Capítulo 2 - O Trem
"Levante-se." Ouvi sua voz estalar. Ao mesmo tempo senti sua mão fechando em torno de um dos meus braços e apertando firmemente. Meu corpo inteiro se moveu com a força que ele exerceu. Enquanto eu piscava meus olhos abertos, perguntei-me se isso deixaria hematomas. Ele nunca havia colocado as mãos em mim tão firmemente como ele colocou agora.
Esfregando o sono dos meus olhos rapidamente, olhei ao redor, tentando determinar onde havíamos parado. As pessoas ao meu redor estavam se levantando e recolhendo sua bagagem antes de fazer o seu caminho para a fila onde um condutor sorridente estava agora de pé pegando os bilhetes.
Arrisquei um olhar para Edward rapidamente. Ele já estava agachado, pegando nossas malas debaixo das nossas cadeiras, mais uma vez me ignorando completamente agora que eu estava acordada.
Sentindo a mais leve agitação de aborrecimento, fiz uma careta para ele antes de olhar novamente em direção à fila.
"Quanto tempo ainda temos?" Eu perguntei, não fazendo nenhum movimento para me levantar ou ajudá-lo com as malas.
"Vinte e seis horas." Foi a sua resposta curta.
Ah, o trecho longo e final de Chicago para Denver.
Levantei-me, alongando e gemendo enquanto eu tentava trabalhar as torções e rigidez do meu pescoço. Quanto tempo eu dormi nessa cadeira? Olhei para o relógio na parede. Cerca de duas horas.
Edward finalmente conseguiu reunir todas as nossas três malas e as balançou por cima do ombro, seguindo para a fila sem um olhar para mim.
Hesitei por um momento, observando-o se afastar, todo pele e ossos e arrastando malas que eram muito pesadas. Mas ele as carregava sem o menor vestígio de desconforto, suas pernas se movendo rapidamente, impulsionando-o para a frente. Forcei meus pés para se moverem atrás dele, correndo para alcançá-lo, mas nunca conseguindo chegar ao lado dele. Imaginei que ele gostava quando eu andava atrás dele.
Quando desci os degraus para a plataforma, o motorista sorriu para mim e balançou a cabeça, "Bem vinda a bordo".
Eu o ignorei.
Apertando o corrimão quando me suspendi ao terceiro trem em poucos dias, eu só podia sentir resignação e amargura. Esperando outras excruciantes 26 horas sentada ao lado de Edward, cada um dos meus membros entorpecia um por um enquanto o tempo passava porque ele disse que não queria desperdiçar seu dinheiro em um carro dorminhoco*.
*Um carro dorminhoco é um carro que parece despretensioso por fora e por dentro é modificado para ter mais desempenho.
O dinheiro nunca foi uma objeção antes. Ele queria me deixar desconfortável.
Suspirando, eu segui logo atrás dele quando ele fez seu caminho até o corredor. Ele era muito cuidadoso e atencioso enquanto passava pelos outros passageiros, tendo cuidado para não roçar ou bater neles com a nossa bagagem. Sempre um cavalheiro bem-educado.
Finalmente chegamos aos nossos lugares e ele grunhiu enquanto lançava as malas no bagageiro. Sem esperar por ele se mover, me espremi por ele - meu quadril tocando sua coxa por uma fração de segundo - e deslizei para o assento próximo à janela.
Bati com o joelho em ambos os descansos de braços enquanto lutava contra os membros doloridos e espaços confinados. Eu não recuei, não fiz um som enquanto os meus nervos formigavam ferozmente contra a dor. Eu sabia que ele não se preocupava, sabia que o meu desconforto apenas o irritaria, ou divertiria. Francamente, eu não podia ver qualquer emoção em seu rosto agora.
Após alguns momentos, eu o senti sentar-se na sua cadeira ao meu lado, seu cotovelo escovando o meu no descanso de braço por um instante antes que ele o puxasse para longe rapidamente, como se ele não pudesse estar em contato comigo. Eu tinha que admitir que fiquei contente com isso, sua repulsa em relação a mim. Ela fazia a minha própria repulsa ser muito mais fácil.
Ficamos em silêncio e geralmente imóveis enquanto os anúncios superficiais eram feitos e os últimos passageiros lutavam para entrar a bordo, à procura de lugares vazios. Ele era simplesmente uma grande massa de tensão ao meu lado, completamente inacessível, irracional e sem emoção. Nós não tínhamos nos falado em quase dois dias, desde que ele me disse que estávamos de saída. Edward se mexeu na sua cadeira um pouco quando o trem saiu da estação, se movendo ligeiramente, e então ele voltou a ficar parado. Ele não tinha nada para me dizer e eu não tinha nada para dizer a ele.
Olhei para ele brevemente para descobrir que seus olhos estavam fechados. Eu sabia que ele não estava dormindo, mas eu ainda me permiti olhá-lo por mais um momento. Seu corpo estava tenso e completamente não relaxado. Sua camisa estava puxada até seus cotovelos, expondo seus braços magros e definidos. Ele estava um pouco largado, dobrado sobre si mesmo no estômago, suas pernas compridas encostando na parte inferior do assento em frente a ele. Sua postura sempre foi terrível, seu corpo esbelto e feminino. Seu maxilar angulado, muito pronunciado para encaixar o seu rosto, estava cerrado firmemente.
Suas roupas estavam amassadas da longa viagem e imaginei que ele cheirava exatamente tão mau como eu. Ele não se barbeava há alguns dias e eu podia ver o pêlo grosso eriçado e selvagem crescendo em seu queixo e pescoço. Seu cabelo, sempre desarrumado, parecia positivamente selvagem com suas mechas gordurosas.
Aparentemente, parar em hotéis entre as pausas da viagem era um luxo que não poderíamos mais pagar. Só que eu sabia, sem uma dúvida, que poderíamos. Ele era simplesmente muito consciente de que eu odiava ficar suja.
Com um suspiro, olhei pela janela para a terra que voava. Fazendo o nosso caminho para fora da cidade, não havia paisagens rolando para segurar a minha atenção. Só árvores e carros lentos em ruas movimentadas ao nosso lado.
Viajar por todo o país desse jeito teria sido divertido, teria sido uma grande aventura, se eu estivesse com qualquer outra pessoa, menos Edward. De alguma forma ele conseguia fazer toda a experiência ser mais cansativa e desagradável possível. Eu não era permitida ter nenhum luxo, nem tempo para respirar, nem tempo para dormir, eu ficava voluntariamente muda pelo meu desejo de ignorá-lo completamente com a raiva hipócrita.
Agora, se eu estivesse aqui com alguém como Jake, toda essa experiência teria sido diferente.
Sorri levemente e inclinei minha cabeça para trás, fechando meus olhos enquanto eu chamava o seu rosto em minha mente.
Olhos profundos e bondosos que combinavam com os meus. Nada de frieza, nem um verde gelado como os de Edward. Pele quente e dourada do sol, em vez do alabastro pálido. Grandes músculos tonificados, ao invés de delgados e com nervos. Ele poderia envolver-me e me abraçar como um envelope, fazer eu me sentir segura e frágil. Cada parte física dele gritava uma masculinidade primitiva. Tudo o que eu desejava por puro instinto, ele encarnava.
E então lá estava a sua risada.
Eu não conseguia lembrar de Edward rindo. Nunca. Tenho certeza que ele deve ter rido. Às vezes nos quatro anos que estivemos juntos, ele deve ter sorrido. Deve ter jogado a cabeça para trás, ou se agarrado aos seus lados. Talvez tenha sido pouco depois de estarmos casados. Eu posso imaginar que ele sorriu muito durante a nossa lua de mel, eu simplesmente não conseguia me lembrar disso realmente acontecendo. Não conseguia trazer essa imagem à minha mente.
Jacob sempre sorria. Ele estava sempre sorrindo. O branco brilhante dos seus dentes, o humor em seus olhos tinham sido permanentes e imutáveis, como seu nariz ou ouvidos. Era simplesmente uma parte dele. E sempre que eu estava ao seu redor eu podia sentir aquela alegria, aquele amor pela vida, infiltrando dentro de mim. Eu era melhor quando ele estava por perto: mais forte, mais feliz. Ele preenchia todos os espaços vazios dentro de mim, com entusiasmo e paixão e carisma.
Eu podia lembrar da última vez que eu o vi. Eu estava sentada na varanda, fumando um cigarro. Eu nunca fumava cigarros. Eu podia senti-lo caminhar para mim antes que eu olhasse para cima e o visse. Quando seus olhos encontraram os meus, nós dois eclodimos em sorrisos largos.
"Ei, Bells!"
Gritei um pouco e me levantei com uma característica falta de graça. "Jake!"
Atirei-me abaixo pelos dois degraus restantes de onde eu estava sentada e quando ele me pegou facilmente, eu passei meus braços em volta do seu pescoço. Meus lábios se chocaram contra os dele, forte e breve, antes que eu me afastasse e olhasse para ele. Meu coração já estava acelerado.
Seu sorriso era ofuscante quando ele olhou para mim.
"Devemos ir para dentro?" Ele sorriu, sua voz baixa e ligeiramente rouca. Senti uma das suas mãos trilharem meu lado até a minha coxa e eu automaticamente a levantei para engatar em torno do seu quadril. Sem esperar por um convite, ele pegou-me para que eu estivesse enrolada nele completamente. Senti seu peito retumbar de tanto rir.
Concordei ansiosamente com sua pergunta e inclinei-me para encontrar seus lábios novamente. Desta vez o beijo foi mais suave, mais delicado. Nós levamos o nosso tempo. Por pouco tempo.
Então, a luxúria começou a substituir o afeto. Sua boca separou da minha para descer trilhando meu pescoço e senti meus quadris inconscientemente rolarem contra ele. Ele gemeu e então sua boca estava na minha orelha e ele estava sussurrando que me amava.
Enquanto ele me levava para dentro, eu mordiscava seu ombro.
"Oh, Jake..."
Eu senti meu corpo se mover de uma forma estranha, violenta e repentina, uma pressão sobre o meu ombro como se eu estivesse sendo empurrada. Meu outro ombro bateu em algo frio, o que parecia ser vidro.
Então uma voz irritada disse, "Acorda, porra".
Meus olhos se abriram.
Olhei ao redor rapidamente, desorientada no início, não tendo certeza do que tinha acontecido. Então eu me lembrei que eu estava em um trem indo para o Colorado, eu estava sentada ao lado do meu marido que me odiava, e Jake se foi agora. Ele já não era real, não fazia mais parte da minha vida. Tudo o que tivemos não significava nada agora.
Minhas bochechas aqueceram um pouco quando eu percebi que tinha, provavelmente, gemido o nome de Jacob em voz alta. Eu não me importava se Edward tivesse me ouvido, mas as outras pessoas no trem...
Virei o meu olhar para Edward, esperando ver uma expressão que combinasse com a raiva em sua voz e o empurrão no meu ombro. Ao contrário, ele estava olhando para mim calmamente, sem vestígios de raiva em seu rosto. Nada traía a violência das suas ações ou palavras. Era como se, cada vez que eu acordasse, ele se recolhesse para não dar importância para mim.
"O quê?" Exigi quando ele continuou me olhando. Se ele tivesse parecendo minimamente chateado, eu teria deixado passar. Ele parecia tão fodidamente calmo.
Ele simplesmente deu de ombros e se virou.
Eu observei com ardente fúria enquanto ele inclinava a cabeça para trás e, mais uma vez, fechava seus olhos.
Nota da Irene: Meninassss... eu tinha me esquecido completamente que ontem era o dia dessa fic e como atrasei... segunda posto mais um e quinta outro \o/
A Ju está betando pra mim... então obrigadooo Ju!
Espero que estejam gostando. Eu amo essa fic... sofro com todos eles... essas lembranças da Bella sempre me fazem chorar... afffff. Só deve ler essa fic quem tem coração forte. Aviso logo! Bjus a todas e até segunda por aqui.
Domingo tem "Secando as Samambaias" e todo dia tem "O PLano".
