N/A: Espero que gostem do 1º capítulo! Eis a história da Nayla... =)


.Névoa Branca.

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Confissões de Nayla Iketsu

{Por FranHyuuga}

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-Maldição Iketsu-

Capítulo 1

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"Eu sei,

Parece importante ficar em silêncio.

Mas de que importa manter tantos dissabores

E mastigar pregos pra conter as dores?"

(Com você não vou ter medo – Dance Of Days)

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O Japão sempre foi um país orgulhoso de seu povo, de suas tradições, de seus poderosos clãs. A honra e a dignidade são valores inquestionáveis, incluídos no modelo educacional de nossa sociedade.

Assim como a maioria das pessoas, admiro essa realidade. Admiro a honradez de um oficial que poupa a vida de um adversário ferido, sem condições de lutar. Ou de uma mãe que educa seu filho para que nunca, jamais, roube um bem que não lhe pertence.

Com sinceridade, se minha história fosse diferente, eu adoraria viver valores sólidos e respeitáveis, integrando-me à sociedade sem vergonha ou medo. Quem sabe desta forma pudesse servir ao meu papel de mulher e constituir uma família, com a qual viveria pelo resto de meus dias? Ou encontrar alguém que confiasse plenamente em mim, que fizesse meu coração aquecer ao encarar meus olhos sem segredos?

Sim, tudo seria diferente se não tivesse o sobrenome Iketsu.

Para mim, é impossível viver tais valores dignos, ostentando sorrisos de vitória limpa e dinheiro a partir de um trabalho honrado. É impossível, porque nosso título, nossa origem, nos condena. Desde os tempos remotos, quando nossa linhagem teve início, a mentira esteve em nosso sangue como veneno que corrói e mata quaisquer expectativas de uma vida digna. De uma vida alheia à impura tentação de obter sucesso sobre os outros.

Dizem que o clã Iketsu é amaldiçoado.

Eu não duvido. Vi nos olhos de meus parentes próximos a ganância e a insensatez! Vi o quanto mediam minhas habilidades para me tornar um verdadeiro trunfo aos seus interesses! Vi nas esferas negras do meu próprio pai o quanto ansiava pelo meu retorno, não pela preocupação paterna e legítima com minha saúde, mas pelos valores que trazia em minha pequena bolsa depois de um trabalho executado.

Ser uma Iketsu exige cautela. Não se pode hesitar ao colocar um plano cuidadosamente arquitetado em prática, pois o mínimo sinal de receio pode levar a vítima à desconfiança.

E a desconfiança conduz à ruína.

"Mantenha-se alerta, menina."– Meu avô sempre dizia. – "Um verdadeiro Iketsu não confia em ninguém, mas faz com que todos confiem nele."

Quando criança, confesso, desejava desesperadamente ter nascido em uma família normal, com pais normais e uma rotina normal. A normalidade é uma dádiva que pertence a poucos e representa o mais alto grau de estabilidade.

A vida de um Iketsu é tudo, exceto estável. Somos treinados a desconfiar e trapacear, sem guardar ressentimentos quando alguém nos faz o mesmo. Um golpista sabe, de maneira tranquila, que ao ser passado para trás haverá outra oportunidade de seguir em frente.

Afinal, só podemos obter êxito com olhos otimistas, devidamente treinados para enxergarem possibilidades de conquista. Da mesma forma, não sentimos culpa ou remorso ao obter sucesso sobre os outros. Não deixamos que sentimentos nos envolvam à vítima, muito embora esta seja uma de minhas fragilidades mais escondidas. De maneira tola, por muito tempo, escondi de mim mesma o quanto me importava com as consequências.

Falar o que não pensamos, fingir ser o que não somos, agir como geralmente não agimos, é cultural para um Iketsu, quase instintivo. São habilidades treinadas de maneira feroz, beirando o intolerante, o que exige disciplina, resistência e (por que não?) coragem.

Crescer em um clã que o impele à imoralidade, que molda seus valores para que se confrontem com os valores da sociedade, torna difícil mudar. Por anos me questionei se conseguiria fugir disso, se poderia manter a verdade sendo uma Iketsu e viver dignamente, ferindo os ensinamentos de meus antepassados.

Não tardou para que eu aprendesse ser algo impossível.


- Estou falando a verdade, meu senhor! – Meus gritos eram tão altos que atraíram a atenção dos transeuntes.

- Mentirosa! Eu vi quando você pegou o broche daquela mulher! – O velho gordo e austero acusou com convicção, fazendo com que exclamações exasperadas soassem...

"Tão pequena e já segue um caminho perverso!"

"Não seria diferente... Ela é uma Iketsu!"

"É claro que está mentindo!"

- Eu o peguei para devolver! – Minhas palavras eram desesperadas e meus orbes de tom azul escuro pousaram sobre a madame que me encarava com severidade. – Ela o deixou cair!

- Você confirma? – O homem fitou a face feminina, buscando algum sinal de credulidade.

- Sendo "daquele" clã, está claro que mente. – A odiosa mulher decretou, alheia aos meus gritos de dor ao receber golpes severos da população.


Incrível como o ser humano é insaciável pela dor do próximo. Julgam, humilham, criticam, excluem, com tamanha facilidade que me enoja. Sentem prazer em subjugar alguém inferior, pisando em sua dignidade e ferindo seus ideais.

Houve um tempo em que acreditei na bondade do homem. Eu observava os cidadãos exemplares com inveja, cobiçando seus ideais de boa conduta e ordem. Não demorou para que eu compreendesse serem tão habilidosos quanto um Iketsu.

Todos mentem.

O desejo de ser diferente nunca era o suficiente. Por mais que tentasse manter a sinceridade, a fama Iketsu sempre me precedia. Não importava o quanto me esforçasse para provar honestidade, não era possível que uma pessoa acreditasse ao reconhecer minha origem.

E mais uma vez não duvidei do que diziam...

Seria esta a maldição do clã Iketsu?

"Um Iketsu não deve ter planos, Nayla." – Hoje entendo suas palavras. – "Eles se tornam sua mais triste frustração."

Eu desejava ter um amigo quando criança. Alguém para brincar, correr, esquecer do tempo. Nenhum civil permitia que seus filhos se aproximassem da péssima influência Iketsu. E nenhuma criança Iketsu tinha tempo para brincar.

Todo o tempo era dedicado aos constantes planos, arquitetados com o objetivo único de explorar os outros.

Estudar línguas estrangeiras, conhecer lugares diferentes em uma viagem divertida, ler o conhecimento impresso nos pergaminhos envelhecidos de grandes bibliotecas... Eram planos jamais realizados. Guardados em meu peito como um segredo.

Seria uma piada se os expressasse.

Afinal, um Iketsu não possui sonhos.

Nunca sabemos o que nos aguarda. A conquista de algum bem material ou a morte pelas mãos de vítimas que buscam sua vingança? Somos a escória. Semeamos no coração humano o medo e a dor de quem perde tudo. Crescemos conquistando em um dia o que um trabalhador reuniu em sua vida inteira. Alimentamos seus sonhos e depois os despedaçamos, pétala a pétala, como uma linda flor que perde seu encanto em mãos maldosas que destroem tudo.


- Está vendo aquele homem? – Meu pai questionou a um civil no interior do bar. – Ele é um dos maiores apostadores de cartas que já existiu! Dizem que conquistou tesouros inteiros!

- S-Sério? – Os olhos claros brilharam em expectativa. – Deve ser maravilhoso ganhar a vida jogando!

Do outro lado do bar, risos altos soaram do suposto apostador que se levantou da cadeira enchendo os bolsos com moedas de ouro.

- Eu ganharei dele, porque conheço seu segredo. – A voz de meu pai continuou e havia excitação em seus olhos negros. – Eu o estudei por longos anos. – Confidenciou ao civil, o tom baixo como se revelasse um segredo.

- C-Como a-assim? – O civil o encarou aturdido e seu corpo se inclinou, ligeiramente ansioso.

- Observe, meu caro. – Meu pai finalizou, levantando-se e seguindo com passos calmos até o apostador. – Eu o desafio! 50 moedas de ouro para o vencedor! – E lançando sobre a mesa o saco com o dinheiro, fitou-o de maneira serena.

- Pensa que pode me vencer? – O apostador questionou, frio. – Há 8 anos não sei o que é perder.

E sob exclamações curiosas, ambos sentaram-se e jogaram cartas durante longos minutos. O suor brilhava na testa alva do meu pai enquanto as mãos seguravam de maneira firme o velho baralho. Após o que pareceu um eterno conflito, meu pai bradou:

- GANHEI! – E lançou as cartas sobre a mesa, levantando-se agitado e sorridente.

- Não pode ser! – A voz do apostador era trêmula. – C-Como... conseguiu?

- Anos de treino... – Foi a resposta de meu pai ao tomar as 50 moedas de ouro do adversário com uma expressão orgulhosa.

Eu o segui para fora do bar e não demorou para que o civil com quem conversava o alcançasse visivelmente entusiasmado.

- Por favor! Eu quero saber o seu segredo! – O pedido era quase desesperado.

- Ah, meu caro. Eu apenas lhe disse ter um segredo quando estava ansioso. – Meu pai comentou, um pouco arrependido. – Não posso revelá-lo tão facilmente. Ele é valioso!

O civil assentiu, levando as mãos aos próprios bolsos.

- Não tenho muito dinheiro comigo, mas posso arranjar mais! – Algumas notas amassadas estavam entre as mãos calejadas. – Venda-me o segredo!

- Hm, agora que ganhei dinheiro do apostador, posso vendê-lo. – Meu pai disse, encarando o céu como se estivesse pensando. – Levantaria suspeitas se eu jogasse novamente e ganhasse. Ele poderia até me matar! – Um tremor acometeu seu corpo e logo meu pai encarou o civil à sua frente. – Vendo o segredo se tiver 30 moedas de ouro!

- Tudo isso? – O homem gritou. – Não tenho todo esse dinheiro!

- Ah, você pode apostar mais alto quando jogar e sairá, ainda, no lucro. – O civil pareceu pensar. – É pegar ou largar.

- E-Eu aceito!

Algumas horas mais tarde, meu pai e eu partíamos da cidade com as 30 moedas de ouro. Em um ponto de encontro próximo, encontraríamos o suposto apostador com as moedas de ouro que conseguisse arrancar a mais daquele pobre civil.

Não havia segredo.

Apenas a falsa ideia de dinheiro fácil e dois grandes vigaristas do clã Iketsu.


A cada golpe que presenciava, aprendia a observar as fragilidades das pessoas. O quanto seus olhos brilhavam com a possibilidade de ganho fácil. Algumas eram tão gananciosas que me permitia sorrir divertida ao vê-las perder. Eu sabia, de certa maneira, que não era correto explorar os outros, mas é impossível deixar-se levar pela culpa quando o explorado nada mais era que outro grande explorador.

Com estes constantes golpes, era natural que nosso clã jamais fixasse raízes. Um Iketsu deve ser furtivo, mantendo-se nas sombras, mudando-se constantemente, como nômade.

Foram incontáveis os momentos em que precisei dizer adeus à sensação de ter uma casa ou algo semelhante. Doía muito mais quando conhecia alguém que me aceitasse, apesar de meu sobrenome, e logo depois a palavra "adeus" nos distanciasse. Mas, era necessário.

Pela minha segurança.

Pela segurança alheia.

O clã Iketsu manteve-se vivo com a rotina incessante de vigaristas. A cada cidade que passávamos, aplicávamos golpes, roubávamos fazendas, mentíamos e burlávamos. Deixamos famílias desesperadas, pessoas endividadas e incontáveis inimigos. Fugíamos, algumas vezes sem destino, até finalmente encontrar uma próxima cidade.

É por isso que um Iketsu não possui um lar.

Outra expressão da maldição Iketsu era o medo. A sensação de insegurança é capaz de causar alto estresse e desconfiança, quebrando quaisquer possibilidades de descontração entre os familiares. Éramos estranhos, caminhando juntos e executando planos que gerassem lucros a cada um.

As mulheres evitavam engravidar, temerosas sobre o futuro incerto de suas crianças. Cientes de que nosso clã não hesitaria em usá-las ao seu favor. Afinal, crianças são sempre grandes trunfos.

São frágeis e despertam interesse. São pequenas e aparentemente incapazes de fazer o mal. Ao menos, é esta a impressão que a maioria das pessoas têm sobre crianças.

Um Iketsu aprende cedo a não subestimar quaisquer aparências.


- Nayla... – Meu pai expressou em tom severo. – Você dirá que não tem para onde ir e tampouco o que comer! – Assenti em resposta, atenta às instruções para não receber represálias caso não compreendesse a ordem. – Pedirá para passar a noite no estábulo, junto aos cavalos. Eles ficarão com pena e deixarão que entre na casa. Darão comida, talvez até um banho. – Não evitei sorrir. Um banho seria muito bom! – Durante a noite, você abrirá a porta da frente e deixará o resto conosco.

O sorriso maldoso de meu pai sempre me fazia tremer. Eu sabia como o clã Iketsu invadia as residências. Era violento, abusivo, arrogante e – algumas vezes – cruel.

Ao bater na porta da moradia requintada, eu rezei para que a família que ali habitava não a abrisse. Foi inevitável sentir pena ao ver o rosto bonito e o sorriso bondoso da senhora daquela casa.


Uma ordem simples, até divertida de se cumprir, tornava vítima uma família caridosa. Eram raras as ocasiões em que nossos golpes terminavam em mortes, mas é inevitável um confronto quando o dono da casa tentava alguma investida hostil.


- Você o matou! Por que, pai? – Gritei, jogando-me à sua frente na tentativa de evitar que ele fizesse algo pior àquele corpo morto. – Por quê?

- Ele não me deu escolha! – A resposta dura veio acompanhada de um forte empurrão, levando-me ao chão. – Pare de chorar e pegue a prataria, Nayla! Agora!

Aquela indiferença revirou meu estômago e pude sentir a bile quase sair pela garganta. Nem mesmo esse desconforto reduzia a tristeza de ver a maneira gananciosa com que as mãos daqueles assassinos tocavam os objetos refinados. Os orbes revelavam a satisfação em se apropriar daqueles bens caros, mantendo-se alheios ao sangue que manchava suas roupas.

O casal morto naquela sala não merecia tal destino cruel.

E eu tinha esperança de que um dia, a maldição Iketsu chegasse ao fim.


Por anos, algumas seletas lembranças manchavam meus sonhos e meu coração apertava-se com a minha conivência àquela barbárie. Este foi, durante muito tempo, meu principal arrependimento: ser co-responsável pela morte de inocentes bondosos.

Era impossível não chorar suas mortes e incontáveis vezes senti o punho firme de meu pai sobre minha face em uma ordem severa para que eu parasse. Demorou, mas finalmente aprendi a lição que ele desejava me ensinar.

Esconder sob a face inexpressiva meu coração choroso.

"Nayla, esconda seus sentimentos." – Sinto falta da voz calorosa de meu avô. – "Eles são a única coisa pura que lhe restará um dia."

Cresci em meio à mentira.

Algumas vezes, eu sequer era capaz de diferenciá-la da verdade. Aprendi a mentir tão bem que ao dizer ser a herdeira de um nobre de um país longínquo, minha personalidade se adaptava à farsa.

Durante anos, eu não soube se não era capaz de recuperar minha própria identidade ou não queria. Lembrar de quem eu realmente era, de qual vida era de fato a minha, deixava-me triste.

Ninguém me consideraria interessante se não fosse da nobreza como dizia. Ninguém me olharia com admiração se soubesse meu sobrenome. Ninguém aceitaria um Iketsu.

Essa realidade, inegável, me fazia agarrar com maior força as farsas. Eu passei a criar um mundo somente meu, onde poderia ser quem desejasse.


- O que uma pequena Dama como você faz perdida nesta Feira de Antiguidades? – O senhor franzino questionou interessado, vislumbrando meu belo vestido e a elegância de meus passos.

- Procuro algo valioso para presentear meu pai, o General Hetiel, mas estou sem as moedas de ouro que ele me deu em mãos. – Expliquei fitando-o com uma expressão inocente e doce. – Temo não conseguir buscá-las em tempo de comprar algo antes que a Feira encerre.

- Oh, por que não disse antes? – Exclamou de maneira solícita, atento à destacável oportunidade de venda. – Escolha o que desejar e mandarei entregar! Ficarei feliz em ajudar a família do Sr. General.

- É muita gentileza. – Sorri, apanhando um lindo vaso com pedras preciosas incrustadas. – Poderia embrulhar?


Os pobres ficam tão felizes em ajudar uma celebridade que se esquecem do quanto são subjugados por ela. Esquecem-se que há pobreza, porque os nobres ignoram suas necessidades.

Até hoje considero interessante a sutileza como podem ser manipulados. Você precisa apenas identificar a vítima certa, observando seus interesses e dispondo-se a contribuir para que os alcance.

"Nunca esqueça, Nayla: um golpe só é facilmente aplicado quando há interesse por parte da vítima." – Uma das últimas lições que meu avô me concedeu em vida. – "Seja obter prestígio, reconhecimento ou até mesmo dinheiro."

Era tão simples fingir-se da realeza ou de uma família oficial. Bastava portar-se como uma verdadeira Dama, com elegância e requinte – vestindo-se com algumas roupas roubadas –, e pronunciar nomes famosos como se fossem amigos íntimos. Algumas vezes, podia-se até inventar situações amigáveis com estas pessoas famosas, desde que não cometesse gafes.

Apesar de ser divertido, sempre sentia pena ao ver o entregador de objetos valiosos seguir para o endereço indicado e ser deixado inconsciente em favor de um Iketsu. Assim como sentia pena ao vislumbrar o semblante estarrecido e incrédulo do vendedor que teria de pagar o prejuízo.

Estes golpes eram tão frequentes que, por muito tempo, eu sequer sabia dizer quem era. Vivia mais dias fingindo-me como outra pessoa, que não encontrava as minhas próprias características.

Sob o luar, flagrava-me pensando: Nayla Iketsu teria sua própria personalidade ou seria uma casca vazia, moldada especificamente para adquirir a personalidade que precisava ter? Foi um choque descobrir após longos anos que, apesar do esforço, não havia resposta.

"Um Iketsu não nasceu para amar." – Meu avô respondeu quando lhe perguntei se um dia alguém me amaria como sou. A forma como ele completou a explicação, fez-me arrepiar: – "Nem a si mesmo e nem a alguém."

De fato, ao observar as famílias constituídas no clã Iketsu, era fácil notar não haver fidelidade, lealdade ou companheirismo. Havia apenas laços construídos pela solidão e interesse (emocional, econômico, físico...), sem o calor proporcionado por um sentimento nobre.

Até mesmo os sentimentos nobres pareciam não pertencer ao universo Iketsu.

Meu avô nunca esteve tão certo.

Com a frequência dos golpes, não demorou para que a fama Iketsu se espalhasse pelo país, mantendo civis e oficiais em alerta máximo. Logo, nossos cabelos brancos e pele alva, tão característicos, tornaram-se temidos. E aos golpes foram incrementados outros recursos, tais como perucas e maquilagens.

Mantivemos o sucesso por determinado tempo, mas a desconfiança das pessoas aumentou a tal ponto que o clã manifestou desconforto. O dinheiro acabou e o desconforto tornou-se raiva. Impelidos por este sentimento, passaram a aplicar golpes uns nos outros, tornando a raiva em uma cega revolta.

Eu sabia que nossa família não tinha escrúpulos, mas vê-los matarem uns aos outros para obter benefícios fez-me notar o quanto somos frágeis. Tão suscetíveis a sucumbir diante da ganância. Tão envoltos em uma espessa camada de traição e mentira...

"Quando as coisas estiverem ruins, Nayla, apenas fuja e siga sozinha." – Lembro-me muito bem das palavras daquele velho sábio. – "Eles não hesitarão em usar você de todas as formas possíveis."

Se hoje encontrasse meu avô, me desculparia por não o ter ouvido em tempo de tornar meu passado menos impuro. Sinto repulsa por permanecer com um homem que se auto-intitulava meu pai, em um gesto desesperado de apegar-me à minha única família, quando o futuro ao seu lado só me traria desgraça.

O clã Iketsu sofreu diversas divisões devido aos conflitos internos e os golpes enfraqueceram com as poucas pessoas envolvidas. Não demorou para que novas ideias, perigosas e vis, surgissem.

Eu tinha somente 12 anos quando meu tio, sob a aprovação animada de meu pai, me envolveu em um golpe perigoso...


- Vejam a minha sobrinha, companheiros. – Encolhi-me ao receber olhares de cobiça sobre meu corpo. – Com 12 anos e já possui formosas curvas. Quem pagar uma generosa quantia, poderá tê-la como sua escrava.

- 20.000 ienes! – Um senhor com barba espessa gritou, visivelmente entusiasmado.

- É muito pouco... – A voz de meu tio era reprovadora, mas havia um sorriso malicioso ao completar: – Esqueci de comentar algo importante: minha querida sobrinha ainda é virgem!

- 100.000 ienes! – Foi o valor que ouvi um velho gritar, entre tantos outros valores exclamados.

A forma como fui empurrada às mãos sujas daquele homem me fez sentir uma onda de pavor. Eu precisava cumprir meu objetivo ou padeceria em angústia se algo saísse errado.


A intenção era obter o dinheiro e entregar-me ao sujeito. Depois, assim que fosse possível, eu deveria fugir. Para isso, me comportava como uma garota amedrontada e permissiva, deixando claro não ser capaz de tentar qualquer fuga. Então, no momento oportuno, abandonava o local e levava algo precioso – se possível – comigo.

Na primeira vez, fiquei apavorada com a possibilidade de não conseguir. Não era capaz sequer de imaginar o que aconteceria se ficasse impossibilitada de uma fuga. Depois, conforme adquiri experiência, minha confiança retornou e passei a executar o plano com precisão.

Seria um plano infalível se não tivesse tantos riscos. Mas, de qualquer maneira, estávamos mais confiantes. Afinal, o que o sujeito faria se perdesse a "menina virgem" que comprou? Chamaria o Shinsengumi sob qual queixa?

Com 12 anos, e a partir desse golpe, passei a sentir prazer em mentir para aqueles pedófilos desavergonhados. Eram a escória! Senti prazer em fazê-los pensar que poderiam colocar suas mãos imundas em mim, para depois perceberem-se enganados. Senti tamanho prazer que notei, de forma estranha, o quanto algumas pessoas simplesmente mereciam ser enganadas!

Mereciam sofrer por serem baixas, mantendo a fachada de bons cidadãos.

"Um Iketsu pode mentir sobre quaisquer coisas, mas é impossível mentir para si mesmo."– Meu avô foi sábio ao me dizer isso. A única pessoa em quem confiei era aquela que dizia para nunca confiar em ninguém. Irônico, não?

Lidar com a mentira como uma ferramenta de trabalho torna-a uma habilidade à sua disposição. Um Iketsu a domina com precisão. A utiliza sem pudor. A torna sua principal arma em qualquer ocasião. Por conhecer as faces ocultas da mentira, torna-se quase impossível ignorar a verdade quando aparente.

Especialmente quando se refere a si mesmo.

Afinal, um bom mentiroso é aquele que se conhece como ninguém mais seria capaz. Aquele que compreende suas próprias artimanhas e as molda conforme seu juízo e necessidade.

E a partir dessa realidade, é óbvio que eu nunca seria capaz de fingir honestidade a mim mesma. Estava fadada a ter de enfrentar minha sombra, a não manter segredos inconscientes e a enxergar a verdade, por mais que ininterruptamente não a vivesse.

A partir dos 12 anos, considerando tudo o que havia observado até então, selei uma promessa íntima. Eu sentia tanta raiva das pessoas exploradoras e baixas, mas que recebiam méritos por terem a dádiva de não pertencerem ao clã Iketsu, que desejei, de maneira ardente e quase intolerante, utilizar minhas habilidades para destruí-las!

Eu desejava fazê-las pagar por seus erros e por acreditarem serem melhores do que um Iketsu! Inferno, nada nos diferenciava além das características físicas e a o fato de sofrermos o preconceito que elas não sofriam!

Em contrapartida, o oposto da promessa era igualmente importante.

Eu não mentiria para aqueles que não mereciam ser enganados.

Eu mentiria somente àqueles que, por quaisquer razões, merecessem. Eu os faria perder, mesmo que um pouco, a sua dignidade! Eu os faria pagar com o que mais prezavam: fama, status, dinheiro... Eu sobreviveria às custas dos homens mais gananciosos e exploradores que pudesse encontrar.

Sim, Nayla Iketsu, que nunca teve outro objetivo senão sobreviver a cada dia em meio a vigaristas e trapaceiros, tinha neste momento uma meta pessoal.


- Temos dinheiro o suficiente para viver por longos meses! – Ouvi meu tio exclamar exaltado, contando moedas de outro entre notas.

Sentia-me um pouco satisfeita pelo comentário. O mérito do golpe que rendia maiores lucros era, basicamente, meu.

- Vamos parar com o golpe da Nayla. – Meu pai comentou, sentando-se de forma despojada sobre a cadeira.

- Está preocupado com sua adorada filha? Ela está viva, não está? – Resolvi ignorar o tom debochado de meu tio, apenas porque não havia muito o que pudesse fazer.

- Ela é nosso melhor investimento no momento. Deixe-a descansar. – Como sempre, o foco atento de meu pai se mantinha sobre o dinheiro.

Ser considerada um "investimento" era a declaração paterna mais sensível que eu recebia em longos anos. A constatação fez meu coração se alegrar.

- Não preciso descansar. – Expressei, ciente dos olhares confusos. Eu desejava continuar a ser "preciosa", mesmo que fosse apenas como um "investimento".

- Nayla...? – Meu pai expressou surpreso, procurando em meus olhos hesitação.

- Eu quero continuar com o golpe. – Sentenciei, finalizando a discussão.


Havia duas habilidades que um Iketsu devia aprender: mentir e fugir. Aos 13 anos, tornei-me perita em ambas. Sentia-me imbatível e ousada, divertindo-me com as expressões raivosas de pessoas desprezíveis e mesquinhas.

Minha promessa mantinha-se intacta, o que me deixava satisfeita por conseguir cumpri-la. O golpe da "sobrinha virgem" era, ainda, o maior que tínhamos. Devido à ilegalidade, era pouco divulgado e sempre que chegávamos a uma cidade nova ninguém o conhecia.

Apesar das incontáveis vezes em que o aplicamos, era impossível não me surpreender com o número de homens – e em algumas ocasiões mulheres – interessados em meninas de pouca idade. Isso me revoltava e me tornava cada vez mais decidida a deixá-los em sua pior condição.

Escrevia mensagens com batons caros nos espelhos dos banheiros, escarnecendo e lhes dando lições moralistas. Perdia tempo escolhendo roupas caras para queimá-las e ao saber que o homem era casado, deixava recados curtos sobre o que faziam em gavetas e sob travesseiros na intenção de que suas esposas os encontrassem.

A cada vez que notava êxito, minha confiança aumentava. Não demorou para que o fato de nunca ter sido flagrada em fuga me deixasse vaidosa e minha cautela, sempre implacável, reduzisse o suficiente para que o golpe se findasse.

Aquela se tornou, por anos, minha pior recordação...


- Onde pensa que vai, mocinha? – A voz masculina era carregada de raiva e os olhos castanhos me fitaram de maneira ameaçadora.

Inclinei-me agilmente sobre a janela, na tentativa de continuar com a fuga. Não havia o que ser explicado diante do flagrante.

- AHHH! SOLTA MEU CABELO! – Foi impossível não gritar com a dor que envolveu minha cabeça quando os fios brancos foram fortemente puxados pela mão grosseira.

- Você pensou em fugir, é? – O timbre era rouco pelo ódio, ou talvez excitação, e meu corpo fremiu com a proximidade forçada.

- SOCORRO! PARE! POR FAVOR...! – Gritei o máximo que podia, com todas as forças que meu corpo pequeno possuía, desejando que as mãos imundas parassem de desnudar meu corpo.

- Se quer gritar, docinho, eu lhe darei motivos! – E estas foram as últimas palavras que ouvi antes da dor invasiva em meu corpo de criança.

Naquela noite, eu não consegui escapar. Meu corpo estava frágil quando recuperei a consciência e minhas pernas doíam de tal forma que ficar em pé dependia de muito sacrifício. O sol começava a despontar no horizonte e notei com certa ansiedade a janela aberta.

Não havia ninguém no quarto além de meu corpo ferido e minha pureza em cacos.

Havia hematomas em minha pele alva, tão grandes e doloridos que me fizeram questionar como foi possível agüentá-los. Foi inevitável agradecer mentalmente a ausência de um espelho. Não desejava ver o reflexo da minha derrota, de meus ideais destroçados ou da minha dignidade perdida.

Ignorei a dor lancinante e obriguei meu corpo a vestir a yukata amassada e um pouco rasgada. Eu precisava fugir daquela casa, antes que meu algoz retornasse e me fizesse ver o inferno outra vez.

- Merda, Nayla! O que aconteceu com você? – Meu pai questionou, mas em seus olhos negros vislumbrei envergonhada que não era necessário dar-lhe a resposta.

- E-Ele... m-me viu tentar f-fugir! – Limitei-me a expressar, apoiando meu corpo na parede de pedras daquele beco imundo. Meus olhos azul-escuro mantiveram-se fixos sobre o chão úmido, revelando minha humilhação.

- O cara era do Shogunato! Vamos embora! – A frase soou temerosa e logo meu tio apanhava as pequenas malas, jogando-as nas costas.

- Não podemos deixar minha filha! – Observei o semblante estarrecido do meu pai, lutando tolamente para que suas palavras não aquecessem meu coração com esperança.

- Ela está imprestável, não vê? – Encolhi-me com as palavras, mas pronunciei de maneira piedosa:

- Pai...? – Era um pedido incompleto para que ele não me abandonasse. Eu li a hesitação em seus olhos.

- Se quer levá-la, faça você! Logo ele aparecerá e nos matará! – Meu tio apressou o passo e abandonou o beco, sem sequer olhar para trás. Sua atitude indiferente inundou minha mente com o pavor de que meu pai o acompanhasse.

P-Por favor, p-pai! – Supliquei, ajoelhando-me sem forças. Os negros fixos sobre meu rosto choroso, mas a expressão hesitante cedeu à maldição Iketsu.

- Desculpe, filha. – Não havia humildade no pedido. Não havia sequer calor naquelas palavras. Eram frias quando ele as pronunciou, seguindo o caminho de meu tio.

- NÃO! Por favor, volta! – Gritei, chorando copiosamente, sentindo-me idiota por acreditar que ele permaneceria comigo. Seu "investimento".


Eu desejei ardentemente despertar de um pesadelo e rir descontraída por não ter sido real. Talvez, eu fosse de fato uma nobre adormecida em sua casa acolhedora, com uma família amável, e que estivesse presa num mundo onírico.

O cheiro fétido do beco, no entanto, não me permitia negar. Aquela era a realidade. E aquela era a maldição Iketsu.

Ser descartável quando não tiver serventia.

Ser ignorada quando precisar de ajuda.

Ser excluída quando inútil.

Não sei por que fiquei surpresa ao visualizar as costas do meu pai se distanciando, deixando-me caída naquele gélido beco, sem forças e sozinha. Eu teria sorte se a morte me levasse, mas com o que restava de minhas forças bani estes pensamentos. Encolhendo-me no chão imundo, permiti que as lembranças de uma vida dedicada aos interesses dos outros invadisse minha mente e que a raiva reacendesse algo em mim.

Sempre me senti sozinha, mesmo quando estive entre os Iketsu. Eram meu sangue, minha origem, mas não diziam nada a respeito de meus preceitos, de minhas crenças.

Quem eu era, quem sou e quem desejava ser, em nada se uniam aos ideais de minha linhagem.

Eu não matei ninguém, apesar de presenciar alguns assassinatos. Eu nunca roubei diretamente uma família mais desgraçada do que a minha, apesar de meus olhos flagrarem alguns de meu clã fazendo-o sem o menor pudor. Eu nunca me deitei com alguém, mesmo que tivesse sido vendida e o homem que me violentou apenas exigisse o que lhe era de "direito".

Apesar do sangue Iketsu, eu não merecia o destino que me aguardava. Ao menos, ainda não. Eu tinha algo a fazer. Eu tinha planos para colocar em prática. Eu tinha uma promessa que desejava cumprir!

Eu precisava seguir meus princípios e fazer o que sei de melhor àqueles que mereciam.

Eu sequer tinha começado!

Meu corpo havia sofrido o que semeei. E apesar da dor, do constrangimento, da vergonha, eu não permitiria que minha vida se fosse tão facilmente!

Levantei-me, cambaleante, sentindo a tontura invadir meus sentidos. O primeiro passo foi difícil, mas logo meus pés seguiram um curto trajeto até uma loja de conveniências que tinha suas portas de madeira amplamente abertas. Algumas pessoas estavam em seu interior, mas meus olhos não foram capazes de focá-las.

Logo o torpor me consumiu, por mais que eu lutasse, e antes que pudesse perder a consciência novamente, senti mãos quentes envolverem-me como um abraço.

Uma voz masculina e melodiosa, quase sussurrante, soou próxima:

- Eu vou lhe ajudar! – O mundo se tornou escuro, mas – de forma contraditória – estranhamente confortável.

Continua...


Olá, povo! õ/

UAU!... =O - 16 páginas, rs.

Acho que é um novo recorde considerando o tempo entre o Prólogo e o primeiro capítulo.

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Estou super curiosa para saber o que acharam!

~Tentei expressar por meio da Nayla que as aparências nem sempre são a expressão da realidade e que algumas coisas podem mudar, mesmo que sejam enraizadas em nós com intensidade.

~Espero que gostem dela tanto quanto gosto!

~O QUE ACHARAM DO CLÃ IKETSU?

~COMO VÊEM A NAYLA?

E a pergunta que não quer calar! - QUEM É O SER BONDOSO QUE A NAYLA ENCONTROU? =O rs.

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Aguardo ansiosa os seus comentários! E, novamente, fica o convite para que apreciem as demais histórias de RoninLovers!

~Aceito Flores ou Pedras!

Em Reviews.

Beijo carinhoso... =*

FranHyuuga