ele.
Entretanto, o que mais me magoava, como se punhais cravassem em meu peito, era saber que ele ainda não me via propriamente como uma suposta "namorada". Não é que já tivéssemos conversado sobre isso, ainda esperava o momento certo para abordar o tema "relacionamento", já que mal tinha coragem para lhe relevar a evolução de meus sentimentos por ele, mas Jake ainda não me via desse jeito. Ele apenas queria aproveitar cada momento comigo e seguir atentamente a minha infância, e adolescência. E claro, ver-me feliz.
Talvez quando atingisse minha maturidade, ele me visse como algo mais.
Pelo menos, assim esperava!
Não iria suportar por muito mais tempo especular sobre o incógnito sabor de seus beijos, e do prazer que seria ao mergulhar os meus lábios nos dele…
Edward me lançava um olhar fulminante quando começava a cogitar para além do que devia. Às vezes eu realmente me esquecia de que tinha um pai que podia escutar os meus devaneios. Talvez nem num raio de cem metros, conseguiria obter a serenidade necessária para devanear descuidadamente sobre o meu Jake, sem ter um Edward me rosnando a cada minuto que o lobo resolvesse passear em meu pensamento, o que me frustrava irritantemente. E, por mais que evitasse pensar nele, isso era comprovadamente impossível, pois Jake estava tão presente, tanto na minha vida como em minha atormentada mente, e me fazia sentir feliz.
Lamentava profundamente quanto a esse fato, mas Edward teria de se acostumar à ideia de me ver como uma adolescente. Que eu tinha crescido! Não tinha propriamente culpa da festa de hormônios que afloravam em minha pele, ou das sensações involuntárias que percorriam em meu corpo, muito menos dos pensamentos inconscientes e incontroláveis que assomavam em minha mente sonhadora. A verdade é que eu já não me considerava tão ingênua e inocente. Agora via certas coisas de uma maneira mais clara, desenvolvida e liberal, coisas que não compreendia, na altura em que era uma simples criança de colo.
Sentia-me como se tivesse finalmente despertado de um sono profundo, e só agora me desse conta de que Jake fazia realmente parte de meu ser.
De certo, demorei muito tempo a conseguir assimilar o significado da impressão que Jake tivera por mim, depois de que nossos olhos terem se cruzado naquela sala. Era como se dois pedaços completamente oposto, como yin yang, que tinham sido separados e perdidos algures no tempo, tivessem finalmente se encontrado, com o propósito de se completarem numa única peça, para usufruírem dessa ligação para toda a eternidade, ainda que essa união demorasse vários anos para acontecer.
Se o preço da eternidade fosse esperar até que essa união se desse, eu preferia usufruir de uma vida mortal com o Jake, para que juntos, pudéssemos compartilhar das emoções que sentimos, até ao resto dos nossos dias.
-O que me deu para recordar isto agora? – indaguei com um suspiro melancólico, ao passar as mãos pelo meu rosto ainda ensonado.
Essas indispensáveis e valorosas recordações vinham sempre á tona de minha consciência, como puro toque de magia, cada vez que o calendário apontava o dia 10 de Setembro. Isso deixava-me bastante nostálgica, e tudo porque completava o meu quinto aniversário. Porém hoje, tudo o que menos precisava era de me sentir melancólica, tal como o tempo nevado lá fora. E logo para me acalorar os ânimos - no sentido figurado da situação -, hoje era um daquelas datas que Alice não ia deixar passar em branco, o que me levava ao desespero total.
-Quase que aposto que Alice já está a providenciar mais uma daquelas suas festas de arromba – com uma enorme lentidão, espreguicei-me, dando ombros. - O que vale é que o dia passa depressa.
No mínimo, eu tentava me convencer que isso fosse verdade.
Quando finalmente ganhei coragem para enfrentar o frio quase congelador daquela divisão e arrumar os cobertores da cama para me levantar, a primeira coisa que me lembrei de fazer, foi dirigir-me até ao espelho, que se encontrava no canto esquerdo do quarto, e observar-me. Ao chegar lá, pestanejei várias vezes ao apreciar cada pormenor da pessoa que estava refletida naquele espelho. Eu ainda continuava com meus longos cachos bronze quase na altura da minha cintura - nunca ousei sequer pensar em cortá-los - contrastando com os brilhantes olhos cor de chocolate e as feições graciosas. A única diferença notória, era que agora apresentava um corpo de uma garota de treze ou quinze anos, esguio e com um metro e sessenta quatro de altura, apesar do meu crescimento abusivo ter reduzido um pouco nos últimos dias - talvez por estar quase a atingir a maturidade. –, para minha total alegria.
Nunca contei a ninguém o quanto o meu crescimento repentino me assustava. Aliás, eu não me conformava por ter crescido tão depressa, e de praticamente não ter aproveitado cada momento de minha infância como uma criança normal. Após essa insensata reflexão, eu sempre chegava á mesma conclusão: eu não tenho uma família normal, por conseguinte, eu não poderia fugir muito a esses padrões.
Naquele instante, um baque seco suou contra a madeira da porta, o que me fez quebrar a linha de pensamentos, assustando-me.
-Pode entrar!
A porta de meu quarto se abriu num súbito movimento, traçando a figura esbelta de meus pais. Ao entrarem, ambos deixaram trespassar um sorriso jovial em seus lábios escarlates quando seus olhos dourados recaíram sobre mim. Bella – com seus cabelos escuros a emoldurar-lhe perfeitamente o rosto pálido, como a lua –, encurtou rapidamente a distância que nos separava para me tomar em seus braços, de forma carinhosa.
-Parabéns, minha querida. – Ela se afastou um pouco de mim e beijou docemente minha bochecha rosada.
-Obrigada mãe – devolvi com um sorriso aberto, para de imediato encarar meu pai.
Edward permanecia de braços cruzados, encostado ao batente da porta – imóvel, como uma impecável e perfeita estátua de mármore –, como se admirasse uma bela e valiosíssima obra de arte, talvez um Picasso.
Pergunto-me se ele ainda pensaria no significado daquele dia. Se ainda me culpava por quase ter morto minha mãe, mesmo que de uma forma inconsciente, levando-o a tomar a decisão de a transformar em vampira mais cedo, só para a salvar da morte certa pela qual a condenei. Se eu não tivesse nascido, a história de ambos teria supostamente tomado um rumo diferente, e a esta hora ambos estariam frequentando a faculdade de Dartmouth – oficialmente, Bella ainda está em tratamento médico, o que facilita a demora para entrar na faculdade, embora ainda não soubéssemos dizer por quanto mais tempo essa desculpa iria servir.
Tinha noção que estava imobilizada no meio do meu quarto, com Bella tentando me chamar á realidade, mas sem grandes resultados. Lembrar-me do que ela sofrera por minha causa, era algo penoso. Vi Edward enrijecer o seu corpo, incomodado, ao se perceber das imagens que passavam em minha mente, sobre esse terrível dia.
Não pude deixar de soltar um suspiro retalhado enquanto meus olhos desciam para fitar o chão, para meus pais não repararem nas lágrimas que me turvavam os olhos.
-Renesmee, querida.
De repente, um dedo gelado ergueu o meu fino rosto. Foi nesse instante em que me apercebi que não era Bella que se encontrava ao meu lado, e sim Edward, que estava agachado á minha frente. Ele expressava um semblante preocupado e, ao mesmo tempo, atencioso, o que me fez relaxar um pouco.
-A transformação de sua mãe era algo inevitável. – Ele subiu o dedo até à minha pálpebra inferior, para limpar a lágrima que acabou por rebentar em meu olho. – E eu nunca te culpei por a ter antecipado. – Ele baixou o olhar, duro e tenso. – Posso ter reagido mal á notícia da gravidez de Bella, o que até hoje lamento profundamente, mas acredite que nunca tive tanto medo de perder alguém, como temi perder sua mãe.
-Por que está se recordando disso agora? – Bella perguntou, confusa.
-Eu estava pensando no quão doloroso deve ser este dia para o papai.
-Que disparate! – Bella enrugou seu cenho, abanando desaprovadoramente a cabeça. – Nunca houve uma criança tão desejada como você, meu bem. E agora, não é hora para você pensar nisso. Hoje é o seu aniversário, e eu quero ver um belo sorriso exposto nos seus lábios.
Senti os lábios gelados e ternos dela repousarem sobre minha testa, e antes de sair do quarto, lançou um olhar significativo para Edward. Ele apenas anuiu em silêncio, ouvindo em seguida a porta atrás de nós bater suavemente. Sem nada dizer, ele ergueu-se e pegou a minha mão fina entre as suas, sinal que queria que eu prestasse bem atenção às suas próximas palavras. Sinceramente, já tinha me arrependido de ter pensado nesse assunto, não queria reabrir uma antiga ferida em meu pai.
-Não quero que você se culpe por algo que não lhe cabe, meu anjo. – repreendeu-me, suspirando aprazivelmente, apaziguando o ambiente e, na sua voz aveludada, completou: - Como um dia disse á sua mãe, eu repito a você a mesma coisa: "Você é a minha vida, agora", espero que entenda o significado disso.
-Eu sei. – Suspirei. -Não volta a acontecer, prometo. – Um sorriso enviesado aflorou em seus lábios.
-Ainda bem. – Ele enlaçou seus braços duros de mármore sobre mim, murmurando em meu ouvido: - A propósito, feliz aniversário, querida... – e me beijou o cimo da cabeça. – Seu presente está na casa de seus avós! Alice fez questão de reunir todos os presentes lá para…
-Ahh não, por favor, me diz que Alice não…
Nem precisei terminar a frase, pois Edward afirmou logo com a cabeça à resposta que eu tanto receei receber. Eu rodopiei os olhos, bufando de irritação. Só esperava que ela tivesse convidado Jacob. Ao menos ele me poderia distrair daquelas confusões que me aborreciam. Edward cruzou os braços e empinou a sobrancelha enquanto abanava a cabeça, com um sorrido suspeito.
-Se está interessada em saber, Jacob também está bem empenhado nos preparativos da sua festa! – anunciou. Aquilo pareceu diverti-lo.
-Não! Traidor! – retruquei com falsa recriminação, ao passar as mãos pela cabeça, antes de tombar na cadeira da escrivaninha, incrédula.
No fundo, eu queria estar na companhia de Jake, mas só o facto de saber que ele estava a participar nesse circo, fez-me querer mordê-lo até deixá-lo sem uma pinga de sangue. Porém, não ia dar esse gostinho a Edward, que se mantinha divertido com a linha de meus pensamentos.
Se de Bella eu tinha herdado quase todas suas características humanas – mesmo as mais desastradas -, de Edward, além dos sentidos apurados, da velocidade e força, e da forma inesperada de reagir a uma determinada situação, eu também herdara algo que admirava: o autocontrole. Pelo menos em algumas situações.
Massajei as têmporas bem devagar para tentar achar uma solução prática para me livrar daquela festa.
-Por favor pai, não há nenhuma maneira de impedir essa festa de acontecer? – "nem um incendiocinho desproporcionado?" lancei meu olhar mais inocente, o que o fez soltar uma gargalhada abafada.
-Lamento, mas sua tia é de ideias fixas, você já devia saber disso. E se fosse a você, começaria a me preparar, senão é bem capaz dela vir aqui buscá-la. – bufei, quase rendida. – Não se preocupe, sua mãe convenceu Alice a fazer uma festa discreta, só em família.
Certamente não seria assim tão mau. Já tinha superado outras festas de aniversários, por isso, esta não seria exceção.
-Ao menos isso. – o desanimo estava presente na minha voz. – Bom, então em menos de cinco minutos estarei pronta.
Ele consentiu e saiu com a frase: "estaremos á sua espera na sala".
Imaginei, então, que Alice teria convidado Charlie e Sue, que viriam acompanhados por Seth e a desagradável Leah – meus tios emprestados. Por razões que eu simplesmente não entedia, a morena e antipática Leah não simpatizava comigo, chegando às vezes a ser desagradável comigo, sem eu nunca lhe ter feito algum mal. O sentimento de repugnância imaginável que ela nutria pela minha pessoa era ligeiramente correspondido por mim. Não eram ciúmes o que eu sentia por ela, já que Leah não tinha nenhum tipo de interesse amoroso por Jake, nem ele por ela, mas o fato dela puder andar a vasculhar a cabeça do meu Jake, conhecer os seus segredos e pensamentos mais profundos, tirava-me do sério. Era como se ela pudesse conhecê-lo melhor do que eu, talvez inteiramente. Toda a vida quis saber o que Jake pensava, sobretudo nas ocasiões em que estava comigo, e Leah usufruía desse proveito, quando ambos estavam na condição de lobos.
Abanei a cabeça para afastá-la do meu pensamento, e num pequeno pulo, ergui-me da cadeira, dirigindo-me até ao meu grandioso e dispensável guarda-roupa – escusado será lembrar que ele foi todo equipado por Alice -, para escolher uma roupa adequada. A primeira coisa que peguei foi uns jeans justos de ganga escura, uma blusa preta, e por fim num antigo casaco castanho de minha mãe, que eu tanto adorava por ser bem quentinho e acolhedor nestas épocas frias. Rapidamente movi-me para o banheiro e tomei um apressado e relaxante banho.
Em menos de cinco minutos, como tinha prometido a Edward, estava na sala – vantagem de possuir uma velocidade fora do natural para um humano.
Meu coração me denunciou, como sempre, só de pensar que dentro de alguns instantes, iria ver o rosto moreno e possuidor do sorriso mais vistoso que eu adorava, contornado por aquele corte de cabelo rente que…
Ao reparar no olhar ferino que Edward me lançou, enquanto Bella exibia um sorriso jovial, por ter notado as batidas irregulares do meu coração, parei imediatamente de pensar nos restantes pormenores, que iriam ficar bem salientes do meu campo de visão, na altura em que atravessasse a porta da casa de meus avôs.
-Eu disse que em cinco minutos estava pronta! – fiz uma careta, para disfarçar o embaraço do momento.
-Bem sei que essa pressa toda, seguramente, não é por causa da festa. – dei ombros para ele, fazendo-me desentendida fase á indireta de Edward.
-Vamos então. – Edward envolveu a cintura da Bella, incentivando-lhe o passo, e colocou o seu braço no meu ombro.
No momento em que sairmos, a passos perfeitamente apressados e alinhados, rumo ao trilhado caminho da escurecida floresta, eu tive a necessidade de parar e encarar o céu pardacento, através das copas carecas das árvores, cobertas pela fina camada de neve, e respirar o mais fundo possível, deixando o ar gelado purificar meus pulmões.
Estava finalmente a completar o meu quinto aniversário, porém, não me sentia totalmente realizada. Se ao menos pudesse pedir a uma força superior que fizesse o tempo voar mais depressa, e me fizesse acordar com o meu sétimo ou oitavo aniversário já concluído, de preferência com Jacob me despertando com um doce beijo nos lábios…
Outro rugido baixinho suou da garganta de Edward.
"Deixe-me pelo menos, hoje devanear sossegadamente."
N/A:
Desde já quero agradecer as reviews que recebi. Espero de coração que tenham gostado do primeiro capítulo e que continuem a acompanhar a fic.
E novamente um simples apelo de uma autora curiosa: continuem a deixar uma review para eu saber as vossas opiniões, críticas, sugestões, dúvidas e o que acharam do capítulo.
Próximo capítulo: Talvez no próximo domingo.
Bjokas Grandes
Taty Black
