nota: Ordem cronológica invertida. O capítulo anterior foi o final e os acontecimentos a partir dele serão o passado.


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Capítulo 02 – Torschlusspanik

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Quando chegou em casa e o trinco da porta não girou e ela se abriu mesmo assim, soube que sua casa fora invadida. Sakura poderia ter saído, ligado para a polícia e conversado com o guarda da portaria sobre gente estranha entrando sem permissão no pequeno prédio onde morava, contudo sendo que seu apartamento era consequentemente minúsculo também – e medíocre para quem ganhava o salário igual ao dela – ela pode ver, já da entrada, uma figura masculina no centro do cômodo.

Não se lembrava de quando foi que lhe entregou uma cópia da sua chave, mas após o reconhecer seus músculos se afrouxaram instantaneamente permitindo um relaxante suspiro. Ah! Como não havia congelado um segundo antes, ficado estática de espanto! Todas as perguntas – como? Quando? Por quê?Você está tentando dar fim ao meu precioso vinho por acaso?– vieram rapidamente por não conseguir deixar seu cérebro relaxar depois de tantas horas gastas em serviço, problemas diários e cafeína.

Atravessando totalmente a porta se envergonhou pela quantia de caixas que ainda não abrira desde sua mudança, pois que tirava somente aquilo que fazia necessário no instante. Como também sentiu pela primeira vez falta de um sofá e outros móveis comuns, era apenas uma sala com caixas. E trivialidade esta que logo se dissipou para preocupação ao analisá-lo melhor, sentado em seu chão como um pedaço de pano jogado fora.

"Essa expressão dele..."

Franziu o cenho, abafou suas dúvidas contra o peito e se aproximou silenciosa de Sasuke. Como se invertesse a situação e ela ali que estivesse invadindo a privacidade do lar dele, temendo perturbar o delicado e assombroso silêncio que pairava na sala. Nunca o vira tão perdido, seu semblante vazio era claro. Embora, se qualquer um olhasse aquele rosto, diria que tem rastros da mesma impassibilidade com que passava por cima de todos os percalços – até sobre o genocídio. Não para Sakura. Pois sentiu que aquela velha barafunda de emoções invadindo seu peito e, recentemente, associava isso apenas ao desafortunado homem ali presente. Algo hipersensível, claro, e egoísta: tomar dores alheias para ela própria, porém ele a invadia tão violentamente que todas as barreiras arquitetadas durante tanto tempo pareciam simples pedaços de papéis queimados pelo fogo.

- Desculpe, deve ter reparado que uma garrafa qualquer era a única coisa na despensa. – catou gentilmente o vidro vazio do chão, tentando não causar nenhum ruído sequer. Sabia ser delicada com precisão, sua voz era suave.

Ele olhou para Sakura, um breve movimento e no rosto um sorriso de canto. Tão encantadoramente tranquilo. Aquele gesto tão simples, que consciente de preenchê-la ele não dispensaria de fazer uso.

- Boa noite. – apenas para vê-la ruborizar comicamente, perder os modos contidos.

Ver aquela mulher responder de volta, ajeitar a saia para esconder a calcinha aparente, tentar uma conversa reconfortante. Levantar, colocar uma mecha do cabelo rosa atrás da orelha, fazer coisas inúteis, morder os lábios inferiores, tentar um sorriso falso. Perguntar se ele já jantou, se gostaria de comer com ela, que compraria alguma coisa e já voltava, mas que ele já tinha pensado nisso.

Riu contidamente a moça, que o azar dele de precisar esperá-la voltar era hilário. Acabou gelando tudo o que trouxe e, não importava também, pois ela não gostasse de comida árabe e que quem fica calado não tem direito de reclamação. Simplesmente não.

Conversa que era quase um monólogo sobre quando Sakura o conheceu, precisando contratar um advogado aceitou aquele cuja recomendação contivesse muito bonito no currículo. Que ele era um revoltado sem causa, que ele adorava vangloriar-se diante das pessoas mesmo que não fizesse esforço, que ele não tinha humor, que a voz dele sempre a fez sentir bem. E que fingia não se importar, que tentava ajudar do seu modo seus poucos amigos e que apenas se fazia de distante, de frio. Que ele, porém, mudou. Que ele se ausentou de todos. Que ficou irreconhecível para ela. Que ele não tinha mais um coração para bater por si mesmo. E assim se foi fazendo a noite.

Sabia que ia até a mulher por instinto, não que ela se importasse com transas por vontade. Muito pelo contrário, acostumou-se com a rotina. Adaptação, assim definiria a relação que mantinham. Talvez, desde sempre. Quanto mais pudesse ocupar a espera para a inevitável morte com tudo que há de leviano, melhor.

Contudo, Sakura não partilhava dessa despreocupação. Seu desapego era com ela mesma, jamais para a vida. E desde o primeiro instante que o conheceu, sentia vontade dele. Sasuke era quente e se espalhava como um câncer nocivo ou um vírus maquiavélico. Tudo que poderia fazer era aceitar o incêndio ou fugir.

Frieza era apenas sua impenetrável armadura. Sabia ou precisava encontrar algo para sustentar sua certeza de que seu cálido sentimento não seria destroçado com o tempo, que ele não a abandonaria deixando apenas uma morna saudade nela. Quanto mais ele aturaria sua rotina? Como qual fim daria o de sua depressão, quaisquer que fossem os caminhos o de continuar estancado no presente também não lhe agradava. Seu corpo não esperaria o atraso que os anos com ex-marido de Sakura trouxeram e se quisesse algum futuro precisava agir.

Queria abraçá-lo. Tentar acalentar aquele rosto que se refugia dentro de si mesmo, perdido no luto e infortúnio de sua história. Ao invés disso...

- Gostaria de morfina? – perguntou encabulada. Sabia que o doparia para tê-lo consigo e ele vinha até ela para se acalmar quimicamente.

Desde o início.


Torschlusspanik – Medo de oportunidades perdidas, gradativamente, com o envelhecimento. De novo alemão. Tor, portão. Schluss, fechamento. Panik, panik. É o pânico com uma porta que se fecha.