"O Menino Que Sobreviveu", Remo leu.
O Sr. e a Sra. Dursley, da Rua dos Alfeneiros, nº. 4, se orgulhavam de dizer que eram perfeitamente normais, muito bem, obrigado.
- Ah, não! – Sirius lamentou – Esse livro não era suposto ser sobre o Harry?
- E provavelmente será, Padfoot, se você ficar quieto e escutar o resto – Remo repreendeu e voltou à leitura.
Eram as últimas pessoas no mundo que se esperaria que se metessem em alguma coisa estranha ou misteriosa, porque simplesmente não compactuavam com esse tipo de bobagem.
- Chatooooo! – Sirius cantarolou – O que é a vida sem riscos?
- Você deve saber muito disso, sendo quem é, agora, fica quieto!
O Sr. Dursley era diretor de uma firma chamada Grunnings, que fazia perfurações.
- O que são...
- Vai interromper a cada parágrafo? – Remo criticou, interrompendo a pergunta do amigo, que cruzou os braços e fechou a boca.
Era um homem alto e corpulento quase sem pescoço, embora tivesse enormes bigodes.
- Charmoso – Sirius comentou quietamente, mas ficou em silêncio ao ver o olhar de Remo.
A Sra. Dursley era loura e tinha um pescoço quase duas vezes mais comprido que o normal, o que era muito útil porque ela passava grande parte do tempo espichando-o por cima da cerca do jardim para espiar os vizinhos.
Os Dursley tinham um filhinho chamado Dudley, o Duda, e em sua opinião não havia garoto melhor em nenhum lugar do mundo.
Agora foi a vez de Remo interromper, rindo horrores.
- Francamente!
Os Dursley tinham tudo que queriam, mas tinham também um segredo, e seu maior receio era que alguém o descobrisse. Achavam que não iriam agüentar se alguém descobrisse a existência dos Potter.
- Não tem nada errado com os Potter! – ambos disseram em uníssono, furiosamente, mas o animago acrescentou: - Vocês que são baleia e cavalos, Dursley!
Remo reprimiu um sorriso e voltou a ler.
A Sra. Potter era irmã da Sra. Dursley, mas não se viam havia muitos anos; na realidade a Sra. Dursley fingia que não tinha irmã, porque esta e o marido imprestável eram o que havia de menos parecido possível com os Dursley.
"James não era imprestável!", Sirius pensou com uma espécie de raiva maníaca.
Eles estremeciam só de pensar o que os vizinhos iriam dizer se os Potter aparecessem na rua. Os Dursley sabiam que os Potter tinham um filhinho também, mas nunca o tinham visto. O garoto era mais uma razão para manter os Potter à distância; eles não queriam que Duda se misturasse com uma criança daquelas.
- Harry é a melhor criança do mundo, seus... seus...! – Remo ficou sem palavras para completar seu xingamento, levando em conta que tantas "palavras bonitas" vieram a sua mente no momento.
Sirius concordou com a cabeça repetidamente.
Quando o Sr. e a Sra. Dursley acordaram na terça-feira monótona e cinzenta em que a nossa história começa, não havia nada no céu nublado lá fora sugerindo as coisas estranhas e misteriosas que não tardariam a acontecer por todo o país. O Sr. Dursley cantarolava ao escolher a gravata mais sem graça do mundo para ir trabalhar,
- Quem coloca a gravata mais sem graça? – Sirius perguntou.
- Padfoot, shhhh!
e a Sra. Dursley fofocava alegremente enquanto lutava para encaixar um Duda aos berros na cadeirinha alta. (Adorável, comentou Sirius).
Nenhum deles reparou em uma coruja parda que passou, batendo as asas, pela janela.
- O que tem de estranho nisso?
- Imaginei que você tivesse feito Estudo dos Trouxas, Padfoot – Remo revirou os olhos para o amigo, mas respondeu – Os trouxas usam o correiro de selos como cartas.
- Ah.
Às oito e meia, o Sr. Dursley apanhou a pasta, deu um beijinho no rosto da Sra. Dursley e tentou dar um beijo de despedida em Duda, mas não conseguiu, porque na hora Duda estava tendo um acesso de raiva e atirava o cereal nas paredes.
- Cada vez mais amável, hm?
— Pestinha — disse rindo contrafeito o Sr. Dursley ao sair de casa. Entrou no carro e deu marcha à ré para sair do estacionamento do número quatro.
Foi na esquina da rua que ele notou o primeiro indício de que algo estranho ocorria – um gato lia um mapa.
- Minnie! – Sirius exclamou surpreso.
- Como sabe que é a Minerva? – Remo frisou o nome com um tipo de desaprovação na voz.
- Eu conheço a Minnie, tá certo?
- Você nem viu ela, somente escutou!
- Eu só era o aluno favorito dela, tá bom? Conheço a professora mais gatinha da escola.
Remo somente riu, balançando a cabeça em negação, e voltou a ler.
Por um instante o Sr. Dursley não percebeu o que vira — em seguida virou rapidamente a cabeça para dar uma segunda olhada. Havia um gato de listras amarelas sentado na esquina da rua dos Alfeneiros, mas não havia nenhum mapa à vista. Em que estaria pensando naquela hora? Devia ter sido um efeito da luz. Ele piscou e arregalou os olhos para o gato.
O gato o encarou. ("É porque é a Minnie!" "Padfoot."). Enquanto virava a esquina e subia a rua, espiou o gato pelo espelho retrovisor. Ele agora estava lendo a placa que dizia Rua dos Alfeneiros — não, estava olhando a placa: gatos não podiam ler mapas nem placas.
- Animagos lêem – Sirius lembrou.
- Você está falando com um livro – pontuou Remo. Sirius corou.
O Sr. Dursley sacudiu a cabeça e tirou o gato do pensamento. Durante o caminho para a cidade ele não pensou em mais nada exceto no grande pedido de brocas que tinha esperanças de receber naquele dia.
Mas ao sair da cidade, as brocas foram varridas de sua cabeça por outra coisa. Ao parar no costumeiro engarrafamento matinal, não pôde deixar de notar que havia uma quantidade de gente estranhamente vestida andando pelas ruas. Gente com capas largas.
- E o que tem de estranho nisso, baleia?
- Pelo amor de Merlin, Sirius, ele é um trouxa! Pessoas com capas não são, de forma alguma, vestimentas trouxas.
O Sr. Dursley não tolerava gente que andava com roupas ridículas — os trapos que se viam nos jovens! Imaginou que aquilo fosse uma nova moda idiota. Tamborilou os dedos no volante e seu olhar recaiu em um grupinho de excêntricos parados bem perto dele. Cochichavam excitados. O Sr. Dursley se irritou ao ver que alguns deles nem eram jovens; ora, aquele homem devia ser mais velho do que ele, e usava uma capa verde-esmeralda! Que petulância!
- Que horror! – Sirius fingiu, colocando as mãos na frente da boca, fingindo espanto extremo.
Em resposta, Remo bateu com o livro fechado em sua cabeça.
- Ei, ainda está doendo dos livros que caíram na minha testa, ok?
- Então fica quieto.
Mas então ocorreu ao Sr. Dursley que se tratava prova de alguma promoção boba — essas pessoas estavam obviamente arrecadando alguma coisa... é, devia ser isto! O tráfego avançou e alguns minutos depois o Sr. Dursley chegou ao estacionamento da Grunnings, o pensamento de volta às brocas.
O Sr. Dursley sempre sentava de costas para a parede em seu escritório no nono andar. Se não o fizesse, talvez tivesse achado mais difícil se concentrar em brocas aquela manhã. Ele não viu as corujas que voavam velozes em plena luz do dia, embora as pessoas na rua as vissem; elas apontavam e se espantavam enquanto um bando de coruja passava no alto. A maioria jamais vira uma coruja mesmo à noite.
- Sabe, os trouxas não são estúpidos... – Remo comentou.
- Você está falando com um livro, sabia? – Sirius acusou em vingança.
Foi a vez de Remo corar.
O Sr. Dursley, porém, teve uma manhã normal sem corujas. Gritou com cinco pessoas diferentes. Deu vários telefonemas importantes e gritou mais um pouco.
- E quando a gente pensa que não dá para ficar mais chato... – comentário, é claro, veio de um entediado Sirius.
Estava de excelente humor até a hora do almoço, quando pensou em esticar as pernas e atravessar a rua
- Não! Ele vai andar?
para comprar um pãozinho doce na padaria defronte.
- Ah, o mundo faz mais sentido agora – Padfoot deu de ombros.
Esquecera completamente as pessoas de capas até passar por um grupo delas próximo à padaria. Olhou-as com raiva ao passar. Não sabia o porquê, mas elas o deixavam nervoso. Essas cochichavam agitadas, também, mas ele não viu nenhuma latinha de coleta. Foi ao passar por elas, na volta, levando uma grande rosca açucarada em um saco, que entreouviu algumas palavras do que diziam.
— ... Os Potter, é verdade, foi o que ouvi...
— ... é, o filho deles, Harry...
Isso os fez ficar quietos durante alguns segundos. Aos poucos, eles percebiam qual dia era aquele. E isso não os agradava nem um pouco.
O Sr. Dursley parou de repente. O medo invadiu-o. Virou a cabeça para olhar as pessoas que cochichavam como se quisesse dizer alguma coisa, mas pensou melhor.
- Ele atualmente pensa? – Sirius comentou falsamente chocado, mas nem isso aliviou a tensão ali instalada.
Atravessou a rua depressa, correu para o escritório, disse rispidamente à secretária que não o incomodasse, agarrou o telefone e quase terminara de discar o número de casa quando mudou de idéia. Pôs o fone no gancho e alisou os bigodes pensando... não, estava agindo como um idiota.
- Não só agindo.
Potter não era um nome tão fora do comum assim.
- É sim! – disse um indignado Sirius Black.
Remo suspirou: - Pelos céus, Padfoot, estamos num ponto de vista de um trouxa, ou você já esqueceu?
Isso fez o animago ficar quieto por mais alguns instantes.
Tinha certeza de que havia muita gente chamada Potter com um filho chamado Harry. Pensando bem, nem sequer tinha certeza de que o sobrinho tivesse o nome de Harry.
- Ele não sabe o nome do próprio sobrinho? – comentou Remo, completamente chocado.
Sirius não confiava no que ia dizer, então, ficou calado.
Jamais vira o menino. Talvez fosse Ernesto. Ou Eduardo.
- Ernesto Potter. Eduardo Potter. – Sirius experimentou, e falou sarcasticamente: - É, tenho certeza que tem a mesma sonoridade!
- Você não pode falar nada – Remo disse, sorrindo – queria nomeá-lo de Sirius ou Padfoot Jr.
- Não me compare a essa baleia – Sirius falou com um beicinho e os braços cruzados firmemente sobre o peito.
Não tinha sentido preocupar a Sra. Dursley, ela sempre ficava tão perturbada à simples menção da irmã. Não a culpava — se ele tivesse uma irmã como aquela...
- Não tem nada errado com a Lily, seu idiota bundão!
Remo nem mesmo o repreendeu, porque ele mesmo estava irritado. Logo falar mal de Lily, uma pessoa tão boa... tão compreensiva...
mas mesmo assim, aquelas pessoas de capas...
Achou bem mais difícil se concentrar nas brocas aquela tarde e quando deixou o edifício às cinco horas, continuava tão preocupado que deu um encontrão em alguém parado ali à porta.
— Desculpe — murmurou, quando o velhinho cambaleou e quase caiu. Levou alguns segundos até o Sr. Dursley perceber que o homem estava usando uma capa roxa. Não parecia nada aborrecido por ter sido quase jogado ao chão.
- Se alguém tão gordo quanto ele me acertasse, eu certamente ficaria muito bravo! – Remo disse venenosamente, ainda pensando no comentário sobre sua amiga Lily.
Sirius riu histéricamente.
Ao contrário, seu rosto se abriu em um largo sorriso e ele disse numa voz esganiçada que fez os passantes olharem:
— Não precisa pedir desculpas, caro senhor, porque nada poderia me aborrecer hoje! Alegre-se, porque Você-Sabe-Quem finalmente foi-se embora! Até trouxas, como o senhor, deviam estar comemorando um dia tão feliz!
E o velho abraçou o Sr. Dursley pela cintura e se afastou.
- Espera! – Sirius gritou e Remo mentalmente agradeceu por ter colocado um feitiço silenciador no quarto.
- O quê? – o lobisomem perguntou com impaciência, afinal, o moreno não parava de interromper.
- Como ele conseguiu abraçá-lo pela cintura? O baleia Dursley deve ter cem centímetros de circunferência!
Remo bufou e não fez nenhum comentário sobre a fala do amigo.
O Sr. Dursley ficou pregado no chão. Fora abraçado por um completo estranho.
- Eu sei, como ele conseguiu não é? Quero dizer, você é muito gordo e...
- Não acho que seja isso que o preocupa, Padfoot.
E também achava que fora chamado de trouxa, o que quer que isso quisesse dizer. Estava abalado. Correu para o carro e partiu para casa, esperando que estivesse imaginando coisas, o que nunca esperara que fizesse, porque não aprovava a imaginação.
- Gosto cada vez menos desse semi-humano.
- Bom, realmente, não aprovar imaginação é alguma coisa – Remo concordou, afinal, ele também era um Maroto.
Quando entrou no estacionamento do número quatro, a primeira coisa que viu — e isso não melhorou o seu estado de espírito — foi o gato listrado que notara aquela manhã. Agora ele estava sentado no muro do jardim. Tinha certeza de que era o mesmo, as marcas em volta dos olhos eram as mesmas.
- Falei que era a Minnie!
- Existem muitos gatos listrados, Sirius! – Remo exclamou impacientemente.
- Mas essa é a Minnie.
- Minerva.
- Minnie.
- Minerva.
- Minnie.
- Minerv... Argh! – Remo desistiu, jogando as mãos para cima e voltando a pegar o livro. Sirius bateu palmas leves, satisfeito.
— Chispa! — disse o Sr. Dursley em voz alta.
O gato não se mexeu. Apenas lançou-lhe um olhar severo.
- Estou dizendo que é...
- Se você falar "Minnie" de novo, te farei ficar piscando como uma luzinha de Natal até o fim de sua vida – o lobisomem ameaçou, e Sirius ficou quieto. Ele conhecia seu amigo, sabia do que era capaz.
Será que isto era um comportamento normal para um gato, pensou o Sr. Dursley.
- Não, só dá...
Remo bateu novamente com o livro na cabeça do amigo.
Continuava decidido a não comentar nada com a esposa.
A Sra. Dursley tivera um dia normal e agradável. Contou-lhe durante o jantar os problemas da senhora do lado com a filha e ainda que Duda aprendera uma palavra nova ("Nunca").
- Que orgulho – Remo comentou sarcasticamente. Sirius riu e estava prestes a fazer um comentário sobre o humor do lobisomem quando viu o olhar do mesmo.
O Sr. Dursley tentou agir normalmente. Depois que Duda foi se deitar, ele chegou à sala em tempo de ouvir o último noticiário noturno.
"E, por último, os observadores de pássaros em toda parte registraram que as corujas do país se comportaram de forma muito estranha hoje. Embora elas normalmente cacem à noite e raramente apareçam à luz do dia, centenas desses pássaros foram visto hoje voando em todas as direções desde o alvorecer. Os especialistas não sabem explicar por que as corujas de repente mudaram o seu padrão de sono."
O locutor se permitiu um sorriso.
"Muito misterioso. E agora, com Jorge Mendes, o nosso boletim meteorológico. Vai haver mais tempestades de corujas hoje à noite, Jorge?"
"Bom, Eduardo", disse o meteorologista, "não sei lhe dizer, mas não foram só as corujas que se comportaram de modo estranho hoje. Ouvintes de todo o país têm telefonado para reclamar que em vez do aguaceiro que prometi para ontem, eles têm tido chuvas de estrelas! Talvez alguém ande festejando a noite das fogueiras uma semana mais cedo este ano! Mas posso prometer para hoje uma noite chuvosa."
Remo pausou, surpreso.
- O quê? – Sirius perguntou confuso.
- Não vai interromper?
- Ahn? Ah, ah! Não. Estamos numa parte chata – Sirius deu de ombros e Remo olhou ceticamente para ele.
O Sr. Dursley ficou paralisado na poltrona. Estrelas cadentes em todo o país? Corujas voando durante o dia? Gente misteriosa usando capas por todo lado? E um cochicho, um cochicho a respeito dos Potter...
A Sra. Dursley entrou na sala trazendo duas xícaras de chá. Não adiantava. Teria que lhe dizer alguma coisa. Pigarreou nervoso.
— Hm, hm, Petúnia, querida, você não tem tido notícias de sua irmã, ultimamente?
Conforme esperava, a Sra. Dursley pareceu chocada e aborrecida. Afinal, normalmente fingiam que ela não tinha irmã...
- Lily também fingia que você não existia, sua égua!
- Sirius!
- O quê? É verdade!
— Não — respondeu ela, seca. — Por quê?
— Uma notícia engraçada — murmurou o Sr. Dursley. — Corujas... estrelas cadentes... e vi uma porção de gente de aparência estranha na cidade hoje...
— E daí? — cortou a Sra. Dursley.
— Bem, pensei... talvez,,, tivesse alguma ligação com... sabe... o pessoal dela.
- Prefiro ser o "pessoal dela" do que o seu – Remo disse calmamente, embora borbulhasse por dentro.
Sirius deu um high five com o amigo.
A Sra. Dursley bebericou o chá com os lábios contraídos. O Sr. Dursley ficou em dúvida se teria coragem de lhe contar que ouvira o nome "Potter". Decidiu que não.
Em vez disso, falou com a voz mais displicente que pôde:
— O filho deles... teria mais ou menos a idade do Duda agora, não?
— Suponho que sim — respondeu a Sra. Dursley ainda seca.
— Como é mesmo o nome dele? Ernesto, não é?
- Não! Sirius Padfoot Potter!
— Harry. Um nome feio e vulgar se quer saber minha opinião.
- Ninguém pediu sua opinião – Remo e Sirius disseram juntos.
— Ah, é — disse o Sr. Dursley, sentindo um aperto horrível no coração. — É, concordo com você.
- Viu? Ele concorda com a gente – Sirius alegremente anunciou.
Não disse mais nenhuma palavra sobre o assunto a caminho do quarto onde foram se deitar. Enquanto a Sra. Dursley estava no banheiro, o Sr. Dursley foi devagarzinho até a janela e espiou o jardim da casa. O gato continuava lá.
- Devia saber que a Minnie é teimosa.
- Ele nem mesmo conhece a Minerva, ou melhor, nem sabe que o gato é um ser humano.
- Humpf.
Observava o começo da Rua dos Alfeneiros como se esperasse alguma coisa.
Estaria imaginando coisas?
- Achei que você não aprovava imaginação – Remo pontuou sorridente.
- Ah! – Sirius dramaticamente colocou uma mão sobre o coração – Adoro quando seu lado Maroto aflora!
Será que tudo isto teria ligação com os Potter? Se tinha... se transpirasse que eram aparentados como um casal de... bem, ele achava que não agüentaria.
Os Dursley se deitaram. A Sra. Dursley, adormeceu logo, mas o Sr. Dursley continuou acordado, pensando no que acontecera. Seu último consolo antes de adormecer foi pensar que mesmo que os Potter estivessem envolvidos, não havia razão para se aproximarem dele e da Sra. Dursley. Os Potter sabiam muito bem o que pensavam deles e de gente de sua laia...
- Nossa laia... – o lobisomem resmungou com desgosto. Esse homem era tão ignorante!
Não via como ele e Petúnia poderiam se envolver com nada que estivesse acontecendo. O Sr. Dursley bocejou e se virou. Isso não poderia afetá-los...
Como estava enganado.
- Grande novidade – Sirius disse ao mesmo tempo em que Remo dizia: - A novidade é?
Eles dividiram um sorriso.
O Sr. Dursley talvez estivesse mergulhando em um sono inquieto, mas o gato no muro lá fora não mostrava sinais de sono.
Continuava sentado imóvel como uma estátua, os olhos fixos na esquina mais distante da rua dos Alfeneiros. E nem sequer estremeceu quando uma porta de carro bateu na rua seguinte, nem mesmo quando duas corujas mergulharam do alto. Na verdade, era quase meia-noite quando o gato se mexeu.
- Uau, uma coisa é ser paciente, outra é ser a Minerva.
- Rá! Então admite que acha que é a Minnie!
Remo somente bateu na sua testa com a palma da mão.
Um homem apareceu na esquina que o gato estivera vigiando.
Apareceu tão súbita e silenciosamente que se poderia pensar que tivesse saído do chão. O rabo do gato mexeu ligeiramente e seus olhos se estreitaram.
Ninguém jamais vislumbrara nada parecido com este homem na rua dos Alfeneiros. Era alto, magro e muito velho a julgar pelo prateado dos seus cabelos e de sua barba, suficientemente longos para prender no cinto.
Usava vestes longas, uma capa púrpura que arrastava pelo chão e botas com saltos altos e fivelas. Seus olhos azuis eram claros, luminosos e cintilantes por trás dos óculos em meia-lua e o nariz muito comprido e torto, como se o tivesse quebrado pelo menos duas vezes.
- Dumby!
O nome dele era Alvo Dumbledore.
- Falei!
- Ninguém discordou de você, Padfoot.
Alvo Dumbledore não parecia ter consciência de que acabara de pisar numa rua onde tudo, desde o seu nome às suas botas, era malvisto.
- Eu acho que ele sabe, somente não liga – Remo comentou com um sorriso.
Estava ocupado apalpando a capa, procurando alguma coisa. Mas parecia ter consciência de que estava sendo vigiado, porque ergueu a cabeça de repente para o gato, que continuava a fitá-lo da outra ponta da rua. Por algum motivo, a visão do gato pareceu diverti-lo. Deu uma risadinha e murmurou: "Eu devia ter imaginado."
- Ele também a reconhece, viu, Remo?
O dito cujo preferiu ficar em silêncio, recusando-se a responder tal coisa.
Encontrou o que procurava no bolso interior da capa. Parecia um isqueiro de prata. Abriu-o, ergueu-o no ar e o acendeu. O lampião de rua mais próximo apagou-se com um estalido seco.
- Quero um! – Sirius quase gritou em excitação.
- Não acho que vendam por aí – Remo coçou o queixo pensativo – Parece algo criado pelo próprio Alvo.
Padfoot fez um biquinho, como uma criança que não ganhou um doce.
Ele fez de novo — o lampião seguinte piscou e apagou, doze vezes ele acionou o "apagueiro", até que as únicas luzes acesas na rua eram dois pontinhos minúsculos ao longe – os olhos do gato que o vigiava.
Se alguém espiasse pela janela agora, até a Sra. Dursley, de olhos de contas, não conseguira ver nada que estava acontecendo na calçada. Dumbledore tornou a guardar o "apagueiro" na capa e saiu caminhando pela rua em direção ao número quatro, onde se sentou no muro ao lado do gato. Não para olhar para o bicho, mas, passado algum tempo, dirigiu-se a ele.
- Seria uma cena estranha para um trouxa – Sirius admitiu.
— Imaginava encontrar a senhora aqui, Profª Minerva McGonagall.
- Rá! Rá! Eu disse, eu disse! – comemorou Sirius, deleitado pelo prazer de estar certo. Ele somente parou sua dancinha da vitória alguns minutos depois, voltando a sentar-se na cama.
E virou-se para sorrir para o gato, mas este desaparecera. Ao invés dele, viu-se sorrindo para uma mulher de aspecto severo que usava óculos de lentes quadradas exatamente do formato das marcas que o gato tinha em volta dos olhos. Ela, também, usava uma capa esmeralda. Trazia os cabelos negros presos num coque apertado. E parecia decididamente irritada.
- Corram para as colinas!
- Ele não é você, Sirius. Alvo não fez nada errado, diferente de você, que só a via quando explodia alguma coisa.
- Você gosta de cortar minha diversão, não é?
- Sim.
— Como soube que era eu? — perguntou.
- Não é tão difícil, minha cara Minnie.
— Minha cara professora, nunca vi um gato se sentar tão duro.
Ambos soltaram risadas, imaginando o quão indignada a Professora ficaria com tal comentário.
— O senhor estaria duro se tivesse passado o dia todo sentado em um muro de pedra — respondeu a Profª Minerva.
— O dia todo? Quando podia estar comemorando? Devo ter passado por mais de dez festas e banquetes a caminho daqui.
"Eu não estive comemorando", Sirius pensou sombriamente, o sorriso lentamente caindo de seu rosto.
A professora fungou aborrecida.
— Ah, sim, vi que todos estão comemorando — disse impaciente. — Era de esperar que fossem um pouco mais cautelosos, mas não, até os trouxas notaram que alguma coisa estava acontecendo. Deu no telejornal. — Ela indicou com a cabeça a sala às escuras dos Dursley. — Eu ouvi... bandos de corujas... estrelas cadentes... Ora, eles não são completamente idiotas.
- Ui, completamente – Sirius falou divertido. Mas nem mesmo isso cobriu a bola de tristeza que o atingia.
Não podiam deixar de notar alguma coisa. Estrelas cadentes em Kent, aposto que foi coisa de Dédalo Diggle. Ele nunca teve muito juízo.
— Você não pode culpá-los — ponderou Dumbledore educadamente. — Temos tido muito pouco o que comemorar nos últimos onze anos.
"Muito menos nesse dia", Remo pensou.
— Sei disso — retrucou a professora mal-humorada. — Mas não é razão para perdermos a cabeça. As pessoas estão sendo completamente descuidadas, saem às ruas em plena luz do dia, sem nem ao menos vestir roupa de trouxa, e espalham boatos.
- Isso seria o mínimo de prudência – Remo concordou quietamente.
De esguelha, lançou um olhar atento a Dumbledore, como se esperasse que ele dissesse alguma coisa, mas ele continuou calado, por isso ela recomeçou:
— Ia ser uma graça se, no próprio dia em que Você-Sabe-Quem parece ter finalmente ido embora, os trouxas descobrissem a nossa existência. Suponho que ele realmente tenha ido embora, não é, Dumbledore?
- Não – os dois presentes responderam logo.
— Parece que não há dúvida. Temos muito que agradecer. Aceita um sorvete de limão?
- Um o quê? – Sirius perguntou incrédulo.
— Um o quê?
Remo riu: - Não sabia que tinha tanto de Minerva em você, Padfoot.
Sirius fez uma careta que fez o outro rir mais forte ainda.
— Um sorvete de limão. É uma espécie de doce dos trouxas de que sempre gostei muito.
— Não, obrigada — disse a Profª. Minerva com frieza, como se não achasse que o momento pedia sorveres de limão. ("Awnnn, Minnie!") — Mesmo que Você-Sabe-Quem tenha ido embora...
— Minha cara professora, com certeza uma pessoa sensata como a senhora pode chamá-lo pelo nome. Toda essa bobagem de Você-Sabe-Quem, há onze anos venho tentando convencer as pessoas a chamá-lo pelo nome que recebeu: Voldemort.
- Repete comigo, Minnie: Voldemort. Chame até de Voldymoldy, se quiser.
Remo começou a rir histericamente, assim como Sirius fizera há alguns minutos, e, durante algum tempo, não conseguiu parar.
O animago se mostrou satisfeito por terem apreciado sua piada.
A professora franziu a cara, mas Dumbledore, que estava separando dois sorvetes de limão, pareceu não reparar.
— Tudo fica tão confuso quando todos não param de dizer "Você-Sabe-Quem". Nunca vi nenhuma razão para ter medo de dizer o nome de Voldemort.
— Sei que não vê — disse a professora parecendo meio exasperada, meio admirada. — Mas você é diferente. Todo o mundo sabe é o único de quem Você-Sabe... ah, está bem, de quem Voldemort ("Dá-lhe, Minnie!" "Sirius, cale a boca uma vez na sua vida!") tem medo.
— Isto é um elogio — disse Dumbledore calmamente. — Voldemort tinha poderes que nunca tive.
- Pfff! Você tem, só não usa.
— Só porque você é muito... bem... nobre para usá-los.
- Padfoot, estou preocupado. Nunca soube que você pensava tão igual à Minerva.
- Nem eu! – disse um fingidamente choroso, Sirius.
— É uma sorte estar escuro. Nunca mais corei assim desde que Madame Pomfrey me disse que gostava dos meus abafadores de orelhas novos.
- Imagens mentais que eu preferia não ter – ambos disseram com uma careta.
A Profª. Minerva lançou um olhar severo
- E ela tem outro olhar? – Sirius perguntou duvidoso.
- Tem. Menos pra você. Pra você é só o severo mesmo.
a Dumbledore e disse:
— As corujas não são nada comparadas aos boatos que correm. Sabe o que todos estão dizendo? Por que ele foi embora? Que foi que finalmente o deteve?
Aparentemente a Profª. Minerva chegara ao ponto que estava ansiosa para discutir, a verdadeira razão pela qual estivera esperando o dia todo em cima de um muro frio e duro, porque nem como gato nem como mulher ela fixara antes um olhar tão penetrante em Dumbledore como agora.
- Ui, penetrante – disse Sirius numa voz lentamente sexy.
- Argh, por favor, por tudo que é mais sagrado, não repita esta voz... Ainda estou com a imagem de Poppy elogiando Alvo... – Remo tremeu e Sirius riu.
Era óbvio que seja o que fosse que "todos" estavam dizendo, ela não iria acreditar até que Dumbledore confirmasse ser verdade. Dumbledore, porém, estava escolhendo mais um sorvete de limão e não respondeu.
- Vigilância constante! – Sirius latiu numa voz muito parecida com a de Olho-Tonto Moody.
— O que estão dizendo — continuou ela — é que a noite passada Voldemort apareceu em Godric's Hollow. Foi procurar os Potter. O boato é que Lily e James Potter estão... estão... que estão... mortos.
Remo forçou as palavras a saírem.
Durante alguns minutos, nenhum dos dois falou, tristes demais para fazerem algum comentário. Sirius, derramando lágrimas que ele segurara por muito tempo, abraçou os joelhos, como se quisesse se encolher até sumir.
- Ah, Moony... – Sirius disse numa voz estrangulada – foi tudo minha culpa... Se eu não... Se eu não tivesse...
Mas, para a completa surpresa do moreno, o lobisomem ficou furioso: - Não é sua culpa, seu idiota! A culpa é daquele rato miserável que os entregou!
- Mas, se eu não tivesse sugerido... Se eu não... – Padfoot lamentou.
- NÃO É SUA CULPA! – o lobisomem praticamente soletrou, atraindo a atenção do outro – Sua culpa? Você queria proteger seus – nossos – amigos, não fez nada errado!
Sirius suspirou, secou as lágrimas – e assentiu. Não estava completamente convencido, mas, por enquanto, bastava.
Dumbledore fez que sim com a cabeça. A Profª. Minerva perdeu o fôlego.
— Lily e James... Não posso acreditar... Não quero acreditar... Ah, Alvo.
"Eu ainda não acredito", Sirius pensou e mais uma lágrimas escorreu por sua bochecha.
Dumbledore estendeu a mão e deu-lhe um tapinha no ombro.
— Eu sei... eu sei... — disse deprimido.
A voz da Profª. Minerva tremeu ao prosseguir:
— E não é só isso. Estão dizendo que ele tentou matar o filho dos Potter, Harry.
Ambos tremeram.
Mas... não conseguiu. Não conseguiu matar o garotinho.
- Graças ao céus! Se Harry tivesse sido... Se Harry tivesse sido... – Sirius não conseguiu completar a frase e engoliu seco –, eu não agüentaria.
Remo assentiu furiosamente, concordando.
Ninguém sabe o porquê nem como, mas estão dizendo que na hora que não pôde matar Harry Potter, por alguma razão, o poder de Voldemort desapareceu, e é por isso que ele foi embora.
Dumbledore concordou com a cabeça, sério.
— É... é verdade? — gaguejou a professora. — Depois de tudo o que ele fez... todas as pessoas que matou... não conseguiu matar um garotinho? É simplesmente espantoso... de tudo que poderia detê-lo... mas, por Deus, como foi que Harry sobreviveu?
"Lily", os dois presentes no quarto pensaram ao mesmo tempo.
— Só podemos imaginar — disse Dumbledore. — Talvez nunca cheguemos a saber.
- Será que ele já sabia na época, Moony?
- Só podemos imaginar, Padfoot – Remo repetiu a fala do velho diretor com um sorriso.
A Profª. Minerva pegou um lenço de renda e secou com delicadeza os olhos por baixo das lentes dos óculos. Dumbledore deu uma grande fungada ao mesmo tempo em que tirava o relógio de ouro do bolso e o examinava. Era um relógio muito estranho. Tinha doze ponteiros, mas nenhum número; em vez deles, pequenos planetas giravam à volta.
- Mais de trinta anos no mundo bruxo e nunca entendi um relógio desses – Sirius resmungou.
Mas, devia fazer sentido para Dumbledore, porque ele o repôs no bolso e disse:
— Hagrid está atrasado. A propósito, foi ele que lhe disse que eu estaria aqui, suponho.
— Foi. E suponho que você não vá me dizer por que está aqui e não em outro lugar.
— Vim trazer Harry para tio e a tia. Eles são a única família que lhe resta.
- Não são não! Ele tem a mim, a Remo, e todos os amigos! Eles não são a família dele! – Sirius gritou ultrajado.
Remo puxou Sirius de volta para a cama, visto que o amigo tinha levantado tamanha indignação.
- Nós sabemos disso, Padfoot. Harry também sabe disso. É o que importa.
— Você não quer dizer, você não pode estar se referindo às pessoas que moram aqui? — exclamou a Profª. Minerva, pulando de pé e apontando para o número quatro. — Dumbledore, você não pode. Estive observando a família o dia todo. Você não poderia encontrar duas pessoas menos parecidas conosco. E têm um filho, vi-o dando chutes na mãe até a rua, berrando porque queria balas. Harry Potter não pode vir morar aqui!
- Bom – Remo disse num suspirou pesado -, pelo menos Minerva tentou. Imagino que devamos agradecer mais tarde.
Sirius assentiu.
— É o melhor lugar para ele — disse Dumbledore com firmeza. — Os tios poderão lhe explicar tudo quando ele for mais velho, escrevi-lhes uma carta.
- Uma carta? – falou Sirius – Francamente, ele acha que pode explicar tudo numa carta?
— Uma carta? — repetiu a professora com a voz fraca, sentando-se novamente no muro. — Francamente, Dumbledore, você acha que pode explicar tudo isso em uma carta?
- Pare de roubar as falas de Minerva, Sirius, por mais iguais que vocês sejam! – Remo brincou, e viu que o amigo começou a roer as unhas, num falso nervosismo.
Essas pessoas jamais vão entendê-lo! Ele vai ser famoso, uma lenda. Eu não me surpreenderia se o dia de hoje ficasse conhecido no futuro como o dia de Harry Potter. Vão escrever livros sobre Harry. ("De fato", Remo falou e ambos riram) Todas as crianças no nosso mundo vão conhecer o nome dele!
— Exatamente — disse Dumbledore, olhando muito sério por cima dos óculos de meia-lua. — Isto seria o bastante para virar a cabeça de qualquer menino. Famoso antes mesmo de saber andar e falar! Famoso por alguma coisa que ele nem vai se lembrar! Veja que ele estará muito melhor se crescer longe de tudo isso até que tenha capacidade de compreender?
- Bem... Isso é um bom motivo – Sirius ponderou, mas logo tratou de acrescentar: - Mas se fosse o caso, que o deixasse na casa de outro trouxa e não nessa família em especifico!
- Aí eu concordo com você, Padfoot.
A professora abriu a boca, mudou de idéia, engoliu em seco e então disse:
— É, é, você está certo, é claro.
- É claro! – Sirius concordou ironicamente. O tempo preso no Largo por ordem de Dumbledore não parecia estar fazendo bem a ele.
Mas como é que o garoto vai chegar aqui, Dumbledore? — Ela olhou para a capa dele de repente como se lhe ocorresse que talvez escondesse Harry ali.
- É bom que não esteja! – Remo exclamou numa voz seriíssima.
— Hagrid vai trazê-lo.
— Você acha que é sensato confiar a Hagrid uma tarefa importante como esta?
- Eu confiaria a Hagrid minha vida – Sirius disse sério.
— Eu confiaria a Hagrid minha vida — respondeu Dumbledore.
- Santo Merlin! Agora vai roubar as falas de Dumbledore também?
- Ah, não enche, Moony!
— Não estou dizendo que ele não tenha o coração no lugar — concedeu a professora de má vontade —, mas você não pode fingir que ele é cuidadoso.
- É... Isso é verdade – Sirius concordou, mesmo que contrariado.
Que tem uma tendência a... que foi isso?
Um ronco discreto quebrara o silêncio da rua. Foi aumentando cada vez mais enquanto eles olhavam para cima e para baixo da rua à procura de um sinal de farol de carro; o ronco se transformou num trovão quando os dois olharam para o céu — e uma enorme motocicleta caiu do ar e parou na rua diante deles.
- Haley, meu amor!
- Você deu um nome para sua motocicleta? – indagou Remo incredulamente.
- Haley – Sirius frisou o nome – não gosta de ser chamada de motocicleta.
- Que seja, que seja...
Se a motocicleta era enorme, não era nada comparada ao homem que a montava de lado. Ele era quase duas vezes mais alto do que um homem normal e pelo menos cinco vezes mais largo. Parecia simplesmente grande demais para existir e tão selvagem — emaranhados de barba e cabelos negros longos e grossos escondiam a maior parte do seu rosto, as mãos tinham o tamanho de uma lata de lixo e os pés calçados com botas de couro pareciam filhotes de golfinhos. Em seus braços imensos e musculosos ele segurava um embrulho de cobertores.
Houve um enorme clarão no quarto. A luz era tão intensa, que durante alguns segundos, Sirius e Remo fecharam os olhos. Quando os reabriram, qual foi suas surpresas vendo um embrulhinho no meio da cama.
Sirius olhou hesitantemente para Remo, que assentiu. Ambos espicharam–se na cama para ver melhor.
Entre cobertores vermelhos xadrez, eles viram um conhecido bebê. Tinha cabelos pretos que apontavam para todos os lados. Os olhos verdes, curiosos, examinavam tudo a sua volta. O rosto do bebê era angelical.
- Harry... – Sirius sussurrou maravilhado. Ele nunca, em todo resto de sua vida esperava ver o afilhado assim novamente. Era como voltar no passado.
O animago puxou o bebê para o seu colo, afrouxando um poucos os cobertores, de forma que Harry mexeu os braços e puxou os longos cabelos de Sirius.
- Ai, ai – o moreno reclamou, mas ainda tinha um sorriso no rosto.
- Sirius! Escute! – Remo disse, segurando a carta do "Trio de Ouro" nas mãos – "Harry logo se juntará a vocês e devo adverti-los: a idade dele mudará conforme a idade do livro. De forma que, se querem que ele volte ao normal, terão de terminar a série."
- Isso quer dizer que Harry ficará bebê até lermos outro capítulo, onde ele provavelmente crescerá? – Sirius perguntou, animado com a possibilidade.
Remo o olhou seriamente por alguns minutos, antes de dizer: - Não podemos deixá-lo assim para sempre, Sirius.
- O que... Moony, do que você está falando?
- Sei que gosta do Harry bebê, Sirius, onde pode cuidar dele e ficar com ele em tempo integral, mas não podemos deixá-lo assim, você sabe disso.
O moreno suspirou.
- Sim, eu sei, Moony.
Remo apertou os olhos durante alguns instantes, mas voltou a ler após.
— Hagrid — exclamou Dumbledore, parecendo aliviado. — Finalmente. E onde foi que arranjou a moto?
— Pedi emprestada, Prof. Dumbledore — respondeu o gigante, desmontando cuidadosamente da moto ao falar. — O jovem Sirius me emprestou.
- Doce Haley – falou Sirius num tom dramático.
Harry deu uma risadinha de bebê, fazendo ambos os homens sorrirem.
Trouxe ele, professor.
— Não teve nenhum problema?
— Não, senhor. A casa ficou quase destruída, mas consegui tirá-lo inteiro antes que os trouxas invadissem o lugar. Ele dormiu quando estivemos sobrevoando Bristol.
Os dois se entreolharam: - Awwwwww.
Dumbledore e a Profª Minerva curvaram-se para o embrulho de cobertores. Dentro, apenas visível, havia um menino, que dormia a sono solto. Sob uma mecha de cabelos muito negros caída sobre a testa eles viram um corte curioso, tinha a forma de um raio.
De fato a cicatriz estava no bebê Harry.
— Foi aí que...? — sussurrou a professora.
— Foi — confirmou Dumbledore.— Ficará com a cicatriz para sempre.
— Será que você não poderia dar um jeito, Dumbledore?
— Mesmo que pudesse, eu não o faria. As cicatrizes podem vir a ser úteis. Tenho uma acima do joelho esquerdo que é um mapa perfeito do metrô de Londres.
Sirius pigarreou, segurando uma risada: - Eu também poderia viver sem essa informação.
- Só por curiosidade: como, diabos, ele conseguiu uma cicatriz assim?
Harry ainda estava no colo do padrinho, brincando com os cabelos do mesmo.
Bem, me dê ele aqui, Hagrid, é melhor acabarmos logo com isso.
Dumbledore recebeu Harry nos braços e virou-se para a casa dos Dursley.
— Será que eu podia... podia me despedir dele, professor? — perguntou Hagrid.
Ele curvou a enorme cabeça descabelada para Harry e lhe deu o que deve ter sido um beijo muito áspero e peludo. Depois, sem aviso, Hagrid soltou um uivo como o de um cachorro ferido.
- Ei! Meu orgulho foi ferido!
Remo riu.
- Paddy! – Harry bateu palminhas alegres, e depois puxou, pela terceira vez, os cabelos de Sirius, que o abraçou forte.
- Faz tanto tempo que ele não me chama assim... Senti falta – Sirius não admitiria nem sob tortura que tinha lágrimas nos olhos por causa disso.
- Paddy – Harry repetiu quietamente.
— Psiu! — sibilou a Professora Minerva. — Você vai acordar os trouxas!
— Des-des-desculpe — soluçou Hagrid, puxando um enorme lenço sujo e escondendo a cara nele. — Mas nã-nã-não consigo suportar, Lily e James mortos, e o coitadinho do Harry ter de viver com os trouxas...
- Eles não podem ser tão ruins assim? Quero dizer, sei que Harry diz que são horríveis, mas... – Remo parou, porque se deu conta que, por mais que Harry dissesse isso, ele não falava muito sobre sua vida nos Dursley.
Aí ele começou a ficar preocupado.
— É, é, é muito triste, mas controle-se, Hagrid, ou vão nos descobrir — sussurrou a professora, dando uma palmadinha desajeitada no braço de Hagrid enquanto Dumbledore saltava a mureta de pedra e se dirigia à porta da frente. Depositou Harry devagarzinho no batente,
- ELE DEPOSITOU MEU AFILHADO NUMA SOLEIRA DE PORTA? – Sirius gritou, ao mesmo tempo em que Remo dizia:
- ERA O MÊS DE NOVEMBRO, COMO ELE PÔDE?
Harry olhou curioso para os dois adultos que gritavam a altas vozes (novamente era ótimo ter um feitiço silenciador no quarto).
- Paddy! – Harry bateu palmas novamente, chamando atenção de ambos.
- Desculpe Harry, não queríamos assustá-lo – Sirius disse.
- Moony blavo, Moony blavo! – ele apontou para o lobisomem, que sorriu para o menino.
- Ainda me impressiono com o quão esperto ele era.
Sirius assentiu, concordando.
tirou uma carta da capa, meteu-a entre os cobertores do menino e, em seguida, voltou para a companhia dos dois. Durante um minuto inteiro os três ficaram parados olhando para o embrulhinho; os ombros de Hagrid sacudiram, os olhos da Profª Minerva piscaram loucamente e a luz cintilante que sempre brilhava nos olhos de Dumbledore parecia ter-se extinguido.
— Bem — disse Dumbledore finalmente —, acabou-se. Não temos mais nada a fazer aqui. Já podemos nos reunir aos outros para comemorar.
Remo fez uma carranca com a palavra "comemorar".
— É — disse Hagrid com a voz muito abafada. — Vou devolver a moto de Sirius. Boa noite, Profª. Minerva, Professor Dumbledore...
Enxugando os olhos na manga da jaqueta, Hagrid montou na moto e acionou o motor com um pontapé; com um rugido ela levantou vôo e desapareceu na noite.
— Nos veremos em breve, espero, Profª. Minerva — falou Dumbledore, com um aceno da cabeça. A Profª. Minerva assoou o nariz em resposta.
Dumbledore se virou e desceu a rua. Na esquina parou e puxou o "apagueiro". Deu um clique e doze esferas de luz voltaram aos lampiões de modo que a Rua dos Alfeneiros de repente iluminou-se com uma claridade laranja e ele divisou o gato listrado se esquivando pela outra ponta da rua. Mal dava para enxergar o embrulhinho de cobertores no batente do número quatro.
- Colocar meu afilhado no batente, onde já se viu... – Sirius resmungava por baixo da respiração.
— Boa sorte, Harry — murmurou ele. Girou nos calcanhares e, com um movimento da capa, desapareceu.
Uma brisa arrepiou as cercas bem cuidadas da rua dos Alfeneiros, silenciosas e quietas sob o negror do céu, o último lugar do mundo em que alguém esperaria que acontecessem coisas espantosas. Harry Potter virou-se dentro dos cobertores sem acordar. Sua mãozinha agarrou a carta ao lado, mas ele continuou a dormir, sem saber que era especial, sem saber que era famoso, sem saber que iria acordar dentro de poucas horas com o grito da Sra. Dursley ao abrir a porta da frente para pôr as garrafas de leite do lado de fora, nem que passaria as próximas semanas levando cutucadas e beliscões do primo Duda...
Remo e Sirius apertaram os olhos ao ler esta sentença.
Ele não podia saber que neste mesmo instante, havia pessoas se reunindo em segredo em todo o país que erguiam os copos e diziam com vozes abafadas:
— A Harry Potter: o menino que sobreviveu!
- Isso foi meio... Depressivo – sentenciou Remo, ao fechar o livro.
- Meio? – Sirius perguntou ceticamente.
O pequeno Harry bocejou longamente, piscando os olhos com sonolência. Remo olhou no relógio e viu que já passava da uma da manhã.
- Imagino que amanhã possamos terminar os livros, não é?
- Sim. Harry parece meio cansado... – Sirius olhou preocupado para o garotinho.
Remo sorriu para a cena.
- Mesmo que não iremos ficar com ele assim para sempre, é bom ter alguns minutos, não é? – indagou. Sirius não respondeu, mas Remo entendia.
Sirius entregou Harry para Remo segurar durante um instante, enquanto arrumava a cama.
- Moony – Harry disse em reconhecimento ao lobisomem. Estava com as pernas em volta da cintura de Lupin, olhando inocentemente para o mesmo.
- Também estava com saudades, filhote.
Sirius parou por alguns segundos e virou-se para o amigo, surpreso.
- Faz tempo que não o ouço chamá-lo assim.
- O quê? – disse Remo totalmente confuso.
- Eu e você não chamamos Harry de filhote, Prongslet e Bambi desde que ele era bebê – Sirius esclareceu.
- Pra mim ele será sempre meu bebê – Remo reclamou, olhando para o menino que já dormia em seus braços.
Sirius olhou-o pensativo e concordou com um aceno de cabeça. É, ele também era seu bebê. Sorrindo, pensando na reação de um Harry adolescente ao ouvir sendo chamado de bebê, ele terminou de arrumar a cama para dormir.
- Bom – Remo disse, entregando Harry cuidadosamente a Sirius, enquanto se encaminhava para fora do quarto – vou escrever uma carta a Dumbledore.
- Por quê?
- Imagino que se Harry está aqui agora, não deve estar em Hgowarts, não é? – Remo disse logicamente.
Sirius bateu na própria testa: - É claro. Desculpa, pergunta idiota. De qualquer forma, conte só a Dumbledore, não acho que seria uma boa idéia espalhar por aí que temos um bebê Harry e sete livros sobre sua vida.
- Apoiado – Remo disse com um sorriso cansado – Boa noite, Padfoot.
- Boa noite, Moony – Remo sorriu, porque era bom ver seu amigo animado novamente.
Sirius colocou pijamas em si mesmo. Olhou para Harry, que dormia em cima dos cobertores – ele vestia um macacão azul, cobrindo seus pés. Imaginou que fosse daquele dia.
Respirou fundo.
Deitou embaixo dos cobertores, finalmente percebendo o quão frio estava. Ajeitou Harry consigo, abraçando-o como um bicho de pelúcia.
- Paddy... – Harry murmurou sonolento, revirando-se na cama.
Sirius sorriu e fechou os olhos.
