Capítulo 2

PRIMEIRO ENCONTRO

:: Bella's POV ::

Estava tudo dando errado aquele dia. Acordei super atrasada, coisa que nunca tinha acontecido, queimei a língua tomando café quente às pressas e ainda fiquei de castigo no colégio por chegar depois da professora. Nunca tinha ficado de castigo. Não sabia nem me comportar numa hora dessas. Ninguém nunca me disse que não se pode usar o celular quando se está de castigo. Acabei levando uma advertência e teria que falar com o diretor no final da aula.

Era véspera de Halloween e mais uma vez minhas amigas insistiam em me arrastar para o baile da escola. Até mesmo um imbecil que eu tenho quase certeza se chamar Mike, resolveu me convidar.

- Não vou. – respondi simplesmente dando-lhe as costas.

Entrei no banheiro feminino para evitar ser seguida por ele até ali. Como poderia explicar que não iria porque ficaria treinando até o dia amanhecer? Não que me incomodasse com isso. Na verdade, era bem mais divertido.

Tudo bem que nunca tinha ido a um baile antes, mas que graça tinha colocar um vestido desconfortável e dançar músicas tão sem graça que davam sono?

Muito melhor ligar meu som nas alturas, mesmo com Charlie e Renée reclamando, e treinar até suar bicas e todos os músculos começarem a protestar. E apesar de fazer isso todos os dias – com exceção das semanas de provas – eu sempre me sentia renovada.

E outra. Amanhã seria o meu aniversário de catorze anos. Renée já tinha encomendado uma torta de chocolate com morango e Charlie prometera um presente especial. Não desperdiçaria essa noite por baile nenhum.

Mas a minha maré de azar não acabou com o castigo. Não reparei que o piso estava molhado quando entrei no banheiro e escorreguei numa poça, caindo de bunda no chão. E quando fui levantar, amaldiçoando a todos os santos que conhecia, escorreguei de novo e bati com a testa na pia.

- Merda! – gritei levando a mão a testa. Ia ficar um galo.

Fui direto para a enfermaria pegar um saco de gelo, mas não havia ninguém ali. E a geladeira estava trancada. Perfeito.

Voltei para a sala com a calça molhada e um corte na testa que latejava, tendo que aturar as gracinhas dos idiotas que diziam ser meus amigos.

- Credo, Bella! Tão velha e ainda faz xixi nas calças? – Jessica brincou e Lauren a acompanhou nas gargalhadas.

Juro que se não tivesse prometido a Charlie e Renée que nunca usaria minhas habilidades em humanos, essas duas estariam voando pela janela do segundo andar.

Ao final da aula eu tive que ir falar com o diretor sobre o meu castigo de hoje e acabei perdendo o ônibus escolar. E lá ia eu andando para casa. Cinco quilômetros. Pouco, num tempo bom. Mas debaixo da chuva constante de Portland, esses cinco quilômetros seriam bem longos.

Estava na metade do caminho quando comecei a tiritar os dentes de tanto frio. Estava encharcada e os três casacos que usava pesavam tanto que tinha quase vontade de jogá-los no lixo.

Decidi que o melhor a fazer seria parar num bar e tomar um café antes de continuar andando.

Entrei num pub qualquer e me dirigi ao balcão, pedindo logo um café bem quente com chantilly e comecei a tirar os casacos, colocando-os no banco ao meu lado. Maldito dia que tinha resolvido não vestir nada impermeável. Agora estava apenas com um casaco, que de tão molhado nem servia para nada. Minha calça também estava ensopada e eu provavelmente estava parecendo um pintinho molhado.

- Tem um corte feio aí na testa. – uma voz falou atrás de mim e eu me voltei para ver seu dono.

Um homem, o mais lindo que eu já tinha visto na minha curta vida, estava parado me encarando com um sorriso simpático no rosto. Senti meu coração acelerar ao mesmo tempo em que meu instinto me pôs alerta. Aquela beldade à minha frente não poderia ser humano. Ninguém era tão belo assim.

Ele parecia ter uns dezessete ou dezoito anos, sua pele tão branca que eu poderia ver suas veias se houvesse algo circulando dentro dela. Seus cabelos cor de cobre estavam desalinhados e molhados da chuva, mas ele estava de longe parecendo um pinto molhado como eu deveria estar. Ele mais parecia um modelo de tão perfeito. E os olhos negros mostravam claramente que o vampiro à minha frente estava com sede.

O que eu achava estranho era o fato do meu instinto ter demorado tanto a me avisar que poderia encontrar problemas ali dentro.

Dei as costas para ele não querendo arrumar confusão, mas ele simplesmente pegou meu braço e me girou de volta, seu corpo agora perigosamente perto do meu.

- Vejo que é corajosa, mas ninguém me dá as costas, Isabella Swan. – ele rosnou entre os dentes.

Merda. Ele me conhecia.

- Me solte. Não vou brigar aqui.

- Não quero brigar, pirralha. Só quero provar um pouquinho do sangue da pessoa que matou meus dois filhos.

Tinha certeza que meu rosto acabara de assumir uma expressão de choque. E meu instinto agora me avisava para sair correndo. Coisa que jamais tinha acontecido antes.

Não sei se suas palavras ou a força que sua mão fazia no meu braço, quase quebrando o osso, mas eu tinha uma forte suspeita de quem era o vampiro a minha frente. Mas não podia ser, podia? Eu não tinha dezessete anos ainda.

- O gato comeu sua língua?

- Você não vai querer se expor aqui dentro. – murmurei com a voz mais firme que consegui empregar.

- Não. Certamente não. – o aperto da sua mão em volta do meu braço se tornou ainda mais forte e eu cravei o maxilar para evitar gritar de dor. Não daria esse gostinho para ele. – O que acha de irmos lá para fora?

Assenti apenas uma vez e ele me soltou. Depositou uma nota de cinco dólares para pagar o meu café de dois dólares e pegou meus casacos em cima do banco ao meu lado. Me controlei para não esfregar o braço que ainda tinha as marcas do seu dedo e apressei o passo para fora do pub, pegando minha mochila e jogando-a de qualquer jeito no ombro. Sim, eu estava pensando em fugir.

Mas vampiros são ágeis demais e antes mesmo que eu conseguisse alcançar a porta, ele estava ao meu lado, pegando meu braço novamente e me guiou para fora.

Eu estava ferrada. Definitivamente, eu estava muito ferrada.

- Você achava mesmo que ia conseguir matar dois dos meus filhos e sair ilesa, Isabella? – ele perguntou por entre os dentes, me arrastando para um beco. Nós dois estávamos ainda mais encharcados agora, mas ele continuava incrivelmente lindo.

Céus, o que deu em mim para ficar vendo a beleza dele quando ele claramente queria me matar?

- Como me achou? – perguntei, mais para ganhar tempo do que por interesse.

Ele me puxou contra o seu corpo, fazendo o meu se chocar com força no peito duro como pedra, ainda segurando meu braço com tanta força que logo quebraria.

- Sua fama a precede, Isabella Swan. O demônio que você matou ontem era muito poderoso. A morte dele gerou um grande alerta no mundo inteiro. Estava te procurando pela cidade quando você entra no pub onde eu estou. Que sorte a minha, não?

E que azar o meu.

- Agora posso simplesmente matar você e vingar a morte dos meus filhos. Ou – ele continuou, me encarando com o olhar furioso, e eu ouvi o som do osso quebrando antes mesmo de sentir a dor. –... posso te torturar bem devagar.

Não sei como consegui não gritar naquele momento.

Para pontuar sua decisão de me torturar, o vampiro agarrou o braço bom e me jogou contra a parede de tijolo do beco, que de tão suja estava preta.

- Sabe, Swan, eu tenho uma habilidade bem peculiar. – ele comentou num tom de falsa conversa amigável – Eu sinto quando meus filhos estão sofrendo. E eu senti toda a dor que eles sentiram quando você os matou.

Ele agora estava agachado a minha frente e segurou meu queixo com uma das mãos enquanto a outra tirava uma mecha do cabelo molhado.

- Eu odeio sentir dor, Swan. E agora eu vou fazer você sentir tudo que eu senti naquelas noites.

Eu não conseguia falar nada com a força que sua mão fazia no meu maxilar. Do jeito que ele apertava, ia acabar quebrando também. Mas muitas coisas passavam pela minha mente enquanto ele continuava me encarando como se quisesse me matar apenas com o olhar.

Aquele não era um dos demônios que eu estava acostumada a lutar. E nem era como os dois vampiros que eu tinha matado. Eu não conseguia fazer nada contra ele. E não era como se eu não estivesse tentando.

Enquanto ele me erguia pelo pescoço até meus pés saírem do chão, eu o chutava e tentava batê-lo com meu braço que não estava quebrado, mas não conseguia produzir nem mesmo um arranhão. Tinha apenas acabado com uma dor aguda no tornozelo esquerdo. E o ar começava a faltar.

- Isso dói, não é? – ele perguntou com o rosto quase colado ao meu, seu hálito gelado e inebriante me distraindo levemente da dor. – Você, Swan, não é nem digna de que eu perca meu tempo. Te torturar está sendo mais sem graça do que eu tinha imaginado. E pensar que seu nome estava causando tanto medo.

Ele tinha razão. Eu não era nada. Não no geral, mas no que diz respeito a ele. Perto desse vampiro que eu nem sei o nome, eu não era ninguém. Eu não estava pronta para enfrentá-lo. Seria possível que toda a profecia estivesse errada? Eu não tinha dezessete anos e tampouco era noite de Halloween. Seria possível que aquele fosse o meu fim?

- C-como é seu... seu n-nome? – perguntei num fio de voz, minhas unhas tentando cravar na carne da mão com que ele apertava meu pescoço. Já sentia o ar faltando e não havia mais muita coisa passando pela minha mente. Estava tudo se tornando um completo vazio.

- Quer saber o nome de quem vai te matar? – ele perguntou e eu pude ouvir o tom sarcástico na sua voz ácida.

- Sim. – consegui responder com muito esforço, usando o último fôlego que me restava.

Eu sabia que estava morrendo.

Sua risada suave fez um arrepio sinistro percorrer meu corpo e eu teria estremecido se ainda tivesse alguma força.

- Edward Cullen. – ele respondeu com uma voz tão suave quanto sua risada. – Grave bem esse nome. Não que você vá viver por mais que alguns segundos.

Edward Cullen. Esse era o nome do vampiro que eu estava destinada a matar. O único que seria capaz de acabar com a minha imortalidade. E ele tinha vindo até mim na época errada. Eu não estava pronta. Ainda não era forte como ele. Toda a droga da profecia tinha ido por água abaixo.

Seu nome dito pela voz macia continuou ecoando na minha mente até que não havia mais nada. O ar acabou e a escuridão me dominou. Não havia mais dor. Não havia mais toque frio no meu pescoço. Agora eu sabia o que era morrer.

Abri os olhos lentamente esperando me deparar com os olhos negros e frios, mas tudo que vi foram os pôsteres das minhas bandas favoritas nas paredes do meu quarto. Será possível que eu estava sonhando esse tempo todo?

Levantei de um salto, pronta para contar a Renée o sonho maluco que tinha tido quando uma dor lancinante no meu tornozelo esquerdo me fez voltar para a cama, caindo toda torta.

Havia uma faixa envolvendo meu tornozelo e meu braço direito estava no mesmo estado, enfaixado até o cotovelo.

Charlie entrou no quarto seguido de Renée que carregava uma torta de chocolate com nozes e me observava aflita.

- Até que enfim você acordou. – Charlie exclamou, sentando na beira da cama e me ajudou a sentar ao seu lado.

- Estávamos ficando preocupados. – Renée completou, sentando na cadeira do móvel do computador e depositou a torta ao lado do monitor velho.

- O que aconteceu? – perguntei ainda me sentindo levemente tonta.

- Nós é que perguntamos isso a você. Charlie e eu pensávamos que...

- Que eu tinha morrido. E eu morri.

- Você estava morta quando te encontramos. – Charlie falou num tom baixo.

- O que aconteceu? – perguntei confusa.

- Renée ficou preocupada com a sua demora e nós resolvemos te procurar. Fizemos o caminho que você costuma passar e te encontramos sem vida num beco sujo.

- Pensamos em te levar para um hospital, mesmo sabendo que não havia nada para fazer, mas algo nos dizia que era para te trazer para casa. E foi o que fizemos.

- O que aconteceu, Bella?

- Ele me encontrou. – expliquei olhando para a chuva através da janela de vidro. – Edward Cullen. O vampiro da profecia.

- Quê?! Mas... Mas... Como? – Renée perguntou aflita.

- Que dia é hoje?

- É Halloween. – Charlie respondeu ignorando o surto da esposa assim como eu fazia.

Um dia. Fiquei morta por apenas um dia. Era meu aniversário hoje. O dia que nasci... de novo.