Capítulo II
Estarrecido, Sesshomaru virou-se e encontrou a expressão igualmente atônita da irmã.
— Meu Deus — Sango murmurou. — Esta moça está casada com Inuyasha...
Kagome percebeu os olhares de perplexidade trocados pelos irmãos. De repente, sentiu uma ponta de satisfação ao ver que a situação mudara. Sesshomaru e sua irmã pareciam realmente surpresos e confusos. Após uma rápida conversa com Sesshomaru, Sango sentou-se e indicou uma cadeira próxima para Kagome. Sesshomaru permaneceu de pé, ao lado da irmã.
Sango ajeitou as saias e contemplou Kagome com olhar amigável.
— Bem, Kagome. Posso chamá-la de Kagome, não?
— Por favor.
A marquesa sorriu.
— E você pode me chamar de Sango. Afinal, somos cunhadas.
Kagome respirou fundo e olhou para Sesshomaru. Ele forçou um sorriso. Apesar de ter insistido durante quase meia hora que aquele homem era seu marido, ela começava a duvidar que fosse verdade. A situação era absurda, intrigante e assustadora.
— Parece que você cometeu um engano, o que é compreensível, por não conhecer todos os fatos — a marquesa começou. — Afirma que Sesshomaru é seu marido e ele afirma que nunca a viu antes deste momento. Acreditamos que tudo isto se trate de algum tipo de brincadeira.
— Não, lady Sango. Eu lhe garanto que não se trata de nenhuma brincadeira.
— Receio que a vítima da brincadeira seja você mesma, Kagome.
— Como assim?
— Meu irmão e eu deduzimos que você realmente se casou com um Barrington. Só que seu marido se esqueceu de mencionar que tem um irmão gêmeo.
Kagome ficou aturdida com a notícia. Voltou-se para Sesshomaru, mas quando os olhares deles se encontraram, ela se apressou a desviar os olhos. Nunca se sentira tão constrangida em toda sua vida.
Gêmeos! A explicação era simples e lógica, mas não resolvia sua situação.
— Eu não fazia idéia de que Sesshy tinha um irmão gêmeo. Ele raramente falava da família e, quando falava, era em termos gerais.
— Finalmente, você se convenceu que não sou o seu Sesshy — Sesshomaru ironizou. — E a propósito, o nome do seu marido é Inuyasha.
Devagar, Kagome encostou a cabeça no espaldar da cadeira. Seu rosto queimava e, por um momento, sentiu-se completamente desorientada. Sesshy, ou melhor, Inuyasha, tinha um irmão gêmeo! Aquela inesperada revelação complicava ainda mais sua situação.
— Posso ver que foi um grande choque para você, Kagome.
— Foi, sim, lady Sango.
— Inuyasha continua o mesmo irresponsável de sempre — Sesshomaru declarou em tom de voz irritado. — Ele só causa vergonha e desonra à nossa família...
— Basta, Sesshomaru — ordenou a marquesa. Sesshomaru não discutiu.
— Preciso conversar com Inuyasha. — Kagome olhou ansiosamente para Sango.
— Inuyasha não está em casa.
— Ele voltará logo?
— Só Deus sabe — respondeu Sesshomaru com ironia. — Acredito que ele nem se encontre na cidade. Seria demais esperar que nosso irmão apareça para resolver a confusão que criou. Ele sempre deixa essa tarefa para os outros.
— Sesshomaru! — Sango ralhou novamente.
— Perdão, não quis ser grosseiro, mas esta jovem é responsabilidade dele, não minha. De todo modo, alguma providência tem de ser tomada. — Sesshomaru tirou o relógio do bolso do colete e verificou as horas. — Tenho uma lista enorme de assuntos que exigem minha atenção. Você pode, por gentileza, resolver isso, Sango?
Kagome remexeu-se na cadeira. Era horrível sentir-se rejeitada. Não conhecia aquele homem e não tinha por que se importar com a opinião dele, mas a frieza com que ele a dispensava provocava uma sensação dolorosa. Por outro lado, tinha certeza de que o orgulhoso lorde Taisho mudaria o tom de voz ao saber de toda a verdade.
Ponderou rapidamente de que forma poderia abordar o extraordinário fato que mudaria o ponto de vista daquilo tudo. O ar de enfado que o visconde demonstrava naquele momento se apagaria de seu rosto quando ele soubesse que, surpreendentemente, ela era, sim, responsabilidade dele.
— Agradeço sua compreensão de que não sou responsável por este terrível mal-entendido, e peço desculpas pelo transtorno que causei a ambos.
Sesshomaru riu e fez um gesto de pouco caso com a mão.
— Não foi nada. Esqueça.
Ele se curvou numa mesura polida e foi até a porta. Kagome o seguiu.
— Parece que deciframos o mistério do meu casamento, milorde. Porém, há um detalhe que ainda devo esclarecer.
— Sim? — A voz dele soou vaga e impaciente, como se o assunto já tivesse sido eliminado de seu pensamento.
Kagome olhou para Sango antes de encarar Sesshomaru Barrington. A reação à notícia seria extrema, mas não a impediria de revelar a verdade.
— Como já ficou esclarecido, foi Inuyasha, e não o senhor, quem fez os votos de casamento. Mas o nome que consta em minha certidão de casamento é Sesshomaru Barrington, lorde Taisho.
Kagome ouviu a exclamação chocada da marquesa, mas continuou com os olhos fixos em Sesshomaru. O rosto dele ficou vermelho de raiva.
— O que você está dizendo?
— A mesma coisa que venho repetindo desde que entrei aqui. Você é meu marido. Confesso que estou tão perplexa quanto você, mas aos olhos do mundo, sou Kagome Higurashi Barrington, lady Taisho. Sua legítima esposa.
Kagome ouviu uma leve batida na porta. Olhou para o relógio. Fazia apenas três horas que chegara, e, no entanto parecia estar ali há uma eternidade.
Sesshomaru ficara transtornado de raiva e espanto com a revelação. Felizmente, Sango conseguira aplacar a ira do irmão. Os dois haviam conversado entre si por alguns minutos, em voz baixa, sob os olhares de Kagome, até que um criado fora chamado e instruído a conduzi-la a um dos quartos de hóspedes.
Uma nova batida soou na porta.
— Estão à sua espera na biblioteca, milady. Gostaria de me acompanhar, ou devo dizer-lhes para aguardarem que desça?
— Um momento, por favor.
Kagome respirou fundo e caminhou pelo quarto elegante. Tivera tempo de se refrescar e vestir roupas limpas. Decidira usar o melhor vestido que levara, de cetim verde, com cintura alta e corpete bordado.
Antes de abrir a porta, ela hesitou por um instante. Fechou os olhos e respirou fundo mais uma vez. Seu coração batia forte, e arrepios de apreensão percorriam suas costas. Momentos desagradáveis a esperavam, mas teria de enfrentá-los se quisesse resolver aquela confusão e prosseguir adiante com sua vida.
— Senhorita?
Kagome endireitou os ombros e abriu a porta. Um criado emergiu das sombras, no corredor mal-iluminado. Era o mesmo jovem que a conduzira ao quarto. Ele a fitou com curiosidade, e Kagome enrubesceu. Seguiu-o em silêncio até a biblioteca e, ao entrar, ficou constrangida ao ver seis pessoas à sua espera.
— Kagome, você está encantadora. — Sango enlaçou-a pelos ombros, num gesto protetor. — Espero que tenha conseguido descansar. Venha, quero apresentá-la a todos.
Os pais de Sesshomaru, conde e condessa de Stafford, eram elegantes e refinados, e tinham aparência jovial. Cumprimentaram Kagome com um sorriso encorajador e um caloroso aperto de mão.
O marido de Sango, marquês de Dardington, era alto, forte e bonito. Cumprimentou-a com altivez, sem disfarçar a desconfiança.
Lorde Taisho também estava presente. Kagome fez uma reverência, e ao levantar a cabeça seus olhares se encontraram por um breve momento. O coração dela disparou.
Sesshomaru estava bonito e elegante, em seu traje a rigor: paletó preto e calça de cetim, colete de seda cinza e gravata branca. A presença máscula e marcante era estonteante. Pelo menos na aparência física, ele era perfeito. Um súbito calor percorreu-lhe o corpo, provocando emoções inusitadas. Embora Sesshomaru mal tivesse olhado para ela, Kagome experimentou a estranha sensação de que aquele homem definiria o seu destino. Independentemente do que acontecesse naquela noite, a partir daquele momento, ela nunca mais seria a mesma pessoa.
A voz de Sango arrancou-a de seus pensamentos.
— E este é o Sr. Jaken Beckham, advogado de nossa família.
O homem cumprimentou Kagome inclinando levemente a cabeça. A seguir tirou um lenço do bolso e enxugou o suor da testa.
A porta foi fechada e todos se sentaram. A um sinal quase imperceptível de Sesshomaru Taisho, o advogado dirigiu-se a Kagome. Todos os olhares se voltaram para ela, que apertava nervosamente as mãos.
— Lorde Taisho e lady Sango relataram sobre a discrepância em relação ao nome que consta na certidão de casamento — disse ele sem preâmbulos. — É correto declarar que a senhora pretendia se casar com o Sr. Inuyasha Barrington e não com lorde Taisho?
— Sim, senhor.
— Por acaso, trouxe a certidão de casamento? Preciso examiná-la minuciosamente para determinar a autenticidade legal do documento.
Kagome sentiu o rosto queimar. Lançou um rápido olhar às pessoas que a observavam e ergueu o queixo.
— Não, senhor. Saí de minha casa em Wiltshire com a intenção de visitar meu marido. Não julguei necessário carregar na bolsa um documento tão importante. O casamento também está registrado no livro da igreja da minha cidade. Mas posso afirmar com toda a certeza que o nome do noivo é Sesshomaru Barrington, lorde Taisho.
Fez-se um longo e pesado silêncio. Beckham pegou novamente o lenço e enxugou o suor do rosto.
— Se for realmente verdade, este poderá ser considerado um casamento por procuração. O que significa que a moça aqui presente é casada com lorde Taisho.
— Tem certeza? — lorde Dardington indagou. O advogado confirmou com um gesto de cabeça.
— Canalha! — Sesshomaru cerrou os punhos. — Vou estrangular o patife do Inuyasha! Depois de acertar um murro no olho do desgraçado!
— Sesshomaru! Que linguagem é essa? — a condessa repreendeu o filho. — Compreendo sua indignação, mas nada justifica essa vulgaridade. Tenho certeza de que se trata de um equívoco que será facilmente resolvido.
Depois de trocar olhares eloqüentes com o marido, a condessa se voltou para Kagome, fazendo com que as penas pretas que lhe enfeitavam o penteado balançasse levemente.
— Conte-nos como conheceu Inuyasha, querida, e como chegaram ao casamento. Deve ser uma linda e arrebatadora história de amor.
Kagome esboçou um sorriso. Aquelas pessoas eram astutas e não seriam enganadas com facilidade. O melhor seria contar a verdade com o mínimo possível de detalhes.
— No início do ano, Inuyasha ficou retido em nosso vilarejo por conta de uma nevasca que tornou a estrada intransitável. Impossibilitado de seguir viagem, ele se hospedou na estalagem local.
Lorde Dardington fitou-a com as sobrancelhas erguidas.
— Ele a conheceu numa estalagem?
— Céus, não! — Kagome protestou de imediato, contrariada com a insinuação maldosa na pergunta do marquês. — Eu estava em minha casa, em Wiltshire. Mas Inuyasha caiu de cama com febre muito alta, e eu...
— Você cuidou dele? — a condessa a interrompeu em tom de censura.
Kagome engoliu em seco. Era esse o juízo que faziam dela! A idéia de uma mulher solteira cuidando de um desconhecido era simplesmente comprometedora e inadmissível.
— Não diretamente, mas tive uma participação ativa em sua recuperação. Inuyasha foi atendido pelo médico do vilarejo, o Dr. Fletcher. Minha mãe tem conhecimentos de botânica, e nós cultivamos diversos tipos de ervas medicinais. Os moradores do vilarejo freqüentemente nos procuram, pois minha mãe está sempre disposta a oferecer as ervas e as instruções sobre como empregá-las, a quem necessitar.
— Entendo. — A condessa fez um gesto impaciente com a mão. — E como conheceu meu filho?
— Atendendo aos pedidos do Dr. Fletcher, levei vários potes de ervas à hospedaria. Quando Sesshy se recuperou, ele foi à nossa casa para nos agradecer. Foi quando nos conhecemos.
— E sem dúvida, se apaixonaram à primeira vista — o marquês comentou com sarcasmo.
Kagome comprimiu os lábios. Pelo canto do olho, percebeu o olhar de reprovação que Sango lançou ao marido. Saber que tinha uma provável aliada era animador.
— Por que se refere a meu filho como "Sesshy"? — A condessa pousou a mão no queixo. — O nome dele é Inuyasha.
— Ele se registrou na hospedaria como S. Barrington. E doente, não conseguia nos dizer seu nome, então começamos a tratá-lo por Sesshy. Depois que se recuperou, ele simplesmente se recusou a revelar o significado da inicial S. — Kagome inclinou levemente a cabeça. — Somente no dia do casamento eu soube que o nome do meu marido era Sesshomaru.
De repente, todos começaram a falar ao mesmo tempo. Kagome apreciou aquele breve intervalo. Era extenuante ser o centro de tantas atenções negativas. Mas como imaginara, o interrogatório ainda não terminara. Lorde Taisho e o marquês Dardington trocaram algumas palavras e depois olharam para ela com expressão de desconfiança.
Endireitando-se na cadeira, Kagome esperou pelo próximo ataque.
— Você disse que está casada a três meses, apesar de ter conhecido meu irmão no início do ano. — O tom de voz de Sesshomaru era acusador. — Foi um espaço de tempo muito curto para dois estranhos decidirem se casar.
— Sim, foi um namoro bem curto.
O coração de Kagome batia descompassado, mas ela se forçou a não baixar os olhos. Se Sesshomaru suspeitasse de qualquer ponto fraco, não teria piedade, e ela estava determinada a não trair a confiança de Inuyasha.
— Romances assim acontecem — interveio Sango.
— Sim, é claro — concordou a condessa. — Mas estou aborrecida por Inuyasha não nos ter dito nada sobre sua intenção de se casar. — Ela suspirou. — Poderia ao menos ter nos escrito. Afinal, ele sabia que ansiávamos por vê-lo casado, estabelecido.
— Bem, creio que Kagome já nos tenha revelado tudo o que podia, sobre esse casamento — disse Sango, voltando-se para o irmão e o marido. — Ela não tem condições de responder a perguntas sobre detalhes que não são de seu conhecimento. Como por exemplo, por que o nome de Sesshomaru consta na certidão. Parece-me óbvio que somente Inuyasha poderá explicar exatamente o que aconteceu.
— Precisamos entrar em contato com ele imediatamente. — A condessa olhou para Kagome. — Sabe para onde ele foi?
— Não sei, infelizmente. Pensei que ele estivesse aqui.
Sesshomaru levantou-se e andou nervosamente pela sala.
— Por que Inuyasha usou o meu nome? O que ele pretendia?
— Realmente não faz sentido, mas o importante agora é saber qual dos dois é o marido, legalmente falando — ponderou a condessa. — Qual é a sua opinião, Sr. Beckham?
O advogado pigarreou antes de falar:
— Casamento por procuração é raro hoje em dia, mas ainda é um ato legal e requer concordância de ambas as partes. Neste caso, há evidências suficientes de que o Sr. Inuyasha representou o irmão e que se casou em nome de lorde Taisho.
— Como é possível? — Sesshomaru esbravejou. — Como se realiza um casamento por procuração sem o consentimento ou o conhecimento do noivo?
— A lei é complicada, milorde. — Beckham deu um sorriso nervoso como se quisesse atenuar o impacto de suas palavras. — Só será possível provar que este casamento é uma farsa, se o senhor não tiver conferido autoridade a seu irmão para representá-lo. Entretanto, ele é seu herdeiro legal, e isso muda o aspecto do caso.
— Deve haver uma possibilidade de anulação.
— Preciso estudar cuidadosamente a questão. Devo avisar que o processo exige a aprovação do Regente e do Parlamento, e isso leva tempo. Muito tempo.
— Se meu irmão reclamar seus direitos de marido, estarei livre da responsabilidade?
— Ajudará bastante se o Sr. Inuyasha declarar que realmente tinha intenções de casar-se com esta moça — explicou o advogado. — Mesmo assim, não será suficiente. Se o seu nome está registrado nos documentos, legalmente o senhor é o marido.
Sesshomaru deu alguns passos pela sala antes de parar novamente na frente do advogado.
— Está me dizendo, Sr. Beckham, que estou casado com esta senhora? E que, tão cedo, não há possibilidade de anulação desta farsa ridícula?
Por um momento, ninguém falou nada. Ninguém ousava sequer respirar.
Por fim Beckham soltou o fôlego ruidosamente, antes de responder:
— Essa é exatamente a situação, milorde.
Parece que Sesshomaru realmente esta casado com a Kagome, muitas coisas vao acontecer ainda.
Obrigada dayahellmanns e Kagome unmei ( serio que nao gosta de historias de época? eu gosto muito sao os meus favoritos).
Até amanha, beijos.
