Natal é tempo de vida e de descobertas que a irão mudar drasticamente

Scorpius Malfoy era um homem numa missão.

A mera menção do seu nome deixava milhares de feiticeiras com as pernas a tremer e ainda que as suas aparições em público fossem sempre acompanhadas pela sua mulher, isso não diminuía em nada o fascínio por ele. Afinal, alguém que resiste a levar com bludgers na cabeça dia sim, dia não, que sobrevive a quedas de centenas de metros e que consegue capturar a minúscula snitch num estádio com centenas de metros de área era realmente alguém a ser levado em consideração. Mas se havia algo que o faria desistir de tudo isso num instante era a mulher pela qual se apaixonara quando tinha dezasseis anos. E era por causa dela que se encontrava presentemente numa missão de recolha de informação.

A sala estava incrivelmente limpa, tendo em conta a época festiva e o número exacerbado de doentes que caminhavam de um lado para o outro. A missão era simples: caminhar pelo longo corredor, encontrar a mulher e garantir que estava tudo bem com esta… mas vira todas as suas tentativas frustradas por feiticeiros de mantos institucionais que teimavam em ignorar as suas questões e pedidos. Ora, Scorpius era um Malfoy e era sabido que estes conseguiam sempre tudo o que queriam, por isso, levantando-se de forma calma, de mãos nos bolsos, iniciara a sua última aproximação aos quartos, ao fundo do corredor.

Caminhava com um ar gingão, como alguém que não tivesse nada a esconder, enquanto revia mentalmente as causas que o tinham levado àquela situação. Rose e ele estavam no meio do treino de Quidditch, com os restantes membros da sua equipa, quando Scorpius vira, pelo canto do olho, dois colegas seus largarem as suas posições e dirigirem-se a toda a velocidade para os postes de marcação. Seguindo as suas rotas, Scorpius vira a mulher com a mão encostada a um dos postes, como se procurasse apoio e então, de repente, fechara os olhos e caíra desamparada. O seu nome ecoou pelo estádio, quando Scorpius gritou, mas os seus dois colegas estavam bastante perto e haviam-na agarrado, antes de se magoar. Transportaram-na para o chão e viram como estava extremamente pálida. Suor frio escorria-lhe pela face e fervia sob as mãos ansiosas de Scorpius. A equipa de curandeiros acorrera ao local e levitaram-na para a lareira mais próxima e daí para São Mungo. Scorpius correra atrás deles, mas quando chegara ao hospital, já não vira sinal de Rose por lado nenhum.

- Mr. Malfoy! – chamou uma voz, e as costas de Scorpius enrijeceram. Praguejando em surdina, virou-se e deparou-se com um feiticeiro de barriga protuberante.

- Boa tarde, eu ando à procura do quarto da minha mulher… - respondeu Scorpius, num tom educado, se bem que, levemente autoritário.

- Julguei que lhe tinham dito para esperar na sala… - retorquiu o curandeiro, nada afectado pela expressão do outro.

- Sim, infelizmente isso foi há uma hora e eu não sou uma pessoa paciente – rosnou Scorpius, perdendo toda a compostura.

- Felizmente Mrs. Malfoy é bem mais paciente – comentou o homem – Ela está pronta para ir. E julgo estar à sua espera na sala… - o homem permitiu-se um sorriso irónico que fez Scorpius corar ao de leve. Correu na direcção oposta e entrando na sala, deparou-se com uma luxuriante cabeleira ruiva, que cobria as costas viradas na sua direcção.

- Rose… - murmurou Scorpius, colocando-lhe a mão sobre o ombro – Estás bem?

- Claro que sim – respondeu ela, com vigor, sorrindo abertamente. Ao virar-se, Scorpius viu que a anterior palidez desaparecera e que o tom rosado que normalmente lhe coloria as maçãs do rosto estava de volta. Apesar de estar num local público, não se contivera e beijara-a nos lábios, sentindo sob a ponta dos seus dedos uma temperatura normal.

- Que aconteceu, querida? – perguntou ele, quando se afastou para a estudar mais detalhadamente.

- Cansaço associado a uma leva constipação – chilreou Rose, num tom agudo, que despertou a atenção de Scorpius.

- Tens a certeza que estás bem? – interrogou ele, com o sobrolho franzido.

Rose anuiu vivamente e agarrando-lhe a mão, arrastou-o para o exterior, onde Desapareceram em direcção a casa.


- Sentes-te capaz de aguentar o clã Weasley-Potter, esta noite? – perguntou Scorpius, pela enésima vez naquela tarde, enquanto ambos se preparavam.

- A sério, eu amo-te, mas se voltas a fazer essa pergunta, terei em conta tornar-me viúva – rugiu Rose, fazendo Scorpius olhá-la ofendido. Vendo a sua expressão, ela não se conteve e deu uma gargalhadinha, aligeirando o ambiente – Foi apenas o cansaço, com algumas poções de reavivamento fiquei boa – Scorpius continuou a olhá-la, preocupado, mas sabendo que não a conseguiria demover encolheu os ombros e suspirou.


A casa dos pais de Rose brilhava ao longe, quando Scorpius e ela se aproximaram da entrada. Um delicioso aroma a bolos flutuava pelo ar, provocando um aumento da velocidade nos passos do casal. A porta da cozinha estava encostada, e podiam ouvir vozes e gargalhadas através desta. Rose empurrou a porta e ainda não tinha entrado em casa, quando foi atacada por uma juba de cabelo castanho que lhe toldou a visão.

- Hermione, deixa a miúda respirar! – advertiu uma voz divertida. Hermione afastou-se e pôs-se a observar a filha. Esta sorriu-lhe e algo no seu sorriso despertou uma memória perdida na mãe. A feiticeira mais velha deu um guinchinho e abraçou a filha contra si. Scorpius olhou-a, espantado: apesar de conviver com Hermione há anos, nunca a vira tão excitada, no entanto, parecia ter havido uma compreensão sem palavras entre mãe e filha, pois Rose também partilhava a mesma expressão entusiasmada. Ron olhou para as duas e Scorpius sentiu-se aliviado ao ver que este também usava uma expressão confusa.

- Oh Scorpius! – exclamou Hermione e rodeou-o com os braços com tal força que este teve dificuldade em respirar. Ron deu-lhe uma palmada nas costas e indicou-lhe a divisão onde estavam o resto dos membros masculinos da família.

Albus estava sentado no sofá, com o braço em torno dos ombros da namorada, observando o pai e os seus tios Bill e Charlie numa discussão acalorada sobre Quidditch, à qual Ron se apressou a juntar-se. Os restantes cumprimentaram Scorpius, cordialmente, enquanto Hugo lhe perguntava se a irmã ainda não o levara à loucura e Albus, sob o olhar atento da namorada, tentava convencê-lo a ir beber uns copos.

Com a cadência digna de um exército, ao ouvirem a voz de Molly a reverberar pela casa, todos se levantaram e acorreram à enorme sala de jantar, onde estavam dispostas inúmeras iguarias. Rose já se encontrava sentada, no seu lugar habitual, e Scorpius apressou-se a juntar-se-lhe. Os seus olhos brilhavam como as luzes da árvore de Natal, atrás de si, quando encontrou os do marido. Este agarrou-lhe a mão por baixo da mesa e agradecendo o ser canhoto, apressou-se a engolir a maior quantidade de comida que podia. A meio do jantar, Rose levantou-se, desculpando-se com uma ida à casa de banho, mas Scorpius podia jurar que a vira titubear um pouco, no instante em que adquirira a posição vertical. Seguindo-a com os olhos, e pronto a ir atrás dela, até Hermione o distrair com um enorme pudim de chocolate, Scorpius não podia deixar de sentir que se passava algo de errado com a sua mulher.


Quando a meia-noite chegou e se começaram a atirar presentes uns aos outros, Scorpius não pode deixar de notar que Rose mordia insistentemente o lábio e brincava com um caracol do cabelo: um tique que adquiria sempre que estava nervosa.

- Rose, estás bem? – perguntou ele, colocando-lhe a mão sobre o joelho. A jovem deu um salto, como se tivesse sido arrancada de um devaneio e preparou-se para lhe responder, quando a sua tia Angelina se interpôs entre eles, oferecendo-lhe uma bebida vermelha num copo de pé alto. Rose abanou a cabeça e afastou a bebida com a mão.

- Até parece que estás grávida – comentou Angelina, num tom brincalhão, mas então arfou e perguntou – Estás, não estás?

Até há segundos atrás o barulho tinha sido esfusiante, com papel a ser rasgado, gargalhadas excitadas e os sons normais de uma noite de Natal animada, mas de repente, parecia que uma onda caíra sobre os convivas e todos olhavam ora para Rose ora para Scorpius, de boca entreaberta, com a excepção de uma mulher de cabelo castanho e olhos sábios.

De forma inconsciente, Harry estendeu o braço, onde Ron se apoiou, evitando cair para a frente e Albus correu para agarrar Scorpius que se tentara levantar, mas que fora invadido por uma sensação de tontura.

- G-g-grávida… - gaguejaram Ron e Scorpius ao mesmo tempo. Então, olharam um para o outro e Scorpius saltou do apoio de Albus, com Ron a correr atrás dele, furioso.

- Não podias ter esperado mais um pouco? Agora que o Mundial está a chegar! E eu tinha apostado na nossa equipa! Seu sacana, anda cá! – barafustava Ron, completamente esquecido da varinha, que segurava na mão, até ter transfigurado acidentalmente a porta de saída num bloco de cimento, onde Scorpius batera de chapa.

- Oh oh… - murmurou Ron, acorrendo para o genro e tentando limpar-lhe o sangue da cara, antes da sua filha o ver – Não dizes nada à Rose sobre isto e estamos quites! – apressou-se a dizer, apertando a mão a um Scorpius meio atordoado.

Felizmente, a comoção fora rápida e ninguém parecia ter visto a última cena, o que fez Ron suspirar de alívio ao imaginar os olhares de Hermione e Rose direccionados para si.

Rose levantou-se do sofá, ao ver o pai e o marido, ambos usando expressões envergonhadas, reentrarem na sala de jantar. Ignorando o pai, que lhe lançou um olhar ferido, mas que foi puxado apressadamente por uma orelha, por Hermione, fixou os olhos nos do marido.

Ansiosa com a sua reacção, deu um salto, ao ouvir o grito de Scorpius, mas relaxou quase instantaneamente ao sentir os seus braços rodearem a sua cintura e levantarem-na no ar. Rodaram assim, rindo às gargalhadas, até que se aperceberam das outras gargalhadas que os rodeavam. James ria da expressão do tio, enquanto o seu pai tentava que este respirasse de forma normal; a avó Weasley chorava copiosamente a um canto, usando no entanto, um sorriso; Hermione, Ginny e as restantes esposas Weasley começavam a cochichar entre si, decidindo o que cada uma iria oferecer ao novo bebé; Arthur começava a planear umas quantas viagens a lojas muggles que este conhecia e Hugo, Charlie e Roxanne discutiam quais raças de dragões seriam mais indicadas a certos níveis de desenvolvimento infantil. No entanto, apesar de toda a confusão que se instalara em seu redor, apenas um rosto fixava a atenção total de Rose e esse era o do homem que a segurava contra si, murmurando-lhe coisas doces ao ouvido. Mas apesar desse afastamento em relação ao ruído de fundo, podia jurar ter ouvido o seu pai dizer: "Só espero que seja ruivo", antes de ser abafado pela voz da sua mãe.